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Gordofobia

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Quem lembra da série de TV Lost? Esta série marcou o início de um renascimento dos seriados de TV na década passada. Uma trama densa, repleta de detalhes e simbologias à lá Dan Brown, entregue em longas temporadas com episódios sequenciais. As séries de TV que mais faziam sucesso nos anos 90, como Arquivo X, eram principalmente em episódios “soltos”, que podiam ser assistidos sem depender muito de saber o que tinha acontecido nos anteriores, às vezes com uma curta recapitulação antes de cada episódio. A popularidade de Lost se deveu à algumas novidades tecnológicas do século XXI, como a popularização dos DVDs, que eram compactos e baratos o bastante para as pessoas comprarem e guardarem em casa ocupando muito menos espaço de prateleira do que seria em VHS, além de serem muito mais resistentes ao desgaste (leia-se: não mofavam). Este é o tipo de obra que não dá pra perder episódios e ter uma experiência satisfatória. E assistindo mais de uma vez o mesmo episódio, pode-se pegar detalhes. Com a internet já popularizada, os fãs podiam se reunir em fóruns de debate na internet e discutir o significado de todos os acontecimentos.

O personagem Hurley era um dos mais divertidos da série. Mesmo que você não tenha visto Lost, já deve ter percebido pela imagem deste post o porquê. Com obesidade grau 3, no linguajar endocrinológico, ele frequentemente servia de alívio cômico, e era um dos principais alvos de piada do sem-noção Sawyer. Era sim um cara muito útil, e importante para o desenrolar da trama, também com suas qualidades de caráter. Uma das teoriasnão assisti até o fim, desculpe mais aceitas de Lost quando estava em seu auge era que a ilha era uma espécie de purgatório, e os personagens lá estavam para serem testados, para provarem ou não serem capazes de se redimir.

O vocalista Charlie, por exemplo, era viciado em heroínaeu nunca entendi por que ele comia heroína, e não injetava, uma droga potente, que causa aos usuários uma onda de euforia e relaxamento incomparável à qualquer outra coisa no mundo. Já ouviu de alguém que anestesia para endoscopia é a sensação mais orgástica do mundo? É um “parente”, o propofol. Em dado momento, Charlie acha estátuas de santas na ilha, com saquinhos de heroína dentro. E poderia ter recaído, não fosse a intervenção do personagem John Locke. E o Hurley é viciado em comida. Que não é um vício simples, nem pouco danoso.

Como funcionam as drogas? Muitas delas, como morfina, seu derivado de alta potência, a heroína, e as formas sintéticas (mas não a cocaína, que tem um mecanismo diferente) imitam alguma substância natural, endógena do corpo. Endorfina originalmente significa “endogenous morphine”, morfina endógena. O seu corpo produz endorfinas em resposta a estímulos satisfatórios, como após uma longa corrida, uma relação sexual, uma refeição muito saborosa. A mente registra uma experiência como boa quando há uma grande descarga de endorfina no sistema límbicoa dopamina, pelos estudos mais recentes, parece estar mais ligada à expectativa de prazer do que ao prazer em si. Um mecanismo evolutivamente perspicaz: Leva organismos a fazerem mais coisa que os levam a viverem mais e se reproduzirem mais, passando adiante os genes com estas mesmas inclinações. Uma anomalia na produção e transmissão de endorfinas podem ter a ver com o transtorno obsessivo-compulsivo: A pessoa não tem o sinal de “saciedade” ao completar uma tarefa, como lavar as mãos. A morfina e seus derivados são um “cheat code”, imitando a estrutura molecular das endorfinas ela ativa os receptores para endorfinas, e uma ativação muito mais intensa e prolongada. Prazer puro, destilado, e sem complicações.

E a comida? A comida que a gente adora, aquelas frituras transbordando de sebo, picanha com gordura na borda, chocolates pra levar a sua glicose pra estratosfera… Eram impensáveis para o homem primitivo e seus ancestrais mais primitivos ainda. Seguro dizer que ninguém morria de diabetes tipo 2 nas cavernas. O pouco de gordura e açúcar disponível na natureza era fundamental para sobreviver, e era difícil e perigoso de obter, um mecanismo biológico de recompensa foi necessário para levar o hominídeo a arriscar a pele caçando um mamute ou roubando favos de mel da colmeia, e era bom que a recompensa fosse grande.

Por muitos séculos, calorias foram raras para a maioria dos homens. Até a industrialização, a economia de mercado e as novas técnicas agrícolas do século XX. Atualmente, milhões ainda passam fome. Mas mesmo nos países pobres, calorias são baratas para muita gente.

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O post tá dando fome? Que tal um lanche leve para não engordar? Cortesia do meu querido Zangado

E aquelas substâncias que os homens das cavernas se matariam para obter em uma minúscula quantidade? Um monte dela, toneladas dela, no McDonalds ou na barraquinha de lanches da esquina, ou do tio Zangs. O seu sistema límbico, que faz parte da região mais primitiva do cérebro, pouco se importa com o contexto. Você grita e esperneia numa montanha russa mesmo sabendo que está seguro. E se delicia com um hambúrguer mesmo sabendo que aquilo não te faz bem, mas o sistema límbico é indiferente e te dá prazer, muito prazer. De muitas maneiras, é melhor que as drogas. Praticamente todas as drogas de abuso provocam tolerância, o usuário tem cada vez menos prazer com o uso contínuo, e começa a procurar drogas só para sanar os sintomas de abstinência. Com comida, e especialmente com “porcaria”, não tem tolerância, hambúrgueres e brigadeiros continuam sendo deliciosos sempre. Caso se enjoa de uma comida, há sempre muitas outras opções. Podemos culpar quem se vicia nessa maravilha? O Izzy acha que sim.

Sobre as modelos plus size, quando foi lançada a classificação, se bem me lembro, era bem diferente: As modelos plus size nas passarelas só não eram esqueléticas. O padrão da beleza na moda costumava ser não só só irreal, mas patológico, e não foram poucas as meninas que até morreram tentando chegar nele, diria que o protesto contra isto era justo. E sinceramente, você realmente acha linda uma mulher que é só pele em osso? Podia servir para vender roupa de grife, mas não sei se a maioria dos homens heterossexuais acham realmente linda uma mulher que não só é magra, mas excessivamente magra.

Mantendo tudo mais constante, o que parece bonito às pessoas são sinais de saúde. Corpos desproporcionais são feios. Os nossos instintos são sábios ao suspeitarem que uma pessoa muito magra ou muito gorda não é saudável. E não dá pra reprogramar o que as pessoas acham bonito ou não. Não é, portanto, a mídia que ensina às pessoas o que elas devem achar bonito, como os panacas foulcaultianos pensam, na verdade são as pessoas que se atraem por esta ou aquela característica e determinam o que querem ver. As modelos plus size do começoplus size raiz? eram muito bonitas, em minha opinião. Mas esta aí que arrumou treta no avião… Sério, que gorda escrota. Tão grande quanto o Hurley, mas sem um pingo do carisma do personagem, barraqueira e intrometida. Retrato perfeito do politicamente correto e seus guerreiros.

Eu mesmo sou bem paranoico com questões de privacidade. Se uma figura dessas tira fotos das mensagens privadas que eu estou trocando durante um voo e depois vem tirar satisfação comigo, sou capaz de dar um soco na cara da infeliz justiceira social. Agora não só temos que respeitar os gordos, temos que nos refrear de achar obesidade algo ruim, feio ou insalubre, fazer de conta que está tudo bem em nome da autoestima. Se antes o padrão de beleza nas passarelas era doentio e irreal, o que os justiceiros sociais querem por no lugar é doentio e irreal também. E ai de quem discordar, mesmo que em privado!

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Certa feita, alguém mandou essa imagem pro grupo de WhatsApp da minha turma da faculdade, e os “lacradores de plantão” começaram a reclamar da gordofobia no grupo. E pior que eles eram magros.

Mas o Izzy é escroto pra caralho em uma parte de sua argumentação. Existem duas atitudes que um gordo pode tomar quanto à críticas e deboches à sua forma física:

  • “Você é preconceituso, gordofóbico preso à padrões de beleza do sistema capitalista! Não existe peso saudável, existe saúde para todos os pesos, saúde é relativa, beleza é relativa também, todo mundo tem sua beleza, e uma pessoa de 150 quilos também é linda…” queima pós-modernista de merda.
  • “Sou gordo mas isto é problema meu, não me enche o saco, é o meu corpo e não é você que paga minha comida, e nem estou pedindo pra você dar pra mim. E mais: Sou gordo mas posso emagrecer. E você, que é feio?” Perfeito, faça assim.

Claro que o Izzy tira a velha carta do “a sua obesidade influencia indiretamente nos custos da saúde pública” o que eu responderia com um curto e grosso foda-se. É com esta frase que se justifica cercear toda e qualquer liberdade. Tudo influencia indiretamente nos gastos públicos. O problema do estado babá não é só que ele toma dinheiro de todo mundo para pagar certos serviços, mas ele achar que por isso tem o direito a tutelar a vida privada de seus indivíduos, e os serviços oferecidos pelo mercado, para eles não serem onerosos ao sistema público, como foi em São Paulo com a grotesca lei que proíbe refil de refrigerante em lanchonete. Mas sempre têm as ovelhinhas bem comportadas que se põe a balir em favor das regulamentações “bééé, é para o bem de todos, béééé”, como aqueles que aceitaram de bom grado até a imposição do bizarro padrão de tomadas brasileiro em nome da segurança, e aceitam que o Estado diga o que é bom ou não para você e tutele a sua rotina.

E pior ainda: Acham que isso é motivo para importunar as pessoas. O cara no avião estava só falando privadamente com um amigo dele sobre a gorda do lado, ele não estava a humilhando ou ofendendo de maneira alguma, nem a obrigando a perder peso, e nem estava incomodado com o simples fato dela ser gorda, mas da banha dela estar invadindo o espaço da poltrona dele.  Mas há alguns que vão bem mais longe que o cara. Desconfie sempre desse tipo de gente, o valentão com boas intenções: Vou encher o saco do gordo pelo bem da saúde dele. Eu absolutamente não sou a favor de impedir estas pessoas de se expressarem e serem escrotas na vida digital e fora dela, isto é, de impor sanções legais à elas, deixe a lei fora dos debates, mas eu também sou livre para expressar quanto elas são desprezíveis.

As pessoas sempre trocam saúde por prazer, e tomam escolhas de vida pouco saudáveis em nome de outras coisas. Ninguém diz a um estudante que vara noites sem dormir estudando a matéria de seu curso que ele é um burro ou irresponsável por estar destruindo a sua saúde e bem-estar emocional desse jeito, podem até criticar o jeito que está levando a vida, mas sempre com muita gentileza e compreensão, ele é um exemplo, só exagera um pouquinho. Você pode detonar a sua saúde só se for produtivo, fazê-lo por prazer não pode, é imediatamente taxado de burro e execrado, como é com os fumantes, não basta que eles não possam fumar do seu lado e obrigá-lo a respirar a fumaça tóxica, é preciso também deixar claro que são a escória da humanidade. Até o tempo que os pais passam em companhia dos filhos, que não faz mal algum à saúde, precisou se “gourmetizado”, apelidado de “tempo de qualidade”, para as pessoas terem o direito de passar o tempo com os filhos, só pode se for de alguma forma produtivo.

E a escolha? O Izzy diz que todo mundo é livre para ser gordo ou não, que ninguém é coagido a comer demais ou a fazer exercício de menos. Bem, num sentido de liberdade, sim, você é livre, e é esta a liberdade que o Estado viola ao impor leis dizendo que a lanchonete não pode te deixar encher o copo gratuitamente. Isto basta, esta liberdade “virtual”, quando uma pessoa mentalmente sã faz algo sabendo o que está fazendo sem violar o direito de terceiros, e é capaz de entender as consequências. Mas poderia dizer que nenhum gordo é digno de alguma compaixão ou simpatia por sua forma física, ou mesmo digno de ser deixado em paz? Assim como os “zumbis” da cracolândia tem que ser deixados para morrer na sarjeta e ninguém precisa ter pena, porque escolheram aquilo, como muitos pensam? Ou que uma mulher que engravidou por não usar contraceptivos deve ser obrigada a levar a gravidez até o fim, e bem feito? Essa linha de pensamento é correta?

Eu não defendo essa babaquice. Por obséquio, pelo menos seja um babaca autêntico, não um babaca que diz “é para o seu próprio bem”. Falando apenas dos gordos, quantas coisas não interferem para alguém ser obeso? Não, eu não acredito neste absurdo de “livre-arbítrio”, liberdade derradeira e absoluta que independe das circunstâncias. Mesmo que a gordice não seja justificada por causas genéticas que alterem a função metabólica ou coisa que o valha, tem mais por trás… A pessoa nasceu sem receber educação sobre alimentação saudável, ou tem um autocontrole baixo, que não dá conta de frear os impulsos primitivos que clamam por mais gordura ou açúcar, ou detesta fazer atividades físicas,   ou a comida é uma ótima válvula de escape para certas frustrações… Ou ela simplesmente gosta!

Você pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quiser. A política do bullying público de gordos não me parece nada legal, vamos fazer você fazer um merda de indivíduofat shaming até você começar a fazer exercícios e comer menos. E se eu não quiser? Eu mesmo sou gordo. Não peço a ninguém que faça de conta que a minha condição física é saudável, muito menos que achem minha barriga bonita, e tão pouco peço para alguém se abster de fazer memes sobre o assunto. Piada é piada, gordos estão perdendo o senso de humor e isto é um problema. Mas eu não sou obrigado a perder um tempo do meu dia correndo numa esteira ou levantando ferro porque alguém acha que é meu dever, não amigo, minha consciência não vai pesar por isto. Ah, e se uma série de TV faz um personagem gordo simpático, mas sem apontar os problemas disso? Deixe. Arte com responsabilidade social é um saco.

Na verdade, não só as pessoas aporrinham os gordos que não se preocupam em emagrecer, mas aqueles que não querem emagrecer de uma maneira tradicional, difícil. Vá à seção de comentários de qualquer notícia falando de algum novo remédio para emagrecimento, como o Saxendaque eu uso e só não recomendo por infelizmente ser muito caro ou sobre lipoaspiração, que você verá o comentário dos magros rabugentos “humpf, e academia que é bom nada, né?”. Claro, senhor magro azedo, agora eu tenho que fazer tudo da maneira mais dura, espartana, porque você não se conforma que eu faça de uma maneira mais fácil mesmo pagando do meu bolso. As pessoas tem vidas chatas e corridas, mas sempre vem um rabugento dizendo que você é obrigado a deixá-la pior ainda: Ir segunda de manhã para o trabalho é uma merda, e você deveria também ir de bicicleta, para chegar cansado e suado à reunião. E também deveria trocar o elevador pela escada e o controle da garagem pelo controle manual em nome da balança, e não pode ter uma refeição deliciosa em nome da dieta. Vigilantes do peso, por gentileza, se conformem em vigiar o próprio peso.

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Devemos Queimar Bojack Horseman? Um Ensaio Sobre Liberdade.

“Voluntarioso, colérico, arrebatado, extremado em tudo, de um desregramento de imaginação quanto aos costumes como igual nunca houve, ateu até o fanatismo, eis em duas palavras como eu sou; e repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.

Bojack é um cavalo. E um homem. Ou algo entre essas duas definições. Na série de animação para adultos de mesmo nome, que se passa em uma versão fictícia psicodélica de Hollywood, alguns personagens são humanos normais, como a escritora Diane e o faz-nada Todd, e alguns personagens são animais antropomorfizados (com forma de humanos) como o próprio Bojack, o cavalo ator (ou seria um ator cavalo?), assim como sua agente e parceira sexual ocasional Princess Caroline, o colega ator Mr. Peanutbutter, um labrador amarelo, que Bojack detesta, e maldosamente tenta prejudicar mais de uma vez, mas Mr. Peanutbutter parece não perceber ou não se importar, e trata Bojack como amigo mesmo assim.

Nesta série, maluca, às vezes cômica, mas muito séria e trágica essencialmente, os personagens se tratam mais ou menos como iguais independente das espécies, apesar da personalidade e nome de muitos deles fazer lembrar os animais, como Mr. Peanutbutter (Sr. Manteiga de Amendoim), que tem um nome de animal de estimação e aquele jeito bobalhão simpático, sempre alegre e amigável, típico dos labradores. Bojack, por sua vez, é um decadente ator deprimido e um tanto quanto narcisista (as duas condições não são auto excludentes), que apesar de ainda ser muito rico, já não faz papel em filmes ou séries de TV há muitos anos, e vive das glórias do passado, é viciado em assistir episódios da sitcom Horsing Around, dos anos 90, na qual foi protagonista, papel que o levou ao estrelato e o enriqueceu. Adora beber, fuma também, e tem um relacionamento para lá de difícil com os outros personagens, é deveras indelicado e insensível, para dizer o mínimo, apesar de se magoar também, e mais de uma vez se preocupar com outras pessoas, além de definitivamente ter sentimento por elas, inclusive um amor platônico por uma veada que trabalhou na produção em seus tempos de TV.

Tudo isto é bem humano, e talvez você se lembre de algumas pessoas que já conheceu que tenham estas características. Ah, mas ele também tem cara de cavalo, corpo de cavalo, apenas com membros mais parecidos em forma e proporção com membros humanos, e explica em determinado episódio que é muito resistente à bebida (é preciso muito álcool para deixar um cavalo bêbado), também relincha em algumas ocasiões, como quando está transando com Sarah Lynn, atriz (totalmente humana) que atuou com ele em Horsing Around, sexo para lá de selvagem.  Zoofilia ou apenas sexo normal, dentro do contexto? Afinal, são animais, ou gente? Esses conceitos ainda fazem sentido no universo da série? São animais… Mas não como todo mundo imagina animais.

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Chuck

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[Aviso: Contém SPOILERS da primeira temporada de Better Call Saul]

Chuck era um advogado brilhante, e um executivo genial, um dos fundadores da empresa de advocacia HHM, uma das mais proeminentes de Albuquerque – Novo México.  Mas, fugindo do estereótipo, não é um cara desonesto, nada cretino, mas sim bastante trabalhador, tendo se empenhado a vida toda em ser bem-sucedido do lado “do bem”. Quase um posterboy do “american dream”. Ao contrário de seu irmão, o incorrigível malandro James McGill, que no futuro passaria a ser o advogado do químico Walter White, mas na cronologia de Better Call Saul ainda era um verdadeiro coitado, praticamente um Dick Vigarista que sempre acaba mal apesar (ou por causa) de suas safadezas, sempre à sombra do irmão de caráter exemplar.

Mas Chuck tinha um probleminha: Anos atrás, por circunstâncias não muito bem elucidadas, havia desenvolvido uma severa intolerância por hipersensibilidade à radiação eletromagnética. A condição o obrigara a viver isolado em sua casa sendo ajudado pelo irmão malandro, sem absolutamente nada elétrico, nem mesmo lâmpadas, janelas com cortinas entreabertas e olhe lá.

Em meados da primeira temporada, no entanto, sendo internado no hospital, a astuta médica, após ser informada da condição – e tendo tolerado temporariamente que os todos equipamentos elétricos do quarto fossem desligados – discretamente ligou o computador embarcado da cama em que Chuck estava deitado. Sem que ele percebesse. Experimentos em casos de hipersensibilidade à radiação eletromagnética na vida real também demonstraram a mesma coisa, que os pacientes são incapazes de perceber energia eletromagnética se as fontes forem escondidas. Apenas uma condição psicosomática.

Mas não contam para ele. E essa é a parte que e provocou mais, passei a assistir cada episódio, cada novo evento da trama, esperando o momento em que alguém acharia não apenas pertinente, mas irresistível, dizer ao Chuck que a intolerância existia apenas em sua mente. Mas não dizem.. Por quê? No hospital, ficam preocupados com a possibilidade dele acabar em uma ala psiquiátrica, o que ele só iria à força, e seria o fim de sua já quase morta carreira profissional. Mas chegam tantos momentos em que seria plausível contarem a verdade… Mas nunca contam. Eu estava curioso para saber o que aconteceria se dissessem, isto em parte pela minha grande curiosidade a respeito do funcionamento da mente humana. O que aconteceria? Ele pararia de se incomodar? Instalaria lâmpadas na casa, aqueceria seu almoço no micro-ondas e carregaria um celular no bolso como todo mundo? O conhecimento intelectual tem poder de mudar radicalmente o emocional?

Possivelmente não. Possivelmente, pelo que já estudei, acreditaria de forma ainda mais arraigada em sua condição, acharia que os outros conspiram contra ele e elaboraria uma teoria mirabolante para explicar o que aconteceu quando a médica ligou o computador da cama… Talvez por isto os outros não contem. Eles têm medo de como ele vai agir quando souber a verdade. Eles até continuam obedecendo aos rituais, de tirar os celulares e demais aparelhos eletrônicos antes de entrar em sua casa, mesmo depois da médica ter provado que o mal se tratava apenas de efeito nocebo. A verdade?  Platão a superestimou. A verdade não, é melhor até esquecermos dela, antes que comecemos a nos sentir tentados a entregá-la, por compaixão, vamos manter a ilusão, os pós-modernistas tem razão, verdade é mero constructo social, então, por que vamos insistir na verdade quando ela não é mais socialmente conveniente? Inclusive ouço muito coisas neste sentido em respeito à religião, mais precisamente, em respeito à pessoas que acreditam em maluquices, até mesmo que lhes custam tempo e dinheiro, e impõe todo tipo de restrição (como ter que fazer o Enem só após ficar horas em silêncio numa sala com outros iludidos), “ah, mas se ele tá bem assim…”.  Eu acho muito triste esta moda da relativização da verdade, que se tornou forte com a corrupção do pensamento ocidental pelo pós-modernismo. Ser condescendente com a ilusão de alguém, julgar que ele não pode ser feliz de outra forma, é basicamente reduzi-lo a um louco.

Mas e se você fosse louco, os seus amigos avisariam? Avisariam talvez apenas após muita deliberação, e ainda assim muitos seriam contra? Acredito nesta segunda hipótese, e isto só se forem muito seus amigos, e ainda assim só em algumas circunstâncias um tanto quanto extremas. Esconder a verdade é ainda mais provável com não-amigos, que apenas não querem que você encha o saco, e falam o que for preciso para tal. Isto se não se divertirem maldosamente às suas custas. Você só fala abobrinha no escritório, mas todo mundo ouve e finge que entendeu. Não é um pensamento terrível, que todo mundo te trata feito um louco porque, como já virou chavão, “o médico mandou não contrariar”?

Como toda pessoa não-psicopata admitiria, eu às vezes (tá bom, várias vezes) tenho problemas de autoestima, duvido de mim mesmo. Às vezes me pego pensando se eu não estou na mesma situação de Chuck, meus amigos velando o fato de que o que eu falo e escrevo são totais desvarios, que o maior sucesso que eu posso ter é o meu blog acabar na tese de mestrado de algum psiquiatra ou neurologista, como exemplo do que sai quando alguém em estado psicótico delirante acredita estar produzindo algo digno de apreciação intelectual.

Será?

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