filosofia, Humano

Qualia: Introdução

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Ontem à noite, durante uma aula vaga, sentei-me em um banco de concreto numa praça em minha universidade para fumar cachimbo e ler enquanto ouvia música. Tinha adquirido saboroso tabaco cavendish de minha marca favorita, Captain Black. O fumar me trazia prazer, e este certamente tinha uma causa mais complexa que a enxurrada de dopamina que a nicotina provocava no sistema de recompensa de meu cérebro. Era tudo, o sabor peculiar daquele tabaco, o fato dele queimar bem, de forma homogênea, a visão das lufadas de fumaça. Não saberia dizer se obtive prazer “bruto” ou uma “sensação bruta” de degustar tabaco, independente dos outros fatores que conhecia e apreciava, e estou certo de que alguém que não gostasse de fumar detestaria experimentar uma baforada do melhor tabaco que fosse, assim como alguém que estivesse mais preocupado do que eu com seus efeitos nocivos à saúde. Será a sensação anterior e separada do julgamento?

A música também era fabulosa, desta vez escolhi uma excelente playlist: A trilha sonora do jogo GTA: Vice City, especificamente da rádio V-rock. Adoro rock e adoro heavy metal, e possuo saudosas lembranças deste clássico que tanto joguei em minha adolescência. Por mais premiada que tenha sido a trilha sonora, não diria com certeza que ela me comprazeria tanto se não lembrasse com tanto carinho do jogo. E definitivamente não me comprazeria nada se não amasse o estilo (eu não escolhi, por exemplo, a rádio Espantoso, de música latina, do mesmo jogo). Mas então, o que é essa experiência musical que fazia parte de minha experiência consciente? Poderia esta ser independente dos julgamentos e lembranças que a acompanham? O que exatamente se passaria em meu cérebro enquanto este decodificava os estímulos sonoros?

Falando de meu cérebro, como este conseguia se ocupar de tantos estímulos diferentes e ainda assim me permitir manter a atenção nas letras de meu Kindle? E quantos estímulos! Não só os que eu mesmo introduzia para tornar minha experiência mais agradável – e surpreendentemente a música intensa não prejudicou a leitura, pelo contrário –  mas também não prestei atenção por muito tempo na forma e cor da folhagem das árvores ao meu redor, a textura e falta de conforto do banco ou das pedras no chão, ou das vozes das pessoas próximas ou ao longe, e mesmo outros estímulos mais sutis, como a textura de minhas roupas contra minha pele, e a temperatura e umidade do ar, provavelmente estavam sendo percebidos em algum momento, apesar de eu não estar  notando. Ou estava? De que forma foi decidido quais fenômenos ficariam em primeiro e segundo plano?

Outros pensamentos foram passando em minha mente (onde?), que logo eram afastados (por quem?) para retomar meu foco na leitura. Dentre estes pensamentos, se não estava incomodando as outras pessoas com o fumo. Afinal, considerei (inconscientemente?) que eram pessoas de alguma forma similares a mim, e que também sentem prazer e desprazer com certas coisas no ambiente, e muitos não gostam do aroma e fumaça de tabaco. Não gosto de ser desagradável, ao menos não com quem julgo ter alguma similaridade fundamental comigo mesmo, eu provavelmente não me importaria em incomodar robôs. Mas deliberei, enfim, que estava em uma das poucas áreas do campus em que é permitido fumar, que provavelmente eram fumantes também, e não precisariam ficar lá se não quisessem.

Este e outros devaneios ocorreram principalmente de forma não verbal, não exatamente recitando frase por frase para mim mesmo, mas numa espécie de linguagem interna. E tudo isso enquanto, de alguma forma, absorvia as palavras e as organizava em significados, primeiro de um livro, depois troquei por outro, resultado de alguma somatória de deliberações psicológicas, que também não apreciei conscientemente. Outras opções sem dúvida estavam latentes e querendo ter vez para controlar o sistema: E se eu voltasse à sala e fosse ver o meu amigo que também foi à toa naquele dia? Ou se eu escrevesse no blog? Ou voltar aos trabalhos da faculdade? Ou conversar com um amigo no Telegram?

E estas memórias, onde estão? Este texto, por mais que me dedique à ele, é um mero vestígio de um evento que aconteceu ontem, e que já não existe mais, que já é passado, como uma notícia de um jornal antigo, falando sobre algum acidente de carro, que não teve grandes repercussões, sendo que não existe mais nem o carro nem as pessoas envolvidas do acidente. Um exemplo exagerado: Claro que a minha memória é mais recente, e provavelmente as outras pessoas da praça ainda estão vivas, e talvez lembrem do cara do cachimbo. Está viva alguma coisa em minha mente (e nas deles) que alude àquele lugar naquela noite…, mas do que se trata este “algo”, esta memória?

Essas pessoas que eu me lembro e digo que estão em minha consciência agora, essa praça, o banco, eles não têm massa, nem temperatura, nem propriedade física alguma. Meras representações, como um filme. Mas certamente algo bem diferente do que seria um arquivo de vídeo num computador. Não é algo que pode ser exibido diretamente (não dá para ligar um projetor no meu cérebro) e ainda que estas sensações apareçam para mim de alguma forma, restam dúvidas: Para mim quem, exatamente? E onde exatamente estas imagens e sons estão se passando? Algum projetor interno numa tela interna então? E de que forma estão gravadas no meu cérebro?

É bem distante de um arquivo de vídeo ou de uma película, pois minha lembrança é bem limitada: Lembro que não estava sozinho, que estava escuro, que havia algumas pessoas… Sem dúvida eram mais de 2 e menos de 50, e também não tinha ninguém que eu conhecesse por lá (ou tinha?), tampouco alguém tocando clarineta ou fazendo tricô. Mas se você me perguntar exatamente quantas pessoas tinha, e que tipo de roupas estavam usando, ou mesmo quais cores de roupas estavam usando, eu não saberia dizer, independente dessas informações terem sido recebidas por meu cérebro em algum momento. Então, se não tenho essa informação, minha mente completa a cena, criando roupas e outros detalhes para cada um? E se tinha alguém que eu conhecesse em meu campo visual, mas não percebi porque estava atento ao livro, eu realmente vi este alguém?

Agora no Computações Anômalas eu inicio a série Qualia, em que vou compartilhar o que já estudei e refleti sobre filosofia da mente e neurociência. Não tenha pressa, não vou escrever as próximas partes tão logo, não só porque tenho outras tarefas, mas porque qualidade é melhor que quantidade, e eu quero estudar o máximo possível antes de escrever. E pretendo deixar a coisa mais leve e didática o possível, usando obras da ficção e histórias como a deste post como base para os paradoxos do qualia. Dedico-me bastante, sou aficionado, mas o que eu sei, admito, é pouco, e não me arrogo como dono da verdade, por mais que eu tenha zelo ao escrever, posso errar. A seção de comentários é livre. Espero que possa servir para despertar o seu interesse por este assunto. O ser humano é o objeto de estudos mais fascinante e misterioso de todos.

 

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ética, filosofia, Humano, Política, Resenha, Segurança e Privacidade, sociedade

Devemos Queimar Bojack Horseman? Um Ensaio Sobre Liberdade.

“Voluntarioso, colérico, arrebatado, extremado em tudo, de um desregramento de imaginação quanto aos costumes como igual nunca houve, ateu até o fanatismo, eis em duas palavras como eu sou; e repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.

Bojack é um cavalo. E um homem. Ou algo entre essas duas definições. Na série de animação para adultos de mesmo nome, que se passa em uma versão fictícia psicodélica de Hollywood, alguns personagens são humanos normais, como a escritora Diane e o faz-nada Todd, e alguns personagens são animais antropomorfizados (com forma de humanos) como o próprio Bojack, o cavalo ator (ou seria um ator cavalo?), assim como sua agente e parceira sexual ocasional Princess Caroline, o colega ator Mr. Peanutbutter, um labrador amarelo, que Bojack detesta, e maldosamente tenta prejudicar mais de uma vez, mas Mr. Peanutbutter parece não perceber ou não se importar, e trata Bojack como amigo mesmo assim.

Nesta série, maluca, às vezes cômica, mas muito séria e trágica essencialmente, os personagens se tratam mais ou menos como iguais independente das espécies, apesar da personalidade e nome de muitos deles fazer lembrar os animais, como Mr. Peanutbutter (Sr. Manteiga de Amendoim), que tem um nome de animal de estimação e aquele jeito bobalhão simpático, sempre alegre e amigável, típico dos labradores. Bojack, por sua vez, é um decadente ator deprimido e um tanto quanto narcisista (as duas condições não são auto excludentes), que apesar de ainda ser muito rico, já não faz papel em filmes ou séries de TV há muitos anos, e vive das glórias do passado, é viciado em assistir episódios da sitcom Horsing Around, dos anos 90, na qual foi protagonista, papel que o levou ao estrelato e o enriqueceu. Adora beber, fuma também, e tem um relacionamento para lá de difícil com os outros personagens, é deveras indelicado e insensível, para dizer o mínimo, apesar de se magoar também, e mais de uma vez se preocupar com outras pessoas, além de definitivamente ter sentimento por elas, inclusive um amor platônico por uma veada que trabalhou na produção em seus tempos de TV.

Tudo isto é bem humano, e talvez você se lembre de algumas pessoas que já conheceu que tenham estas características. Ah, mas ele também tem cara de cavalo, corpo de cavalo, apenas com membros mais parecidos em forma e proporção com membros humanos, e explica em determinado episódio que é muito resistente à bebida (é preciso muito álcool para deixar um cavalo bêbado), também relincha em algumas ocasiões, como quando está transando com Sarah Lynn, atriz (totalmente humana) que atuou com ele em Horsing Around, sexo para lá de selvagem.  Zoofilia ou apenas sexo normal, dentro do contexto? Afinal, são animais, ou gente? Esses conceitos ainda fazem sentido no universo da série? São animais… Mas não como todo mundo imagina animais.

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