filosofia

Tecnofobia

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Detesto profundamente tecnofobia e tecnofóbicos. Tecnologia é fantástica, em especial aquela que é prática, barata e e eficiente: Você gasta menos tempo com o que não é importante e dedica mais tempo ao que é importante, seja para lazer ou produtividade. Se nos anos 90, década da minha infância, alguém dissesse que no futuro seria possível fazer videochamadas, até mesmo na rua, com um aparelho portátil, a lá Os Jetsons, o prognóstico logo seria ridicularizado como um sonho fantasioso, no máximo um luxo para milionários, pensariam. Surpresa: Hoje isto acontece, e está acessível a grande parte da população; se não na rua – devido às velocidades altas e preços baixos do 4g – no wi-fi não é difícil. Mas parece que todo mundo vê isto como totalmente supérfluo. Que triste.

Ok, eu sou obrigado a admitir que nem tudo que é “tecnológico” é bom ou útil, e que videochamadas não são imprescindíveis no cotidiano, apesar de serem legais. Mas por que esta fixação com papel?! Voltando aos anos 90, se dissessem ao Anomalouzinho que no futuro ele poderia usar notebook para fazer anotações de aula, ele acharia isto formidável e acreditaria, mas não acreditaria se dissessem que ele seria único da sala a fazer anotações num notebook não por ser o único que tem, mas porque os outros preferem papel. Adivinha só…

Atualmente eu trabalho de dia e faço um curso de história à noite. A maioria dos meus colegas têm notebook. Todos menos eu preferem fazer seus garranchos em calhamaços de papel espiralados a fazer anotações ligeiras num editor de textos, salvas na nuvem para que fiquem logo disponíveis para serem consultadas no celular ou no computador de casa. E o que dizer de agendas de papel, estes fósseis de uma era pré- smart phone, que já deveriam ter sido abolidas. E quase todos os meus colegas são bem mais jovens que eu. “Esta geração mais nova já nasce conectada com o mundo virtual…” meu pau de óculos. Até gerenciar uma pasta compartilhada para arquivos de aula é complicado demais. Sabem o mais superficial possível, e possuem uma adoração por soluções arcaicas, sequer pensam na possibilidade de usar a tecnologia que já têm para fazer as coisas de uma forma mais moderna, limpa e rápida; não dão chance ao novo por puro tradicionalismo e preguiça mental. E eu que sou velho.

Mas talvez você seja moderno também: Prefere pedir comida no iFood que perder alguns minutos no telefone conversando com um atendente entediado (e meio surdo), prefere acompanhar notícias na internet do que se sentar na frente da TV, que aliás serve para jogar e assistir séries por streaming, não para assistir canais de TV abertos ou à cabo. E os eBooks, que maravilha! Ler confortavelmente um livro de 500 páginas na cama com as luzes desligadas, fazer grifos e anotações sem sujeira e poder acessá-las onde quiser, comprar livros pelo mesmo preço dos de papel, que não ocupam espaço na casa nem pesam na mochila, sem ter que pegar o carro e ir até o shopping e esperar na fila da livraria. Muito bacana, não? Auto lá! Há quem repudie nosso estilo de vida e principalmente as empresas que o possibilitam.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/04/escritor-faz-manifesto-com-sete-razoes-para-ser-contra-a-amazon.shtml

Neste longo e tedioso artigo, o escritor espanhol Jorge Carrión (Catalunha ainda é Espanha) faz um longo e tedioso protesto contra a maligna Amazon. O texto, provido de uma generosa dose de antiamericanismo e anticapitalismo – naquela vibe Tempos Modernos – repudia a megacorporação e seu CEO Jeff Bezos – homem mais rico do mundo – por ter vilipendiado o mercado editorial e livreiro  e o próprio hábito da leitura com sua nefasta mentalidade capitalista que está sempre em busca de novas tecnologias que acelerem o processo de produção e de entrega. Cada palavra de seu lamento é permeado por um sentimento de nostalgia imbecil, daquela que não se conforma em lembrar com carinho as lembranças do passado, mas considera qualquer mudança nele uma corrupção, uma afronta a um valor romântico de valor inestimável, além é claro de “alienar” e “mecanizar” o homem e funcionar de uma forma tão abstrata que todo processo parece invisível, simplesmente não se conforma que as pessoas queiram soluções mais modernas que economiza tempo em dinheiro, não, isto é doença, de uma forma que só ele e seus compadres entendem.

“Graças a toda essa tecnologia da eficiência e da imediatez que o prédio agora abriga, Barcelona já é uma das 45 cidades do mundo em que a empresa garante a entrega de seus produtos em uma hora.” Ele escreve como se acusasse um grave crime: “Meu Deus, as pessoas vão receber no mesmo dia o que compraram na internet, que pesadelo, o povo jamais se recuperará deste grande trauma!” Eu, você, e o cidadão catalão agraciado pela agilidade da entrega, não fazemos a menor ideia do que há de errado, porque nós somos uns pobres operários ou pequenos burgueses alienados que deveríamos nos atentar aos perigos que intelectuais como ele, em sua torre de marfim, estão alertando, e com os quais só eles mesmos se importam.

Os mesmos clichês de sempre: A textura e o cheiro do papel, a experiência de abrir um livro pela primeira vez… Na boa, ninguém nunca se importou, ou ao menos não tanto. Quase todo mundo que se formou numa faculdade brasileira leu boa parte do que precisou em xerox, que de romântico não tem nada, o que importa sempre foi o texto, não onde está sendo lido. E mesmo com os livros de verdade, já há muito tempo o processo de editoração é inteiramente computadorizado; todo processo que que acontece até as letras serem gravados em papel é digital. Mas Jorge Carrión e outros dinossauros como ele (inclusive dinossauros de 19 anos) aparentemente não se importam que haja computação em todo processo de produção de um livro, contanto que não vejam os computadores. Parece que gostam de se alienar também…

Todos carregamos implantes.

Todos dependemos dessa prótese: nosso celular.

Todos somos ciborgues: bastante humanos, um pouco máquinas.

Mas não queremos ser robôs.

Ciborgue com muito orgulho! Um ciborgue que tem o acesso ao conhecimento do mundo em um aparelho leve que cabe confortavelmente no bolso.

Quanto à Amazon, ela inegavelmente tem muitos podres, principalmente no que tange ao tratamento de seus funcionários. Como qualquer empresa, ela faz coisas boas e ruins – aliás como qualquer pessoa – e deve ser responsabilizadas pelo que fazem de mal, e pressionada a melhorar. Mas o benefício que ela produz ao mundo todo é mais importante que o mal. Uma crítica séria e pertinente à Amazon ou qualquer outra empresa deveria apontar objetivamente as práticas condenáveis, quais punições são cabíveis e como o consumidor deveria agir… Mas condenar uma empresa porque ela preza por eficiência, rapidez e redução de custos é burrice. Aliás, o dinossauro espanhol está longe de ser o único crítico da Amazon por motivos banais. Donald Trump também a detesta, acusando a empresa de dar prejuízo para o correio americano (não é verdade), uma nesga certamente motivado pelo fato do Washington Post, um dos jornais mais críticos ao presidente, ser também uma empresa de Jeff Bezos.

7) Porque não sou ingênuo:

Não: não sou.

Não sou ingênuo. Assisto a séries da Amazon. Compro livros que não poderia conseguir de outra maneira na iberlibro.com (que pertence a abebooks.com, que em 2008 foi comprada pela Amazon). Busco constantemente informação no Google. E constantemente ofereço a ele meus dados, mais ou menos maquiados. E ao Facebook também.

Sei que são os três tenores da globalização.

Ingênuo não,  hipócrita, que abomina a modernidade, a globalização, a tecnologia e a lógica de mercado, mas vive confortavelmente com tudo que há do bom e do melhor que ela tem a oferecer (menos ebooks) inclusive aquilo que considera fútil. Se você realmente é contra a sociedade moderna, capitalista e tecnológica, então deveria fazer como Ted Kaczynski, vulgo Unabomber, único crítico da modernidade coerente de que já ouvi falar: Brilhante matemático, e profundamente incomodado com os males da modernidade, abandonou sua carreira acadêmica para viver em uma cabana de madeira na floresta, sem eletricidade, com uma máquina de escrever como única coisa tecnológica, com a qual escrevia seus manifestos, visto que se os fizesse por escrito, poderia ter sua caligrafia reconhecida (e ainda é mais moderno que os meus colegas). Faça como ele, vá morar no meio do mato. Só por favor não imite a coisa de fazer bombas e mandar pelo correio.

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Justiça – Parte 2

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“A civilização avançada envolve problemas árduos. Por isso, quanto maior o
progresso, mais está ameaçada. A vida está cada vez melhor; porém,
evidentemente, cada vez mais complicada.” 
Ortega y Gasset

“Se o desenvolvimento
da civilização é tão semelhante ao do indivíduo, e se usa os mesmos meios, não
teríamos o direito de diagnosticar que muitas civilizações, ou épocas culturais
– talvez até a humanidade inteira – se tornaram neuróticas sob a influência do
seu esforço de civilização? ” Sigmund Freud – O Mal-Estar da Civilização

 

 

O motivo de eu jamais chamar Freud de fraude, apesar dele
ter cometido tantos erros conceituais em sua filosofia da mente, especialmente
nas primeiras obras (em que ele praticamente reduz todos os problemas
psicológicos a problemas causados por repressão sexual, diz que as pessoas
possuem naturalmente sentimentos incestuosos pela mãe, dentre outras groselhas)
é que, ao final da vida, ele escreveu análises sociológicas extremamente
perspicazes e que são muito válidas até os dias de hoje, inclusive a base da
filosofia do neurótico, mas astuto, Unabomber.
Freud sabia do preço psicológico altíssimo que pagamos para viver em sociedade,
da necessidade de adiar prazeres, às vezes até indefinidamente, e de
controlarmos nossos impulsos mais primitivos para que seja possível a vida em
sociedade, algo que foi bastante explorado pelo genial cientista cognitivo
Steven Pinker em sua obra Os Bons
Anjos de Nossa Natureza
.

Ora, o Estado impõe um código legal tão imenso, complexo e
prolixo que ninguém pode ter certeza de estar cumprindo a lei o tempo todo, e
até os menores atos são punidos (como deixar a lanterna do carro desligada durante
o dia), isto sem falar de toda as normas tácitas da convivência social. A lei é
aplicada com muito mais vigor às pessoas comuns do que aos poderosos, em
qualquer lugar, desde sempre. Qualquer contador de uma firma envolvida em
fraude fiscal seria preso sem dó. A presidente Dilma não só não será presa por suas “pedaladas”,
como ainda se livrou de perder seus direitos políticos, como prevê a
Constituição. A verdade é que a lei não precisa valer para todo mundo, só para “a
massa”. Como não se rebelar?

Da mesma forma, nos EUA (que tem uma legislação igualmente
torpe à do Brasil, se não pior) um jovem pobre ou de classe-média,
especialmente um negro, ser preso com drogas é algo que o levará infalivelmente
à cadeia e destruirá sua vida, enquanto que uma celebridade de Hollywood ser
presa com drogas é apenas um evento midiático que lhe rende mais popularidade,
e o pior que pode acontecer é ela ter que fazer um rehab, que para a
celebridade, é uma espécie de férias num resort de luxo. Quanta justiça, não?

Com tanta injustiça e tanta repressão, não é de se admirar que às vezes alguém
surta. E mesmo as pessoas mais controladas, em momentos de extrema pressão,
acabam mandando tudo à merda.

Lembrete: Haverão SPOILERS
dos 4 primeiros episódios, da primeira semana.

O que você faria se alguém matasse a sua filha por um motivo
banal? Seria injusto enfiar-lhe uma bala nos miolos? A advogada Elisa acha que
não. E olha que ela é professora doutora em filosofia do direito. No primeiro
episódio, aprendemos a história de como sua filha Elisa foi morta pelo namorado
ciumento, o playboy Vicente, que a flagra no sexo com um amigo dela, do qual
ele já desconfiava há muito tempo, e a alveja, um enredo rodriguiano clássico,
exceto pelo detalhe de que, neste tipo de história, normalmente o corno mata o
amante e não a mulher. Ciúme é algo que nem todos os homens sentem, somente os
normais. Mas são bens poucos os que chegam a matar por isso.

Vicente é filho do dono de uma companhia de ônibus
municipais à beira da falência, depois de ser roubada por um sócio calhorda, Agnaldo,
provavelmente o único personagem da série pelo qual não senti qualquer empatia.
Este negócio de sócio é uma coisa complicadíssima. Ter uma vida confortável é
provavelmente o principal motivo para não fazer coisas que podem o levar à
cadeia, e não é coincidência que uma parcela considerável da população
carcerária é de pessoas que advém da pobreza, e não tinham muito a perder.
Vicente sabe que sua vida no bem-bom está prestes a acabar. E ainda vê a
namorada (com quem havia de se casar em breve, não fosse a descoberta da
falência do pai) o traindo. Que incentivos tem para continuar a ser um “cidadão
de bem”?

E Elisa, mãe da morta, que descobre que o algoz da filha
sairá da cadeia após apenas sete anos, é justo que ela mate? Ela sim tem muito
a perder com isso, e só não mata de fato por um motivo também emocional: Vê que
Vicente tem agora filhos pequenos, que o recebem no dia em que ele sai da cadeia,
justo quando ela ia o matar. A dor de uma mãe é algo a se levar em consideração
ao julgar moralmente um assassinato? Porque para julgar judicialmente, sabemos
que não. Mas esperamos que uma pessoa de bem não precise de incentivo nenhum
para não matar, e a maioria das pessoas não precisa mesmo, não em situações
corriqueiras. Também exigimos que as pessoas não matem mesmo quando se sentem
injustiçadas, mesmo que considerem que tem um motivo extremamente bom para tal.
Mas e quando é a sua filha morta? A sua namorada te traindo? Abstratas noções
de “dever cívico” e “bem da sociedade” vão segurar o dedo que toca o gatilho?
Não. Quando descobre que Vicente sairá da cadeia, o riquíssimo conhecimento de
Elisa de filosofia do direito não importa mais nada. Por isso mesmo são
necessárias as cadeias, e é necessário que sejam lugares bem ruins. A cadeia
deve assustar.

Ao contrário do que muito se diz, eu não acho que a função
principal da cadeia seja reeducar, mas sim punir. Pode até ser uma forma de
vingança controlada, mas e daí? Iria Elisa sentir vontade de matar se Vicente
tivesse passado 20 anos na cadeia? Trinta?

O personagem das sextas-feiras, Maurício, é contador da
firma do pai de Vicente, mas não sabia nada sobre o golpe de Agnaldo (confesso que
achei este detalhe para lá de inverossímil, mas prossigamos). Mata por amor.
Mas de verdade. A esposa, bailarina, é atropelada por Agnaldo, que fugia em
alta velocidade em seu carro, antes que a polícia batesse sua porta. Ela fica
tetraplégica, e quando sabe disso, implora que ele dê um fim digno à sua vida,
e ele dá. Vai a um traficante (um personagem recorrente em todas as histórias)
e compra uma porção grande de morfina, que ele inocula na esposa, permitindo-a
descansar, ao invés de ser condenada a viver paralisada do pescoço para baixo.

Isto eu vou afirmar com todas as letras: É certo, é justo.
Injusto é a lei obrigar uma pessoa a viver aprisionada em seu próprio corpo,
como é no caso dos tetraplégicos, bem como de doentes terminais sem qualquer
possibilidade de cura. Não me venham com vídeos motivacionais mostrando as
histórias de sucesso de pessoas que viveram “felizes” depois de passar por
isso. Parabéns para elas, mas ninguém deveria ser obrigado a viver com tamanho
sofrimento como não poder mover o próprio corpo, perpetuamente incapaz de fazer
qualquer coisa sem ajuda de outros. Ausência do direito de por fim à própria
vida quando esta só oferece sofrimento é um sintoma clássico de um Estado
pseudo-laico, em que religiosos cretinos e suas visões deturpadas pela
superstição mandam e desmandam, e se veem no direito de tomar decisões sobre a
vida dos outros. Eu faria o mesmo que Maurício.

Mas quando sai da cadeia, Marcelo quer matar de novo: Quer
matar Agnaldo, o sócio ladrão, que não só voltou à cidade, como está muito bem
de vida, e concorre à governador. E agora, ainda justo?

Na história de Rose, vemos que sua amiga rica, Débora, não
foi para a cadeia, mas foi estuprada num beco durante o carnaval. Em
consequência do tratamento que precisou fazer depois deste ato torpe, fica
estéril. Ela quer matar seu estuprador, e Rose oferece ajuda. Justo? Talvez não
para a Justiça, com letra maiúscula, a instituição, mas definitivamente justo
ou ao menos compreensível para a decência e o senso comum. É necessário
sacrificar justiça pela civilização, ao que parece, e isto inclui obrigar
Débora, Marcelo, Maurício a escolher entre moerem-se de raiva ou encararem o
castigo. É preciso mesmo que isto aconteça para podermos ir ao trabalho e ao
cinema em paz?

Parece que sim. Pinker escreve que, às vezes, inclusive, um
país precisa sacrificar justiça pelo bem da paz e civilização, daí vem as
anistias (como a que foi assinada pelo presidente Figueiredo ao fim do regime
militar, o que desagradou tanto comunistas quanto militares). Hannah Arendt,
uma das fontes de Pinker, já escrevia que a anistia é necessária para uma
civilização ir em frente.

A civilização é um jogo em que algumas pessoas saem ganhando
mais do que outras. Você continuará mantendo o espírito esportivo depois de
perder inúmeras vezes?

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