filosofia

Caretice

“O passado é um país estrangeiro”, disse o historiador Peter Burke. E, ao que nos parece, um país estrangeiro extremamente opressor nas leis e nos costumes, em que todo mundo era puritano e vivia reprimido, a arte era censurada em nome da moral pública, e em suma, tudo que era bom era proibido (e tudo que era proibido era bom). Hoje lembramos com alívio e uma ponta de escárnio dos meados do século XX, quando Elvis só podia ser mostrado na televisão da cintura pra cima, as mulheres só podiam ir à praia com aqueles maiôs ridículos que cobriam quase o corpo todo, e nos filmes era proibido – dentre inúmeras outras restrições – até os atores falarem palavrão, tanto que até mesmo a frase “Frankly, my dear, I don’t give a damn” (“francamente, minha cara, eu não dou a mínima”) foi complicada de incluir no roteiro de E O Vento Levou.1

No Brasil, como já ouvimos  ad nauseam nas aulas de história, a tacanha censura do regime militar bania tudo que era julgado subversivo ou imoral, e quando uma obra suspeita não era proibida inteiramente, exigiam que o material fosse amputado: Em um caso emblemático, já no finalzinho do período, em 1982, a censura federal obrigou uma gravadora a arranhar as duas últimas faixas de um disco para que pudesse ser vendido, faixas consideradas muito subversivas, perigo à ordem pública. Os filmes frequentemente saíam picotados para excluir tudo aquilo que fosse considerado demais para a cabeça do público. Laranja Mecânica só foi exibido em cinemas brasileiros anos depois de sua estreia na Inglaterra, e com bolas pretas inseridas na película em certas cenas, para cobrir certos detalhes anatômicos dos atores. E na própria Inglaterra, Laranja Mecânica continuou banido dos cinemas e videolocadoras até 1999, mas isto também foi por desejo do próprio Kubrick, que até recebeu ameaças de morte por seu filme…

Naturalmente que, apesar destes factoides serem verídicos, esta visão –  meio idílica meio distópica – do passado construída a partir deles é enviesada e pouco realista… Mas o que eu me pergunto hoje, em meu vigésimo nono aniversário, já sentindo um certo estranhamento quanto ao mundo moderno e suas taras,  é se os jovens do futuro não farão o mesmo tipo de julgamento quanto à sociedade de hoje. Na média, estamos mais livres?

Imagino um diálogo em 2050 de um avô com seu netinho, que eu provavelmente não estarei vivo para presenciar. (ainda bem?)

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filosofia, Política

Marielle Franco

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz. Mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las” – Voltaire

Tenho algumas palavras a dizer sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro. É verdade que não tenho absolutamente nenhuma simpatia por sua linha ideológica, seu partido ou suas ações na política, considero-os uma força retrógrada para o rumo político do Brasil. Mas nada disso tem importância a partir do momento que ela foi assassinada. E mais: Foi assassinada pouco depois de fazer um comentário justo criticando a ação abusiva de policiais no Rio de Janeiro. Na verdade, nem sequer interessa se o comentário foi justo ou não. Ser a favor da liberdade de expressão significa ser a favor de qualquer um falar o que quiser – por mais errado que seja – sem ter de pagar com a vida. Palavras devem ser combatidas com palavras, não com balas. Este crime foi também um crime contra a liberdade de expressão, independente da vítima ter sido ou não uma figura da política. Mas este detalhe também tem uma implicação importante.

Não adianta fingir que o assassinato de um vereador é igual a qualquer outro assassinato, fingir que não é mais digno de nota que o de qualquer outra pessoa. E quero frisar, abomino o PSOL e seus partidários da esquerda pós-modernista, que trabalham para transformar o Brasil na próxima Venezuela. Mas a preocupação não é com eles, e sim com a democracia como um todo. Podemos e devemos combatê-los da maneira certa, civilizadamente, não com sangue. Custou muito para se remover o derramamento de sangue da política. A democracia representativa moderna, do estado democrático de direito, com todas as suas mazelas, ainda é melhor que todas as alternativas. A Modernidade não é uma garantia eterna. Atos primitivos, tais como assassinato político, são algo digno de sociedades retrógradas, como as do oriente médio, que ainda não teve seu iluminismo; e se começarem a se tornar comuns, facilmente ficamos iguais a eles.

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filosofia, história, Humano, Política, Sem categoria, sociedade

Um Manifesto Contra os Inimigos da Modernidade

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LEMONNIER, Anicet-Charles-Gabriel (1812): “No salão da madame Geoffrin em 1755”.

https://areomagazine.com/2017/08/22/a-manifesto-against-the-enemies-of-modernity/

Um dos ensaios mais inspiradores que li em 2017, recomendo a todos que também gostam do mundo moderno. E acredite: Você gosta, mesmo que não tenha nem pensado nisto. Ela trouxe muito mais do que conforto e luxos, e beneficiou muito mais do que os mais ricos. E você certamente não deseja sua destruição. Nosso mundo tem problemas, muitos. Mas estes problemas só serão resolvidos ou diminuídos com mais ciência, política mais democrática e eficiente, mais liberdade individual e mais liberdade de mercado, não com menos. Não tenho qualquer plano mirabolante de como resolvê-los, não sei como exatamente criar um mundo melhor, e ninguém tem. Mas certamente não será fazendo-o mais ignorante, pobre e autoritário. Infelizmente, muitos sabotadores estão tentando destruir aquilo que foi tão demorado e custoso para a humanidade construir. Estou falando dos conservadores – reacionários – teocratas da direita, iludidos por sua idílica imagem de um passado áureo em que tudo era perfeito, bem como dos esquerdistas pós-modernos que acham que o modernismo falhou e estamos vivendo sua ressaca. Nenhuma dessas ideologias trará nada de bom ao nosso mundo.

Os autores elaboraram um sumário em itens com as ideias centrais do ensaio, que traduzi. Leia abaixo. Caso haja interesse, posso traduzir o texto na íntegra, e ficaria feliz de fazê-lo.

  • A Modernidade, em termos das visões e valores que nos trouxeram fora do feudalismo do período Medieval e nos levaram à relativa riqueza e conforto de que que gozamos hoje (e que está rapidamente se espalhando pelo mundo), está sob ameaça de extremos em ambos os lados do espectro político.
  • Vale à pena lutar pela modernidade se você desfruta e deseja que outros desfrutem dos benefícios de uma existência de primeiro mundo em relativa segurança, e com os altos níveis de liberdade individual que pode se expressar em sociedades funcionais.
  • A maioria das pessoas apoiam a Modernidade e desejam que seus inimigos antimodernos se calem.
  • Os inimigos da Modernidade atualmente formam duas facções discordantes – os pós-modernos à esquerda e os pré-modernos à direita – e no geral representam duas visões ideológicas para rejeitar a Modernidade e os bons frutos do Iluminismo, razão, democracia republicana, Estado de Direito, e o mais próximo do que podemos alegar ser progresso moral objetivo.
  • Parceria esquerda-direita é a ferramenta pela qual eles condenam a Modernidade e continuamente radicalizam simpatizantes para escolher entre duas facções beligerantes de anti-modernismo: Pós-modernismo e pré-modernismo.
  • Uma posição centrista “Novo Centro” é bem-intencionada, representa a política da maioria da população, e não se sustenta. Ela é naturalmente instável e reforça o próprio pensamento que perpetua nosso atual estado do que chamamos pelo termo polarização existencial.
  • Aqueles que apoiam a Modernidade devem apoiar destemidamente e sem referência a diferenças partidárias menores espalhadas pela divisa “liberal/conservador”. A luta perante nós é maior que isto, e os extremos em ambos os lados estão dominando o espectro político usual, para o mal de todos.
  • Pode-se lutar pela Modernidade, e isto é provavelmente o que você já deseja, a não ser que esteja nos grupos periféricos de lunáticos à esquerda ou à
    direita.
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ética, filosofia, história, Humano, Política, sociedade

Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza

 

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Estamos vivendo tempos tumultuosos, bárbaros, ao menos em relação com o que nos permitimos acostumar no passado recente. Mais um atentado terrorista na Europa, como de costume uma cortesia da “religião da paz”, e dessa vez na Inglaterra. No Brasil, a nauseante sucessão de reviravoltas da crise política culminou em manifestantes comunistas fazendo protestos truculentos em Brasília, pagos por entidades sindicais, depredando ministérios e até mesmo iniciando incêndios, para reclamar depois que a polícia não foi suficientemente delicada. Reacionários idiotas pedem um novo golpe militar, e a CUT trata de providenciar justificativas. É, as pessoas estão perdendo as estribeiras. A violência está voltando à política de nosso país. Para quem quiser manter a sanidade nestes tempos de barbárie e tentar ver algum sentido, resta estudar, e procurar os autores sensatos. Não, o problema no mundo não é falta de amor: Falta no mundo inteligência, falta razão.

O que não falta ao cientista cognitivo norte-americano Steven Pinker, que em 2011 lançou  Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Como a violência diminuiu. Este é o livro da minha vida. O deleite que tive ao ler as páginas de Pinker, com seu estilo denso, detalhado e preciso, mas tão claro quanto possível, me auxiliaram tremendamente a lidar com uma das piores e mais longas crises depressivas de minha vida. Os Bons Anjos reacendeu meu interesse por história, que eventualmente me levou a cursar uma faculdade de história na qual estou, reacendeu também meu gosto pela leitura (praticamente todos os meus gostos estavam mortos quando estava nesse período), não só a ler mais do mesmo autor, mas de outros que escrevem assuntos correlatos. E não seria exagero dizer, Pinker ajudou a moldar meu caráter, mesmo bem depois da maioridade, suas análises desafiaram minhas noções de ética e meu entendimento de mundo, é o tipo de autor que força você a fazer uma reavaliação dos conceitos.

O título é ousado pois a opinião comum é que o mundo nunca esteve tão violento. Balela. “Tempos áureos” é uma ilusão. As chances de qualquer pessoa em qualquer lugar no mundo sofrer uma morte violenta ou sofrer qualquer tipo de violência – como um roubo, um estupro, ser torturado e executado por pequenos crimes ou recrutado para lutar numa guerra – aumenta quanto mais se volta tempo, assim como também é notável que a sociedade era menos sensível à violência e pouco prezava pela paz.

Claro que Pinker foi acusado de ser uma Poliana, ingenuamente otimista, de ver a atualidade de um jeito muito pink (desculpe, não resisti ao trocadilho), de achar que paz equivale a shoppings com ar condicionado… E pode ter certeza que a grande maioria destes críticos não leram o livro, ou leram sem fazer o menor esforço de entender. Criticar é válido, sempre, mas não com total ignorância do que se está falando.

Pinker não é um “positivista”, que acredita num rumo comum que todas as civilizações seguem, um progresso rumo à paz que seria tão inevitável quanto a entropia do universo. Pelo contrário: Sua análise retrata a paz com um fruto conquistado às duras penas pela civilização. Custou um tanto de sorte. E apesar do mundo, como um todo, estar bem menos violento do que no passado, mesmo em relação a 100 anos antes, não é de maneira alguma homogeneamente pacífico, óbvio, e nem é esta tendência irreversível. Nós temos, sim, motivos para temer com revezes como os dessas últimas semanas. Mas não para nos desesperar.

As análises sociológicas de Pinker são embasadas por rigorosos estudos estatísticos, valendo-se de dados sobre homicídios no mundo todo de séculos atrás, elaborando sua teoria também com base em relatos históricos, da literatura, de achados da arqueologia… Ele não dá ponto sem nó. Ao contrário do que outros críticos disseram, fazendo a imortal falácia ad-hominem, Pinker não acha que o mundo se restringe ao seu confortável ambiente acadêmico norte-americano,  ele não ignorou ou menosprezou a violência nos países em desenvolvimento, mas procurou entender o que deu errado neles e o que poderia ser feito para melhorar.

Não se preocupe, o livro não é extremamente complicado, e não precisa ser bom em matemática para entendê-lo, ou eu mesmo não teria entendido, mas precisa de atenção. O mérito do autor é ter se baseado  em ciência. Sim, ele pode ter cometido equívocos (e num estudo desse tamanho, dificilmente não se comete erros), e ninguém jamais deve estar imune à críticas. Mas definitivamente estes possíveis erros não foram por desonestidade, ou por nem estar tentando trabalhar sério, ou seja, por falta de uma metodologia rigorosa. E o que não falta por aí são análises sociais baseadas em achismo. Mas para os rabugentos, achismo é o que vale, só o fato de se basear em números, ainda que parcialmente, já é um erro. Comentou o Pondé :”Mesmo a “estatística do bem” só convence quem crê em estatística aplicada a seres humanos. ” Claro, Pondé, estatísticas são uma besteira, vamos interpretar a sociedade de acordo com a bíblia, como você julga mais correto, isso sim é inteligente.

Recomendado a todos que se interessam por história, psicologia, sociologia… Pensando bem, recomendado a todos  que queiram algum motivo para compreender com lucidez nosso mundo, sem cruzar os braços num cômodo derrotismo, ou tolo de achar que tudo vai se resolver pela bondade de deus.

Título original: THE BETTER ANGELS OF OUR NATURE
Tradução: Bernardo Joffily
Laura Teixeira Motta
Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio
Adriano Guarnieri / Máquina Estúdio
Páginas: 1088
Formato: 16.00 x 23.00 cm
Peso: 1.380 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 28/03/2013
ISBN: 9788535922325
Selo: Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13271

 

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geek, Internet, Segurança e Privacidade

O “Enorme” Perigo dos Pedófilos da Internet

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Para quem se informa apenas pela televisão, a internet parece ser uma espécie de mundo tenebroso onde habitam “hackes”, “piratas” (pessoas que compartilham arquivos), terroristas, e, acima de tudo, pedófilos, sem falar dos games que “treinam os jovens para se tornarem assassinos”. Mas os pedófilos da internet são, de  longe, o perigo mais alardeado. Ou ao menos costumava ser assim há poucos anos atrás, talvez eles já tenham se dado por vencido.

Apenas um caso fácil de entender da velha mídia demonizando a nova mídia. A televisão, mais ainda a TV aberta, perde interesse cada vez mais entre jovens. A própria televisão era vista com alardes pelos velhos moralistas até os anos noventa, mas hoje quem mais vê TV é gente velha mesmo.

E vendo TV Globo e TV Record, parece que basta uma criança ligar um computador que começarão a pular pedófilos da tela para agarrá-la e sodomizá-la. A TV tem uma capacidade enorme de exagerar a proporção das coisas. Eu sei que falar que a mídia manipula é cliché, mas você não precisa acreditar em mim. A grande maioria dos casos de abuso sexual infantil, 80%, são de alguém da própria família, esta estatística vem da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente, e foi divulgada, inclusive, na Record (não no telejornal, claro). Abusos por padrastos ocorrem muito mais do que pais, devido à aversão natural que as pessoas sentem ao incesto, e, como explica o psicólogo da Harvard Steven Pinker em seu livro Como A Mente Funciona, abuso sexual infantil geralmente parte de adultos que não viram e acompanharam a criança crescendo, e padrastos que casam com a mãe quando a criança ainda é muito pequena, e são presentes na criação, geralmente não abusam.

Mas a maioria dos casos é de familiares mesmo (tios, primos mais velhos, etc.), seguido por pessoas fora da família mas próximas à criança e a família de alguma forma (padres sendo o exemplo mais famigerado). Abuso por estranhos, por predadores sexuais caçando crianças em salas de chat, é o que menos ocorre. O problema nem está aumentando, o que está aumentando, devido à medidas de conscientização, são as denúncias, mesmo uma organização de combate à pedofilia faz questão de frisar este fato. O problema é menor do que parece, mas não inexistente, claro. Mas, mesmo quando o abuso não vem da família, ele poderia facilmente ser evitado pela família.

Outro dia vi uma notícia de um pedófilo que foi preso por pedir para uma menina de 9 anos mandar fotos de si mesma pelada, e depois ameaçar divulgar essas fotos. Mas o que eu me perguntei na hora foi: Por que diabos ela tirou e mandou as fotos? A mãe e o pai não ensinaram que isso não se faz? A história de que as crianças não ligam para o que os pais dizem é só até a página 3: Nem todas as crianças e adolescentes tem personalidade rebelde ou desobediente, e mesmo os que tem podem acreditar quando os pais dizem que algo é perigoso, se a comunicação entre eles for boa, e se for bem explicado (dizer “não faz isso que papai do céu não gosta” não vale). Muitos destes casos de abuso de menores por predadores sexuais na internet mostram que os pais nem se preocuparam em educar a criança sobre como se prevenir sobre perigos comuns, bom e velho “não fale com estranhos”. E mais ainda, não mande nudes para estranhos.

É uma questão de dizer que qualquer um pode se passar por qualquer um na internet, e jamais se deve tirar fotos de si mesmo nu, menos ainda para mandar por estranhos. Falando de estranhos, a indicação deveria ser de cortar a conversa imediatamente e relatar à família se algum assunto impróprio surgir. Conhecer em pessoa, de jeito nenhum. Eu sei que não é tão simples explicar isso pra uma criança, mas definitivamente não é impossível, e se você for pai, deveria saber como.

Antes que queiram me crucificar, eu não estou dizendo que a “culpa” é da família, não quero “culpar a vítima”. Eu apenas quero conscientizar quem quer que leia este post e, talvez, evitar mais um caso de abuso de criança. Veja bem: Se você estiver caminhando com um caríssimo relógio Rolex no pulso de madrugada no centro de São Paulo e o tiver roubado, mas o ladrão for pego, quem será preso será o ladrão, a culpa, pela lei, é dele e não sua (se o bem for assegurado a história muda um pouco, mas isto não vem ao caso). Mas você provavelmente vai ouvir muitas críticas dos seus amigos e familiares, não porque a culpa foi sua, mas porque seriamuito fácil ter evitado sofrer o roubo: Não vá ao centro de São Paulo de madrugada com um Rolex no pulso.

Da mesma forma, aliciamento de menores pela internet pode ser facilmente evitado com educação para coisas de bom senso e acompanhamento dos pais, mas tem uns que parecem nem fazer ideia do que pensam e fazem os filhos. Tem mãe que é cega, e pai também.

Pedofilia também é frequentemente usada como desculpa por quem é contra a criptografia e outras ferramentas de proteção de privacidade, o que é uma desculpa esfarrapada de governistas, para o governo não perder o poder de te vigiar e controlar. Seguindo esta lógica ao extremo, todas as famílias deveriam ser obrigadas a instalar câmeras dentro de suas casas que podem ser acessadas pelo governo 24h por dia, para evitar violência doméstica. Não trate privacidade com um privilégio sacrificável por uma “nobre causa”, mas como um direito fundamental.

Uma mensagem criptografada fica descriptografada em no mínimo dois pontos: No remetente e no receptor, se não, não serviria como mensagem. Não importa o meio de comunicação ser criptografado (por exemplo o Telegram, Signal ou Wire) se a vítima (a criança, ou um responsável vigiando a criança) souber que está sofrendo assédio interromper a comunicação imediatamente, além  de oferecer as mensagens do próprio aparelho como evidência. Conversas com estranhos por aplicativos com mensagens que se autodestroem, como o SnapChat, devem ser totalmente proibidas para as crianças. Aliás, muitos destes predadores sexuais não são tão espertos assim, não são experts em criptografia, nem perto disso. Um ex-BBB com o alcunha pra lá de sugestivo Barba Azul foi preso porque aliciava menores conversando pelo Facebook.

Há quem aposte em softwares para vigiar tudo que menores fazem em seus computadores e celulares. Eu não vejo com bons olhos programas de espionagem da vida digital de adolescentes e mesmo de crianças, pois eles também desejam privacidade. Penso que muitos destes programas são instalados apenas por motivo de moralismo barato (não quero que meu filho veja sacanagem), e por pais negligentes que não conversam com os filhos, nem os educaram bem, mas querem sentir que estão fazendo alguma coisa para protegê-los. Se você é pai e está revoltado com este post, pense bem, eu não quero que você se sinta um merda, ninguém ganha nada com isso, só que mude de atitude. Nunca é tarde para mudar.

Falam também que a internet (especialmente com anonimato) facilita o acesso e a troca de fotos de pedofilia. Isto também não é desculpa para proibir as pessoas de protegerem a própria privacidade. A polícia consegue desmantelar grupos de pedofilia na internet com técnicas como convencer os criminosos a instalar Spyware, se passarem por crianças para marcar encontros, e com a milenar técnica de infiltrar agentes secretos nos grupos alvo, que aliás foi como a Polícia Federal encontrou 10 suspeitos de terrorismo neste ano. E terroristas geralmente usam Telegram, cujo protocolo, mtproto, apesar de tratado com muito ceticismo por criptógrafos, jamais foi quebrado. Então não, ferramentas de privacidade em geral não tornam impossível o trabalho legítimo de agentes da lei em proteger pessoas, apesar de nos protegerem de métodos de vigilância em massa automática e indiscriminada como a que a NSA praticou e provavelmente ainda pratica, deste assunto tratarei em outro post.

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Educação, filosofia, sociedade

Todo Mundo Deveria Fazer Universidade?

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Acredito que não, o diploma de ensino superior é supervalorizado no Brasil, e para muita gente é perda de tempo e dinheiro. E olha que sou formado, e pretendo fazer outra faculdade ano que vem. Mas nem todo mundo é igual a mim (graças à Zeus).

Eu sei que muita gente poderia tirar grande proveito de um curso universitário, colaborando para a própria carreira e também com a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, mas não podem fazer um curso superior por condições econômicas e sociais adversas, e isto realmente é uma lástima, é bom que estas pessoas tenham ajuda. Mas, ao mesmo tempo, sei que muita gente que não fez faculdade provavelmente nem deveria fazer.

Parece que ensino superior é uma coisa “obrigatória” em nossa cultura, as pessoas sentem-se compelidas, em vários círculos sociais, a fazer alguma faculdade, qualquer faculdade que seja, se já forem adultas e não tiverem feito. Se você fala pra alguém que não fez ensino superior, já olham na sua cara tentando adivinhar o que deu errado na sua vida. Se for mulher, vão achar que é porque engravidou na adolescência, se for homem, que era um vagabundo que vivia matando aula pra fumar maconha. Mas este preconceito é injusto e idiota (como a maioria dos preconceitos) e eu não penso que, à priori, tenha que acontecer algo “errado” na vida de uma pessoa para ela não fazer faculdade.

Pense que você é um menino que é bom de mecânica, aprendeu com o pai desde pequeno, fez até um curso técnico no ensino médio, e passou a ajudar o pai na oficina. Mas aí vem os parentes que vão dizer “não, mas você tem que fazer ADM pra tomar conta da oficina quando o pai se aposentar”, independente do pai saber muito bem administrar a própria oficina há décadas e ter passado isso pro filho também.

Aí o rapaz vai entrar numa UniDaEsquina qualquer, dessas instituições de ensino que anunciam cursos como se fosse financiamento de veículo, vai trabalhar o dia todo, e, estressado, à noite, ao invés de poder chegar em casa, jantar, e assistir TV tomando uma cerveja bem gelada, vai ter que ficar sentado na cadeira de uma sala abafada ao som do ventilador que só faz barulho mesmo e também ao som, ainda mais desagradável, do lerolero teórico inútil de algum sujeito qualquer que a faculdade chamou pra dar a matéria, e muitos desses só vão ficar passando e lendo apresentação de PowerPoint.

Claro que você poderia dizer “se tivesse estudado mais na escola, ele poderia ter entrado numa boa faculdade”, mas e se ele preferia trabalhar para ganhar uma grana, ou simplesmente não gostava de estudar? Merece o fogo do inferno por isso? Há pessoas que falam de um jeito que parece deixar subentendido que sim, que quem não gosta (muito) de estudar, e estudar matemática de preferência, é necessariamente inútil e merece a miséria. Discordo enfaticamente. Se simplesmente não ter diploma de ensino superior num país for algo que condene alguém a ser pobre, isto é um sinal de uma economia péssima, não “justiça divina” como alguns idiotas dizem. E nem acho que a sina seja esta no Brasil, não necessariamente. O mecânico faz uma atividade extremamente útil e necessária, assim como o barbeiro, o encanador, o cozinheiro, e tantos outros que não precisaram de diploma de ensino superior para fazer algo útil, e aprenderam mais com a experiência ou com cursos curtos e pragmáticos. Não seria melhor deixar eles relaxarem depois de um dia exaustivo de trabalho?

Aliás, ensino técnico é algo que deveria ser muito mais valorizado na educação brasileira, escolas técnicas não deveriam ser especiais, deveriam ser o padrão. As escolas dos EUA (e outros países desenvolvidos), ao contrário do que muitos pensam, não servem apenas para os alunos serem massacrados por maníacos armados, lá os alunos tem uma disciplina chamada “economia doméstica” que ensina coisas necessárias ao dia-a-dia, e aprendem a dirigir na escola mesmo, não tem a indústria da auto-escola.

Dei o exemplo do curso embusteiro de administração, mas existem muitos outros, e a indústria do diploma no Brasil parece ser sustentada por gente que vai estudar de má vontade e acaba  como um profissional medíocre e endividado. E os cursos de informática, sobre eles eu posso falar por experiência própria: Grande parte deles, em faculdades públicas e privadas, são pura enrolação, você vai concluir o curso (se não estudar muito por conta própria) com conhecimento “avançado” pra fazer um jogo da velha em Java e páginas HTML feias, e o que o mercado vai valorizar mesmo (além da experiência, claro) são certificações como as da Cisco, Microsoft, Oracle, LP 1 e 2 e etc. As faculdades valem mais pelo networking do que qualquer outra coisa.

Pra não dizerem que sofro de complexo de vira-lata, nos EUA também há uma indústria do diploma, ou, como eles chamam “diploma mill” (moinhos de diploma). Muitos são cursos por correspondência com demandas para lá de flexíveis para com os alunos, procurados por pessoas que querem grau superior apenas para ganhar uma promoção no trabalho sem fazer nada, e são completas falcatruas. Outras tentam atrair estudantes de boa fé, mas esses acabam descobrindo, tarde demais, que a tal universidade nem sequer é credenciada para conceder grau. Donald Trump foi dono de um desses moinhos de diploma, a Trump University, que a Justiça do estado de Nova York obrigou a tirar o University do nome. Recentemente, ele concordou em pagar 25 milhões de dólares para encerrar uma longa disputa judicial envolvendo a “universidade” fraudulenta. O sujeito tinha um exército de operadores de telemarketing treinados com uma detalhada retórica maliciosa (lembra Lobo de Wall Street?) para convencer pessoas a entrarem para a Trump University nem que tivessem que vender a própria mãe para pagar o curso, garantia de ficar rico que nem o Trump depois da formatura. Tão diferentes das nossas faculdades de esquina daqui?

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ética, filosofia, Política

“Democracia só é boa quando eu ganho”

Eu sei que esse tipo de pensamento é execrável, e vemos várias demonstrações de pessoas que parecem ser movidas por ele, de todos os lados do espectro político, seja quando a Dilma ganhou, ou quando a Dilma sofreu impeachment (100% dentro da lei, mas como a presidente cassada era de esquerda, chamaram de golpe) e agora com a vitória do Trump, com demonstrações não exatamente pacíficas dos eleitores democratas, para deixar bem claro que esta ideia de que os EUA têm um partido “do bem” e outro “do mal” é bem idiota. Sonserina e Grifinória só existe no mundo do Harry Potter.

Mas afinal, quem gosta de verdade  da democracia? No fundo, ninguém que tenha fortes convicções políticas “extremistas” gosta de democracia. Pessoas mais moderadas ou apolíticas em geral são sinceramente a favor da democracia. Mas se você acha, por exemplo, que toda política que não for de esquerda só serve para tornar o povo mais explorado pelas elites gananciosas, então, para você, uma vitória da direita é simplesmente um passo na direção errada. Para ser democrático, você tem sempre que admitir a chance de estar errado e o seu oponente poder ser melhor, ou pelo menos que a democracia em si é mais importante que o seu ideal político.

Quando se lê um texto como este do site do libertário Lew Rockwell defendendo que a democracia é a pior forma de governo de todas, ou o livro de outro libertário, Hans Herman Hoppe, entitulado Democracia: O Deus Que Falhou pode pensar que a ideia é elitista, tirânica, só poderia ter saído da cabeça de um porra louca de um anacap. Mas leia bem. No fundo, todo extremista pensa a mesma coisa: Democracia é uma perda de tempo, é ceder espaço para um lado que está errado, e permitir que ele torne a sociedade pior, o povo é burro demais para saber o que é bom para si, e a alternância de poder incentiva governantes a visarem progressos apenas temporários.

E o que penso?

Primeiro, quero deixar claro que nem toda ideia “extremista”, ou considerada extremista, é ruim, muitas vezes, tomar uma atitude moderada é que é errado.

Mas eu não me considero libertário. Sou mais a opinião de Winston Churchill do que de Lew Rockwell. Falando de Brasil, eu não faço ideia do que seria melhor para o Brasil no momento além de manter a democracia, por mais que, pelo visto, esta forma de governo só funcione relativamente bem em países com um nível de educação muito bom (e os EUA já estão dando sinais de que não pertencem a este rol de países). Mas o que seria melhor para o Brasil? Devolver o poder aos descendentes de Dom Pedro II? Derrubar o Estado, como querem os libertários mais radicais, assim o síndico do seu condomínio e o seu chefe terão poderes de príncipe absolutistas enquanto em suas propriedades? Nesta república das bananas, parece que estabilidade política é a melhor opção, por agora, nenhum de nosso radicalismos tem cara de que levará a um bom futuro.

Quanto ao resto do mundo, não sei. Cada caso é um caso. Mas, ao contrário do que apregoam os pós-modernistas com seu relativismo imbecil, da mesma forma que alguns países são mais ricos em PIB do que outros, os países também não são iguais em outras riquezas, alguns são sim superiores moralmente e intelectualmente do que outros, e provavelmente alguns países estariam melhor enquanto governados com interferência externa, uma espécie de tutela, para que não se arruínem. Os EUA, após invadirem o Iraque e deporem seu ditador, praticamente abandonaram o país com sua democracia, seus governantes eleitos em governos provisórios, e olhe no que deu. O Oriente Médio é uma coisa horrenda, a região mais atrasada do planeta, verdadeira amostra de Idade Média em século XXI. Seguro dizer que, nestes países, qualquer “democracia” foi apenas uma alternância de ditadores. Deixe eles escolherem tudo na base do voto popular, e eles votam pela lei da sharia. Um monarca esclarecido seria melhor. Só não me perguntem onde achar um.

Veja o que aconteceu em vários países da África do século XX, que até mais ou menos a década de 60 eram colônias de países europeus. Estas autoridades coloniais, por mais exploradores que fossem, ao menos sabiam administrar um país decentemente. São expulsos com revoluções como em Angola e Moçambique, e entram governos horrorosos estabelecidas por milícias locais, capengas, alguns mais “democráticos” que outros, mas todos acabaram sendo países com mais baixos índices de desenvolvimento humano do mundo atual, e em muitos deles, como nos dois que citei, as guerras nem acabaram após a independência. Democracia não é uma pílula mágica que traz justiça e felicidade para todos, como parecem querer dizer naquelas propagandas do governo em época de eleição.

Sou relativamente bem informado no assunto, mas não sou especialista em geopolítica, e não tenho solução definitiva para resolver estes problemas (aliás, quem tem?), mas acredito que quanto mais cedo nos desprendermos dos delírios relativistas do pós-modernismo, quanto mais cedo pararmos de fingir que todos os povos igualmente capazes de ficar bem se governando democraticamente, melhor.

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