ética, filosofia, história, Humano, Política, sociedade

Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza

 

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Estamos vivendo tempos tumultuosos, bárbaros, ao menos em relação com o que nos permitimos acostumar no passado recente. Mais um atentado terrorista na Europa, como de costume uma cortesia da “religião da paz”, e dessa vez na Inglaterra. No Brasil, a nauseante sucessão de reviravoltas da crise política culminou em manifestantes comunistas fazendo protestos truculentos em Brasília, pagos por entidades sindicais, depredando ministérios e até mesmo iniciando incêndios, para reclamar depois que a polícia não foi suficientemente delicada. Reacionários idiotas pedem um novo golpe militar, e a CUT trata de providenciar justificativas. É, as pessoas estão perdendo as estribeiras. A violência está voltando à política de nosso país. Para quem quiser manter a sanidade nestes tempos de barbárie e tentar ver algum sentido, resta estudar, e procurar os autores sensatos. Não, o problema no mundo não é falta de amor: Falta no mundo inteligência, falta razão.

O que não falta ao cientista cognitivo norte-americano Steven Pinker, que em 2011 lançou  Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Como a violência diminuiu. Este é o livro da minha vida. O deleite que tive ao ler as páginas de Pinker, com seu estilo denso, detalhado e preciso, mas tão claro quanto possível, me auxiliaram tremendamente a lidar com uma das piores e mais longas crises depressivas de minha vida. Os Bons Anjos reacendeu meu interesse por história, que eventualmente me levou a cursar uma faculdade de história na qual estou, reacendeu também meu gosto pela leitura (praticamente todos os meus gostos estavam mortos quando estava nesse período), não só a ler mais do mesmo autor, mas de outros que escrevem assuntos correlatos. E não seria exagero dizer, Pinker ajudou a moldar meu caráter, mesmo bem depois da maioridade, suas análises desafiaram minhas noções de ética e meu entendimento de mundo, é o tipo de autor que força você a fazer uma reavaliação dos conceitos.

O título é ousado pois a opinião comum é que o mundo nunca esteve tão violento. Balela. “Tempos áureos” é uma ilusão. As chances de qualquer pessoa em qualquer lugar no mundo sofrer uma morte violenta ou sofrer qualquer tipo de violência – como um roubo, um estupro, ser torturado e executado por pequenos crimes ou recrutado para lutar numa guerra – aumenta quanto mais se volta tempo, assim como também é notável que a sociedade era menos sensível à violência e pouco prezava pela paz.

Claro que Pinker foi acusado de ser uma Poliana, ingenuamente otimista, de ver a atualidade de um jeito muito pink (desculpe, não resisti ao trocadilho), de achar que paz equivale a shoppings com ar condicionado… E pode ter certeza que a grande maioria destes críticos não leram o livro, ou leram sem fazer o menor esforço de entender. Criticar é válido, sempre, mas não com total ignorância do que se está falando.

Pinker não é um “positivista”, que acredita num rumo comum que todas as civilizações seguem, um progresso rumo à paz que seria tão inevitável quanto a entropia do universo. Pelo contrário: Sua análise retrata a paz com um fruto conquistado às duras penas pela civilização. Custou um tanto de sorte. E apesar do mundo, como um todo, estar bem menos violento do que no passado, mesmo em relação a 100 anos antes, não é de maneira alguma homogeneamente pacífico, óbvio, e nem é esta tendência irreversível. Nós temos, sim, motivos para temer com revezes como os dessas últimas semanas. Mas não para nos desesperar.

As análises sociológicas de Pinker são embasadas por rigorosos estudos estatísticos, valendo-se de dados sobre homicídios no mundo todo de séculos atrás, elaborando sua teoria também com base em relatos históricos, da literatura, de achados da arqueologia… Ele não dá ponto sem nó. Ao contrário do que outros críticos disseram, fazendo a imortal falácia ad-hominem, Pinker não acha que o mundo se restringe ao seu confortável ambiente acadêmico norte-americano,  ele não ignorou ou menosprezou a violência nos países em desenvolvimento, mas procurou entender o que deu errado neles e o que poderia ser feito para melhorar.

Não se preocupe, o livro não é extremamente complicado, e não precisa ser bom em matemática para entendê-lo, ou eu mesmo não teria entendido, mas precisa de atenção. O mérito do autor é ter se baseado  em ciência. Sim, ele pode ter cometido equívocos (e num estudo desse tamanho, dificilmente não se comete erros), e ninguém jamais deve estar imune à críticas. Mas definitivamente estes possíveis erros não foram por desonestidade, ou por nem estar tentando trabalhar sério, ou seja, por falta de uma metodologia rigorosa. E o que não falta por aí são análises sociais baseadas em achismo. Mas para os rabugentos, achismo é o que vale, só o fato de se basear em números, ainda que parcialmente, já é um erro. Comentou o Pondé :”Mesmo a “estatística do bem” só convence quem crê em estatística aplicada a seres humanos. ” Claro, Pondé, estatísticas são uma besteira, vamos interpretar a sociedade de acordo com a bíblia, como você julga mais correto, isso sim é inteligente.

Recomendado a todos que se interessam por história, psicologia, sociologia… Pensando bem, recomendado a todos  que queiram algum motivo para compreender com lucidez nosso mundo, sem cruzar os braços num cômodo derrotismo, ou tolo de achar que tudo vai se resolver pela bondade de deus.

Título original: THE BETTER ANGELS OF OUR NATURE
Tradução: Bernardo Joffily
Laura Teixeira Motta
Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio
Adriano Guarnieri / Máquina Estúdio
Páginas: 1088
Formato: 16.00 x 23.00 cm
Peso: 1.380 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 28/03/2013
ISBN: 9788535922325
Selo: Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13271

 

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geek, Internet, Segurança e Privacidade

O “Enorme” Perigo dos Pedófilos da Internet

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Para quem se informa apenas pela televisão, a internet parece ser uma espécie de mundo tenebroso onde habitam “hackes”, “piratas” (pessoas que compartilham arquivos), terroristas, e, acima de tudo, pedófilos, sem falar dos games que “treinam os jovens para se tornarem assassinos”. Mas os pedófilos da internet são, de  longe, o perigo mais alardeado. Ou ao menos costumava ser assim há poucos anos atrás, talvez eles já tenham se dado por vencido.

Apenas um caso fácil de entender da velha mídia demonizando a nova mídia. A televisão, mais ainda a TV aberta, perde interesse cada vez mais entre jovens. A própria televisão era vista com alardes pelos velhos moralistas até os anos noventa, mas hoje quem mais vê TV é gente velha mesmo.

E vendo TV Globo e TV Record, parece que basta uma criança ligar um computador que começarão a pular pedófilos da tela para agarrá-la e sodomizá-la. A TV tem uma capacidade enorme de exagerar a proporção das coisas. Eu sei que falar que a mídia manipula é cliché, mas você não precisa acreditar em mim. A grande maioria dos casos de abuso sexual infantil, 80%, são de alguém da própria família, esta estatística vem da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente, e foi divulgada, inclusive, na Record (não no telejornal, claro). Abusos por padrastos ocorrem muito mais do que pais, devido à aversão natural que as pessoas sentem ao incesto, e, como explica o psicólogo da Harvard Steven Pinker em seu livro Como A Mente Funciona, abuso sexual infantil geralmente parte de adultos que não viram e acompanharam a criança crescendo, e padrastos que casam com a mãe quando a criança ainda é muito pequena, e são presentes na criação, geralmente não abusam.

Mas a maioria dos casos é de familiares mesmo (tios, primos mais velhos, etc.), seguido por pessoas fora da família mas próximas à criança e a família de alguma forma (padres sendo o exemplo mais famigerado). Abuso por estranhos, por predadores sexuais caçando crianças em salas de chat, é o que menos ocorre. O problema nem está aumentando, o que está aumentando, devido à medidas de conscientização, são as denúncias, mesmo uma organização de combate à pedofilia faz questão de frisar este fato. O problema é menor do que parece, mas não inexistente, claro. Mas, mesmo quando o abuso não vem da família, ele poderia facilmente ser evitado pela família.

Outro dia vi uma notícia de um pedófilo que foi preso por pedir para uma menina de 9 anos mandar fotos de si mesma pelada, e depois ameaçar divulgar essas fotos. Mas o que eu me perguntei na hora foi: Por que diabos ela tirou e mandou as fotos? A mãe e o pai não ensinaram que isso não se faz? A história de que as crianças não ligam para o que os pais dizem é só até a página 3: Nem todas as crianças e adolescentes tem personalidade rebelde ou desobediente, e mesmo os que tem podem acreditar quando os pais dizem que algo é perigoso, se a comunicação entre eles for boa, e se for bem explicado (dizer “não faz isso que papai do céu não gosta” não vale). Muitos destes casos de abuso de menores por predadores sexuais na internet mostram que os pais nem se preocuparam em educar a criança sobre como se prevenir sobre perigos comuns, bom e velho “não fale com estranhos”. E mais ainda, não mande nudes para estranhos.

É uma questão de dizer que qualquer um pode se passar por qualquer um na internet, e jamais se deve tirar fotos de si mesmo nu, menos ainda para mandar por estranhos. Falando de estranhos, a indicação deveria ser de cortar a conversa imediatamente e relatar à família se algum assunto impróprio surgir. Conhecer em pessoa, de jeito nenhum. Eu sei que não é tão simples explicar isso pra uma criança, mas definitivamente não é impossível, e se você for pai, deveria saber como.

Antes que queiram me crucificar, eu não estou dizendo que a “culpa” é da família, não quero “culpar a vítima”. Eu apenas quero conscientizar quem quer que leia este post e, talvez, evitar mais um caso de abuso de criança. Veja bem: Se você estiver caminhando com um caríssimo relógio Rolex no pulso de madrugada no centro de São Paulo e o tiver roubado, mas o ladrão for pego, quem será preso será o ladrão, a culpa, pela lei, é dele e não sua (se o bem for assegurado a história muda um pouco, mas isto não vem ao caso). Mas você provavelmente vai ouvir muitas críticas dos seus amigos e familiares, não porque a culpa foi sua, mas porque seriamuito fácil ter evitado sofrer o roubo: Não vá ao centro de São Paulo de madrugada com um Rolex no pulso.

Da mesma forma, aliciamento de menores pela internet pode ser facilmente evitado com educação para coisas de bom senso e acompanhamento dos pais, mas tem uns que parecem nem fazer ideia do que pensam e fazem os filhos. Tem mãe que é cega, e pai também.

Pedofilia também é frequentemente usada como desculpa por quem é contra a criptografia e outras ferramentas de proteção de privacidade, o que é uma desculpa esfarrapada de governistas, para o governo não perder o poder de te vigiar e controlar. Seguindo esta lógica ao extremo, todas as famílias deveriam ser obrigadas a instalar câmeras dentro de suas casas que podem ser acessadas pelo governo 24h por dia, para evitar violência doméstica. Não trate privacidade com um privilégio sacrificável por uma “nobre causa”, mas como um direito fundamental.

Uma mensagem criptografada fica descriptografada em no mínimo dois pontos: No remetente e no receptor, se não, não serviria como mensagem. Não importa o meio de comunicação ser criptografado (por exemplo o Telegram, Signal ou Wire) se a vítima (a criança, ou um responsável vigiando a criança) souber que está sofrendo assédio interromper a comunicação imediatamente, além  de oferecer as mensagens do próprio aparelho como evidência. Conversas com estranhos por aplicativos com mensagens que se autodestroem, como o SnapChat, devem ser totalmente proibidas para as crianças. Aliás, muitos destes predadores sexuais não são tão espertos assim, não são experts em criptografia, nem perto disso. Um ex-BBB com o alcunha pra lá de sugestivo Barba Azul foi preso porque aliciava menores conversando pelo Facebook.

Há quem aposte em softwares para vigiar tudo que menores fazem em seus computadores e celulares. Eu não vejo com bons olhos programas de espionagem da vida digital de adolescentes e mesmo de crianças, pois eles também desejam privacidade. Penso que muitos destes programas são instalados apenas por motivo de moralismo barato (não quero que meu filho veja sacanagem), e por pais negligentes que não conversam com os filhos, nem os educaram bem, mas querem sentir que estão fazendo alguma coisa para protegê-los. Se você é pai e está revoltado com este post, pense bem, eu não quero que você se sinta um merda, ninguém ganha nada com isso, só que mude de atitude. Nunca é tarde para mudar.

Falam também que a internet (especialmente com anonimato) facilita o acesso e a troca de fotos de pedofilia. Isto também não é desculpa para proibir as pessoas de protegerem a própria privacidade. A polícia consegue desmantelar grupos de pedofilia na internet com técnicas como convencer os criminosos a instalar Spyware, se passarem por crianças para marcar encontros, e com a milenar técnica de infiltrar agentes secretos nos grupos alvo, que aliás foi como a Polícia Federal encontrou 10 suspeitos de terrorismo neste ano. E terroristas geralmente usam Telegram, cujo protocolo, mtproto, apesar de tratado com muito ceticismo por criptógrafos, jamais foi quebrado. Então não, ferramentas de privacidade em geral não tornam impossível o trabalho legítimo de agentes da lei em proteger pessoas, apesar de nos protegerem de métodos de vigilância em massa automática e indiscriminada como a que a NSA praticou e provavelmente ainda pratica, deste assunto tratarei em outro post.

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Todo Mundo Deveria Fazer Universidade?

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Acredito que não, o diploma de ensino superior é supervalorizado no Brasil, e para muita gente é perda de tempo e dinheiro. E olha que sou formado, e pretendo fazer outra faculdade ano que vem. Mas nem todo mundo é igual a mim (graças à Zeus).

Eu sei que muita gente poderia tirar grande proveito de um curso universitário, colaborando para a própria carreira e também com a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, mas não podem fazer um curso superior por condições econômicas e sociais adversas, e isto realmente é uma lástima, é bom que estas pessoas tenham ajuda. Mas, ao mesmo tempo, sei que muita gente que não fez faculdade provavelmente nem deveria fazer.

Parece que ensino superior é uma coisa “obrigatória” em nossa cultura, as pessoas sentem-se compelidas, em vários círculos sociais, a fazer alguma faculdade, qualquer faculdade que seja, se já forem adultas e não tiverem feito. Se você fala pra alguém que não fez ensino superior, já olham na sua cara tentando adivinhar o que deu errado na sua vida. Se for mulher, vão achar que é porque engravidou na adolescência, se for homem, que era um vagabundo que vivia matando aula pra fumar maconha. Mas este preconceito é injusto e idiota (como a maioria dos preconceitos) e eu não penso que, à priori, tenha que acontecer algo “errado” na vida de uma pessoa para ela não fazer faculdade.

Pense que você é um menino que é bom de mecânica, aprendeu com o pai desde pequeno, fez até um curso técnico no ensino médio, e passou a ajudar o pai na oficina. Mas aí vem os parentes que vão dizer “não, mas você tem que fazer ADM pra tomar conta da oficina quando o pai se aposentar”, independente do pai saber muito bem administrar a própria oficina há décadas e ter passado isso pro filho também.

Aí o rapaz vai entrar numa UniDaEsquina qualquer, dessas instituições de ensino que anunciam cursos como se fosse financiamento de veículo, vai trabalhar o dia todo, e, estressado, à noite, ao invés de poder chegar em casa, jantar, e assistir TV tomando uma cerveja bem gelada, vai ter que ficar sentado na cadeira de uma sala abafada ao som do ventilador que só faz barulho mesmo e também ao som, ainda mais desagradável, do lerolero teórico inútil de algum sujeito qualquer que a faculdade chamou pra dar a matéria, e muitos desses só vão ficar passando e lendo apresentação de PowerPoint.

Claro que você poderia dizer “se tivesse estudado mais na escola, ele poderia ter entrado numa boa faculdade”, mas e se ele preferia trabalhar para ganhar uma grana, ou simplesmente não gostava de estudar? Merece o fogo do inferno por isso? Há pessoas que falam de um jeito que parece deixar subentendido que sim, que quem não gosta (muito) de estudar, e estudar matemática de preferência, é necessariamente inútil e merece a miséria. Discordo enfaticamente. Se simplesmente não ter diploma de ensino superior num país for algo que condene alguém a ser pobre, isto é um sinal de uma economia péssima, não “justiça divina” como alguns idiotas dizem. E nem acho que a sina seja esta no Brasil, não necessariamente. O mecânico faz uma atividade extremamente útil e necessária, assim como o barbeiro, o encanador, o cozinheiro, e tantos outros que não precisaram de diploma de ensino superior para fazer algo útil, e aprenderam mais com a experiência ou com cursos curtos e pragmáticos. Não seria melhor deixar eles relaxarem depois de um dia exaustivo de trabalho?

Aliás, ensino técnico é algo que deveria ser muito mais valorizado na educação brasileira, escolas técnicas não deveriam ser especiais, deveriam ser o padrão. As escolas dos EUA (e outros países desenvolvidos), ao contrário do que muitos pensam, não servem apenas para os alunos serem massacrados por maníacos armados, lá os alunos tem uma disciplina chamada “economia doméstica” que ensina coisas necessárias ao dia-a-dia, e aprendem a dirigir na escola mesmo, não tem a indústria da auto-escola.

Dei o exemplo do curso embusteiro de administração, mas existem muitos outros, e a indústria do diploma no Brasil parece ser sustentada por gente que vai estudar de má vontade e acaba  como um profissional medíocre e endividado. E os cursos de informática, sobre eles eu posso falar por experiência própria: Grande parte deles, em faculdades públicas e privadas, são pura enrolação, você vai concluir o curso (se não estudar muito por conta própria) com conhecimento “avançado” pra fazer um jogo da velha em Java e páginas HTML feias, e o que o mercado vai valorizar mesmo (além da experiência, claro) são certificações como as da Cisco, Microsoft, Oracle, LP 1 e 2 e etc. As faculdades valem mais pelo networking do que qualquer outra coisa.

Pra não dizerem que sofro de complexo de vira-lata, nos EUA também há uma indústria do diploma, ou, como eles chamam “diploma mill” (moinhos de diploma). Muitos são cursos por correspondência com demandas para lá de flexíveis para com os alunos, procurados por pessoas que querem grau superior apenas para ganhar uma promoção no trabalho sem fazer nada, e são completas falcatruas. Outras tentam atrair estudantes de boa fé, mas esses acabam descobrindo, tarde demais, que a tal universidade nem sequer é credenciada para conceder grau. Donald Trump foi dono de um desses moinhos de diploma, a Trump University, que a Justiça do estado de Nova York obrigou a tirar o University do nome. Recentemente, ele concordou em pagar 25 milhões de dólares para encerrar uma longa disputa judicial envolvendo a “universidade” fraudulenta. O sujeito tinha um exército de operadores de telemarketing treinados com uma detalhada retórica maliciosa (lembra Lobo de Wall Street?) para convencer pessoas a entrarem para a Trump University nem que tivessem que vender a própria mãe para pagar o curso, garantia de ficar rico que nem o Trump depois da formatura. Tão diferentes das nossas faculdades de esquina daqui?

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“Democracia só é boa quando eu ganho”

Eu sei que esse tipo de pensamento é execrável, e vemos várias demonstrações de pessoas que parecem ser movidas por ele, de todos os lados do espectro político, seja quando a Dilma ganhou, ou quando a Dilma sofreu impeachment (100% dentro da lei, mas como a presidente cassada era de esquerda, chamaram de golpe) e agora com a vitória do Trump, com demonstrações não exatamente pacíficas dos eleitores democratas, para deixar bem claro que esta ideia de que os EUA têm um partido “do bem” e outro “do mal” é bem idiota. Sonserina e Grifinória só existe no mundo do Harry Potter.

Mas afinal, quem gosta de verdade  da democracia? No fundo, ninguém que tenha fortes convicções políticas “extremistas” gosta de democracia. Pessoas mais moderadas ou apolíticas em geral são sinceramente a favor da democracia. Mas se você acha, por exemplo, que toda política que não for de esquerda só serve para tornar o povo mais explorado pelas elites gananciosas, então, para você, uma vitória da direita é simplesmente um passo na direção errada. Para ser democrático, você tem sempre que admitir a chance de estar errado e o seu oponente poder ser melhor, ou pelo menos que a democracia em si é mais importante que o seu ideal político.

Quando se lê um texto como este do site do libertário Lew Rockwell defendendo que a democracia é a pior forma de governo de todas, ou o livro de outro libertário, Hans Herman Hoppe, entitulado Democracia: O Deus Que Falhou pode pensar que a ideia é elitista, tirânica, só poderia ter saído da cabeça de um porra louca de um anacap. Mas leia bem. No fundo, todo extremista pensa a mesma coisa: Democracia é uma perda de tempo, é ceder espaço para um lado que está errado, e permitir que ele torne a sociedade pior, o povo é burro demais para saber o que é bom para si, e a alternância de poder incentiva governantes a visarem progressos apenas temporários.

E o que penso?

Primeiro, quero deixar claro que nem toda ideia “extremista”, ou considerada extremista, é ruim, muitas vezes, tomar uma atitude moderada é que é errado.

Mas eu não me considero libertário. Sou mais a opinião de Winston Churchill do que de Lew Rockwell. Falando de Brasil, eu não faço ideia do que seria melhor para o Brasil no momento além de manter a democracia, por mais que, pelo visto, esta forma de governo só funcione relativamente bem em países com um nível de educação muito bom (e os EUA já estão dando sinais de que não pertencem a este rol de países). Mas o que seria melhor para o Brasil? Devolver o poder aos descendentes de Dom Pedro II? Derrubar o Estado, como querem os libertários mais radicais, assim o síndico do seu condomínio e o seu chefe terão poderes de príncipe absolutistas enquanto em suas propriedades? Nesta república das bananas, parece que estabilidade política é a melhor opção, por agora, nenhum de nosso radicalismos tem cara de que levará a um bom futuro.

Quanto ao resto do mundo, não sei. Cada caso é um caso. Mas, ao contrário do que apregoam os pós-modernistas com seu relativismo imbecil, da mesma forma que alguns países são mais ricos em PIB do que outros, os países também não são iguais em outras riquezas, alguns são sim superiores moralmente e intelectualmente do que outros, e provavelmente alguns países estariam melhor enquanto governados com interferência externa, uma espécie de tutela, para que não se arruínem. Os EUA, após invadirem o Iraque e deporem seu ditador, praticamente abandonaram o país com sua democracia, seus governantes eleitos em governos provisórios, e olhe no que deu. O Oriente Médio é uma coisa horrenda, a região mais atrasada do planeta, verdadeira amostra de Idade Média em século XXI. Seguro dizer que, nestes países, qualquer “democracia” foi apenas uma alternância de ditadores. Deixe eles escolherem tudo na base do voto popular, e eles votam pela lei da sharia. Um monarca esclarecido seria melhor. Só não me perguntem onde achar um.

Veja o que aconteceu em vários países da África do século XX, que até mais ou menos a década de 60 eram colônias de países europeus. Estas autoridades coloniais, por mais exploradores que fossem, ao menos sabiam administrar um país decentemente. São expulsos com revoluções como em Angola e Moçambique, e entram governos horrorosos estabelecidas por milícias locais, capengas, alguns mais “democráticos” que outros, mas todos acabaram sendo países com mais baixos índices de desenvolvimento humano do mundo atual, e em muitos deles, como nos dois que citei, as guerras nem acabaram após a independência. Democracia não é uma pílula mágica que traz justiça e felicidade para todos, como parecem querer dizer naquelas propagandas do governo em época de eleição.

Sou relativamente bem informado no assunto, mas não sou especialista em geopolítica, e não tenho solução definitiva para resolver estes problemas (aliás, quem tem?), mas acredito que quanto mais cedo nos desprendermos dos delírios relativistas do pós-modernismo, quanto mais cedo pararmos de fingir que todos os povos igualmente capazes de ficar bem se governando democraticamente, melhor.

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É justo zoar os atrasados do Enem?

Este vídeo do Izzy Nobre foi um bom pretexto para falar sobre as questões de ética e escolha, em mais profundidade do que em meu último post sobre o assunto livre-arbítrio.

Primeiramente, vou deixar claro que ODEIO atrasados. Neste país temos a mania de achar que se preocupar com horário é coisa de gente “noiada” e “careta”, que você não deve a ninguém e “o importante é ser feliz”, foda-se os outros, e tudo bem chegar meia-hora ou uma hora depois do combinado, se a outra pessoa ficar nervosa, ela é que está errada, não você que é folgado. E médico, como médico atrasa: Já fui chamado para entrar no consultório 40 min depois do horário, e o filho-da-puta ainda me recebe sem nem pedir desculpas nem dar explicações. Se reclamar, ainda te encaminha para o psiquiatra. E nem foi no SUS.

Mas é certo fazer os “atrasados do Enem” de palhaços, rir da desgraça deles (e para muitos é uma desgraça mesmo, significa um ano no “limbo” do cursinho), ou até sentar numa caixa de cerveja e assistir o desespero dos atrasados? Que fique claro, eu sou radicalmente a favor da liberdade de expressão, radicalmente mesmo, sou contra proibir as pessoas de rir do que quiserem, mesmo que seja humor negro, mesmo que seja de péssimo gosto. Muitas vezes eu também rio, apesar de não achar a menor graça no caso dos atrasados do Enem, talvez por sentir empatia por eles e não com vítimas “genéricas” de piadas de humor negro. Portanto não, não proíbam esse tipo de humor. Mas o fato de eu não achar que deveria ser ilegal não significa que eu não possa achar ruim, e manifestar isso, eu tenho liberdade de expressão também.

Primeiramente, vamos fazer uma distinção: Não é o mesmo tipo de atraso, ainda que o mesmo tipo de pessoa que se atrasa em um tipo de compromisso se atrasar em todos, em geral, mas mesmo assim, são situações diferentes. Uma coisa é você firmar um compromisso com uma pessoa e deixá-la esperando. Você está prejudicando alguém. Uma prova como o Enem é outro tipo de compromisso, impessoal, que você não vai prejudicar ninguém (além de si mesmo) chegando atrasado, e eu acho que não faz sentido ficar com raiva ou humilhar alguém que se atrasou para isto. Me enoja sim o fiscal, que quase transpira o prazer sádico que tem de estar fodendo a vida de alguém por minutos ou mesmo segundos de atraso, amparado pela burocracia. E por favor, não me venha com este argumento de vaquinha de presépio de “as coisas são assim mesmo”, “regras são regras, ele só fez o que foi mandado”, o tribunal de Nuremberg estava cheio de réus que só estava cumprindo ordens (cumprindo ordens com muito gosto).

Em todo caso, você não sabe o que aconteceu. Há mil maneiras de chegar atrasado mesmo saindo cedo de casa. Existem, claro, casos de pessoas que se atrasaram por motivos idiotas, como uma que supostamente teria se atrasado porque ficou rezando no carro com a mãe, ou porque parou para comprar lanche na rua. Claro que o cara da caixa de cerveja, e o Cauê Moura, que praticamente endeusou o cara da caixa de cerveja, nem pensam nisso, e riem da desgraça alheia independente das causas. Engraçado que o Cauê, muitos anos atrás, fez um vídeo dizendo como as pequenas autoridades, em geral, são cretinas e detestáveis (são mesmo), dando como exemplo um segurança que não o deixou entrar numa festa de bermuda. Mas quando é o fiscal do Enem proibindo um aluno de entrar após um minuto de atraso, ele acha o cara o máximo. Que coisa, não?

Mesmo nesses casos, acho uma crueldade idiota rir da cara dessas pessoas e fazê-las de palhaças no YouTube (mais uma vez frisando que não quero que o YouTube e muito menos o governo proíbam isso, e nunca dei flag num vídeo do YouTube, nem por isso nem por outro motivo), ainda mais sendo que elas não fizeram nada para você, que é o mesmo motivo pelo qual acho grotesco ficar fazendo piadas de futebol para zoar os amigos, do que já tratei em outro post. O Izzy tenta fazer uma distinção, diz que uma coisa é rir da desgraça de alguém por algo que aconteceu à ele fora de seu controle, por exemplo, sofrer um assalto, ou ser atropelado. Outra é rir dos vacilos de alguém, por coisas que ela escolheu e que foram uma merda, e dá o exemplo de um amigo que casou com uma mulher que todos os amigos do grupo avisaram que não prestava, e de outro que comprou um carro que todos avisaram ser ruim. A distinção é razoável, mas mesmo assim, essas pessoas realmente fizeram uma “livre escolha”?

Na verdade, não. Ainda que elas pensassem que estavam agindo livremente, se questionadas sobre isso, estudos científicos já provaram que a sensação da liberdade só é de fato formada na mente depois da ação ter sido feita, basicamente uma ilusão cognitiva. Um pesquisador observando um electroencefalograma consegue, por exemplo, saber se você vai mover a sua mão direita ou esquerda antes de você mesmo saber. Nem acho que precisaria de estudo científico para isso. A ideia de livre-arbítrio é ilógica, impossível, implicaria no cérebro ser um órgão que existe em uma realidade paralela que existe alheia às leis da física, mais ou menos como no filme Divertidamente, mesmo assim, eu não consigo imaginar como este livre-arbítrio funcionaria. Ainda que ignoremos as causas de muitas ações humanas, nossa ignorância não é prova de que sejam livres. Cada disparo de cada neurônio seu foi provocado por sinais vindo de outro neurônio, ou de alguma informação do ambiente (ondas sonoras, luz, calor etc) isto acontece sem você necessariamente saber, sem necessariamente perceber, e sem que você possa mudar o que acontece. Mesmo se for verdade que o funcionamento do neurônio seja afetado por fenômenos quânticos mais ou menos aleatórios, o que não foi provado, ainda assim você não teria livre arbítrio, seus pensamentos e ações apenas estariam sendo determinados por eventos aleatórios.

Felizmente, a língua tem as palavras “liberdade” e “livre-arbítrio” distintas. O conceito de liberdade do qual falo no terceiro parágrafo, por exemplo, liberdade de expressão, independe de livre arbítrio, e basicamente significa expressar o que você quiser sem punição. Mais ou menos o mesmo ocorre com liberdade no sentido político e jurídico, que, pelo menos a princípio, podem ser mantidas mesmo sabendo que não há livre arbítrio. O erro da maioria dos grupos de direitos humanos não é sugerir que os criminosos foram vítimas passivas de fatores sobre os quais não tiveram controle (foram mesmo), mas achar que isto justifica impunidade, e que todo criminoso pode ser recuperado. De qualquer forma, esses mesmos grupos não deixariam de demonizar um político reacionário (um Bolsonaro, por exemplo) que quisesse endurecer as penas para crimes como roubo e furto, ou até propor pena de morte, quando no fundo este político teve tão pouca liberdade em mudar suas ações quanto um menino de rua que pratica furtos.

Mas então, deveríamos mudar nossas emoções, em vista desta nova informação? Você pode, por exemplo, chegar à conclusão de que está certo, não é completamente arbitrário, sentir raiva e querer punir alguém que fez algo estando perfeitamente ciente das informações a respeito de sua ação, nutrida por sentimento de malícia ou simples indiferença, ainda que no fundo a pessoa não tenha escolhido sentir estas emoções ou agir perante elas, certo ou não, é como eu penso quando julgo alguém errado. Ou talvez você pense que, então, não faz sentido mesmo sentir raiva. Independente do que você pensar, infelizmente, deixar de sentir ódio (justificado ou não) é impossível. Talvez seja mais fácil perdoar as pessoas, deixar de ódiá-las, se tiver em mente que elas nunca poderiam ter agido diferente, mas sentir ódio em algum momento você vai. Aliás, quem nunca sentiu raiva do computador travando, mesmo sem nenhuma ilusão de que ele seja livre?  O intelecto não tem grande poder em mudar o emocional, como qualquer pessoa com fobia sabe bem. Sem dúvida iríamos repensar muita coisa, se nos déssemos conta de que livre-arbítrio é uma ilusão. Talvez Izzy pensasse que seu amigo, antes de ser um alvo aceitável de piadas, é alguém digno de pena, por ter uma mente que o obrigou a se casar com uma mulher cretina, ainda que houvesse plena informação de que estava fazendo algo de que iria se arrepender. Mais do que isso,  teríamos de rearquitetar vários conceitos que deixariam de fazer sentido, até a responsabilidade, culpa, vergonha e orgulho deixariam de fazer sentido. Mas calma, esta mudança de paradigma só seria a longo prazo. E fazer as pessoas se sentirem responsáveis pelo que fazem, e se envergonhar do que fazem errado, ainda é uma das melhores formas de condicionar alguém a fazer o certo, por exemplo, não chegar atrasado em compromissos.

Por fim, vou deixar aqui o único meme do Enem que eu gostei. E no fundo, gostaria muito que isso acontecesse de verdade:

cj-enem

 

Sugestões:

Livre Arbítrio e “Livre Arbítrio” – Como as minhas opiniões diferem das de Daniel Dennett

https://rebeldiametafisica.wordpress.com/tag/sam-harris/

 

 

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Chuck

chuck

[Aviso: Contém SPOILERS da primeira temporada de Better Call Saul]

Chuck era um advogado brilhante, e um executivo genial, um dos fundadores da empresa de advocacia HHM, uma das mais proeminentes de Albuquerque – Novo México.  Mas, fugindo do estereótipo, não é um cara desonesto, nada cretino, mas sim bastante trabalhador, tendo se empenhado a vida toda em ser bem-sucedido do lado “do bem”. Quase um posterboy do “american dream”. Ao contrário de seu irmão, o incorrigível malandro James McGill, que no futuro passaria a ser o advogado do químico Walter White, mas na cronologia de Better Call Saul ainda era um verdadeiro coitado, praticamente um Dick Vigarista que sempre acaba mal apesar (ou por causa) de suas safadezas, sempre à sombra do irmão de caráter exemplar.

Mas Chuck tinha um probleminha: Anos atrás, por circunstâncias não muito bem elucidadas, havia desenvolvido uma severa intolerância por hipersensibilidade à radiação eletromagnética. A condição o obrigara a viver isolado em sua casa sendo ajudado pelo irmão malandro, sem absolutamente nada elétrico, nem mesmo lâmpadas, janelas com cortinas entreabertas e olhe lá.

Em meados da primeira temporada, no entanto, sendo internado no hospital, a astuta médica, após ser informada da condição – e tendo tolerado temporariamente que os todos equipamentos elétricos do quarto fossem desligados – discretamente ligou o computador embarcado da cama em que Chuck estava deitado. Sem que ele percebesse. Experimentos em casos de hipersensibilidade à radiação eletromagnética na vida real também demonstraram a mesma coisa, que os pacientes são incapazes de perceber energia eletromagnética se as fontes forem escondidas. Apenas uma condição psicosomática.

Mas não contam para ele. E essa é a parte que e provocou mais, passei a assistir cada episódio, cada novo evento da trama, esperando o momento em que alguém acharia não apenas pertinente, mas irresistível, dizer ao Chuck que a intolerância existia apenas em sua mente. Mas não dizem.. Por quê? No hospital, ficam preocupados com a possibilidade dele acabar em uma ala psiquiátrica, o que ele só iria à força, e seria o fim de sua já quase morta carreira profissional. Mas chegam tantos momentos em que seria plausível contarem a verdade… Mas nunca contam. Eu estava curioso para saber o que aconteceria se dissessem, isto em parte pela minha grande curiosidade a respeito do funcionamento da mente humana. O que aconteceria? Ele pararia de se incomodar? Instalaria lâmpadas na casa, aqueceria seu almoço no micro-ondas e carregaria um celular no bolso como todo mundo? O conhecimento intelectual tem poder de mudar radicalmente o emocional?

Possivelmente não. Possivelmente, pelo que já estudei, acreditaria de forma ainda mais arraigada em sua condição, acharia que os outros conspiram contra ele e elaboraria uma teoria mirabolante para explicar o que aconteceu quando a médica ligou o computador da cama… Talvez por isto os outros não contem. Eles têm medo de como ele vai agir quando souber a verdade. Eles até continuam obedecendo aos rituais, de tirar os celulares e demais aparelhos eletrônicos antes de entrar em sua casa, mesmo depois da médica ter provado que o mal se tratava apenas de efeito nocebo. A verdade?  Platão a superestimou. A verdade não, é melhor até esquecermos dela, antes que comecemos a nos sentir tentados a entregá-la, por compaixão, vamos manter a ilusão, os pós-modernistas tem razão, verdade é mero constructo social, então, por que vamos insistir na verdade quando ela não é mais socialmente conveniente? Inclusive ouço muito coisas neste sentido em respeito à religião, mais precisamente, em respeito à pessoas que acreditam em maluquices, até mesmo que lhes custam tempo e dinheiro, e impõe todo tipo de restrição (como ter que fazer o Enem só após ficar horas em silêncio numa sala com outros iludidos), “ah, mas se ele tá bem assim…”.  Eu acho muito triste esta moda da relativização da verdade, que se tornou forte com a corrupção do pensamento ocidental pelo pós-modernismo. Ser condescendente com a ilusão de alguém, julgar que ele não pode ser feliz de outra forma, é basicamente reduzi-lo a um louco.

Mas e se você fosse louco, os seus amigos avisariam? Avisariam talvez apenas após muita deliberação, e ainda assim muitos seriam contra? Acredito nesta segunda hipótese, e isto só se forem muito seus amigos, e ainda assim só em algumas circunstâncias um tanto quanto extremas. Esconder a verdade é ainda mais provável com não-amigos, que apenas não querem que você encha o saco, e falam o que for preciso para tal. Isto se não se divertirem maldosamente às suas custas. Você só fala abobrinha no escritório, mas todo mundo ouve e finge que entendeu. Não é um pensamento terrível, que todo mundo te trata feito um louco porque, como já virou chavão, “o médico mandou não contrariar”?

Como toda pessoa não-psicopata admitiria, eu às vezes (tá bom, várias vezes) tenho problemas de autoestima, duvido de mim mesmo. Às vezes me pego pensando se eu não estou na mesma situação de Chuck, meus amigos velando o fato de que o que eu falo e escrevo são totais desvarios, que o maior sucesso que eu posso ter é o meu blog acabar na tese de mestrado de algum psiquiatra ou neurologista, como exemplo do que sai quando alguém em estado psicótico delirante acredita estar produzindo algo digno de apreciação intelectual.

Será?

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