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Gordofobia

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Quem lembra da série de TV Lost? Esta série marcou o início de um renascimento dos seriados de TV na década passada. Uma trama densa, repleta de detalhes e simbologias à lá Dan Brown, entregue em longas temporadas com episódios sequenciais. As séries de TV que mais faziam sucesso nos anos 90, como Arquivo X, eram principalmente em episódios “soltos”, que podiam ser assistidos sem depender muito de saber o que tinha acontecido nos anteriores, às vezes com uma curta recapitulação antes de cada episódio. A popularidade de Lost se deveu à algumas novidades tecnológicas do século XXI, como a popularização dos DVDs, que eram compactos e baratos o bastante para as pessoas comprarem e guardarem em casa ocupando muito menos espaço de prateleira do que seria em VHS, além de serem muito mais resistentes ao desgaste (leia-se: não mofavam). Este é o tipo de obra que não dá pra perder episódios e ter uma experiência satisfatória. E assistindo mais de uma vez o mesmo episódio, pode-se pegar detalhes. Com a internet já popularizada, os fãs podiam se reunir em fóruns de debate na internet e discutir o significado de todos os acontecimentos.

O personagem Hurley era um dos mais divertidos da série. Mesmo que você não tenha visto Lost, já deve ter percebido pela imagem deste post o porquê. Com obesidade grau 3, no linguajar endocrinológico, ele frequentemente servia de alívio cômico, e era um dos principais alvos de piada do sem-noção Sawyer. Era sim um cara muito útil, e importante para o desenrolar da trama, também com suas qualidades de caráter. Uma das teoriasnão assisti até o fim, desculpe mais aceitas de Lost quando estava em seu auge era que a ilha era uma espécie de purgatório, e os personagens lá estavam para serem testados, para provarem ou não serem capazes de se redimir.

O vocalista Charlie, por exemplo, era viciado em heroínaeu nunca entendi por que ele comia heroína, e não injetava, uma droga potente, que causa aos usuários uma onda de euforia e relaxamento incomparável à qualquer outra coisa no mundo. Já ouviu de alguém que anestesia para endoscopia é a sensação mais orgástica do mundo? É um “parente”, o propofol. Em dado momento, Charlie acha estátuas de santas na ilha, com saquinhos de heroína dentro. E poderia ter recaído, não fosse a intervenção do personagem John Locke. E o Hurley é viciado em comida. Que não é um vício simples, nem pouco danoso.

Como funcionam as drogas? Muitas delas, como morfina, seu derivado de alta potência, a heroína, e as formas sintéticas (mas não a cocaína, que tem um mecanismo diferente) imitam alguma substância natural, endógena do corpo. Endorfina originalmente significa “endogenous morphine”, morfina endógena. O seu corpo produz endorfinas em resposta a estímulos satisfatórios, como após uma longa corrida, uma relação sexual, uma refeição muito saborosa. A mente registra uma experiência como boa quando há uma grande descarga de endorfina no sistema límbicoa dopamina, pelos estudos mais recentes, parece estar mais ligada à expectativa de prazer do que ao prazer em si. Um mecanismo evolutivamente perspicaz: Leva organismos a fazerem mais coisa que os levam a viverem mais e se reproduzirem mais, passando adiante os genes com estas mesmas inclinações. Uma anomalia na produção e transmissão de endorfinas podem ter a ver com o transtorno obsessivo-compulsivo: A pessoa não tem o sinal de “saciedade” ao completar uma tarefa, como lavar as mãos. A morfina e seus derivados são um “cheat code”, imitando a estrutura molecular das endorfinas ela ativa os receptores para endorfinas, e uma ativação muito mais intensa e prolongada. Prazer puro, destilado, e sem complicações.

E a comida? A comida que a gente adora, aquelas frituras transbordando de sebo, picanha com gordura na borda, chocolates pra levar a sua glicose pra estratosfera… Eram impensáveis para o homem primitivo e seus ancestrais mais primitivos ainda. Seguro dizer que ninguém morria de diabetes tipo 2 nas cavernas. O pouco de gordura e açúcar disponível na natureza era fundamental para sobreviver, e era difícil e perigoso de obter, um mecanismo biológico de recompensa foi necessário para levar o hominídeo a arriscar a pele caçando um mamute ou roubando favos de mel da colmeia, e era bom que a recompensa fosse grande.

Por muitos séculos, calorias foram raras para a maioria dos homens. Até a industrialização, a economia de mercado e as novas técnicas agrícolas do século XX. Atualmente, milhões ainda passam fome. Mas mesmo nos países pobres, calorias são baratas para muita gente.

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O post tá dando fome? Que tal um lanche leve para não engordar? Cortesia do meu querido Zangado

E aquelas substâncias que os homens das cavernas se matariam para obter em uma minúscula quantidade? Um monte dela, toneladas dela, no McDonalds ou na barraquinha de lanches da esquina, ou do tio Zangs. O seu sistema límbico, que faz parte da região mais primitiva do cérebro, pouco se importa com o contexto. Você grita e esperneia numa montanha russa mesmo sabendo que está seguro. E se delicia com um hambúrguer mesmo sabendo que aquilo não te faz bem, mas o sistema límbico é indiferente e te dá prazer, muito prazer. De muitas maneiras, é melhor que as drogas. Praticamente todas as drogas de abuso provocam tolerância, o usuário tem cada vez menos prazer com o uso contínuo, e começa a procurar drogas só para sanar os sintomas de abstinência. Com comida, e especialmente com “porcaria”, não tem tolerância, hambúrgueres e brigadeiros continuam sendo deliciosos sempre. Caso se enjoa de uma comida, há sempre muitas outras opções. Podemos culpar quem se vicia nessa maravilha? O Izzy acha que sim.

Sobre as modelos plus size, quando foi lançada a classificação, se bem me lembro, era bem diferente: As modelos plus size nas passarelas só não eram esqueléticas. O padrão da beleza na moda costumava ser não só só irreal, mas patológico, e não foram poucas as meninas que até morreram tentando chegar nele, diria que o protesto contra isto era justo. E sinceramente, você realmente acha linda uma mulher que é só pele em osso? Podia servir para vender roupa de grife, mas não sei se a maioria dos homens heterossexuais acham realmente linda uma mulher que não só é magra, mas excessivamente magra.

Mantendo tudo mais constante, o que parece bonito às pessoas são sinais de saúde. Corpos desproporcionais são feios. Os nossos instintos são sábios ao suspeitarem que uma pessoa muito magra ou muito gorda não é saudável. E não dá pra reprogramar o que as pessoas acham bonito ou não. Não é, portanto, a mídia que ensina às pessoas o que elas devem achar bonito, como os panacas foulcaultianos pensam, na verdade são as pessoas que se atraem por esta ou aquela característica e determinam o que querem ver. As modelos plus size do começoplus size raiz? eram muito bonitas, em minha opinião. Mas esta aí que arrumou treta no avião… Sério, que gorda escrota. Tão grande quanto o Hurley, mas sem um pingo do carisma do personagem, barraqueira e intrometida. Retrato perfeito do politicamente correto e seus guerreiros.

Eu mesmo sou bem paranoico com questões de privacidade. Se uma figura dessas tira fotos das mensagens privadas que eu estou trocando durante um voo e depois vem tirar satisfação comigo, sou capaz de dar um soco na cara da infeliz justiceira social. Agora não só temos que respeitar os gordos, temos que nos refrear de achar obesidade algo ruim, feio ou insalubre, fazer de conta que está tudo bem em nome da autoestima. Se antes o padrão de beleza nas passarelas era doentio e irreal, o que os justiceiros sociais querem por no lugar é doentio e irreal também. E ai de quem discordar, mesmo que em privado!

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Certa feita, alguém mandou essa imagem pro grupo de WhatsApp da minha turma da faculdade, e os “lacradores de plantão” começaram a reclamar da gordofobia no grupo. E pior que eles eram magros.

Mas o Izzy é escroto pra caralho em uma parte de sua argumentação. Existem duas atitudes que um gordo pode tomar quanto à críticas e deboches à sua forma física:

  • “Você é preconceituso, gordofóbico preso à padrões de beleza do sistema capitalista! Não existe peso saudável, existe saúde para todos os pesos, saúde é relativa, beleza é relativa também, todo mundo tem sua beleza, e uma pessoa de 150 quilos também é linda…” queima pós-modernista de merda.
  • “Sou gordo mas isto é problema meu, não me enche o saco, é o meu corpo e não é você que paga minha comida, e nem estou pedindo pra você dar pra mim. E mais: Sou gordo mas posso emagrecer. E você, que é feio?” Perfeito, faça assim.

Claro que o Izzy tira a velha carta do “a sua obesidade influencia indiretamente nos custos da saúde pública” o que eu responderia com um curto e grosso foda-se. É com esta frase que se justifica cercear toda e qualquer liberdade. Tudo influencia indiretamente nos gastos públicos. O problema do estado babá não é só que ele toma dinheiro de todo mundo para pagar certos serviços, mas ele achar que por isso tem o direito a tutelar a vida privada de seus indivíduos, e os serviços oferecidos pelo mercado, para eles não serem onerosos ao sistema público, como foi em São Paulo com a grotesca lei que proíbe refil de refrigerante em lanchonete. Mas sempre têm as ovelhinhas bem comportadas que se põe a balir em favor das regulamentações “bééé, é para o bem de todos, béééé”, como aqueles que aceitaram de bom grado até a imposição do bizarro padrão de tomadas brasileiro em nome da segurança, e aceitam que o Estado diga o que é bom ou não para você e tutele a sua rotina.

E pior ainda: Acham que isso é motivo para importunar as pessoas. O cara no avião estava só falando privadamente com um amigo dele sobre a gorda do lado, ele não estava a humilhando ou ofendendo de maneira alguma, nem a obrigando a perder peso, e nem estava incomodado com o simples fato dela ser gorda, mas da banha dela estar invadindo o espaço da poltrona dele.  Mas há alguns que vão bem mais longe que o cara. Desconfie sempre desse tipo de gente, o valentão com boas intenções: Vou encher o saco do gordo pelo bem da saúde dele. Eu absolutamente não sou a favor de impedir estas pessoas de se expressarem e serem escrotas na vida digital e fora dela, isto é, de impor sanções legais à elas, deixe a lei fora dos debates, mas eu também sou livre para expressar quanto elas são desprezíveis.

As pessoas sempre trocam saúde por prazer, e tomam escolhas de vida pouco saudáveis em nome de outras coisas. Ninguém diz a um estudante que vara noites sem dormir estudando a matéria de seu curso que ele é um burro ou irresponsável por estar destruindo a sua saúde e bem-estar emocional desse jeito, podem até criticar o jeito que está levando a vida, mas sempre com muita gentileza e compreensão, ele é um exemplo, só exagera um pouquinho. Você pode detonar a sua saúde só se for produtivo, fazê-lo por prazer não pode, é imediatamente taxado de burro e execrado, como é com os fumantes, não basta que eles não possam fumar do seu lado e obrigá-lo a respirar a fumaça tóxica, é preciso também deixar claro que são a escória da humanidade. Até o tempo que os pais passam em companhia dos filhos, que não faz mal algum à saúde, precisou se “gourmetizado”, apelidado de “tempo de qualidade”, para as pessoas terem o direito de passar o tempo com os filhos, só pode se for de alguma forma produtivo.

E a escolha? O Izzy diz que todo mundo é livre para ser gordo ou não, que ninguém é coagido a comer demais ou a fazer exercício de menos. Bem, num sentido de liberdade, sim, você é livre, e é esta a liberdade que o Estado viola ao impor leis dizendo que a lanchonete não pode te deixar encher o copo gratuitamente. Isto basta, esta liberdade “virtual”, quando uma pessoa mentalmente sã faz algo sabendo o que está fazendo sem violar o direito de terceiros, e é capaz de entender as consequências. Mas poderia dizer que nenhum gordo é digno de alguma compaixão ou simpatia por sua forma física, ou mesmo digno de ser deixado em paz? Assim como os “zumbis” da cracolândia tem que ser deixados para morrer na sarjeta e ninguém precisa ter pena, porque escolheram aquilo, como muitos pensam? Ou que uma mulher que engravidou por não usar contraceptivos deve ser obrigada a levar a gravidez até o fim, e bem feito? Essa linha de pensamento é correta?

Eu não defendo essa babaquice. Por obséquio, pelo menos seja um babaca autêntico, não um babaca que diz “é para o seu próprio bem”. Falando apenas dos gordos, quantas coisas não interferem para alguém ser obeso? Não, eu não acredito neste absurdo de “livre-arbítrio”, liberdade derradeira e absoluta que independe das circunstâncias. Mesmo que a gordice não seja justificada por causas genéticas que alterem a função metabólica ou coisa que o valha, tem mais por trás… A pessoa nasceu sem receber educação sobre alimentação saudável, ou tem um autocontrole baixo, que não dá conta de frear os impulsos primitivos que clamam por mais gordura ou açúcar, ou detesta fazer atividades físicas,   ou a comida é uma ótima válvula de escape para certas frustrações… Ou ela simplesmente gosta!

Você pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quiser. A política do bullying público de gordos não me parece nada legal, vamos fazer você fazer um merda de indivíduofat shaming até você começar a fazer exercícios e comer menos. E se eu não quiser? Eu mesmo sou gordo. Não peço a ninguém que faça de conta que a minha condição física é saudável, muito menos que achem minha barriga bonita, e tão pouco peço para alguém se abster de fazer memes sobre o assunto. Piada é piada, gordos estão perdendo o senso de humor e isto é um problema. Mas eu não sou obrigado a perder um tempo do meu dia correndo numa esteira ou levantando ferro porque alguém acha que é meu dever, não amigo, minha consciência não vai pesar por isto. Ah, e se uma série de TV faz um personagem gordo simpático, mas sem apontar os problemas disso? Deixe. Arte com responsabilidade social é um saco.

Na verdade, não só as pessoas aporrinham os gordos que não se preocupam em emagrecer, mas aqueles que não querem emagrecer de uma maneira tradicional, difícil. Vá à seção de comentários de qualquer notícia falando de algum novo remédio para emagrecimento, como o Saxendaque eu uso e só não recomendo por infelizmente ser muito caro ou sobre lipoaspiração, que você verá o comentário dos magros rabugentos “humpf, e academia que é bom nada, né?”. Claro, senhor magro azedo, agora eu tenho que fazer tudo da maneira mais dura, espartana, porque você não se conforma que eu faça de uma maneira mais fácil mesmo pagando do meu bolso. As pessoas tem vidas chatas e corridas, mas sempre vem um rabugento dizendo que você é obrigado a deixá-la pior ainda: Ir segunda de manhã para o trabalho é uma merda, e você deveria também ir de bicicleta, para chegar cansado e suado à reunião. E também deveria trocar o elevador pela escada e o controle da garagem pelo controle manual em nome da balança, e não pode ter uma refeição deliciosa em nome da dieta. Vigilantes do peso, por gentileza, se conformem em vigiar o próprio peso.

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Vamos Falar Sobre Depressão

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Já faz um tempo que eu quero fazer um post sobre o assunto. Eu sofro dessa doença há muito tempo, e apenas recentemente obtive remissão, que inclusive é um dos motivos desse blog existir. Várias pessoas acreditam haver um elo entre depressão e criatividade. Não sei não, comigo é o contrário, depressão não me deixa com vontade de fazer nada, me deixa completamente apático, eu não crio nada pois tudo me parece desinteressante. Isto é o que depressão normalmente faz: Te faz um nada.

Primeiramente, um apelo: Quando não se sabe nada sobre um assunto, não dizer nada é uma alternativa perfeitamente válida e honesta. Se algum amigo lhe disser que tem depressão, e você não souber o que falar, não fale nada. Às vezes, as pessoas compartilham os problemas com os amigos pois se sentem melhor assim, não porque exigem uma solução imediata. O melhor que você pode fazer é continuar sendo amigo, conversando com frequência, e convidando ele para eventos sociais, até sendo um pouco insistente, pois pessoas com depressão frequentemente perdem a vontade de sair de casa. Mas por favor, só não seja babaca.

Babaquice e negação da ciência são algumas das maiores ameaças aos deprimidos. Há um grande tabu sobre a ciência interferir na mente, como se a mente, e o órgão que a abriga, fosse uma espécie de território proibido para a ciência; tratam o cérebro não como se fosse um órgão do corpo humano como os demais, sujeito a disfunções bioquímicas, mas como uma espécie de dimensão paralela dentro do crânio, independente da realidade física (fantasma na máquina) e, pra piorar, a educação sobre saúde mental no Brasil é praticamente nenhuma. Quando muito, nas aulas de biologia do colégio aprendemos sobre mal de Parkinson e Alzheimer. E as pessoas, ignorantes,  ao invés de ajudarem, ou ao menos não atrapalharem, dão todo tipo de conselho babaca para os amigos e parentes deprimidos. Falam que é falta de sexo, que isso é só preguiça, que é uma fase que vai passar, que só o que precisa querer ficar melhor (mais ou menos como dizer a um paraplégico que só o que ele precisa é ter vontade de levantar da cadeira de rodas e sair correndo) ou de tirar umas férias, isso se não vierem com alguma teoria conspiratória de que a depressão foi uma doença inventada pela indústria farmacêutica para vender remédios para pessoas tristes… Vou repetir, se não tiver nada útil a dizer, não diga nada.

O filósofo Albert Camus, que tratou muito do tema suicídio (segundo ele, o problema filosófico mais importante de todos) já avisava: Às vezes, uma pessoa pode passar meses ou anos com sintomas depressivos mas não se matar, mas aí algo acontece, como um amigo o tratar com indiferença, e ele comete suicídio. Quando você fala pro seu amigo com depressão que ele é só um preguiçoso fracassado que tem que tomar vergonha na cara, você pode estar sendo este gatilho.

Depressão é doença séria, e trata-se com remédios.  A causa é bioquímica, um déficit de neurotransmissores que regulam o estado emocional, em especial a serotonina, norepinefrina ou noradrenalina, e dopamina. Há várias classes de medicamentos, como os SSRI, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como o famoso Prozac (fluoxetina), e também o Zoloft (sertralina) e Escitalopram, além dos SNRI, que também inibem a recaptação de noradrenalina (isto é, impede que o organismo “recicle” este neurotransmissor, aumentando a concentração dele na fenda sináptica) como o Efexor e o Cymbalta, e os antidepressivos atípicos, como o Wellbutrin (bupropiona) e Remeron (mirtazepina), este último ainda tem a vantagem de ajudar no sono e estimular o apetite (o que pode ser bom ou ruim, dependendo do paciente), e funciona muito bem quando tomada junto do Efexor: O coquetel, nos EUA, foi até apelidado pela comunidade médica de California Rocket Fuel. Muitos destes remédios citados tem genéricos disponíveis, e alguns são fornecidos pelo SUS. Se você não tiver convênio, nem dinheiro para pagar o particular, procure um médico do SUS, mas procure.

Não é raro o primeiro ou o segundo remédio não dar certo, seja como for, não desista do tratamento, volte ao médico e tente de novo, ele pode aumentar a dose, tentar um remédio novo, ou tentar adicionar um outro remédio para aumentar o efeito do antidepressivo (efeito sinérgico), como um estabilizador de humor, ou mesmo um estimulante, destes usados para tratar déficit de atenção, como o Venvanse (lisdexanfetamina). As diferenças do corpo e mente de uma pessoa para outra significam que nem sempre um remédio ou coquetel vai funcionar bem para todo mundo. Mas ignore os teóricos da conspiração: Todos os antidepressivos no mercado passaram por testes clínicos e se provaram superiores em eficiência ao placebo, em proporção clinicamente significativa. Algumas pessoas, especialmente aquelas com depressão mais branda, conseguem melhorar sem medicação, apenas com psicoterapia (que é bom como complemento) ou “medicina alternativa”. Isto é questão de sorte. Eu recomendo não perder tempo. Não brinque com uma doença que está sugando a sua vida e pode levá-lo ao suicídio.

Existe, é verdade, depressões de diferentes tipos, dois em especial: A exógena, que é causada (ou seja, o que provoca o desequilíbrio químico em primeiro lugar) por algum fator externo identificável, como um trauma muito grande (a morte de alguém muito próximo, um estupro, um sequestro), condições de vida muito estressantes, ou uma mentalidade muito negativa; e a endógena, que surge sem nenhuma explicação. Também acontece da mulher ter uma crise depressiva logo após dar a luz, a depressão pós-parto. As mais difíceis de tratar são aquelas ligadas a outro problema psiquiátrico, como um transtorno de personalidade, ou uma esquizofrenia. Comorbidade com ansiedade é extremamente comum. Todos os casos devem ser tratados, principalmente, com medicação. Idealmente, o psiquiatra, além de prescrever remédios, deve pedir um exame de sangue para ver se os sintomas depressivos não são causados por outro problema físico, como falta de vitamina D, hipotireoidismo ou baixa testosterona. Mas geralmente é desequilíbrio de monoaminas (neurotransmissores) mesmo.

Ao contrário do que muitos pensam, depressão não é algo muito relativo nem é “patologização do cotidiano”, existem critérios objetivos para avaliar se uma pessoa tem ou não depressão, ou se ela não está “apenas” triste. Aliás, nem sempre depressão se manifesta como tristeza, às vezes o comportamento que mais se nota no deprimido é irritabilidade (especialmente em crianças, mas não apenas) ou, no meu caso, completa apatia. Isto é, eu, deprimido, me sinto um verdadeiro zumbi, uma casca vazia, que quer apenas deitar na cama e esperar para morrer.

Tempo é um critério importante no diagnóstico: Ficar triste porque o seu amigo morreu num acidente de carro, ou porque a sua namorada te deixou, é normal. Continuar pra baixo, sem vontade de fazer nada, meses ou até anos depois do evento, não é. Existem escalas para medir a gravidade da depressão, e alguns testes são feitos para o próprio paciente responder, inclusive testes online, se você tiver alguma suspeita. Os testes existem e são usados até hoje não porque são infalíveis, mas porque acertam mais do que erram, e são uma ótima coisa a se fazer se você  estiver em dúvida e quiser saber se está na hora de procurar ajuda. Um deles é  este, o MDI, Major Depressive Inventory, que é e recomendado pela organização mundial da saúde, mas está em inglês. Mais alguns testes que você pode tentar, em português:

https://www.psiquiatrajoinville.com.br/como-identificar/inventario-de-depressao-de-beck/

http://psico-online.net/consultorio/teste_ava_depressao.htm

Psicoterapia é interessante, se você puder fazer, além da terapia medicamentosa, e costuma aumentar as chances de sucesso no tratamento, mais do que apenas remédios, além de prevenirem a volta dos sintomas, após a remissão (cura). Psicólogos não são todos iguais, e a abordagem que comprovadamente tem maior sucesso para ajudar no tratamento de depressão, e evitar remissão, é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). O psicólogo ajuda, principalmente, a identificar padrões de pensamentos automáticos negativos que fomentam a depressão (pensamentos do tipo “eu sou um lixo”, “eu não valho nada”, “o mundo é horrível”,”o ser humano é podre”), além de ajudar o paciente a organizar a vida, ser mais disciplinado, mas sem deixar de fazer as coisas que gosta, e ter melhor relacionamento com as pessoas. A TCC é uma abordagem voltada à resultados, e interativa, em que o paciente não apenas fala, mas recebe tarefas, que podem ser coisas simples que evitam hábitos ruins, como fazer listas de coisas para fazer. Não é recomendada apenas para deprimidos.

Uma última coisa, algo que eu quero deixar bem claro: Depressão não é “parte da personalidade” de ninguém, e não é nada chique, e nem um indicativo de uma visão de mundo mais madura e desenganada, e eu vejo claramente uma tendência de glamorizar a depressão, ou torná-la algo típico de gênios, mais ou menos como era com a tuberculose no século XIX. Existiram pessoas geniais que tiveram depressão, o mais famoso no mundo das artes é o pintor Van Gogh, assim como os filósofos Nietzsche e Schopenhauer, e é claro que devemos admirar estas pessoas por seu sucesso, mas o que há de se admirar nelas é exatamente que conseguiram ser tão produtivas apesar da depressão, não por causa dela, e tratar depressão não torna ninguém medíocre. Na verdade, acho que nunca fui tão medíocre quanto quando estava em profunda depressão.

Muitas das visões de mundo de Schopenhauer, como a de que prazer nada mais é que uma mera supressão de necessidades, a vida é um episódio não lucrativo (ou seja: não vale a pena viver) e de que socialização é perda de tempo, são exemplos típicos de tentativas um deprimido extremamente inteligente  racionalizar seu sentimento em pensamentos equivocados, ainda que bem escritos, mas mesmo assim equivocados. Uma opinião não é certa só porque é trágica. Se você tem depressão, fuja deste tipo de coisa.


Mais referências:

http://folha.com/no1838728

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farsas, saúde

Glúten

pao

Uma dica para você, e eu consultei uma médica antes de escrever, e uma médica que se preocupa muito com nutrição, diga-se de passagem:

Dieta “gluten free” ou livre de glúten é útil APENAS se você for alérgico a glúten. Apenas neste caso, começa e acaba aí. Glúten não faz mal algum para quem não é alérgico, a história de que faz mal e deve ser evitado por todos é mito.

Se for fazer uma dieta para melhorar sua saúde ou emagrecer, faça outra.

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Cigarro vs. a cultura da produtividade máxima

fumando

Fumar foi proibido porque é improdutivo. Mas vamos com calma, não quero encorajar ninguém a fumar, eu mesmo abandonei este hábito ano passado.

Que o fumo traz incontáveis malefícios à saúde, todos já sabem. Mas não se engane, a razão pela qual o fumo foi proibido na maioria dos espaços públicos é porque ele dá lucro apenas para a indústria tabagista e mais ninguém. Fumantes fazem mais intervalos no trabalho, precisam de acomodações especiais, e ficam doentes com mais frequência, precisando de dias de folga e onerando o sistema de saúde. Uma das formas mais grotescas que eu já vi de humilhar um funcionário é fazê-lo usar um crachá escrito “em respeito ao cliente, não fumo em serviço”. Repeito ao cliente meu pau de óculos. Sem falar de todo o dinheiro gasto em cigarro que poderia ser gasto em outra coisa. Fumar é egoísta.

A ideia de legalizar a maconha só está ganhando tração porque a maconha é uma droga com potencial de vício relativamente baixo, e quando usada esporadicamente não faz muito mal. É muito mais fácil fumar um baseado por semana do que um cigarro de tabaco por semana. Mas eu sou obrigado a ser produtivo quase o tempo todo?

Sim. Desculpe, mas para o sistema você tem que ser uma perfeita máquina de produzir e consumir. Até mesmo o lazer deve ser produtivo, tanto que foi rebatizado de “tempo de qualidade” pelo pessoal dos recursos (des) humanos. Não pode mais ficar de barriga pro ar, não pode nem chegar em casa cansado do trabalho e descansar, tem que ir na academia ou praticar algum esporte lazer só é permitido se ajudar no seu crescimento pessoal e atingir as suas metas. Fazer amizades virou “fazer networking”. Criou-se o bicho papão chamado “ponto de conforto” para manter as pessoas permanentemente insatisfeitas. Cigarro só foi permitido enquanto não se sabia ele gerava improdutividade.

Se você é de esquerda deve estar adorando este texto. Lamento cortar o seu barato, mas a esquerda também adotou a lógica da
produtividade em tempo integral. Richard Stallman, famoso pai do software livre, e esquerdista convicto, fez um texto em seu site para criticar o jogo Pokémon Go (será o celular o novo cigarro?). Além das reclamações que eu já esperava dele – o jogo não é software livre e coleta dados do usuário – Stallman disse que “se tem algo que você quer mudar no mundo, você deveria estar fazendo isso ao invés desses hobbies”. A implicação é pior ainda: Não apenas eu tenho que ser um robô, produtivo e eficiente o tempo todo, mas eu tenho que fazer isso não para ganhar dinheiro para mim, mas pelo bem do mundo. Ah, vai catar coquinho.

E o cigarro, como fica nessa história toda? Não fica, é banido, e os fumantes condenados à vergonha, verdadeiros cidadãos de segunda classe. A ironia é que no tempo que fumar era um símbolo de rebeldia, um monte de gente fumava, inclusive os caretas. Hoje em dia fumar é de fato um ato de rebeldia, contraventor, e absolutamente individualista. Quem fuma não dá a mínima para o que a sociedade pensa de seus prazeres privados. Tirando é claro os fumantes arrependidos.

Confesso, uma boa parte do motivo de eu ter parado de fumar foi porque este hábito já estava me trazendo muito pouco prazer, perto de toda a inconveniência que me causava (o cérebro desenvolve tolerância à nicotina), mas saúde também foi um fator. Mas também não me tornei um desses ex-fumantes insuportáveis que viram evangelistas do anti-tabagismo, e tratam fumantes como seres inferiores. Sempre permiti o fumo na minha casa e no meu carro, por cortesia.

Eu entendo que se proíba o tabaco em certos lugares públicos para proteger a saúde das pessoas, mas às vezes isso é pura antipatia. Para que proibir de fumar num estacionamento aberto? Numa varanda? Ah é, porque não é produtivo.

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