ceticismo, farsas, filosofia, história, Humano, política, sociedade

Pós-Verdade é uma Nova Mentira

catch-me-if-you-can

Ou será tão nova? A palavra composta certamente é, junto do termo “fatos alternativos” empregado pelo departamento de marketing de Trump para tentar justificar sua visão das coisas, por exemplo, a posse de Trump, que segundo estatísticas confiáveis, teve muito pouco público, mas para Trump, teve muito, e isto é um fato alternativo, não uma mentira. Mas o meme para mim é velho, com eufemismo novo.

Primeiramente, gostaria de deixar claro que escrevo este post, e todos os demais, partindo de uma premissa que julgo razoável, necessária, e auto evidente:

“Existem fatos que todas ou quase todas as pessoas mentalmente sãs e inteligentes concordam, quando julgando de maneira fria, impessoal e desinteressada. Estes fatos são verdadeiros, são verdades objetivas, e apesar de não ser fácil, não é impossível obter estas verdades, julgando de maneira fria, impessoal e desinteressada, no interesse apenas da verdade.”

Para mim isto é uma obviedade. Se você não concorda, então por gentileza saia do meu blog e volte a entulhar sua mente com Foulcault, Baudrillard e seus asseclas.

Os eventos políticos mais importantes de 2016, o Brexit e a eleição de Trump, vistos como exemplos tragicamente explícitos da irracionalidade das massas, fizeram muitos se perguntarem se acabou a era da objetividade e da razão, se agora já não entramos numa era em que cada um tem sua verdade particular condizente ao próprio gosto, e o mercado, sempre atento aos caprichos de seus clientes, vende fatos que a clientela quer, como sintetiza William Davies, um colunista do The New York Times, falando sobre os institutos de pesquisas, sempre apresentando as estatísticas que o cliente quer. William Davies deixa claro que tendência já começou há muito tempo, apesar de ter se intensificado tremendamente com a anarquia das redes sociais. O “vendedor de estatísticas” mais infame do Brasil provavelmente é o Datafolha, também conhecido como Datafalha, por suas estimativas estapafúrdias sobre números de participantes em manifestações. O número da PM é sempre muito diferente. Então, em quem acreditar? Se eu tiver um relógio em cada pulso, cada um marcando um horário diferente, eu jamais saberei dizer que horas são.

A enxurrada de informações que escoam diariamente das redes sociais (e escoam sem muito tratamento de esgoto), a montanha cada vez mais crescente de informações com pouco ou nenhum embasamento, e a alta seletividade (mas não do tipo bom, cético) das pessoas, que cada vez mais se fecham em bolhas de opiniões similares às próprias, estariam nos levando rapidamente a um mundo sem verdades e sem mentiras, somente com “fatos” de valor puramente subjetivo, vendidos à granel? Como naquela citação atribuída a Nietzsche, “não existem fatos, somente interpretações”.  Terá o jogo Metal Gear Solid 2 (de 2001, quando redes sociais ainda eram praticamente irrelevantes) sido realmente profético ao prever que a ampla oferta de informação de má qualidade é uma conspiração para fazer o mundo cada vez mais burro?

Continuar lendo

Anúncios
Padrão
história, Política

Entendendo o Colégio Eleitoral Americano e sua Última Polêmica

2016-electoral-map_tim-ellis-prediction

Eu sei que ser sucinto não é exatamente uma qualidade minha, mas pelo menos desta vez eu vou tentar.

Agora a turba radicalmente anti-Trump está tentando, como uma medida desesperada, pressionar os delegados a não escolherem Trump.

Que diabo é isso?

Nas eleições para presidente dos EUA, cada estado tem um número de delegados ou super eleitores, equivalente ao número de representes que tem na casa e senado, que por sua vez é equivalente ao tamanho da população do estado. A Califórnia, maior colégio eleitoral, tem 55 delegados, o estado de Nova York tem 29, e os estados menos populosos tem apenas três. São 538 no total, contando o Distrito de Columbia (a capital, Washington D.C.).

Quando a maioria dos eleitores de um estado vota em um presidente republicano, os delegados republicanos representarão o estado, mesma coisa se for um democrata. Na Califórnia, por exemplo, mais de 50% dos eleitores populares (ou pequenos eleitores) votaram em Hillary Clinton, que é democrata, portanto, todos os 55 cargos de delegado da Califórnia serão preenchidos por delegados democratas. Isto no sistema winner takes all (o vencedor leva tudo), em dois estados as vagas de delegado não vão todas pro partido vencedor, mas isto não importa muito aqui.

Os colégio eleitoral está votando hoje. Parece mera formalidade, e na maioria das vezes é mesmo. O sistema eleitoral atípico dos EUA fazia sentido na época da independência. Os fundadores dos EUA tinham medo que uma eleição presidencial por maioria absoluta seria algo perigoso, muito suscetível à regionalismos, ou à maioria da população eleger alguém completamente inapto para o cargo, por uma onda populista ou algo assim. E também, a maioria dos cidadãos se identificavam muito mais com seu estado do que com a federação, e não faziam a menor ideia do que se passava em Washington. Os mais radicais queriam que o presidente fosse eleito diretamente pelos congressistas (como foi a eleição de Tancredo Neves no Brasil), mas, além de pouco democrática, temeram que esta solução iria causar um caos no congresso. O colégio eleitoral acabou sendo a solução mais moderada, e que ficou.

Apesar de não fazer mais tanto sentido nos tempos de hoje, o sistema permaneceu, principalmente porque raramente o presidente eleito não é também o que recebeu a maioria dos votos populares. Raramente.

Quando deu zebra e como pode dar?

Cinco vezes: Três no século XIX, em 2000 na eleição de George W. Bush (que foi polêmica não só por isso, mas também por suspeita de fraude eleitoral na Flórida) e agora, com Trump, que teve 3 milhões de votos populares à menos que sua rival. Para entender melhor porque os anti-Trump estão se manifestando neste momento para pressionar o colégio eleitoral:

Um delegado de um partido pode mudar de ideia depois da eleição geral, e não há quase nenhuma punição legal prevista para isto. Então, por exemplo, alguns dos 38 delegados republicanos do Texas podem resolver votar em Hillary, ou se abster de votar. Isto é importante: Pela lei, o presidente precisa ter pelo menos 270 delegados a seu favor.  Se não der quórum, a decisão vai para o congresso. Nesta eleição, é preciso que 37 dos 306 delegados republicanos sejam infiéis para mudar significativamente. Delegados infiéis foram raros na história americana e nunca chegar a decidir uma eleição.

Tem chance do colégio eleitoral derrubar Trump?

Não. Se Trump não conseguir os 270 votos necessários, a decisão vai para o congresso (bicameral, como aqui), e a maioria do congresso atualmente é de republicanos. Eu não apostaria minhas fichas neste cenário.

Fontes:

https://www.washingtonpost.com/politics/the-electoral-college-is-poised-to-pick-trump-despite-push-to-dump-him/2016/12/19/75265c16-c58f-11e6-85b5-76616a33048d_story.html

https://www.washingtonpost.com/news/the-fix/wp/2016/12/19/how-does-the-electoral-college-actually-vote-an-explainer/?utm_term=.2d3ea0997c12

UPDATE:

Mals aí, mas será Trump sem choro nem vela

http://g1.globo.com/mundo/noticia/colegio-eleitoral-confirma-trump-como-novo-presidente-dos-eua.ghtml

Padrão
Sem categoria

Hipocrisia

Um dos ataques que eu mais vejo fazerem à candidata Hillary Clinton é acusá-la de ter usado um servidor de emails não seguro para trocar emails confidenciais, e seus emails acabaram no WikiLeaks. Todos os entusiastas de Trump parecem considerar isto um erro tão grave que ela jamais poderia assumir o cargo de presidente. E uma grande parte dessas pessoas têm o proverbial teto de vidro, pode apostar.

Eu sei bem como são os hábitos de segurança digital da maioria das pessoas. Geralmente, não são. Povo faz senha curta ridiculamente curta e fácil de acertar, ou anota e deixa num lugar totalmente visível, reaproveita a senha mil vezes, usa programas inseguros, e nem se importa em saber na verdade, fazem internet banking na mesma máquina cheia de jogo crackeado, nem instala antivírus, ou deixa o baidu. Ah, e quando você é minimamente preocupado com a sua segurança na internet, riem da sua cara, te chamam de paranoico e noiado, perguntam o que você tem pra esconder.

Quantas dessas pessoas são as mesmas que estão crucificando Hillary por ela não ter usado um servidor de email seguro o bastante? Na boa, se enxerguem.

Padrão
Sem categoria

Eu entendo porque querem Trump

O fato é que não querem mais um presidente que seja covarde.
Não, já basta.

Temer por exemplo é covarde. Voltou atrás com a abolição do
Ministério da Cultura, e voltou atrás com a reforma do Ensino Médio.
Francamente, esperava mais de um senhor da idade dele, e que já tem a vida
feita. Mas acho que ele é só mais um terno descartável.

Sim, claro que foi bom ele ter assumido, claro que ele é
melhor que a Dilma. O que não significa muita coisa, até um chimpanzé faria um
governo melhor que o da Dilma.

Representação política é uma espécie de ficção, e só
funciona enquanto as pessoas têm fé nela, e as pessoas tem deixado de
acreditar. O que as pessoas nervosas querem não é mais um almofadinha que só
cumpre protocolos e sorri para as câmeras, munido de discursos ensaiados. Não,
o que as pessoas querem é alguém, algum maníaco ensandecido, que continue
pisando fundo no acelerador durante um chicken
game
.

Alguém que cuspa na declaração universal dos direitos
humanos. Isso. E que queime os tratados internacionais, que os enrole em fumo
de corda e trague sua fumaça. As pessoas querem isso, não mais um robozinho que
faz tudo segundo o protocolo e faz mais do mesmo, tudo bem previsível, pisando
em ovos, tomando cuidado para não contrariar ninguém. Quando você tenta fazer
média com todo mundo, você é só mais um medíocre.

Por que as pessoas querem isso? Porque estão com raiva.
Porque elas estão putas.

Não, Trump não fará um bom governo, sem dúvidas trará
desastres. Mas muita gente quer apostar em desastres, se isto se faz necessário
para mudar algo de verdade.

Padrão
Sem categoria

Todos Deveriam Votar?

Não.

O que é mais importante, garantir que todos possam votar ou que haja pessoas minimamente competentes no governo? Se é tão importante que todos “tenham o direito de escolher o próprio destino” (ou qualquer outro refrão motivacional brega que você quiser) por que não deixamos as crianças e os deficientes mentais graves votarem também?

Um fruto dessa ideologia burra de que o maior número possível de pessoas deveriam participar politicamente é a lei que permite votar a partir de 16 anos. A legislação é no mínimo incoerente: Entende que aos 16 anos você não tem maturidade sequer para optar por assistir um filme pornô, beber uma cerveja, ou trabalhar em período integral, mas está apto a fazer algo “ligeiramente” mais complicado como votar em uma eleição oficial. E tem muita gente que não aprendeu absolutamente nada de novo sobre política desde que eram crianças. Não que eu acho que as pessoas deveriam se sentir obrigadas a tal.

Também é fato que uma parcela considerável da população não gosta de votar e vai à urna por ser coagida a tal, algo que eu julgo moralmente abjeto. E mais, a ideia de que um voto de má-vontade é melhor que voto nenhum é realmente idiota. As pessoas que vão votar de má-vontade votam nulo ou votam em qualquer um, e assim nascem os candidatos pictóricos como Tiririca e Enéas Carneiro, no Brasil, e o grotesco Trump nos EUA (eu sei, lá o voto é opcional, mas também tem essa onda do “todos deveriam votar”, já entro nesse assunto). Na verdade, as propagandas eleitorais são nitidamente voltadas a pessoas que não entendem nada de política e vão escolher por critérios que não tem nada a ver com capacidade ou honestidade. Como você se sentiria se fosse ser operado por um médico que foi escolhido não por sua habilidade em cirurgias, mas foi eleito por uma turba de pessoas aleatórias, que vão escolher o médico mais bonito e que tem a melhor retórica? Pois é…

Não se engane, as democracias que hoje funcionam relativamente bem são aquelas em países com nível de educação bastante elevado (os EUA são um caso à parte). Mas dizer “é preciso mais educação para o povo” é algo tão pouco útil e elucidativo quanto dizer “foi porque deus quis” numa discussão sobre fenômenos naturais. Aí que eu vou ser mais radical: Não só votar deveria ser facultativo, deveria haver algum tipo de prova para quem deseja votar.

Não acho exagero. A nossa sociedade julga justo exigir exames para dirigir, possuir armas de fogo, ou qualquer outra coisa que exija um mínimo de “cabeça”. E por mais que a nossa democracia seja representativa (como tem que ser em qualquer lugar que seja maior que um vilarejo), delegar também é uma tarefa que exige comprometimento, e algum conhecimento da tarefa que se está delegando, bem como dos candidatos. Alguém que nem sabe quais são as funções dos políticos, e o que andam fazendo, deveria ter direito a voto? Mais uma vez, eu não acho que as pessoas deveriam ser obrigadas a se informar sobre essas coisas se não gostarem ou não tiverem tempo.

Sempre dizem “se você não vota, os outros vão escolher os políticos por você”. Pois é, mas se você entende pouco ou nada sobre política, estaria fazendo muito bem a si e à sociedade em deixar esta escolha para outros que entendem.

Padrão
Sem categoria

Professia auto-realizável

Os pré-candidatos à eleição presidencial dos EUA deixaram muita gente
desapontada.
O Trump é um republicano atípico, apesar de sua retórica cáustica, sempre
politicamente incorreta, ele é bem menos conservador que a média, e sua
popularidade tem descido consideravelmente, ao contrário do que se espera
que aconteceria após mais um atentado terrorista islâmico.

A Hillary… É só um novo Obama. Ela é bem pragmática e está envolvida em
mais de um escândalo de corrupção, para o desespero da ala mais idealista
do Partido Democrata que sonhava com a “pureza” de Bernie Sanders.

Há outros candidatos? Há. Jill Stein do partido verde é uma subtututa
aceitável para quem queria Bernie. e Gary Johnson para os libertários.

Mas pouca gente vai votar neles, mesmo os insatisfeitos com a Dupla
Trump/Hillary. Por quê? Porque todo mundo pensa que eles não têm chance de
ganhar. Por que eles não tem chance de ganhar? Porque todo mundo pensa que
eles não têm chances de ganhar.

Entendeu?

O fenômeno não ocorre exclusivamente em política ou nos EUA. Este ano temos
eleições municipais no Brasil. Pense nisso.

Padrão