ética, filosofia, Humano, Política, sociedade

Preconceito Pode Ser Bom? E a Tolerância?

preconceito

Você provavelmente respondeu a primeira pergunta a si mesmo na lata, pensando “não, claro que não! O que esse cara pensa?”, então eu lhe convido a pensar: Deveríamos abolir a maioridade legal?

WTF?

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Então Já Foi o Natal

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E o ano novo vem aí.

Este ano uma das tretas que acompanhei na internet é a dos reaças vs. “jovens revoltosos” na ceia de natal em família, que não suportam os parentes mais conservadores e religiosos. Um texto que sumariza bem a questão é o do conservador Eric Balbinus do blog O Reacionário:

http://www.oreacionario.blog.br/2016/12/os-textoes-da-extrema-esquerda-sobre-o.html

Achei o posicionamento válido e o texto bem escrito (e ganha um “bônus” por usar uma imagem do Futurama de ilustração para o post, adoro)  mas não concordo com tudo. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que ateísmo, e antiteísmo em geral, não é uma bandeira de esquerda. Certo, muitos ateus são de esquerda, mas definitivamente nem todos, nem a maioria, e eu percebo que hoje uma grande parte do movimento conservador quer forçar a barra para transformar ateísmo em uma bandeira de esquerda, parecem acreditar que todo ateu é esquerdista, e que cristãos são todos de direita. Nem parece que estamos no mesmo continente em que existe esta aberração grotesca chamada Teologia da Libertação, e no país de falastrões como Leonardo Boff e Frei Beto. A América do Sul é um continente com população majoritariamente cristã, acha mesmo que a esquerda teria avançado tanto por aqui, se fosse necessariamente antirreligiosa? Não, eu não acho que exista um perfil do ateu. Tanto Ayn Rand quanto Karl Marx eram ateus convictos, que exemplo melhor você quer? Também não é verdade que esquerdista não trabalha, ainda que muitos dos cabeças do movimentos de esquerda, e que mais aparecem na mídia e nas redes sociais sejam vagabundos mesmo. Um dos comunistas mais convictos que já conheci foi meu chefe numa empresa que trabalhei, que inclusive era muito gente boa. Este senhor Eric tem uma porção de estereótipos nos quais parece acreditar plenamente, o que não pega muito bem para quem critica tanto os fanáticos de causa que não conseguem enxergar as pessoas, nem os próprios parentes, sem ser pelas lentes distorcidas de seu viés ideológico, desculpe se parto de um mal julgamento.

Mas o texto não fala apenas dos ateus, que não suportam a religiosidade de parentes, mas de feministas e outros “istas” que acham os parentes retrógrados, geralmente adolescentes e jovens adultos. Rendeu até uma piada (idiota) no programa The Noite.

Não sei muito sobre a família dos outros, mas só me pergunto, se para você é tão insuportável a experiência do natal ou outras festividades em família, para que ir? Eu não acho que ninguém seja obrigado a se socializar com pessoas de que não gosta, ainda que sejam da família. Não é meu caso, eu geralmente gosto de reuniões familiares, vou de vez em quando, principalmente em aniversários, para mim não há nenhum defeito insuportável neles, e eles mesmos me toleram do jeito que eu sou, com todas as minhas peculiaridades, vou quando acho que seria mais agradável do que ficar em casa. Na hora das orações, eu apenas fico em silêncio. Se o assunto é futebol, que eu detesto, eu não falo nada. Tão difícil? Não para mim. E nem acho problema um ateu desejar “feliz natal” ou fazer qualquer menção desta festividade, que já virou uma data secular há muito tempo, só não vê quem não quer. Claro que cada família é uma, e ninguém é obrigado a ser tolerante com os familiares só porque eu sou.

Eu sempre fui um inconformista, nunca aceitei decretos de que as coisas são de tal jeito e ponto e acabou, não tem o que discutir. Tenho a impressão de que muita gente vai nestas reuniões de família (e participa dos grupos chatos de WhatsApp de família, outra reclamação frequente) por se sentir obrigado. Eu não acho. Sempre que me dizem “você é obrigado a isso/você tem que aquilo” eu pergunto, por quê? Qual é a punição para eu fazer o contrário? Alguém será prejudicado? Pergunte-se isso você também. Apesar de eu achar lastimável recusar-se a sentar à mesa com pessoas só por elas terem uma ideologia diferente da sua, não podemos dizer que isto não é direito, e é melhor que ser o chato da festa. Se não quiser se indispor com eles, não dá pra pensar numa desculpa?

É claro que muita gente vai em reuniões de família não apenas porque tem um senso de que é obrigado a participar dos eventos de sua família estendida, mas vai “na marra” mesmo, principalmente adolescentes, ou porque a festa é na própria casa, ou porque o pai não deixa ficar em casa jogando videogame ou fazendo outra coisa ao invés de ir na casa da avó ouvir piadas de pavê ou pra cumê, perguntas dos tios sobre as namoradinhas, e fazendo orações. Depois reclama que o filho rebelde fica dando showzinho. Eu sei que não tem como deixar os filhos fazerem só o que querem (acho que se fossem à escola apenas as crianças que querem ir, teríamos mais de 99% de analfabetismo), o que não quer dizer que a vontade deles nunca deva ser respeitada, e julgo a mentalidade autoritária de muitos pais grotesca, até escravagista, esta coisa de achar que por pagar as contas de um filho isso faça dele ou dela propriedade sua, como uma cabeça de gado, não um indivíduo humano com ideias e vontades próprias. Pior ainda quando os filhos são menores de idade e nem poderiam trabalhar para pagar as contas, mesmo que quisessem. Por favor, não seja este tipo de pai.

Fica minha recomendação do filme Feliz Natal, de 2008, primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello. Não sei como foi o seu natal este ano. Mas com certeza não foi pior que o da família do personagem Caio. E também, se serve de consolo, provavelmente não foi pior do que foi o natal de Jerry de Rick and Morty, que passou a festividade toda de cara fechada por não ter aceitado muito bem a novidade de sua mãe, ainda casada, estar agora sendo acompanhada por um michê. Se não estiver muito afim de ir no Réveillon com a família também, mas tiver que ir de qualquer forma, faça como o vovô Rick fez no natal, e se afaste para se ocupar com outra coisa.

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Por Quanto Tempo Uma Mentira Pode Se Manter?

pinoquio

Resposta curta: Por tempo indeterminado.

Resposta longa:

http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/eua-determinam-que-homeopaticos-alertem-consumidores-sobre-falta-de-comprovacao-cientifica-20523143

Quando vi esta notícia de que nos EUA será obrigatório os remédios homeopáticos informarem no rótulo que não tem eficácia cientificamente comprovada, só pude pensar “antes tarde do que nunca”.

Homeopatia é pseudociência, pura e simplesmente. Não passam de placebos. A homeopatia se manteve alardeando termos obscuros como “memória da molécula de água” e “igual cura igual”. Fez muito sucesso quando foi inventada por um cientista alemão do século XVIII, uma época em que a medicina era uma coisa horrenda, e médicos frequentemente prescreviam medicamentos com chumbo ou mercúrio, que frequentemente não tinham eficiência nenhuma e faziam a pessoa se sentir muito mal. Os homeopáticos, pelo menos, não fazem as pessoas se sentirem mal. Mas não tem nenhum efeito fisiológico cientificamente comprovado.

Como a “mágica” funciona? As pessoas se sentem bem simplesmente sentindo que estão recebendo atenção e tratamento de um profissional, e querem se sentir bem. O humor e a moral influenciam a saúde. Eu já me tratei com homeopatia no passado. A médica era praticamente uma psicóloga, ouvia detelhadamente os meus problemas e aflições, e a consulta com o homeopata em geral é muito mais longa do que seria com um clínico geral. Quanta gente não se queixa de que foi ao médico, seja pelo SUS ou pelo convênio, e o médico nem olhou para sua cara antes de passar a receita? Não é tão difícil entender a popularidade dos homeopatas. Mas nem por isso deixa de ser um placebo o que eles dão.

Meu conselho é: Se você precisa de um psicólogo, vá a um psicólogo. Você não precisa ser enganado para melhorar o seu estado emocional.

Já houve estudo nos EUA, com pessoas que sofrem de síndrome da bacia irritável, tentando provar que placebos são melhores que tratamento nenhum e surtem efeitos, mesmo quando os pacientes sabem que o que estão tomando é placebo. Pareceu interessantíssimo a princípio, e foi alardeado na mídia e na blogosfera. Mas tinha um pequeno detalhe: Antes dos testes começarem, os pesquisadores conversaram com todos os voluntários a respeito das propriedades “milagrosas” do efeito placebo, exageraram até o limite os supostos efeitos curativos dos placebos, usando e abusando dos termos “interação mente-corpo” e “auto-cura psicossomática” (tradução livre). Mesmo o anúncio para a pesquisa, em folhetos e jornais (nos EUA voluntários de pesquisa podem ser pagos para a tarefa) alardeavam “um novo estudo de gerenciamento de mente-corpo pela IBS”. Some-se isso ao fato de que a melhora dos pacientes que receberam placebo não foram tão superiores assim em relação aos que não tomaram nada, e os critérios foram todos subjetivos, e a tal pesquisa no final não acrescentou nada ao que já se sabe sobe placebos.

Alguém poderia dizer que homeopatia existe e é praticada desde o século XVIII, não podemos dizer que não funciona.O mesmo costuma ser dito a respeito da medicina chinesa, existente há milhares de anos. Claro, a humanidade conhecia várias propriedades medicinais de certas substâncias muito antes da farmacologia moderna, mas quando as pesquisas sérias começaram, os cientistas estudaram estas curas tradicionais e avaliaram quais delas realmente faziam alguma coisa e descobriram como exatamente isto funcionava (por exemplo, no século XIX foi isolado o ácido acetilsalicílico da casca do salgueiro, que desde a antiguidade se sabia que ajuda a curar dores de cabeça) e o resto acabou-se descobrindo que não passavam de crendices.

É, uma mentira pode durar muito tempo, e não só em questões de saúde.

Até hoje ouço comentários antissemitas baseados no fato de que se os judeus eram odiados e frequentemente banidos (pogrons) durante toda a Idade Média, e ainda hoje são odiados por todo o oriente médio, logo eles devem ser ruins mesmo, difícil acreditar que todos os outros é que estavam errados. Argumento idiota. Os judeus sempre viveram em guetos, isolados dos lugares onde viviam os cristãos (mesma coisa no mundo islâmico) e a maioria das pessoas só procuravam um judeu quando precisavam de um médico, ou quando queriam dinheiro emprestado, algumas das maneiras que eles tinham de ganhar a vida não podendo possuir terras. Ou seja, não conviviam com eles, não frequentavam os mesmos ambientes, só conversavam quando muito necessário.

É fácil criar mitos sobre grupos de pessoas quando não se convive com elas, só se conhece caricaturas. estereótipos, dos membros deste grupo; é notável que as pessoas que convivem com pessoas diferentes diariamente são menos preconceituosas. Na Idade Média também acreditavam que os judeus usavam sangue de cristãos para todo tipo de ritual, algo chamado blood libel, até mesmo para se curar, ou seja, eram vistos como vampiros usurários (pessoas que ganham a vida emprestando dinheiro à juros sempre foram detestadas). E, como tinham hábitos higiênicos melhores, poupavam-se dos surtos de cólera tão frequentes na Idade Média, o que as pessoas entendiam como prova de que os judeus tinham pacto com o demônio. A noção da realidade das pessoas é muito mais resultado das crenças de seu grupo do que de fria análise racional.

Portanto sim, existem n maneiras para uma mentira ser mantida indefinidamente. Algumas das que são contadas mais frequentemente são “li e aceito os termos do serviço”, “deus existe” e “os números não mentem”.

Mais referências:

http://falaciasonline.wikidot.com/apelo-a-tradicao

 

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