filosofia, Humano

Não tenho boca e preciso gritar

 

Qual seria a punição mais perversa para um ser humano?

A história antiga e recente mostra toda a funesta criatividade humana em criar meios dos mais sofisticados em causar sofrimento ao outro. Quebrar na roda, queimar dentro de um touro de ferro em brasas, fazer um bode lamber as solas dos pés com sua língua áspera, amarrar um cavalo em cada membro e fazer os animais correrem, despedaçando o sujeito…

Mas digamos que você seja um carrasco, encarregado de torturar pelo maior tempo possível um prisioneiro condenado por crimes graves, mas não pode usar de nada disso que foi citado. Por um motivo ou outro – sérias limitações orçamentárias, ou pressão por grupos de direitos humanos – você precisa inventar o castigo mais cruel possível sem sangue, hematomas, mutilações e, na verdade, até mesmo sem gritos. E precisa durar o maior tempo possível, não pode matar a vítima cedo. O que fazer?

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Educação, filosofia

Reducionismo Bom e Ruim

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De todas as ideias que já absorvi nas milhares de páginas que já li do cientista cognitivo Steven Pinker, meu ídolo pessoal, uma das mais valiosas, talvez a mais valiosa, é a explicação de que existem dois tipos de reducionismo: Bom e ruim. Em um único capítulo de seu livro Tábula Rasa, ele põe fim, com as frases mais claras possíveis, à uma das maiores confusões epistemológicas do mundo, no meio acadêmico e fora dele.

A ideia do conhecimento em camadas, e o esclarecimento de quais tipos de reducionismo são válidos e quais não são, caso fosse disseminada adequadamente, poderia de uma vez por todas dar fim à esta rixa idiota que existe entre humanas e exatas, que não deveria nunca passar do colegial, e seria melhor ainda se nem começasse. Mas ainda é frequente ver até mesmo pós-graduados em ciências exatas achando que humanas é um vale tudo em que nada é verdade nem mentira, e “o povo de humanas” é um bando de vagabundos esquerdistas maconheiros que vivem da venda de miçangas ou dos pais, e também se ouve muito pessoas de humanas descrevendo, explícita ou implicitamente, os de exatas como sendo psicopatas frios e calculistas, que escolheram exatas porque são incapazes de compreender sentimentos e emoções, e provavelmente nem os têm. Sério, vamos acabar com esta merda? Universidade não é uma gincana do Show da Xuxa ou do Gugu.

Podemos dizer que o conhecimento humano é dividido em camadas de complexidade, empilhadas. Reducionismo é quando alguém tenta explicar na camada x-1 um fenômeno que normalmente é visto pela ótica da camada x. Um dos exemplos mais claros é quando se tenta explicar um fenômeno da psicologia por fatos da biologia. A biologia está um nível abaixo da psicologia, pois ela detalha como funcionam os seres vivos como um todo, enquanto que a psicologia descreve o comportamento e o universo subjetivo interior de uma espécie de ser vivo em especial. Este reducionismo é dos que mais causam tabu, mas não precisaria: A biologia não torna inútil a psicologia por ser anterior à ela, nem é mais verdadeira. Da mesma forma que não faz estas coisas com a medicina.

Reducionismo ruim é quando pesquisadores mau-caráter querem passar esta ideia (esta nova descoberta da neuroanatomia fará você jogar todos os livros de psicologia no lixo!). Também já vi muito este tipo de argumento por parte de niilistas radicais, que querem passar a ideia de que sentimentos humanos são farsas porque podem ser explicados em termos biológicos. “O seu amor, seus sentimentos de carinho? É apenas o seu cérebro se enchendo de oxitocina! Uma farsa, amor não existe, é só oxitocina!”. Não preciso nem dizer o quanto esta explicação (juro que não estou criando espantalhos, realmente existe esse tipo de idiota falando publicamente, mas eu não quero dar publicidade a nenhum deles) completamente idiota, além de se basear em conhecimentos rasos sobre o assunto sobre o qual o sujeito finge para leitor ser um expert, também não explica por que deveríamos parar no nível da biologia, simplesmente a biologia estar no limiar de exatas e não exatas não vale; poderia eu responder ao niilista “a oxitocina é uma farsa! O que existe de verdade é C43H66N12O12S2 !  Árvores não existem, a dura realidade é que toda a floresta é madeira e folhas!

Os níveis superiores de abstração não são mais falsos ou menos rigorosos, eles são necessários para que possamos pensar sobre certos assuntos. Parece ser o novo dogma do MEC decretar que compartimentalização do conhecimento é algo nefasto que deve ser abolido, ou no mínimos devemos usar os rótulos mais genéricos possíveis (parte da agenda de decretar todos os rótulos como sendo coisa feia e ultrapassada), daí veio esta breguice de “ciências da natureza e suas tecnologias” e afins. Compartimentos – ou melhor, camadas – podem não ser linhas precisas, traçadas à laser (por exemplo, existe uma grande intersecção entre química e física) mas nem por isto são inúteis, simplesmente seria impossível pensar a fundo sobre certas coisas sem ignorar os pormenores.

Pense no absurdo: Deveríamos exigir que um dentista se formasse em medicina? Ou que o médico fosse também especialistas em todos os organismos vivos? E claro, pra que parar na biologia? Tente explicar a 2ª Guerra Mundial em termos de quarks e planks. Se for casado e estiver tendo problemas conjugais, vá ver um físico quântico ao invés de um terapeuta de casais. Aliás, a própria física é mais ou menos dividida em duas, a física Newtoniana, inventada no século XVII e válida até hoje, e a física subatômica, que explica fenômenos como eletricidade, luz e afins. Um físico provavelmente acharia esta minha divisão simplória e até grosseira, e me daria inúmeras outras classificações (óptica, termometria, cinemática, elétrica…) mas nenhuma delas anula a outra. A odontologia, por exemplo, é considerada uma disciplina separada da ciência que estuda o resto do corpo humano, talvez por razões históricas, mas mesmo assim ela funciona perfeitamente bem, e isto não é um fato desprezível.

O que não pode, é claro, é uma camada entrar em contradição com a anterior, a noção de dente de um dentista invalidar o que se sabe a respeito do dente pela medicina. Um dos dois tem que estar errado, e normalmente é a camada de cima. O reducionismo bom é o que vem desfazer estas confusões. Por exemplo, quando as técnicas de imageamento do cérebro por PET scan, e ressonância magnética funcional, exibiram em tempo real quais áreas do cérebro tinham maior atividade, o cérebro (e por consequência, a mente), deixou de ser uma caixa-preta, como consideravam os behavioristas radicais, e também vimos que ele é muito mais complexo do que a divisão em Id, Ego e Superego de Freud e da psicanálise. Aliás, uma grande parte das teorias freudianas podem ser desmentidas simplesmente observando o cotidiano, simplesmente vivendo: Quase ninguém sente tesão pela mãe nem quer matar o pai, você que está me lendo quase com certeza não, e não porque o seu superego reprimiu este desejo, mas porque ele não existe mesmo, a evolução de nossa espécie não favoreceu o incesto nem o parricídio, e por consequência eles são raros.

Mas psicologia não se resume à psicanálise (e, para ser justo, psicanálise não se resume à Freud), e portanto os neurocientistas não querem aposentar os psicólogos, e os que dizem que querem estão agindo de má fé, fazendo um reducionismo ruim. Ainda precisamos de pessoas que se dediquem exclusivamente à compreensão da mente humana, e é bom que elas se embasem em fatos rígidos.

Para quem é programador, mesmo principiante, o conceito não é novo: Programação é dividida em camadas. Além das chamadas linguagens de baixo nível – Assembly, essencialmente – e alto nível – C++, C#, Java, Python –  uma aplicação também é dividida em camadas – nível de interface gráfica e de aplicação, no mínimo, dentre várias outras disponíveis – e o próprio computador é divididas em camadas. Abra um livro texto de Andrew Tanenbaum ou outro cientista da computação, e verá que as camadas do computador são muito mais numerosas que duas, software e hardware. O sistema operacional, por exemplo, é uma das camadas intermediárias, apesar de ser software. Pense em uma boneca matroska. Mas nenhuma camada é mais verdadeira ou melhor que a de baixo. Nenhum dos softwares que usamos hoje em dia e facilitam enormemente nossa vida existiria se os programadores precisassem programar em código binário, e os usuários só pudessem usar programa em interface de comandos de texto estilo DOS.

Grande parte do desprezo que as pessoas têm sobre humanas é por acharem que porque uma ciência não é exata ela é um vale tudo em que não existe certo ou errado, é tudo relativo. Um preconceito mentiroso: Uma ciência pode ser rigorosa sem ser exata, e este é o caso da filosofia, da psicologia, da história e da sociologia. Para usar apenas uma ciência humana como exemplo, existem convenções de historiadores, e nestes eventos eles são capazes de se comunicar entre si perfeitamente, mesmo advindos de instituições diferentes e mesmo de países diferentes, falam nos mesmos termos contanto que falem a mesma língua (normalmente o inglês). Portanto não, em humanas não é tudo relativo. Não que tudo em humanas seja válido…

Grande parte do motivo das pessoas acharem que ciências humanas é Casa da Mãe Joana é a corrupção do meio acadêmico pela doutrina do pós-modernismo, de charlatões como Foulcault e Baudrillard, doutrina baseada em grande parte nos livros de ficção do escritor esquizofrênico Philip K. Dick. Que são excelentes livros, que originaram filmes fantásticos como Blade Runner e Vingador do Futuro, o problema foram os idiotas fazerem uma filosofia “pra valer” com base neles, que nega o próprio conceito de verdadeiro e falso, certo e errado. Por isso o que vem a cabeça de muita gente, ao ouvir ciências humanas, são os intelectuais (de merda) que aparecem na televisão defendendo criminosos como vítima da sociedade.

Se acha que estou inventando espantalhos, ou generalizando demais, experimente mencionar a um rousseauniano como todos os achados da arqueologia e a teoria da evolução disprovam tudo que Rousseau falou (o homem em estado de natureza ao qual ele se refere nunca existiu, e a vida em estado natural é um inferno, não uma utopia), para ver como ele trata este “pequeno” detalhe como insignificante, e você um ingênuo por achar que isto interfere na “elegância” das ideias de Rousseau. Defender uma ideologia baseada em fatos não verídicos com base em elegância é como insistir em vender passagens para voos em um modelo de avião que sempre cai e acaba em um desastre como o do Chapecoense em todos os voos, ressaltando, em sua defesa, o fato das poltronas serem muito confortáveis. E não se engane, os rousseaunianos não se interessam em Rousseau e ensinam sobre eles apenas para contextualização histórica. E, no fundo, os cursos de filosofia do Brasil estão mais para cursos de história da filosofia.

Mas atenção, os pós-modernistas (e seus asseclas) nunca admitem ser pós-modernistas. Igual aos hipsters. Só que ciências humanas não se resumem apenas ao pós-modernismo, podermos perfeitamente mandar esta porcaria para sua merecida lata do lixo (de preferência junto do marxismo) e as ciências humanas só melhorariam e ganhariam mais respeito com isto.

Update: Agora mesmo, assim que acabei de postar, fiz um reducionismo. Não conseguia escrever nada depois da fórmula da oxitocina, porque ficava tudo em letras pequenas, como 2 no final da fórmula, até o ponto de exclamação ficou pequeno. O WordPress oferece duas interfaces para o usuário: Visual (que lembra um editor de texto como o Word) e HTML, que mostra as tags “feias” que informam ao navegador como exibir as palavras. Tive que ir à interface HTML para ele parar de deixar tudo pequeno depois da fórmula da oxitocina, fechei uma tag, a tag < sub >. Isto não significa que obtive uma grande revelação, que a interface visual que eu estava usando antes é uma grande farsa, uma interface é a pílula azul e a outra a vermelha, e nem que daqui em diante usarei apenas a interface HTML, ou que meus textos seriam melhores se fizesse isto.

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