filosofia, Humano

Qualia 1: Mente e Corpo, qual é a dificuldade?

 

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O post de hoje é tão especial que estou o ilustrando com uma foto minha de verdade, só desta vez.

“Os anos 90 são chamados de a década do cérebro. Mas nós provavelmente nunca teremos uma década do pâncreas”, escreveu Steven Pinker em Como a Mente Funciona. Mas por que não? O pâncreas é um órgão complicadíssimo, como todos os demais do corpo humano, uma peça central do sistema endócrino, desempenha diversos papéis no metabolismo. E muitas pesquisas são feitas sobre ele, afinal, doenças do pâncreas, tais como o diabetes, provocam o sofrimento de milhões de pessoas. Steve Jobs morreu de um câncer no pâncreas. E se conseguissem criar um pâncreas artificial? Seria formidável. Ainda assim, não parece que o órgão seja interessante o bastante para suas pesquisas cativarem o público geral, muito menos marcar uma década, como foi o cérebro e sua ciência nos anos 90, com seus exames de neuroimagem avançadíssimos mostrando o que há de disfuncional nos cérebros dos esquizofrênicos e dos psicopatas, e sugerindo como poderíamos estimular o cérebro dos bebês para torna-los mais inteligentes e criativos no futuro (e talvez evitar que se tornem esquizofrênicos ou psicopatas). Nem o fígado, o estômago, ou o baço parecem ter o mesmo “carisma” e o mesmo apelo midiático do cérebro…

Afinal, eles não pensam.

Nosso senso comum parece tratar o cérebro como algo especial porque enquanto todos os outros órgãos, nossos e dos outros animais, desempenham funções apenas, o cérebro abriga ou faz ponte com a consciência, e seu funcionamento, atrelado à consciência, é especial, praticamente sagrado, intimamente ligado à identidade pessoal. Consciência aqui não é no sentido de “bússola moral” ou senso de certo e errado, como em “esses políticos corruptos não têm consciência”.  Consciência é a experiência interior, subjetiva, o “filminho na sua cabeça”, aquilo que se perde temporariamente ao dormir ou desmaiar. Consciência não é qualia. Mas consciência sem qualia não é consciência.

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ética, filosofia, Humano, Política, sociedade

Feminismo – Três Lados da Moeda

Por acaso encontrei esse debate no YouTube, e gostaria de fazer algumas observações sobre ele. Recomendo assisti-lo todo antes de ler o post. O comecinho do vídeo não tem som mesmo, os primeiros segundos. E seria bom se no resto do vídeo o áudio da loira continuasse mudo.

As duas participantes, Nádia, a morena à esquerda, e Taís, a loira, à direita, têm suas respectivas páginas no Facebook; a de Nádia é a Moça, não sou obrigada a ser feminista e a página da Taís é Sem Censuras por Favor (que eu me recuso a linkar aqui). A Jovem Pan dificilmente encontraria figuras mais antagônicas para debater o assunto, e nessa meia hora de debate podemos ver não apenas uma mera diferença de opinião, mas uma diferença de maturidade intelectual entre as participantes: Nádia fala sempre de forma clara, pragmática, reconhecendo problemas sociais de forma realista e imparcial. Ela não aparenta em seu discurso nenhuma neura nem fanatismo ideológico de qualquer tipo. Já a Taís…. Que dó. Tão bonita, mas defeca tanto pela boca. Só papagaiou discursinhos prontos politicamente corretos do começo ao fim.

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filosofia, Humano, saúde

Vamos Falar Sobre Depressão

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Já faz um tempo que eu quero fazer um post sobre o assunto. Eu sofro dessa doença há muito tempo, e apenas recentemente obtive remissão, que inclusive é um dos motivos desse blog existir. Várias pessoas acreditam haver um elo entre depressão e criatividade. Não sei não, comigo é o contrário, depressão não me deixa com vontade de fazer nada, me deixa completamente apático, eu não crio nada pois tudo me parece desinteressante. Isto é o que depressão normalmente faz: Te faz um nada.

Primeiramente, um apelo: Quando não se sabe nada sobre um assunto, não dizer nada é uma alternativa perfeitamente válida e honesta. Se algum amigo lhe disser que tem depressão, e você não souber o que falar, não fale nada. Às vezes, as pessoas compartilham os problemas com os amigos pois se sentem melhor assim, não porque exigem uma solução imediata. O melhor que você pode fazer é continuar sendo amigo, conversando com frequência, e convidando ele para eventos sociais, até sendo um pouco insistente, pois pessoas com depressão frequentemente perdem a vontade de sair de casa. Mas por favor, só não seja babaca.

Babaquice e negação da ciência são algumas das maiores ameaças aos deprimidos. Há um grande tabu sobre a ciência interferir na mente, como se a mente, e o órgão que a abriga, fosse uma espécie de território proibido para a ciência; tratam o cérebro não como se fosse um órgão do corpo humano como os demais, sujeito a disfunções bioquímicas, mas como uma espécie de dimensão paralela dentro do crânio, independente da realidade física (fantasma na máquina) e, pra piorar, a educação sobre saúde mental no Brasil é praticamente nenhuma. Quando muito, nas aulas de biologia do colégio aprendemos sobre mal de Parkinson e Alzheimer. E as pessoas, ignorantes,  ao invés de ajudarem, ou ao menos não atrapalharem, dão todo tipo de conselho babaca para os amigos e parentes deprimidos. Falam que é falta de sexo, que isso é só preguiça, que é uma fase que vai passar, que só o que precisa querer ficar melhor (mais ou menos como dizer a um paraplégico que só o que ele precisa é ter vontade de levantar da cadeira de rodas e sair correndo) ou de tirar umas férias, isso se não vierem com alguma teoria conspiratória de que a depressão foi uma doença inventada pela indústria farmacêutica para vender remédios para pessoas tristes… Vou repetir, se não tiver nada útil a dizer, não diga nada.

O filósofo Albert Camus, que tratou muito do tema suicídio (segundo ele, o problema filosófico mais importante de todos) já avisava: Às vezes, uma pessoa pode passar meses ou anos com sintomas depressivos mas não se matar, mas aí algo acontece, como um amigo o tratar com indiferença, e ele comete suicídio. Quando você fala pro seu amigo com depressão que ele é só um preguiçoso fracassado que tem que tomar vergonha na cara, você pode estar sendo este gatilho.

Depressão é doença séria, e trata-se com remédios.  A causa é bioquímica, um déficit de neurotransmissores que regulam o estado emocional, em especial a serotonina, norepinefrina ou noradrenalina, e dopamina. Há várias classes de medicamentos, como os SSRI, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como o famoso Prozac (fluoxetina), e também o Zoloft (sertralina) e Escitalopram, além dos SNRI, que também inibem a recaptação de noradrenalina (isto é, impede que o organismo “recicle” este neurotransmissor, aumentando a concentração dele na fenda sináptica) como o Efexor e o Cymbalta, e os antidepressivos atípicos, como o Wellbutrin (bupropiona) e Remeron (mirtazepina), este último ainda tem a vantagem de ajudar no sono e estimular o apetite (o que pode ser bom ou ruim, dependendo do paciente), e funciona muito bem quando tomada junto do Efexor: O coquetel, nos EUA, foi até apelidado pela comunidade médica de California Rocket Fuel. Muitos destes remédios citados tem genéricos disponíveis, e alguns são fornecidos pelo SUS. Se você não tiver convênio, nem dinheiro para pagar o particular, procure um médico do SUS, mas procure.

Não é raro o primeiro ou o segundo remédio não dar certo, seja como for, não desista do tratamento, volte ao médico e tente de novo, ele pode aumentar a dose, tentar um remédio novo, ou tentar adicionar um outro remédio para aumentar o efeito do antidepressivo (efeito sinérgico), como um estabilizador de humor, ou mesmo um estimulante, destes usados para tratar déficit de atenção, como o Venvanse (lisdexanfetamina). As diferenças do corpo e mente de uma pessoa para outra significam que nem sempre um remédio ou coquetel vai funcionar bem para todo mundo. Mas ignore os teóricos da conspiração: Todos os antidepressivos no mercado passaram por testes clínicos e se provaram superiores em eficiência ao placebo, em proporção clinicamente significativa. Algumas pessoas, especialmente aquelas com depressão mais branda, conseguem melhorar sem medicação, apenas com psicoterapia (que é bom como complemento) ou “medicina alternativa”. Isto é questão de sorte. Eu recomendo não perder tempo. Não brinque com uma doença que está sugando a sua vida e pode levá-lo ao suicídio.

Existe, é verdade, depressões de diferentes tipos, dois em especial: A exógena, que é causada (ou seja, o que provoca o desequilíbrio químico em primeiro lugar) por algum fator externo identificável, como um trauma muito grande (a morte de alguém muito próximo, um estupro, um sequestro), condições de vida muito estressantes, ou uma mentalidade muito negativa; e a endógena, que surge sem nenhuma explicação. Também acontece da mulher ter uma crise depressiva logo após dar a luz, a depressão pós-parto. As mais difíceis de tratar são aquelas ligadas a outro problema psiquiátrico, como um transtorno de personalidade, ou uma esquizofrenia. Comorbidade com ansiedade é extremamente comum. Todos os casos devem ser tratados, principalmente, com medicação. Idealmente, o psiquiatra, além de prescrever remédios, deve pedir um exame de sangue para ver se os sintomas depressivos não são causados por outro problema físico, como falta de vitamina D, hipotireoidismo ou baixa testosterona. Mas geralmente é desequilíbrio de monoaminas (neurotransmissores) mesmo.

Ao contrário do que muitos pensam, depressão não é algo muito relativo nem é “patologização do cotidiano”, existem critérios objetivos para avaliar se uma pessoa tem ou não depressão, ou se ela não está “apenas” triste. Aliás, nem sempre depressão se manifesta como tristeza, às vezes o comportamento que mais se nota no deprimido é irritabilidade (especialmente em crianças, mas não apenas) ou, no meu caso, completa apatia. Isto é, eu, deprimido, me sinto um verdadeiro zumbi, uma casca vazia, que quer apenas deitar na cama e esperar para morrer.

Tempo é um critério importante no diagnóstico: Ficar triste porque o seu amigo morreu num acidente de carro, ou porque a sua namorada te deixou, é normal. Continuar pra baixo, sem vontade de fazer nada, meses ou até anos depois do evento, não é. Existem escalas para medir a gravidade da depressão, e alguns testes são feitos para o próprio paciente responder, inclusive testes online, se você tiver alguma suspeita. Os testes existem e são usados até hoje não porque são infalíveis, mas porque acertam mais do que erram, e são uma ótima coisa a se fazer se você  estiver em dúvida e quiser saber se está na hora de procurar ajuda. Um deles é  este, o MDI, Major Depressive Inventory, que é e recomendado pela organização mundial da saúde, mas está em inglês. Mais alguns testes que você pode tentar, em português:

https://www.psiquiatrajoinville.com.br/como-identificar/inventario-de-depressao-de-beck/

http://psico-online.net/consultorio/teste_ava_depressao.htm

Psicoterapia é interessante, se você puder fazer, além da terapia medicamentosa, e costuma aumentar as chances de sucesso no tratamento, mais do que apenas remédios, além de prevenirem a volta dos sintomas, após a remissão (cura). Psicólogos não são todos iguais, e a abordagem que comprovadamente tem maior sucesso para ajudar no tratamento de depressão, e evitar remissão, é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). O psicólogo ajuda, principalmente, a identificar padrões de pensamentos automáticos negativos que fomentam a depressão (pensamentos do tipo “eu sou um lixo”, “eu não valho nada”, “o mundo é horrível”,”o ser humano é podre”), além de ajudar o paciente a organizar a vida, ser mais disciplinado, mas sem deixar de fazer as coisas que gosta, e ter melhor relacionamento com as pessoas. A TCC é uma abordagem voltada à resultados, e interativa, em que o paciente não apenas fala, mas recebe tarefas, que podem ser coisas simples que evitam hábitos ruins, como fazer listas de coisas para fazer. Não é recomendada apenas para deprimidos.

Uma última coisa, algo que eu quero deixar bem claro: Depressão não é “parte da personalidade” de ninguém, e não é nada chique, e nem um indicativo de uma visão de mundo mais madura e desenganada, e eu vejo claramente uma tendência de glamorizar a depressão, ou torná-la algo típico de gênios, mais ou menos como era com a tuberculose no século XIX. Existiram pessoas geniais que tiveram depressão, o mais famoso no mundo das artes é o pintor Van Gogh, assim como os filósofos Nietzsche e Schopenhauer, e é claro que devemos admirar estas pessoas por seu sucesso, mas o que há de se admirar nelas é exatamente que conseguiram ser tão produtivas apesar da depressão, não por causa dela, e tratar depressão não torna ninguém medíocre. Na verdade, acho que nunca fui tão medíocre quanto quando estava em profunda depressão.

Muitas das visões de mundo de Schopenhauer, como a de que prazer nada mais é que uma mera supressão de necessidades, a vida é um episódio não lucrativo (ou seja: não vale a pena viver) e de que socialização é perda de tempo, são exemplos típicos de tentativas um deprimido extremamente inteligente  racionalizar seu sentimento em pensamentos equivocados, ainda que bem escritos, mas mesmo assim equivocados. Uma opinião não é certa só porque é trágica. Se você tem depressão, fuja deste tipo de coisa.


Mais referências:

http://folha.com/no1838728

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Educação, filosofia

Reducionismo Bom e Ruim

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De todas as ideias que já absorvi nas milhares de páginas que já li do cientista cognitivo Steven Pinker, meu ídolo pessoal, uma das mais valiosas, talvez a mais valiosa, é a explicação de que existem dois tipos de reducionismo: Bom e ruim. Em um único capítulo de seu livro Tábula Rasa, ele põe fim, com as frases mais claras possíveis, à uma das maiores confusões epistemológicas do mundo, no meio acadêmico e fora dele.

A ideia do conhecimento em camadas, e o esclarecimento de quais tipos de reducionismo são válidos e quais não são, caso fosse disseminada adequadamente, poderia de uma vez por todas dar fim à esta rixa idiota que existe entre humanas e exatas, que não deveria nunca passar do colegial, e seria melhor ainda se nem começasse. Mas ainda é frequente ver até mesmo pós-graduados em ciências exatas achando que humanas é um vale tudo em que nada é verdade nem mentira, e “o povo de humanas” é um bando de vagabundos esquerdistas maconheiros que vivem da venda de miçangas ou dos pais, e também se ouve muito pessoas de humanas descrevendo, explícita ou implicitamente, os de exatas como sendo psicopatas frios e calculistas, que escolheram exatas porque são incapazes de compreender sentimentos e emoções, e provavelmente nem os têm. Sério, vamos acabar com esta merda? Universidade não é uma gincana do Show da Xuxa ou do Gugu.

Podemos dizer que o conhecimento humano é dividido em camadas de complexidade, empilhadas. Reducionismo é quando alguém tenta explicar na camada x-1 um fenômeno que normalmente é visto pela ótica da camada x. Um dos exemplos mais claros é quando se tenta explicar um fenômeno da psicologia por fatos da biologia. A biologia está um nível abaixo da psicologia, pois ela detalha como funcionam os seres vivos como um todo, enquanto que a psicologia descreve o comportamento e o universo subjetivo interior de uma espécie de ser vivo em especial. Este reducionismo é dos que mais causam tabu, mas não precisaria: A biologia não torna inútil a psicologia por ser anterior à ela, nem é mais verdadeira. Da mesma forma que não faz estas coisas com a medicina.

Reducionismo ruim é quando pesquisadores mau-caráter querem passar esta ideia (esta nova descoberta da neuroanatomia fará você jogar todos os livros de psicologia no lixo!). Também já vi muito este tipo de argumento por parte de niilistas radicais, que querem passar a ideia de que sentimentos humanos são farsas porque podem ser explicados em termos biológicos. “O seu amor, seus sentimentos de carinho? É apenas o seu cérebro se enchendo de oxitocina! Uma farsa, amor não existe, é só oxitocina!”. Não preciso nem dizer o quanto esta explicação (juro que não estou criando espantalhos, realmente existe esse tipo de idiota falando publicamente, mas eu não quero dar publicidade a nenhum deles) completamente idiota, além de se basear em conhecimentos rasos sobre o assunto sobre o qual o sujeito finge para leitor ser um expert, também não explica por que deveríamos parar no nível da biologia, simplesmente a biologia estar no limiar de exatas e não exatas não vale; poderia eu responder ao niilista “a oxitocina é uma farsa! O que existe de verdade é C43H66N12O12S2 !  Árvores não existem, a dura realidade é que toda a floresta é madeira e folhas!

Os níveis superiores de abstração não são mais falsos ou menos rigorosos, eles são necessários para que possamos pensar sobre certos assuntos. Parece ser o novo dogma do MEC decretar que compartimentalização do conhecimento é algo nefasto que deve ser abolido, ou no mínimos devemos usar os rótulos mais genéricos possíveis (parte da agenda de decretar todos os rótulos como sendo coisa feia e ultrapassada), daí veio esta breguice de “ciências da natureza e suas tecnologias” e afins. Compartimentos – ou melhor, camadas – podem não ser linhas precisas, traçadas à laser (por exemplo, existe uma grande intersecção entre química e física) mas nem por isto são inúteis, simplesmente seria impossível pensar a fundo sobre certas coisas sem ignorar os pormenores.

Pense no absurdo: Deveríamos exigir que um dentista se formasse em medicina? Ou que o médico fosse também especialistas em todos os organismos vivos? E claro, pra que parar na biologia? Tente explicar a 2ª Guerra Mundial em termos de quarks e planks. Se for casado e estiver tendo problemas conjugais, vá ver um físico quântico ao invés de um terapeuta de casais. Aliás, a própria física é mais ou menos dividida em duas, a física Newtoniana, inventada no século XVII e válida até hoje, e a física subatômica, que explica fenômenos como eletricidade, luz e afins. Um físico provavelmente acharia esta minha divisão simplória e até grosseira, e me daria inúmeras outras classificações (óptica, termometria, cinemática, elétrica…) mas nenhuma delas anula a outra. A odontologia, por exemplo, é considerada uma disciplina separada da ciência que estuda o resto do corpo humano, talvez por razões históricas, mas mesmo assim ela funciona perfeitamente bem, e isto não é um fato desprezível.

O que não pode, é claro, é uma camada entrar em contradição com a anterior, a noção de dente de um dentista invalidar o que se sabe a respeito do dente pela medicina. Um dos dois tem que estar errado, e normalmente é a camada de cima. O reducionismo bom é o que vem desfazer estas confusões. Por exemplo, quando as técnicas de imageamento do cérebro por PET scan, e ressonância magnética funcional, exibiram em tempo real quais áreas do cérebro tinham maior atividade, o cérebro (e por consequência, a mente), deixou de ser uma caixa-preta, como consideravam os behavioristas radicais, e também vimos que ele é muito mais complexo do que a divisão em Id, Ego e Superego de Freud e da psicanálise. Aliás, uma grande parte das teorias freudianas podem ser desmentidas simplesmente observando o cotidiano, simplesmente vivendo: Quase ninguém sente tesão pela mãe nem quer matar o pai, você que está me lendo quase com certeza não, e não porque o seu superego reprimiu este desejo, mas porque ele não existe mesmo, a evolução de nossa espécie não favoreceu o incesto nem o parricídio, e por consequência eles são raros.

Mas psicologia não se resume à psicanálise (e, para ser justo, psicanálise não se resume à Freud), e portanto os neurocientistas não querem aposentar os psicólogos, e os que dizem que querem estão agindo de má fé, fazendo um reducionismo ruim. Ainda precisamos de pessoas que se dediquem exclusivamente à compreensão da mente humana, e é bom que elas se embasem em fatos rígidos.

Para quem é programador, mesmo principiante, o conceito não é novo: Programação é dividida em camadas. Além das chamadas linguagens de baixo nível – Assembly, essencialmente – e alto nível – C++, C#, Java, Python –  uma aplicação também é dividida em camadas – nível de interface gráfica e de aplicação, no mínimo, dentre várias outras disponíveis – e o próprio computador é divididas em camadas. Abra um livro texto de Andrew Tanenbaum ou outro cientista da computação, e verá que as camadas do computador são muito mais numerosas que duas, software e hardware. O sistema operacional, por exemplo, é uma das camadas intermediárias, apesar de ser software. Pense em uma boneca matroska. Mas nenhuma camada é mais verdadeira ou melhor que a de baixo. Nenhum dos softwares que usamos hoje em dia e facilitam enormemente nossa vida existiria se os programadores precisassem programar em código binário, e os usuários só pudessem usar programa em interface de comandos de texto estilo DOS.

Grande parte do desprezo que as pessoas têm sobre humanas é por acharem que porque uma ciência não é exata ela é um vale tudo em que não existe certo ou errado, é tudo relativo. Um preconceito mentiroso: Uma ciência pode ser rigorosa sem ser exata, e este é o caso da filosofia, da psicologia, da história e da sociologia. Para usar apenas uma ciência humana como exemplo, existem convenções de historiadores, e nestes eventos eles são capazes de se comunicar entre si perfeitamente, mesmo advindos de instituições diferentes e mesmo de países diferentes, falam nos mesmos termos contanto que falem a mesma língua (normalmente o inglês). Portanto não, em humanas não é tudo relativo. Não que tudo em humanas seja válido…

Grande parte do motivo das pessoas acharem que ciências humanas é Casa da Mãe Joana é a corrupção do meio acadêmico pela doutrina do pós-modernismo, de charlatões como Foulcault e Baudrillard, doutrina baseada em grande parte nos livros de ficção do escritor esquizofrênico Philip K. Dick. Que são excelentes livros, que originaram filmes fantásticos como Blade Runner e Vingador do Futuro, o problema foram os idiotas fazerem uma filosofia “pra valer” com base neles, que nega o próprio conceito de verdadeiro e falso, certo e errado. Por isso o que vem a cabeça de muita gente, ao ouvir ciências humanas, são os intelectuais (de merda) que aparecem na televisão defendendo criminosos como vítima da sociedade.

Se acha que estou inventando espantalhos, ou generalizando demais, experimente mencionar a um rousseauniano como todos os achados da arqueologia e a teoria da evolução disprovam tudo que Rousseau falou (o homem em estado de natureza ao qual ele se refere nunca existiu, e a vida em estado natural é um inferno, não uma utopia), para ver como ele trata este “pequeno” detalhe como insignificante, e você um ingênuo por achar que isto interfere na “elegância” das ideias de Rousseau. Defender uma ideologia baseada em fatos não verídicos com base em elegância é como insistir em vender passagens para voos em um modelo de avião que sempre cai e acaba em um desastre como o do Chapecoense em todos os voos, ressaltando, em sua defesa, o fato das poltronas serem muito confortáveis. E não se engane, os rousseaunianos não se interessam em Rousseau e ensinam sobre eles apenas para contextualização histórica. E, no fundo, os cursos de filosofia do Brasil estão mais para cursos de história da filosofia.

Mas atenção, os pós-modernistas (e seus asseclas) nunca admitem ser pós-modernistas. Igual aos hipsters. Só que ciências humanas não se resumem apenas ao pós-modernismo, podermos perfeitamente mandar esta porcaria para sua merecida lata do lixo (de preferência junto do marxismo) e as ciências humanas só melhorariam e ganhariam mais respeito com isto.

Update: Agora mesmo, assim que acabei de postar, fiz um reducionismo. Não conseguia escrever nada depois da fórmula da oxitocina, porque ficava tudo em letras pequenas, como 2 no final da fórmula, até o ponto de exclamação ficou pequeno. O WordPress oferece duas interfaces para o usuário: Visual (que lembra um editor de texto como o Word) e HTML, que mostra as tags “feias” que informam ao navegador como exibir as palavras. Tive que ir à interface HTML para ele parar de deixar tudo pequeno depois da fórmula da oxitocina, fechei uma tag, a tag < sub >. Isto não significa que obtive uma grande revelação, que a interface visual que eu estava usando antes é uma grande farsa, uma interface é a pílula azul e a outra a vermelha, e nem que daqui em diante usarei apenas a interface HTML, ou que meus textos seriam melhores se fizesse isto.

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filosofia, Resenha

Chuck

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[Aviso: Contém SPOILERS da primeira temporada de Better Call Saul]

Chuck era um advogado brilhante, e um executivo genial, um dos fundadores da empresa de advocacia HHM, uma das mais proeminentes de Albuquerque – Novo México.  Mas, fugindo do estereótipo, não é um cara desonesto, nada cretino, mas sim bastante trabalhador, tendo se empenhado a vida toda em ser bem-sucedido do lado “do bem”. Quase um posterboy do “american dream”. Ao contrário de seu irmão, o incorrigível malandro James McGill, que no futuro passaria a ser o advogado do químico Walter White, mas na cronologia de Better Call Saul ainda era um verdadeiro coitado, praticamente um Dick Vigarista que sempre acaba mal apesar (ou por causa) de suas safadezas, sempre à sombra do irmão de caráter exemplar.

Mas Chuck tinha um probleminha: Anos atrás, por circunstâncias não muito bem elucidadas, havia desenvolvido uma severa intolerância por hipersensibilidade à radiação eletromagnética. A condição o obrigara a viver isolado em sua casa sendo ajudado pelo irmão malandro, sem absolutamente nada elétrico, nem mesmo lâmpadas, janelas com cortinas entreabertas e olhe lá.

Em meados da primeira temporada, no entanto, sendo internado no hospital, a astuta médica, após ser informada da condição – e tendo tolerado temporariamente que os todos equipamentos elétricos do quarto fossem desligados – discretamente ligou o computador embarcado da cama em que Chuck estava deitado. Sem que ele percebesse. Experimentos em casos de hipersensibilidade à radiação eletromagnética na vida real também demonstraram a mesma coisa, que os pacientes são incapazes de perceber energia eletromagnética se as fontes forem escondidas. Apenas uma condição psicosomática.

Mas não contam para ele. E essa é a parte que e provocou mais, passei a assistir cada episódio, cada novo evento da trama, esperando o momento em que alguém acharia não apenas pertinente, mas irresistível, dizer ao Chuck que a intolerância existia apenas em sua mente. Mas não dizem.. Por quê? No hospital, ficam preocupados com a possibilidade dele acabar em uma ala psiquiátrica, o que ele só iria à força, e seria o fim de sua já quase morta carreira profissional. Mas chegam tantos momentos em que seria plausível contarem a verdade… Mas nunca contam. Eu estava curioso para saber o que aconteceria se dissessem, isto em parte pela minha grande curiosidade a respeito do funcionamento da mente humana. O que aconteceria? Ele pararia de se incomodar? Instalaria lâmpadas na casa, aqueceria seu almoço no micro-ondas e carregaria um celular no bolso como todo mundo? O conhecimento intelectual tem poder de mudar radicalmente o emocional?

Possivelmente não. Possivelmente, pelo que já estudei, acreditaria de forma ainda mais arraigada em sua condição, acharia que os outros conspiram contra ele e elaboraria uma teoria mirabolante para explicar o que aconteceu quando a médica ligou o computador da cama… Talvez por isto os outros não contem. Eles têm medo de como ele vai agir quando souber a verdade. Eles até continuam obedecendo aos rituais, de tirar os celulares e demais aparelhos eletrônicos antes de entrar em sua casa, mesmo depois da médica ter provado que o mal se tratava apenas de efeito nocebo. A verdade?  Platão a superestimou. A verdade não, é melhor até esquecermos dela, antes que comecemos a nos sentir tentados a entregá-la, por compaixão, vamos manter a ilusão, os pós-modernistas tem razão, verdade é mero constructo social, então, por que vamos insistir na verdade quando ela não é mais socialmente conveniente? Inclusive ouço muito coisas neste sentido em respeito à religião, mais precisamente, em respeito à pessoas que acreditam em maluquices, até mesmo que lhes custam tempo e dinheiro, e impõe todo tipo de restrição (como ter que fazer o Enem só após ficar horas em silêncio numa sala com outros iludidos), “ah, mas se ele tá bem assim…”.  Eu acho muito triste esta moda da relativização da verdade, que se tornou forte com a corrupção do pensamento ocidental pelo pós-modernismo. Ser condescendente com a ilusão de alguém, julgar que ele não pode ser feliz de outra forma, é basicamente reduzi-lo a um louco.

Mas e se você fosse louco, os seus amigos avisariam? Avisariam talvez apenas após muita deliberação, e ainda assim muitos seriam contra? Acredito nesta segunda hipótese, e isto só se forem muito seus amigos, e ainda assim só em algumas circunstâncias um tanto quanto extremas. Esconder a verdade é ainda mais provável com não-amigos, que apenas não querem que você encha o saco, e falam o que for preciso para tal. Isto se não se divertirem maldosamente às suas custas. Você só fala abobrinha no escritório, mas todo mundo ouve e finge que entendeu. Não é um pensamento terrível, que todo mundo te trata feito um louco porque, como já virou chavão, “o médico mandou não contrariar”?

Como toda pessoa não-psicopata admitiria, eu às vezes (tá bom, várias vezes) tenho problemas de autoestima, duvido de mim mesmo. Às vezes me pego pensando se eu não estou na mesma situação de Chuck, meus amigos velando o fato de que o que eu falo e escrevo são totais desvarios, que o maior sucesso que eu posso ter é o meu blog acabar na tese de mestrado de algum psiquiatra ou neurologista, como exemplo do que sai quando alguém em estado psicótico delirante acredita estar produzindo algo digno de apreciação intelectual.

Será?

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