ceticismo, Educação, filosofia, Humano

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E peço desculpas aos poucos, mas muito valiosos, leitores deste blog, pela minha ausência inexplicada. Parei de escrever por um tempo por questões pessoais, da minha saúde mental bastante debilitada, que me forçou a fazer viagens diárias à outra cidade para tratar minha depressão com a técnica de estimulação magnética transcraniana, o que foi exaustivo e oneroso, mas o saldo final foi inequivocamente positivo. Após 16 sessões, eu estou novamente funcional, e estou feliz em estar, pretendo prosseguir com este blog, cuja escrita sempre foi um deleite para mim, e encabeçar em novos projetos, estudar e escrever obstinadamente. Eu ainda me recuso a usar o termo “resiliência”, por ser um modismo de autoajuda, e porque eu não me alavanquei sozinho para fora de minha condição de inércia patológica, como um barão de Munchausen se puxando para fora do pântano sozinho. Na verdade, pensei muito em morrer, pensei que seria melhor não existir. Mas mudei de ideia. Agradeço à ciência, e agradeço à minha família e aos meus amigos que me forneceram o apoio moral, financeiro e emocional de que tanto necessitei, bem como dos profissionais de saúde mental que me prestaram seus excelentes serviços. Eu não sou, afinal, um lobo solitário, e tão pouco um ídolo objetivista autossuficiente como os protagonistas da literatura de Ayn Rand. Mas meu fardo ainda é meu para carregar, e eu o aceito. Eu não desejo mais morrer, por mais que a ideia pareça tentadora às vezes.

E isto é bom, e não só pra mim, nem só para os meus amigos e família. Eu preciso me lembrar frequentemente que não estou nesta Terra à toa, eu tenho uma missão. E a minha missão é incomodar. Pois bajuladores e conformistas já há em excesso na sociedade, eu quero mesmo é criar problemas, só quero ter intelecto o bastante para ninguém me derrubar, e os livros que leio engrossam minha armadura. Neurótico, eu? Talvez. Mas os neuróticos também são necessários. Alguns homens parecem ter vindo à terra para viver a vida de uma bromélia, e seguir uma cômoda obediência bovina. O que os marxistas não querem admitir é que a maioria dos homens adora ser alienado, quer mesmo saber o mínimo necessário e considera conformismo uma virtude cívica. E não se engane: Não só nas fábricas, não só entre os pobres. Mas não, eu não. Não sou super-homem nietzchiano, nem sou livre de fraquezas, mas eu tenho coragem, e optei por viver e fazer algo que valha a pena neste mundo. E é preciso ter no lugar em que me encontro.

Falo do ambiente acadêmico. Eu vejo que há um excesso de “doutores” em besteirol por aí. Hoje mesmo, em uma emética palestra de direitos humanos na faculdade (na qual, estranhamente, quase não se falou de direitos humanos) a velha ladainha: As doutoras (de merda) discursando seus refrões enlatados de justiça social. Meu amigo, que sentava ao lado, comentou: “Parece que em toda palestra eles querem nos fazer sentir vergonha de sermos brancos.”. E é verdade. Quando vemos episódios lastimáveis como o que ocorreu recentemente em Virgínia, nos EUA, de manifestações de neonazistas, que chegaram até a matar uma pessoa, não nos esqueçamos que muito do combustível destes movimentos é o tal “efeito mola”, de radicalismo de um lado levando a radicalismo do outro, também conhecido como a “ferradura”. A histeria das SJWs piradas alimentam a ira dos neonazistas e vice-versa, num círculo vicioso boçal.

As doutoras de merda que tive o desprazer de assistir hoje, foram daquelas que querem a todo custo impor a já há muito desprovada teoria da tábula rasa: Tudo é construção social para estes loucos. Em nome da tal justiça social, toda verdade científica pode e deve ser sacrificada. Toda opção que a mulher toma, nesta visão deturpada,  considerada é fruto de uma grande conspiração do patriarcado. Céus, eu juro, em dado momento, se disseram indignadas por terem procurado “brinquedos de menina” no Google e visto só bonecas e coisas cor-de-rosa. Quem diria, não? Ah sim, todo o discurso vitimista convenientemente se esquivando da questão do islamismo, a religião mais misógina (no sentido estrito do termo) do mundo, mas que o politicamente correto decretou imune à crítica. Quando terroristas invadiram a redação do Charlie Hebdo e assassinaram os cartunistas, Glenn Greenwald foi logo dizer que a culpa foi dos cartunistas. Aliás, após tomar coragem de pegar o microfone na sessão de perguntar e comentários e expor minha opinião, me chamaram de indelicado por ter dito que as teorias das palestrantes são anticientíficas. Falei foi pouco. Fui delicado demais.

Enfim, sem entrar em detalhes desnecessários, eu preciso continuar vivo, para ter meu doutorado também, e o meu não será em “justiçagem social” embasada em pseudo-ciência, não senhor. Minha ideologia é a razão. Estamos num país em que homeopatia é especialidade médica, um congresso supostamente laico tem espaço para uma bancada evangélica, um ex-presidente condenado por crimes graves é adorado por multidões que o consideram vítima independente das montanhas de evidências de sua canalhice, criacionismo corre o risco de entrar no currículo de biologia como alternativa à evolução, e falando em educação,a questão educacional virou uma espécie de cabo de guerra de fanáticos religiosos contra pós-modernistas e marxistas por quem tem direito a impor sua agenda ideológica nas escolas. Ideologia de gênero vs. cristianismo. Que tal nenhum deles? Que tal a ideologia da razão?

Minha personalidade não é nada comedida, nada moderada, como alguém poderia associar imediatamente ao apreço pessoal à racionalidade. Não, pelo contrário, eu tenho um emocional complicado, e sou bravo. E acho que preciso ser bravo. Eu sou dos que admiram a razão e a ciência legítima, que acham que academia é lugar para esta, e não para politicagem, a verdade não é relativa ou socialmente construída e jamais deve ser condicionada aos interesses da ideologia da moda, e só a verdade liberta. Sou também daqueles que querem uma economia verdadeiramente livre e próspera, e sabem que isto só se faz com estímulo ao empreendedorismo, com redução de entraves burocráticos e fiscais, e acima de tudo com mérito ao estudo e ao trabalho, com mérito aos feitos do indivíduo, o indivíduo, sim senhor, que não é um mero ponto acéfalo em uma massa chamada sociedade, cujos interesses podem ser sacrificados aleatoriamente para atender alguma agenda escusa de um ideólogo idiota.

Não sou objetivista, nem me considero bem libertário, mas definitivamente não sou socialista. Cada indivíduo é um universo, seu ser é determinado antes de mais nada por sua condição biológica, e esta determina várias de suas facetas, mas além desta, é a somatória de fatores únicos que se passam em sua vida que o tornam singular, que fazem de sua mente idiossincrática. O potencial de um ser humano não é infinito, mas é único. Este ser não é derradeiramente livre, não no sentido teológico, ilógico, que viola as leis da causalidade, como se o cérebro fosse uma quarta dimensão independente das leis da física. Mas é livre no sentido de seguir seus anseios, suas paixões, seus impulsos, e estes estarem em alguma medida mediados por seu conhecimento e sua capacidade racional. Livre-arbítrio? Corte o arbítrio. Por que não apenas “livre”?

E ideologia? Eu acredito em razão, esta é minha ideologia, e isto me faz membro de uma minoria, uma de verdade, não uma minoria do PSOL, uma pequena minoria, mas não calada.

Eu não sou um gênio, e nem estou certo de ser muito inteligente, apenas subo no ombro de gigantes, não de anões, como é o caso dos doutores e doutoras em baboseiras, e procurarei meu lugar ao sol assim. Estou vivo. E é bom estar vivo. Quem não está contente… Bem, como disse, posso ser racionalista, mas tenho um temperamento intempestivo, então mais uma vez tomo aquela frase atribuída ao também intempestivo (e como!) Marquês deSade. Não admiro em nada sua irracionalidade e perversidade, mas sim sua coragem em desafiar o convencional e jamais disfarçar quem é, em desafiar, sempre desafiar, ainda que acabasse preso antes e depois da Revolução, pois não foi capaz de se adequar à mentalidade nem da monarquia, nem do Império de Napoleão. Nem a monarquia nem Napoleão calaram Sade, e nem o politicamente correto (e nem a depressão) me calarão, se quiserem combater minhas ideias, melhor terem ideias melhores, pois não me calarei por delicadeza.

“…repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.”

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Haverá esperanças para os seres racionais deste mundo? Quando eu vejo o meio acadêmico, que deveria ser um templo da razão, da investigação e debate céticos e imparciais, tornando-se um antro de (não) pensamento anticientífico, politicagem, pós-modernismo e marxismo, onde há pouco espaço para divergência e tolerância, tão pouco abertura ao debate impessoal, eu temo pelo nosso futuro. Talvez estejamos condenados a voltar às cavernas.

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Negação da ciência MATA

“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)

O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas
humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.

No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça
à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a
falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil,
uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma
outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à
saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da
ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento
científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as
áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da
Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a
aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto
firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.

Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até
fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e
se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam
este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou
não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane,
quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas,
mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio
possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil
o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O
serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que
algumas pessoas preferem ficar com nada.

…Mas eu não quero me entupir de remédios…

 Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma
espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em
pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos
avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem
que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da
falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se
remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou
tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e
cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala
a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem
prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer
tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica
ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de
“macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo
qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo.
Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais
grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios
psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da
consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.

Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade
moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para
muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E
eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam
nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.

Existem  exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que
funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de
medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.

“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”

 

E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou
que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só
para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acupunturistas
profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os
tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos
duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.

E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para
prometer uma suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais
conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as
pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica.
Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.

Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado
não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este
velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom
senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que
realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da
pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.

Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita
coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de
uma espécie de lobotomia.

O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os
tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um
tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o
tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho
do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros).
Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim,
tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias
alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a
ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os
idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.

O movimento anti vacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo
contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o
fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas.
Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois
do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua,
dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que
aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o
movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz
começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e
se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu
extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer
qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo
tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.

O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma
desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente
da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na
internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do
tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.

“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”

Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias
erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que
está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são
importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição,
que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre.
Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso
científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e
o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na
religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está
errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo,
mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a
diferença?


“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”

Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas
teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo
é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada
é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos
e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas
vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão
grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer
língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa
frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar
juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem
mentes parecidas.

Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a
sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências
humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste
confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em
questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para
quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já
que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão
dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos
maus.

A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam
nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua
redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de
dinheiro também já ceifou muitas vidas.

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Farsas – J.J. Rousseau e a pureza do homem primitivo (e merthiolate)

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Não importa o que disse o seu professor de história/sociologia/filosofia: Não há qualquer justificativa razoável para esta veneração à Rousseau da academia brasileira. Talvez um dos pecados das ciências humanas, ao menos do Brasil, é que elas, contaminados pelo pós-modernismo, desprezaram o conceito de verdade, rebaixado a mero “constructo social”, não se pode mais dizer que nada é verdade, tudo é relativo e a acuidade dos fatos pouco importa.

O “homem em estado de natureza” de que Rousseau falou é um homem que nunca existiu, portanto não faz sentido usá-lo de exemplo para a vida de homens de verdade. Pilhas e pilhas de vestígios arqueológicos já encontrados provam, só para começo de conversa, que o homem nunca foi solitário. Primatas sempre foram seres sociáveis que vivem em bandos, definem hierarquias de poder, e se apropriam de  território, isto inclui os primatas que vivem hoje, além do homem. A estrutura da mente humana é formada inatamente para a vida em sociedade. Nada disto, portanto, é construção cultural e muito menos corrupção.

A natureza, inclusive, não é como você conheceu no desenho da Branca de Neve (que parece ter sido a inspiração de Rousseau), ela não é abundante e não provê o bastante para todos sem que seja preciso brigar. Escassez é a regra na natureza, os animais brigam por comida em natureza o tempo todo. Estupro é só mais um meio de reprodução, para quem não teve sorte de ser o macho alfa. Fome, frio, medo e violência, isso é o dia a dia na natureza. Não haveria nem seleção natural se não houvesse escassez. A maioria desses doutores em Rousseau não suportariam passar um dia em estado de natureza, a não ser é claro com instrutores e todo equipamento necessário, em uma aventura de férias, e logo depois iriam se recuperar em um chalé quentinho, com wi-fi, escrevendo sobre a aventura num laptop. Para que continuar dizendo que um estilo de vida que você mesmo não suportaria ter é o ideal?

A vida civilizada, junto do livre comércio e da globalização, não trouxe só pequenos confortos materiais. Mesmo coisas que você hoje considera absolutamente trivial, como um analgésico para dor de cabeça ou canetas bic, só surgiram após muito estudo e trabalho que só foram possíveis em um ambiente civilizado, com paz e propriedade privada assegurados. As pessoas tendem a esquecer que muito do que elas tem hoje como básico e barato não existiu desde sempre e não surgiu espontaneamente. Até mesmo hábitos como o de escovar os dentes e tomar banho só foram possíveis num contexto em que as pessoas se preocupavam mais com a aparência, porque faziam mais comércio e era preciso ser mais sociável do que antes, e em que bens de consumo necessários para estes hábitos (a escova de dentes e a banheira) se tornaram acessíveis. E antes da nobreza, foi a burguesia, esta grande vilã do rousseaunianos e cia. limitada, que adquiriu hábitos civilizatórios que nem fariam sentido num mundo do cada um por si, ou num mundo primitivo de pequenas tribos, mais próximo do que Rousseau descrevia, apesar de jamais ter sido igual.

Com mais civilidade vieram conceitos como valorização da vida, igualdade de direitos, direito a propriedade… A vida se tornou longa e cara. Mesmo a ideia que temos hoje de infância ideal foi um fruto da melhora das condições de vida que diminuiu a mortalidade infantil que era altíssima antes de evoluções na medicina e na produção de alimentos. As famílias investem mais em seus pequenos quando as chances deles sobreviverem até a idade adulta são grandes. Falando de infância, o fenômeno do bullying já deveria ter desmoronado de uma vez por todas com a falsa noção de que a criança é “pura”. A criança merece sim proteção especial, mas não por ser pura, mas por ser fraca e ingênua, o que não tem nada a ver com pureza.

Portanto, o mundo natural que Rousseau tanto elogiava nunca existiu exatamente daquela forma, e espero que nunca chegue a existir, quanto mais próximo a ele, pior é. A vida em natureza é extremamente desconfortável e extremamente dolorosa, ao que os rousseaunianos apenas respondem que essa dor não importa porque ela é natural. Claro, que besteira se importar morrer com as pernas quebradas no meio da floresta, ruim é ser vítima do mercado de consumo.

Longe de mim dizer que tudo é maravilhoso na vida em sociedade. Na verdade, eu desprezo vários valores modernos, como o excesso de burocracia, e a impessoalidade que passa a se tornar covardia, além de excessos regulatórios do governo, que transformam qualquer liberdade individual em bem sacrificável quando a intenção é mudar estatísticas, e sinceramente não suporto a alienação e repetitividade da vida diária, e me irrita a mediocridade da opinião comum. Trocaria isso tudo por uma vida em natureza próxima ao delírio rousseauniano? Decididamente não. Civilização: ruim com ela, pior sem ela. Vale dizer que o próprio Rousseau não pretendia voltar à vida em seu suposto estado natural, se você for ler o que Rousseau sugeria que deveríamos ter como governo e estrutura social, logo entenderá porque ele é tão amado pela esquerda.

Falando em mediocridade da opinião comum, esta facilmente nos leva de volta a idade das trevas. O mundo civilizado com abundância material formou-se às duras penas, contra todas as probabilidades, e não é realidade no mundo todo, veja como estão as coisas na África e no Oriente Médio. E não se engane: Não há força alguma que nos impeça de regredir. Deixe os escritores de comentários do G1 serem legisladores, deixe deliberarem segundo seu sagrado “senso comum” e “sabedoria popular”, e nós teremos uma legislação à lá Estado Islâmico. Educação é um bem tão mal distribuído quanto comida. Um dos grandes problemas da democracia é que nela ganha quem está em maior número, e estes geralmente são os idiotas.

Essa gente reclama até que merthiolate não arde mais, o que supostamente está deixando as crianças frouxas, um valor que até coincide com as ideias de Rousseau (assumido admirador de Esparta, que ele considerava a civilização menos corrompida) sobre a dor como natural e necessária para enrijecer o caráter, algo que está no cerne do valor da “macheza”. Uma ova. Que bom que não arde mais. Na verdade, aquela coisa só ardia porque tinha mercúrio, altamente tóxico, e aquela pazinha ficava toda contaminada e infectava as crianças, por ser normalmente compartilhada. Com a lei da palmada só se incomoda quem é burro demais para educar sem elas, ou quem no fundo só queria uma desculpa para descontar as frustrações do dia batendo nas crianças. Essas mesmas pessoas bateriam na mulher, na empregada ou no próprio chefe se achassem alguma desculpa. Dor desnecessária pode e deve ser removida da vida.

Você pode atá argumentar que a ignorância de Rousseau sobre o estado do homem em natureza se deve à pouca ciência da época, ao pouco conhecimento arqueológico que tinha ao seu dispor. Mas veja o trabalho de Thomas Hobbes, que viveu antes de Rousseau. Seu ponto de vista é muito, muito mais acertado, é baseado em realidade e não em ideologia, e vale a pena ser estudado até hoje. Sua citação que ficou mais famosa foi aquela de seu livro Leviathan, em que ele descreve a vida natural como sendo “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. É quase isto, errou por pouco.

Para se informar mais:

https://youtu.be/A-jIUPEqYdw

http://gizmodo.uol.com.br/os-anjos-bons-da-nossa-natureza-steven-pinker-acredita-que-a-violencia-esta-diminuindo/

http://bigthink.com/daylight-atheism/book-review-the-better-angels-of-our-nature

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