filosofia, Humano, saúde

Vamos Falar Sobre Depressão

depression

Já faz um tempo que eu quero fazer um post sobre o assunto. Eu sofro dessa doença há muito tempo, e apenas recentemente obtive remissão, que inclusive é um dos motivos desse blog existir. Várias pessoas acreditam haver um elo entre depressão e criatividade. Não sei não, comigo é o contrário, depressão não me deixa com vontade de fazer nada, me deixa completamente apático, eu não crio nada pois tudo me parece desinteressante. Isto é o que depressão normalmente faz: Te faz um nada.

Primeiramente, um apelo: Quando não se sabe nada sobre um assunto, não dizer nada é uma alternativa perfeitamente válida e honesta. Se algum amigo lhe disser que tem depressão, e você não souber o que falar, não fale nada. Às vezes, as pessoas compartilham os problemas com os amigos pois se sentem melhor assim, não porque exigem uma solução imediata. O melhor que você pode fazer é continuar sendo amigo, conversando com frequência, e convidando ele para eventos sociais, até sendo um pouco insistente, pois pessoas com depressão frequentemente perdem a vontade de sair de casa. Mas por favor, só não seja babaca.

Babaquice e negação da ciência são algumas das maiores ameaças aos deprimidos. Há um grande tabu sobre a ciência interferir na mente, como se a mente, e o órgão que a abriga, fosse uma espécie de território proibido para a ciência; tratam o cérebro não como se fosse um órgão do corpo humano como os demais, sujeito a disfunções bioquímicas, mas como uma espécie de dimensão paralela dentro do crânio, independente da realidade física (fantasma na máquina) e, pra piorar, a educação sobre saúde mental no Brasil é praticamente nenhuma. Quando muito, nas aulas de biologia do colégio aprendemos sobre mal de Parkinson e Alzheimer. E as pessoas, ignorantes,  ao invés de ajudarem, ou ao menos não atrapalharem, dão todo tipo de conselho babaca para os amigos e parentes deprimidos. Falam que é falta de sexo, que isso é só preguiça, que é uma fase que vai passar, que só o que precisa querer ficar melhor (mais ou menos como dizer a um paraplégico que só o que ele precisa é ter vontade de levantar da cadeira de rodas e sair correndo) ou de tirar umas férias, isso se não vierem com alguma teoria conspiratória de que a depressão foi uma doença inventada pela indústria farmacêutica para vender remédios para pessoas tristes… Vou repetir, se não tiver nada útil a dizer, não diga nada.

O filósofo Albert Camus, que tratou muito do tema suicídio (segundo ele, o problema filosófico mais importante de todos) já avisava: Às vezes, uma pessoa pode passar meses ou anos com sintomas depressivos mas não se matar, mas aí algo acontece, como um amigo o tratar com indiferença, e ele comete suicídio. Quando você fala pro seu amigo com depressão que ele é só um preguiçoso fracassado que tem que tomar vergonha na cara, você pode estar sendo este gatilho.

Depressão é doença séria, e trata-se com remédios.  A causa é bioquímica, um déficit de neurotransmissores que regulam o estado emocional, em especial a serotonina, norepinefrina ou noradrenalina, e dopamina. Há várias classes de medicamentos, como os SSRI, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como o famoso Prozac (fluoxetina), e também o Zoloft (sertralina) e Escitalopram, além dos SNRI, que também inibem a recaptação de noradrenalina (isto é, impede que o organismo “recicle” este neurotransmissor, aumentando a concentração dele na fenda sináptica) como o Efexor e o Cymbalta, e os antidepressivos atípicos, como o Wellbutrin (bupropiona) e Remeron (mirtazepina), este último ainda tem a vantagem de ajudar no sono e estimular o apetite (o que pode ser bom ou ruim, dependendo do paciente), e funciona muito bem quando tomada junto do Efexor: O coquetel, nos EUA, foi até apelidado pela comunidade médica de California Rocket Fuel. Muitos destes remédios citados tem genéricos disponíveis, e alguns são fornecidos pelo SUS. Se você não tiver convênio, nem dinheiro para pagar o particular, procure um médico do SUS, mas procure.

Não é raro o primeiro ou o segundo remédio não dar certo, seja como for, não desista do tratamento, volte ao médico e tente de novo, ele pode aumentar a dose, tentar um remédio novo, ou tentar adicionar um outro remédio para aumentar o efeito do antidepressivo (efeito sinérgico), como um estabilizador de humor, ou mesmo um estimulante, destes usados para tratar déficit de atenção, como o Venvanse (lisdexanfetamina). As diferenças do corpo e mente de uma pessoa para outra significam que nem sempre um remédio ou coquetel vai funcionar bem para todo mundo. Mas ignore os teóricos da conspiração: Todos os antidepressivos no mercado passaram por testes clínicos e se provaram superiores em eficiência ao placebo, em proporção clinicamente significativa. Algumas pessoas, especialmente aquelas com depressão mais branda, conseguem melhorar sem medicação, apenas com psicoterapia (que é bom como complemento) ou “medicina alternativa”. Isto é questão de sorte. Eu recomendo não perder tempo. Não brinque com uma doença que está sugando a sua vida e pode levá-lo ao suicídio.

Existe, é verdade, depressões de diferentes tipos, dois em especial: A exógena, que é causada (ou seja, o que provoca o desequilíbrio químico em primeiro lugar) por algum fator externo identificável, como um trauma muito grande (a morte de alguém muito próximo, um estupro, um sequestro), condições de vida muito estressantes, ou uma mentalidade muito negativa; e a endógena, que surge sem nenhuma explicação. Também acontece da mulher ter uma crise depressiva logo após dar a luz, a depressão pós-parto. As mais difíceis de tratar são aquelas ligadas a outro problema psiquiátrico, como um transtorno de personalidade, ou uma esquizofrenia. Comorbidade com ansiedade é extremamente comum. Todos os casos devem ser tratados, principalmente, com medicação. Idealmente, o psiquiatra, além de prescrever remédios, deve pedir um exame de sangue para ver se os sintomas depressivos não são causados por outro problema físico, como falta de vitamina D, hipotireoidismo ou baixa testosterona. Mas geralmente é desequilíbrio de monoaminas (neurotransmissores) mesmo.

Ao contrário do que muitos pensam, depressão não é algo muito relativo nem é “patologização do cotidiano”, existem critérios objetivos para avaliar se uma pessoa tem ou não depressão, ou se ela não está “apenas” triste. Aliás, nem sempre depressão se manifesta como tristeza, às vezes o comportamento que mais se nota no deprimido é irritabilidade (especialmente em crianças, mas não apenas) ou, no meu caso, completa apatia. Isto é, eu, deprimido, me sinto um verdadeiro zumbi, uma casca vazia, que quer apenas deitar na cama e esperar para morrer.

Tempo é um critério importante no diagnóstico: Ficar triste porque o seu amigo morreu num acidente de carro, ou porque a sua namorada te deixou, é normal. Continuar pra baixo, sem vontade de fazer nada, meses ou até anos depois do evento, não é. Existem escalas para medir a gravidade da depressão, e alguns testes são feitos para o próprio paciente responder, inclusive testes online, se você tiver alguma suspeita. Os testes existem e são usados até hoje não porque são infalíveis, mas porque acertam mais do que erram, e são uma ótima coisa a se fazer se você  estiver em dúvida e quiser saber se está na hora de procurar ajuda. Um deles é  este, o MDI, Major Depressive Inventory, que é e recomendado pela organização mundial da saúde, mas está em inglês. Mais alguns testes que você pode tentar, em português:

https://www.psiquiatrajoinville.com.br/como-identificar/inventario-de-depressao-de-beck/

http://psico-online.net/consultorio/teste_ava_depressao.htm

Psicoterapia é interessante, se você puder fazer, além da terapia medicamentosa, e costuma aumentar as chances de sucesso no tratamento, mais do que apenas remédios, além de prevenirem a volta dos sintomas, após a remissão (cura). Psicólogos não são todos iguais, e a abordagem que comprovadamente tem maior sucesso para ajudar no tratamento de depressão, e evitar remissão, é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). O psicólogo ajuda, principalmente, a identificar padrões de pensamentos automáticos negativos que fomentam a depressão (pensamentos do tipo “eu sou um lixo”, “eu não valho nada”, “o mundo é horrível”,”o ser humano é podre”), além de ajudar o paciente a organizar a vida, ser mais disciplinado, mas sem deixar de fazer as coisas que gosta, e ter melhor relacionamento com as pessoas. A TCC é uma abordagem voltada à resultados, e interativa, em que o paciente não apenas fala, mas recebe tarefas, que podem ser coisas simples que evitam hábitos ruins, como fazer listas de coisas para fazer. Não é recomendada apenas para deprimidos.

Uma última coisa, algo que eu quero deixar bem claro: Depressão não é “parte da personalidade” de ninguém, e não é nada chique, e nem um indicativo de uma visão de mundo mais madura e desenganada, e eu vejo claramente uma tendência de glamorizar a depressão, ou torná-la algo típico de gênios, mais ou menos como era com a tuberculose no século XIX. Existiram pessoas geniais que tiveram depressão, o mais famoso no mundo das artes é o pintor Van Gogh, assim como os filósofos Nietzsche e Schopenhauer, e é claro que devemos admirar estas pessoas por seu sucesso, mas o que há de se admirar nelas é exatamente que conseguiram ser tão produtivas apesar da depressão, não por causa dela, e tratar depressão não torna ninguém medíocre. Na verdade, acho que nunca fui tão medíocre quanto quando estava em profunda depressão.

Muitas das visões de mundo de Schopenhauer, como a de que prazer nada mais é que uma mera supressão de necessidades, a vida é um episódio não lucrativo (ou seja: não vale a pena viver) e de que socialização é perda de tempo, são exemplos típicos de tentativas um deprimido extremamente inteligente  racionalizar seu sentimento em pensamentos equivocados, ainda que bem escritos, mas mesmo assim equivocados. Uma opinião não é certa só porque é trágica. Se você tem depressão, fuja deste tipo de coisa.


Mais referências:

http://folha.com/no1838728

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ceticismo, farsas, filosofia, saúde, sociedade, vídeos

Por Quanto Tempo Uma Mentira Pode Se Manter?

pinoquio

Resposta curta: Por tempo indeterminado.

Resposta longa:

http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/eua-determinam-que-homeopaticos-alertem-consumidores-sobre-falta-de-comprovacao-cientifica-20523143

Quando vi esta notícia de que nos EUA será obrigatório os remédios homeopáticos informarem no rótulo que não tem eficácia cientificamente comprovada, só pude pensar “antes tarde do que nunca”.

Homeopatia é pseudociência, pura e simplesmente. Não passam de placebos. A homeopatia se manteve alardeando termos obscuros como “memória da molécula de água” e “igual cura igual”. Fez muito sucesso quando foi inventada por um cientista alemão do século XVIII, uma época em que a medicina era uma coisa horrenda, e médicos frequentemente prescreviam medicamentos com chumbo ou mercúrio, que frequentemente não tinham eficiência nenhuma e faziam a pessoa se sentir muito mal. Os homeopáticos, pelo menos, não fazem as pessoas se sentirem mal. Mas não tem nenhum efeito fisiológico cientificamente comprovado.

Como a “mágica” funciona? As pessoas se sentem bem simplesmente sentindo que estão recebendo atenção e tratamento de um profissional, e querem se sentir bem. O humor e a moral influenciam a saúde. Eu já me tratei com homeopatia no passado. A médica era praticamente uma psicóloga, ouvia detelhadamente os meus problemas e aflições, e a consulta com o homeopata em geral é muito mais longa do que seria com um clínico geral. Quanta gente não se queixa de que foi ao médico, seja pelo SUS ou pelo convênio, e o médico nem olhou para sua cara antes de passar a receita? Não é tão difícil entender a popularidade dos homeopatas. Mas nem por isso deixa de ser um placebo o que eles dão.

Meu conselho é: Se você precisa de um psicólogo, vá a um psicólogo. Você não precisa ser enganado para melhorar o seu estado emocional.

Já houve estudo nos EUA, com pessoas que sofrem de síndrome da bacia irritável, tentando provar que placebos são melhores que tratamento nenhum e surtem efeitos, mesmo quando os pacientes sabem que o que estão tomando é placebo. Pareceu interessantíssimo a princípio, e foi alardeado na mídia e na blogosfera. Mas tinha um pequeno detalhe: Antes dos testes começarem, os pesquisadores conversaram com todos os voluntários a respeito das propriedades “milagrosas” do efeito placebo, exageraram até o limite os supostos efeitos curativos dos placebos, usando e abusando dos termos “interação mente-corpo” e “auto-cura psicossomática” (tradução livre). Mesmo o anúncio para a pesquisa, em folhetos e jornais (nos EUA voluntários de pesquisa podem ser pagos para a tarefa) alardeavam “um novo estudo de gerenciamento de mente-corpo pela IBS”. Some-se isso ao fato de que a melhora dos pacientes que receberam placebo não foram tão superiores assim em relação aos que não tomaram nada, e os critérios foram todos subjetivos, e a tal pesquisa no final não acrescentou nada ao que já se sabe sobe placebos.

Alguém poderia dizer que homeopatia existe e é praticada desde o século XVIII, não podemos dizer que não funciona.O mesmo costuma ser dito a respeito da medicina chinesa, existente há milhares de anos. Claro, a humanidade conhecia várias propriedades medicinais de certas substâncias muito antes da farmacologia moderna, mas quando as pesquisas sérias começaram, os cientistas estudaram estas curas tradicionais e avaliaram quais delas realmente faziam alguma coisa e descobriram como exatamente isto funcionava (por exemplo, no século XIX foi isolado o ácido acetilsalicílico da casca do salgueiro, que desde a antiguidade se sabia que ajuda a curar dores de cabeça) e o resto acabou-se descobrindo que não passavam de crendices.

É, uma mentira pode durar muito tempo, e não só em questões de saúde.

Até hoje ouço comentários antissemitas baseados no fato de que se os judeus eram odiados e frequentemente banidos (pogrons) durante toda a Idade Média, e ainda hoje são odiados por todo o oriente médio, logo eles devem ser ruins mesmo, difícil acreditar que todos os outros é que estavam errados. Argumento idiota. Os judeus sempre viveram em guetos, isolados dos lugares onde viviam os cristãos (mesma coisa no mundo islâmico) e a maioria das pessoas só procuravam um judeu quando precisavam de um médico, ou quando queriam dinheiro emprestado, algumas das maneiras que eles tinham de ganhar a vida não podendo possuir terras. Ou seja, não conviviam com eles, não frequentavam os mesmos ambientes, só conversavam quando muito necessário.

É fácil criar mitos sobre grupos de pessoas quando não se convive com elas, só se conhece caricaturas. estereótipos, dos membros deste grupo; é notável que as pessoas que convivem com pessoas diferentes diariamente são menos preconceituosas. Na Idade Média também acreditavam que os judeus usavam sangue de cristãos para todo tipo de ritual, algo chamado blood libel, até mesmo para se curar, ou seja, eram vistos como vampiros usurários (pessoas que ganham a vida emprestando dinheiro à juros sempre foram detestadas). E, como tinham hábitos higiênicos melhores, poupavam-se dos surtos de cólera tão frequentes na Idade Média, o que as pessoas entendiam como prova de que os judeus tinham pacto com o demônio. A noção da realidade das pessoas é muito mais resultado das crenças de seu grupo do que de fria análise racional.

Portanto sim, existem n maneiras para uma mentira ser mantida indefinidamente. Algumas das que são contadas mais frequentemente são “li e aceito os termos do serviço”, “deus existe” e “os números não mentem”.

Mais referências:

http://falaciasonline.wikidot.com/apelo-a-tradicao

 

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ceticismo, filosofia, Humano, sociedade

Negação da ciência MATA

“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)

O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas
humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.

No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça
à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a
falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil,
uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma
outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à
saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da
ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento
científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as
áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da
Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a
aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto
firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.

Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até
fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e
se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam
este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou
não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane,
quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas,
mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio
possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil
o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O
serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que
algumas pessoas preferem ficar com nada.

…Mas eu não quero me entupir de remédios…

 Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma
espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em
pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos
avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem
que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da
falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se
remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou
tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e
cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala
a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem
prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer
tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica
ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de
“macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo
qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo.
Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais
grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios
psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da
consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.

Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade
moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para
muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E
eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam
nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.

Existem  exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que
funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de
medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.

“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”

 

E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou
que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só
para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acupunturistas
profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os
tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos
duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.

E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para
prometer uma suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais
conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as
pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica.
Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.

Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado
não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este
velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom
senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que
realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da
pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.

Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita
coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de
uma espécie de lobotomia.

O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os
tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um
tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o
tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho
do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros).
Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim,
tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias
alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a
ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os
idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.

O movimento anti vacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo
contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o
fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas.
Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois
do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua,
dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que
aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o
movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz
começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e
se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu
extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer
qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo
tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.

O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma
desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente
da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na
internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do
tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.

“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”

Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias
erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que
está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são
importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição,
que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre.
Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso
científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e
o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na
religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está
errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo,
mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a
diferença?


“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”

Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas
teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo
é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada
é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos
e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas
vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão
grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer
língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa
frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar
juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem
mentes parecidas.

Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a
sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências
humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste
confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em
questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para
quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já
que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão
dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos
maus.

A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam
nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua
redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de
dinheiro também já ceifou muitas vidas.

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Folding@home: Ajude a ciência sem gastar nada

Hoje venho fazer um apelo a vocês para ajudarem a ciência médica. Mas não com dinheiro, nem mesmo com trabalho, apenas doando algo que você tem muito: Poder ocioso de computador.

Eu tenho um PC bastante razoável, que fica ligado 24h por dia. Não seria uma pena esse potencial não servir pra nada a maior parte do dia?

O folding@home é uma rede de computação distribuída, semelhante ao projeto Seti ou o famigerado Bitcoin (e não se engane, minerar bitcoin com um computador comum já não é mais lucrativo há muito tempo). Mas o que essa rede faz é simular o processo de dobramento de proteínas. Estes dados servem para ajudar a ciência a compreender e combater doenças como o mal de Alzheimer e o câncer. Para fazer parte, você só precisa baixar o programa pro seu PC (Windows, Linux ou Mac, e tem ate
até mesmo versões para Android e Playstation 3) e rodar. Pronto. Ele não vai deixar a máquina nem a Internet mais lenta, usa só a memória e processador que você não precisa, principalmente quando o pc não está fazendo nada.

O programa, por padrão, só usa a sua cpu, mas no Windows e Linux, você pode usar a placa de vídeo também, o que gasta mais energia, mas faz mais simulações, e faz mais rápido. Mas mesmo emprestando apenas a cpu, você já está ajudando a curar uma doença que você mesmo pode ter no futuro. Alzheimer afeta 1 a cada 8 pessoas. Câncer mais ainda, e todos, sem exceção, estão sujeitos. Mas não são apenas estas doenças. Não há limites para o avanço que a ciência e a medicina podem fazer entendendo melhor as proteínas.

http://folding.stanford.edu/

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Fosfoetanolamina, o Novo Óleo de Cobra

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Toda a comoção por conta desta droga experimental de nome difícil de falar é algo bem típico do Brasil e do brasileiro. Não a esperança por uma possível cura para uma terrível doença, mas a maneira como as pessoas se agarraram a esta esperança, e pressionaram o governo para que a droga fosse liberada antes de passar por todos os testes necessários, que, é claro, são meros detalhes, só uma chatice sem importância. Até agora, além de boatos de pessoas que já tomaram (sem as condições experimentais adequadas) só alguns resultados inconclusivos de testes em ratos, mas já se fala dela como se sua eficácia já houvesse sido comprovada acima de qualquer dúvida, e tanto barulho fizeram que conseguiram liberar a sua fabricação e venda. Típico de brasileiro. O problema não é a esperança, é a certeza. Nosso povo é pateticamente supersticioso e ignorante quanto à ciência. Aqui povo faz “cirurgia espiritual”, “passe”, faz promessa, e até mesmo a homeopatia, também conhecida como placebologia, é especialidade médica reconhecida. Pra alguém que acha que subir escada de igreja de joelho vai fazer com que uma certa entidade metafísica fique com pena e cure sua doença, tomar uma droga que não foi experimentada adequadamente é um pulo pequeno. Aliás, no Brasil tomar remédio é coisa feia, tabu. Povo prefere ficar com dor de cabeça do que tomar um Tylenol, e ainda fala com orgulho “não quero me entupir de remédios”, prefere ter insônia do que tomar um remédio para dormir. Tomar remédio pra depressão então, nem pensar, frescura, é só arrumar um hobby ou praticar exercício físico que passa. Foda-se a ciência, ciência é do mal, química é do mal. Fosfoetanolamina só caiu no gosto do brasileiro exatamente por não ter sua eficácia comprovada cientificamente, e ainda é propagada por seu criador de uma maneira profética completamente inadequada para um cientista sério. Curiosamente, existem outros medicamentos para tratamento do câncer sendo desenvolvidos no Brasil. Mas esses não tem graça e ninguém liga, afinal, nenhum dos pesquisadores envolvidos tem a habilidade midiática do pessoal da fosfoetanolamina, e não devem esperar nem um décimo do financiamento público.

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