ceticismo, filosofia, sociedade

Os Piores Argumentos (supostamente) Contra o Ateísmo

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Uma grande maioria dos cristãos que conheço sequer tentam explicar crença ou colocá-la em termos racionais. “Sei lá, apenas acredito”, é o que eu costumo ouvir, e eu não debato com eles, principalmente porque eles não querem debater. Eu admito que diversos ateus, especialmente os adolescentes, são extremamente inconvenientes, petulantes, e insistem em debater  sobre existência de deus e assuntos relacionados toda hora, não falam de outra coisa, e teimam em começar debates com quem acha esse assunto chato e não quer debater, uma atitude totalmente inadequada no convívio social, que não beneficia ninguém  e acaba por afastar as pessoas do ateu em questão, além de sujar a imagem dos ateus em geral. Mas eu não respondo por todos os ateus.

Confesso que já  fui mais afoito, hoje eu sou mais reservado, apesar de minha descrença não ter oscilado nem um pouco. Ao meu ver, estes cristãos que sequer tentam colocar sua crença como racional, simplesmente acreditam, são honestos. E não entro mais em debates, não muito, porque, francamente, eu não tenho mais muita paciência para discussões, e porque pra mim o assunto já está resolvido; não há absolutamente nenhum motivo racional para crer em alguma divindade, assim como não há motivo para crer em qualquer personagem fictício. A existência de qualquer deus é desnecessária para qualquer compreensão lúcida da história e do funcionamento do mundo, ponto final. Me interesso mais atualmente por problemas que me parecem mais desafiadores, como a consciência.

Mas infelizmente há também os religiosos petulantes, aqueles que são excepcionalmente ruidosos não só quanto à sua fé mas quanto ao seu desprezo pelos ateus, e defendem seu posicionamento com “argumentos” tão toscos que é de se impressionar que ainda são repetidos, mesmo sendo tão fáceis de derrubar, mas é por serem ainda muito repetidos que eu acho interessante falar sobre eles.

Queda Livre

A predileta destes sujeitos é a história do avião caindo. “Quando o avião começa a cair, todo ateu começa a acreditar em deus”. O problema maior não é sequer a falta de evidências quanto ao que se afirma como sendo uma lei (foi feita alguma perícia em caixas-pretas de acidentes aéreos para concluir que 100% dos passageiros ateus se converteram?). Claro que existem alguns ateus que ainda têm uma centelha de dúvida.  O problema maior é que isto sequer é um argumento contra o ateísmo, ou um argumento para a existência de algum deus. A única coisa que se quer dizer com esse reclame é que os ateus não são sinceros quanto à sua descrença, e voltam a crer em momentos desesperadores. Mesmo que fosse o caso de todo ateu não ser sincero consigo mesmo, isto não significa que eles não deveriam ser sinceros, que eles não teriam razão de serem convictos.

E na verdade, o fato de alguém estar em um momento de pânico, quando já se esgotaram todas as possibilidades de se salvar, regredir para a crença religiosa, não necessariamente significa que esta é sua verdadeira crença. Pessoas em situações limítrofes frequentemente perdem a cabeça e fazem besteiras, fazem a coisa menos racional, inclusive em situações mais prosaicas que a queda de um avião, como em acidentes de carros, assaltos e incêndio. E é especialmente fácil regredir quando não se tem mais nada o que fazer, já está tudo perdido mesmo. Quando o avião está caindo, o piloto não está rezando nem ponderando questões metafísicas, está fazendo tudo que puder para salvar a tripulação, porque só ele e o copiloto realmente estão no controle e podem fazer algo. Para os passageiros, tanto faz. Em uma situação pessoal trágica, mas que permite tempo para pensar, como a descoberta de uma doença grave,  quase todo mundo recorre primeiro aos tratamentos clínicos, científicos, e só vão para o curandeirismo ou a “medicina alternativa” (que na verdade são a mesma coisa) quando já não tem mais o que fazer, ou no máximo como complemento ao tratamento médico de verdade. Inclusive os religiosos.

Ateus cagões

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Outro discurso clichê é aquele de que os ateus só são corajosos para peitar o cristianismo, mas nunca tem coragem para peitar o islamismo, e jamais se atrevem a fazem piadas sobre esta religião. Sim, ateus fazem piadas com muçulmanos, inclusive no Brasil. E quem não lembra do trágico caso da revista Charlie Hebdo? Como alguém ainda tem a cara de pau de dizer que os ateus não fazem piada do islamismo depois que alguns foram mortos por fazer?!

E além do humor, vários ateus já criticaram seriamente o islamismo. Um deles é Sam Harris, que em seu livro de 2004 The End of Faith (O Fim da Fé) dedica um capítulo a criticar duramente o islã, e duramente é a maneira correta de tratar o assunto, pois se trata da religião mais perigosa do mundo. Danem-se os politicamente corretos que acham que todas as religiões são lindas e fofinhas e merecem ser respeitadas por igual. E principalmente, danem-se os ateus que acham que temos que criticar todas as religiões por igual, democraticamente. O perigo representado pelo islamismo no mundo é desproporcionalmente maior que o das demais religiões.

Os radicais islâmicos não seguem uma “vertente distorcida” do islã, como apresentadores de jornal adoram dizer, quando não usam da velha falácia do escocês de verdade e afirmam que “não são muçulmanos de verdade”. Isto é como dizer que uma velhinha que faz procissão em Aparecida do Norte não é católica de verdade. Eles são os que a seguem mais fielmente os mandamentos de sua religião, e contam com o apoio tácito de uma considerável parcela dos bilhões de seus correligionários “moderados”. Isto não é motivo para hostilizar o sr. Ahmed da esfiharia, ou a Jade, que vai de véu para o escritório. Isto é, não há justificativa para desrespeitar indivíduos muçulmanos que não fazem nada de errado.

Podemos acreditar que alguém segue uma ideia perigosa, e atacar sua ideia, mas não sua pessoa, não enquanto não faz mal a ninguém. Eu também já acreditei e certamente ainda acredito em muita merda, nem por isso mereço levar uma cuspida na cara. Atacar ideias, com humor ou com discurso sério, não significa atacar a pessoa daqueles que acreditam nela.

É verdade que o cristianismo já foi tão violento quanto, e também é verdade que hoje há relativamente pouca violência cometida em seu nome, por fiéis fanáticos. “O cristianismo foi domesticado”. Aqueles valores que os cristãos de hoje chamam de valores cristãos, aparentemente, os cristãos aprenderam com os iluministas secularistas no século XVIII. Felizmente, a bíblia é um texto muito vago, repleto de ambiguidades, e pode ser interpretado de mil e uma maneiras. O Corão e o Hadith (textos sobre a vida do profeta Maomé, também canônicos para os muçulmanos de todas as vertentes) têm uma linguagem muito mais explícita e menos aberta a interpretações. Não é realista querer abolir o islã, mas ele precisa ser reformado, como outras religiões foram. O que é um grande desafio, pois se trata de uma religião quase impermeável a novidades. Os terroristas muçulmanos de hoje são como católicos do século XIV com armas de século XXI. Não é à toa que muitos ateus não têm a coragem de Sam Harris e se privam de criticar ou ridicularizar o islã.

E como no caso do avião, este argumento falha porque também não é um argumento contra o ateísmo. É apenas um insulto aos ateus em geral, chamando-os de covardes; mesmo que seja verdade que muitos ateus se privam de falar do islã por medo, isto não significa que estejam errados em ser ateus. E não é um insulto justo: Você acha que todo mundo tem o dever de morrer pelo que acredita ou não, que quem não arrisca a própria vida inutilmente por suas crenças não merece ser levado em consideração?

Faço uma analogia: Imagine que no seu bairro haja um sério problema com o tráfico, que ameaça a segurança de todos os moradores. Há trocas de tiro, balas perdidas, o barulho à noite não deixa ninguém dormir, os traficantes têm tão pouco respeito pelos moradores que usam suas casas sem permissão para esconder drogas. Então eu digo pra você “Ah, você odeia mesmo o tráfico do bairro? Quero ver ir lá dar dois tapinhas na cara de um deles e colocá-lo em seu devido lugar!”. Martírio é um valor religioso, não ateu, não nos cobre por isso. Eu não consigo deixar de notar que nas palavras dos cristãos que provocam os ateus dessa maneira está implícito um desejo de poder fazer igual aos muçulmanos…

A Aposta de Pascal

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Esta foi uma famosa apologia ao valor da crença religiosa, elaborado pelo pensador Blaise Pascal. Pascal foi um pensador de genialidade indiscutível, tendo feito contribuições, dentre outras coisas, para a teoria das probabilidades em matemática, e para a mecânica de fluídos em física. Mas, assim como vários cientistas no decorrer da história, ele empregava sua racionalidade plenamente quando estava trabalhando com ciência, e a deixava de folga quando pensava em questões metafísicas caras a si mesmo. Seu argumento contra o ateísmo, como resume a Wikipédia, é o seguinte:

  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

É mais vantajoso acreditar em deus. Sem dúvida um argumento mais “elegante” que os outros dois, e um que pelo menos dá pra chamar de argumento sem aspas. Mas ainda está errado, e ainda não é um argumento que defende que os ateus estão errados. Desde quando a vantagem em acreditar em alguma coisa é argumento para a verdade desta coisa? Pode ser mais vantajoso acreditar em Deus, mas isto continuar sendo uma ilusão. Aliás, como eu posso simplesmente passar acreditar em algo que atualmente não acredito por conveniência? Se eu achasse que seria muito bom para mim acreditar na teoria da Terra plana, eu poderia? Aliás, o que significa possuir uma crença? Bem, isto já é assunto para outro post…

Mas a aposta de Pascal também falha ao fazer uma falsa dicotomia. Um devoto católico, Pascal neste argumento parece levar em conta que existem apenas duas possibilidades: Ou se é ateu, ou se acredita em Deus, que seria a possibilidade totalmente segura. Em qual dos incontáveis deuses que já foram inventados? E de qual das incontáveis maneiras de se adorar a deus se teria esta garantia de ganho infinito? Os muçulmanos – do tempo de Pascal e do nosso – são igualmente convictos em sua ideia de deus e suas leis, e não há nenhum parâmetro confiável para ver quem está certo. E se eles estiverem, e neste caso Pascal foi para o inferno por ter sido católico? Existem muitas crenças religiosas no mercado, algumas inclusive com muita história e tradição atrás de si, e todas oferecendo alguma recompensa no além túmulo para os seguidores fiéis, e a maioria prevendo algum castigo para os seguidores de outras religiões. mas seus dogmas não são mutuamente compatíveis. Todas possuem exatamente o mesmo grau de credibilidade, isto é, nenhum. Viva como se deus ou qualquer ordem metafísica não existisse, esta é a única aposta razoável.

Mas se você acredita de todo jeito, “porque sim”, tudo bem. Eu tenho minhas dúvidas quanto à essa coisa de “liberdade religiosa”. Não sou contra uma pessoa ter o direito de seguir acreditando no que quiser sem ser importunada, de forma alguma. Só sou cético quanto a tratar a suposta escolha de religião como se fosse a mesma coisa que escolher comprar um Xbox ou um PlayStation, pensando nos prós e contras de cada um. A maioria das pessoas seguem a religião da família em que cresceram, e continuam seguindo por inércia, porque nunca se deram ao trabalho ou nunca se permitiram considerar que ela pode estar errada.

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Sabbah

http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/enem-e-vestibular/candidatos-sabatistas-ficam-ate-11-horas-trancados-para-fazer-enem-14439409


É ridículo o número de restrições desnecessárias às quais uma pessoa se sujeita só por acreditar em uma velha superstição idiota, por seguir uma interpretação específica de um livro escrito a cerca de dois milênios atrás por um povo do deserto que nem sabia da existência da América ou que a Terra era redonda. Religião causa incontáveis gastos desnecessários à sociedade, e este é apenas um pequeno exemplo.

Mas quer saber? Eu não sou contra o governo permitir que eles façam o Enem após ficarem voluntariamente encarcerados numa sala por horas sem fazer nada. Sim, eu sou ateu, mas também sou liberal. Quer sofrer à toa? Fique à vontade. Se você for meu amigo, eu vou tentar ao máximo convencê-lo do contrário, mas lógico que eu não tenho a mesma empatia com estranhos, que, de qualquer forma, dificilmente são convencidos de que estão errados. Os sabatistas, contanto que não isso não atrapalhe em nada os demais, que fiquem à vontade para tornar o dia do Enem mais difícil ainda para si mesmos.

Brinde pra vocês:

https://youtu.be/0lVdMbUx1_k

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Espeto de pau

Algo que eu julgo lamentável é ver o sujeito formado em história, ciências sociais e afins sendo católico, protestante, ou membro de qualquer grande religião organizada (não que as pequenas deixem de ser ruins). Quero dizer, você estudou o nascimento de uma mentira e estudou o tanto de mal que ela causou, e continua acreditando nela. Na verdade, um historiador conhece vários dos inúmeros movimentos religiosos que surgiram, e nos quais as pessoas acreditavam com igual fervor, como pode pensar “mas essa aqui é que é certa”? Todas, atuais e extintas, são igualmente pobres em evidência.

É igual a biólogo criacionista, médico que fuma, analista de sistema que cai em site de phishing, e por aí vai. You should know better.

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O Problema do Pessimismo e Da Misantropia

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muito tempo eu quero tratar deste problema. É claro que em um país
como
o Brasil,
passando por uma dura crise econômica, e que já foi ludibriado por
toda espécie de crápulas
cheios de “boas intenções” e “amor pelo povo”, é natural
que o pessimismo se dissemine. Mas isto não significa que estejamos
ficando mais sábios, ou mais exigentes.

O
fato é que pessimismo é um “bias”,
um viés, uma maneira corrompida de enxergar a realidade, seja sempre
enxergando o lado negativo de tudo (como uma Poliana ao contrário),
e dando mais peso a
este,
seja sempre fazendo previsões pessimistas sobre o futuro,
independente dos fatores em consideração. O pessimista descarta a
hipótese favorável instantaneamente, e, tanto quanto o otimista
bobo, corre o risco de estar errado. Fazer declarações pessimistas
sobre tudo virou uma das armas favoritas dos intelectualóides e
filósofos de boteco,
é uma das maneiras mais manjadas de se fazer de inteligente. Eu
suspeito que a série de TV House tenha colaborado para esta mania de
pensar que falar “humpf, até parece” te faz mais sabido. Alguns
dos maiores idiotas que eu já conheci tinham essa mania.

Se
todos são pessimistas, não há incentivo
para
melhorar nada na sociedade, pois ninguém vai admitir que algo
melhorou. O pessimista é incapaz de admitir que
algo
está
bom, que deveria ser admitido e reforçado. Por exemplo, quando algum
político corrupto é preso, o sabichão já vai dizendo
“humpf, daqui a pouco ele tá solto” sendo que o infeliz
provavelmente sequer leu uma única notícia inteira
sobre
o caso, e não entende porra nenhuma de direito, mas
já pensa que sabe tudo.

O
pessimista também frequentemente incorre na falácia do nirvana, que
é quando julgamos o valor de algo baseado num padrão idealizado
irreal, em
vez de
fazer uma comparação justa. Um exemplo muito claro disso é dizer
que nenhum político presta, segundo uma comparação com os
políticos de algum país nórdico como a Suécia (que, ao contrário
do Brasil, é um país de principiantes). Uma comparação sensata
entre Brasil e algum país latino-americano
seria melhor, como fez um canal do YouTube que eu assino,
o
Test Tube:
eles apontaram que a diferença principal entre nós e a Venezuela é
que ainda temos instituições firmes e um judiciário independente,
por isso mesmo o sucesso da operação Lava Jato. O
reflexo imediato de um pessimista é desprezar imediatamente esta
opinião sem nem mesmo refletir sobre ela.

Os
pessimistas também não dão valor aos números e estatísticas (é
tudo manipulado!). O cientista cognitivista Steven Pinker enfrentou
de peito aberto os pessimistas com seu livro Os Bons Anjos de Nossa
Natureza. Neste livro, ele explica
– munido
de documentos históricos, análises sociológicas acuradas, e muito,
mais muito número e gráfico
– como
na verdade a humanidade nunca foi tão pacífica quanto hoje em dia.
Mata-se menos, preza-se mais pela vida, no geral. Também melhorou
consideravelmente o trato que
as pessoas têm
umas pelas outras. Não faltou gente para chamar Pinker de farsante e
sua análise de “ingênua” simplesmente porque ela chega a uma
conclusão positiva.

Pinker
é um pesquisador sério, e ele jamais disse
que agora está tudo perfeito no mundo, ou sequer que a tendência de
pacificação é irreversível. Mas, como os pessimistas são
extremamente apegados à falácia do nirvana e se recusam a admitir o
valor de uma melhoria
parcial, resumem que tudo é uma farsa. Dizem que o fim da escravidão
é uma farsa, porque hoje em dia existe tráfico de pessoas, ou
porque as fábricas da China
têm péssimas condições de trabalho, análogas
à escravidão. É verdade. Só que o fato de um fenômeno antes
amplamente disseminado ter sido reduzido a uma prática
marginalizada, ilegal, e combatida por autoridades de todo mundo, é
algo que não se pode desprezar. Na
disciplina história também parece ter virado moda dizer que a independência
do Brasil foi uma farsa (claro, seria muito melhor ter continuado
colônia de Portugal)

Eu
também já fui muito pessimista, já votei nulo por padrão e
desprezei a espécie humana. Que é mais um engano, que aqui no
Brasil foi
alimentado pelos folhetins de Nelson
Rodrigues,
com sua obsessão
monótona pela traição. O ser humano nasce com faculdades boas
(“pró-sociais”)
e ruins (“antissociais”)
que podem ser desenvolvidas ou não, e só isso. Ser misantropo não
te faz inteligente. Tem um grupo de misantropos que eu apelidei de
“misantropos
de pelúcia”,
que nutrem um pensamento que é uma espécie de mistura amalucada de
Schopenhauer e Rousseau, típica
tia gorda do Facebook que fica postando notícia de tragédia
acompanhada de comentários de que o ser humano é podre, é um lixo,
e que só cachorro e criança que são puros e inocentes,
o resto podia morrer tudo.
Este tipo de comentário é idiota de todas as maneiras. Ah, e pode
apostar que esta tia gorda misantropa tem uma penca
de filhos, como se isso não fosse contraditório.

Outras
variações incluem o pessimista misantropo religioso, agarrado à
doentia noção bíblica de que o ser humano é ruim, pecaminosos
desde que nasceu, e um nada perto da perfeição do ser mitológico
chamado
Jesus
Cristo. O mais famoso pessimista religioso no Brasil é Luís Felipe
Pondé (prova
de que
dá pra ganhar dinheiro com isso). Tem também o ecochato que
internalizou o discurso do Agente Smith em Matrix, aquele que compara
o ser humano a
um
vírus do planeta, e que por isso toda atividade humana é abjeta e
devemos voltar às cavernas, e
sobreviver com o mínimo necessário para a subsistência biológica.
Eu estou perfeitamente ciente de que existe um lado inteligente e
científico do ambientalismo, mas não é destes ambientalistas
sérios
que
eu estou falando. Engraçado,
os ecochatos, assim como as tias loucas do Facebook e os religiosos, também
costumam ter filhos, como se isto não fosse hipocrisia.

Nem
todo misantropo é idiota ou está querendo pagar de santinho, e em
vários casos é compreensível
(ainda que não correto) ser assim, muitos misantropos são pessoas
amarguradas que sofreram diversas decepções na vida (meu caso). O
caso do próprio Schopenhauer parece ser o mesmo. Lendo, por exemplo,
Estudos
do Pessimismo (uma
seleção de ensaios retirados da obra “Parerga e Paralipomena”),
não precisa ser especialista para notar que se trata de uma pessoa
com depressão (doença incurável em sua época), mas muito
inteligente, racionalizando seus sentimentos. Pegue como
exemplo
o
primeiro
parágrafo: “A
não ser que sofrimento seja o objeto
direto e imediato da vida, nossa existência deve falhar inteiramente
em suas metas. É absurdo ver as enormes quantidades de dor que
abundam em todo lugar do mundo, e originam de necessidades
inseparáveis da vida em si, como não servindo a nenhum propósito …
mas o infortúnio em geral é a regra da vida.” Digo,
não como filósofo, mas como paciente de depressão clínica
que só recentemente melhorou, que este é precisamente o tipo de
pensamento que decorre da incapacidade de sentir prazer com qualquer
coisa e
mesmo de sentir vontade
(a ponto de julgar o prazer uma mera satisfação de necessidades, e que dor e sofrimento são a regra). O
fato de depressão também minar as suas relações interpessoais (já
perdi amigos, namorada, muita coisa) colabora e muito para uma visão
negativa da humanidade em geral.

Verdade
seja dita, os misantropos têm muitas ideias acertadas, e veem muitas
coisas que as “pessoas normais” (seja o que for essa joça) não
veem. São especialmente sensíveis aos vícios com os quais a
sociedade já se acostumou. Meu misantropo sério favorito é o
escritor egípcio Alaa Al Aswany. Deste
senhor, e em especial sua coletânea de contos “E Nós Cobrimos
Seus Olhos”, eu
tratarei em um post à parte.
Mas o fato de podermos tirar algumas coisas verdadeiras do que dizem
os misantropos não significa que esta não seja uma visão de mundo
distorcida e que não leva a nada. Uma visão de mundo que, eu quero
frisar, provem de uma doença. Nunca é demais lembrar
que depressão é doença séria e se trata com remédios. Dizer a um
deprimido que tomar remédios é bobagem e sugerir terapias
alternativas é o mesmo que dizer a um diabético para este abandonar
a insulina.

No
geral, o pessimismo cego (seja em relação à humanidade –
misantropia – ou outras coisas) é venenoso, socialmente falando,
e, ao contrário do que se pensa, não leva as pessoas a serem mais
conscientes. Não leva as pessoas a tomarem decisões melhores:
Quando você é pessimista, você já decidiu que nem existem
decisões melhores. Este ano, eu já decidi que vou votar em alguém
para prefeito em minha cidade, alguém que não é de nenhum grande
partido, um
independente, e
que eu julguei estar realmente capaz
e
com
vontade de fazer
uma administração decente. Sim, eu posso quebrar a cara depois, se
o cara não prestar,
mas ainda assim, acho melhor votar em alguém decente (não perfeito,
decente) do que decidir-me que qualquer coisa serve.

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Amo de coração o periódico Charlie Hebdo. E olhe que não sou de esquerda, muito pelo contrário. Mas sou radicalmente anti-religioso. Todas as religiões são ruins. Mas a pior delas sem dúvida alguma é o Islã. O Charlie faz parte da ala dos “liberals” que tem cabeça, que sabe reconhecer uma ameaça e tratá-la como tal, e já foi vítima direta dela e, sendo assim, não pode se vender para o espetáculo ridículo do multiculturalismo, essa mania de achar que temos de respeitar até ss culturas mais grotescas. Neste editorial eles derrubaram o mito de que a maioria dos muçulmanos é inofensiva. Não há como ser inofensivo sendo mantenedor de uma cultura corrosiva. Liberais que defendem o Islã são como crianças que entram na jaula pra fazer cócegas no focinho do leão.

Charlie e o Islã

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Um apelo à comunidade LGBT, não percam tempo com religiosos

Recentemente houve uma polêmica acerca de um pastor de uma igreja que colocou placas com dizeres preconceituosos na fachada. 

Sim, lógico que é uma estupidez, mas o que eu quero dizer aos gays e etc., que eu respeito muito, é que façam como eu fiz com relação à polêmica de Patrícia Abravanel e os ateus e não percam tempo debatendo com quem não merece. Nada de útil surgirá desta briga, que já chegou à Justiça, o Ministério Público está movendo uma ação contra esta igreja, e se conseguirem obrigá-la a tirar a placa, o pastor só vai se aproveitar da situação para se fazer de vítima (ou melhor, de mártir), dizer que está sofrendo “cristofobia”, e pedir pros fiéis doarem mais.

Meus caros, cristianismo é uma doutrina que surgiu no deserto no começo do primeiro milênio da era comum, e está de acordo com a mentalidade do povo e da época. Além de se basear na crença em fatos inverídicos, inverificáveis, ilógicos, quando não impossíveis, algo que por si já o torna indefensável, o cristianismo falhou miseravelmente como código moral. A sabedoria dos fundadores da bíblia em questões humanas era tão parca quanto seu conhecimento sobre o universo. Note que durante todo o período que a Igreja Católica exercia poder no ocidente, ela consentiu e participou ativamente em todo tipo de atrocidades, promoveu guerras, torturou sem piedade, submeteu as pessoas ao medo e à vergonha de coisas inofensivas, não permitiu opiniões destoantes, atormentou a mente dos homens com o medo do inferno na além-vida e fez questão de tornar a vida no aqui e agora infernal.
O protestantismo não foi muito melhor, e também promoveu matanças em nome da fé, como foi o caso do enforcamento das “bruxas” em Salém. Falando em protestantismo, um dos massacres mais marcantes da história ocidental, a noite de São Bartolomeu, foi diretamente motivado por discrepâncias entre dois grupos religiosos. Pessoas se matando porque não concordavam na melhor maneira de agradar seu amigo imaginário, colocando de uma maneira simples, mas não errônea. E isto era o cristianismo na época que ele era mais pleno, o cristianismo de raiz, sem influência de outros valores. Nesta mesma época, a Igreja aquiesceu com a escravidão, seus teólogos decidiram que índios tinham alma, mas negros não, uma interpretação para lá de conveniente. Afinal, a bíblia não condena escravidão. Passagens que prescrevem a execução de bruxas e a morte de infiéis também existem, e não foi tão difícil para os teólogos arrumarem desculpas para ignorar o mandamento de não matar.

Grande parte da ética comum de hoje em dia é secular, isto incluem valores que os cristãos gostam de chamar de seus, isto surgiu num contexto de iluminismo, por pensadores que foram os pioneiros em fazer uma ética independente de religião, uma ética pensando no bem do homem, não no agrado a uma entidade imaginária.

As religiões, por sua própria natureza (ser baseada em dogma) são muito difíceis de mudar, especialmente as mais tradicionais, os três grandes monoteísmos. Nem por pressão do governo nem por pressão popular elas vão deixar de ser homofóbicas, ainda que a homofobia seja irracional, pelo menos não por muito, mas muito tempo. A igreja já manteve muitas outras irracionalidades por muito tempo. A visão deles de família tradicional é imune à mudança dos tempos, porque eles acreditam em valores eternos e imutáveis, afinal, eles acreditam provir do próprio criador do universo.

Eu sinceramente acho bom que religiosos expressem publicamente seu ódio à comunidade gay, assim podem lembrar à sociedade o quão ruim é a religião, põe suas garras. E acho que os gays deveriam desistir de combater o preconceito na religião, por ser uma batalha sem fim, e combater a própria religião, além de se afastar delas, ou pelo menos daquelas que os consideram repugnantes pela sua orientação sexual. Lembrando que isto não significa ser violento com os fiéis dessa religião, o que eu sempre defendo e sempre vou defender é o combate de ideias com ideias, não de pessoas, pelo menos não pelo simples fato de pertencerem a uma religião. Os religiosos que combatam entre si com balas e bombas, eu combato ideias erradas com palavras, e acho que a comunidade gay deveria fazer o mesmo, com palavras, e também não com processos.

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Vamos usar a palavra Ateu

Sem eufemismos, porque não são necessários. Ateu é um termo perfeitamente bom para designar uma pessoa que não acredita em deuses, não é motivo para se envergonhar, nem é indicativo de inteligência superior, é apenas o que parece.

Digo isso porque vejo muitos ateus com vergonha de usar o termo. Quando perguntados sobre sua crença, logo pulam para malabarismos linguísticos, vão dizendo “veja bem, eu não tenho certeza sobre dogmas, mas acho que existe algum tipo de força…”, ou ainda “eu tenho uma espiritualidade”, e tem o agnóstico.

Existe no Brasil uma mentalidade de que dizer que não se acredita em deus é coisa feia, arrogância, quando não falha de caráter. É claro que isto tudo é besteira. Eu mesmo já conheci ateus que são muito meus amigos, e outros que eu não suporto nem olhar na cara. Tanto Marx quanto Ayn Rand eram ateus convictos, assim como Freud e Skinner, fundadores de duas escolas de psicologia radicalmente diferentes. Não existe perfil psicológico de um ateu. mas os ateus de certa forma internalizaram este discurso de que você é obrigado a acreditar em alguma coisa, e não acreditar é uma espécie de defeito. E tem o problema de ser considerado impolido dizer que a outra pessoa está errada, o que está implícito na frase “eu sou ateu”, quando dita a um religioso, por isto muitas pessoas acham mais polido colocar em outros termos. Eu dispenso este tipo de cortesia, até porque outros grupos não tem problema com ela. Os vegetarianos não tem problema nenhum em dizer que são vegetarianos, ainda que nesta autoafirmação esteja implícita a declaração “eu sou mais ético do que você”, ainda assim ninguém parece estar ofendido com isso. Então não, eu absolutamente não tenho problema em afirmar que outra pessoa está errada.

E não tem problema nenhum afirmar que algo cuja existência é absolutamente improvável não existe, não é questão de arrogância, é questão de bom senso, e eu ainda acho que a grande maioria dos agnósticos, no fundo, são ateus que precisam de um empurrãozinho para saírem do armário, o que estou tentando fazer neste post. Só faria sentido você ser realmente agnóstico se você achasse que a chance de um ou mais deuses existirem é igual à chance deles não existirem, 50/50 ou quase, e se fosse o caso, você tomaria algum tipo de precaução em agradar tal deidade que pode existir. Mas os agnósticos que eu já conheci vivem sob a hipótese de que não existem quaisquer deuses, e isto absolutamente não interfere em sua noção de realidade ou em seus hábitos.

O filósofo Russel expôs a falha do agnosticismo brilhantemente com a metáfora do bule celeste, um objeto que supostamente orbita entre a Terra e Marte, mas que é muito pequeno para ser visto por nossos telescópios, por isso, segundo a lógica do agnosticismo, não poderíamos falar que o bule não existe. Mas é claro que podemos dizer que não existe, porque quando algo extraordinário não tem provas de que exista, nós não acreditamos até que surjam provas suficientes.

Ainda que os religiosos critiquem a posição cética, eles mesmos usam deste raciocínio em seu cotidiano, só fazem uma exceção para um grupo de afirmações absurdas, mas muitos deles não vão acreditar imediatamente em promessas de investimentos milagrosos (invista dez mil reais neste negócio e nunca mais tenha que trabalhar o resto da vida!) ou dietas sem esforço e etc. Isso sem falar que todo religioso é cético quanto a outras religiões.

Infelizmente, ainda é considerado feio ser ateu. Isto só vai mudar quando mais pessoas começarem a usar a palavra sem ambiguidades desnecessárias. Eu não estou pedindo para ninguém ser chato, para falar desse assunto o tempo todo ou para declarar seu ateísmo com megafone na praça. Se alguém te perguntar, diga apenas “sou ateu”, se ela questionar, explique. Isto basta.

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