ética, Educação, filosofia, Humano, Política, sociedade

Quem Gosta de Liberdade de Expressão?

9801708

Será que alguém gosta de verdade?

Vou começar com uma piada. Cretina, mas serve para ilustrar a  questão, eu prometo:

O pirata novato, em seu primeiro dia na tripulação, pergunta ao outro pirata: “Mas afinal, nós vamos ficar meses em alto-mar, sem nenhuma mulher por perto… Como vocês costumam fazer para aliviar a vontade sexual?” E o outro pirata responde “Ah, é só ir lá naquele barril e enfiar o seu pinto no buraquinho. Experimente, é uma delícia”. O pirata foi, e achou uma sensação deliciosa aquele buraquinho, sensacional, poderia aguentar a viagem numa boa daquele jeito. E foi ao barril novamente no dia seguinte, no outro, e no outro… Até que chegou segunda-feira, e ele acordou sendo carregado pelos outros piratas para o convés. “Ei, o que está acontecendo?” Pergunta o pirata novato. “Hoje é seu dia de ficar no barril”.

E o problema da liberdade de expressão? É que só se é a favor dela até chegar a vez de ficar no barril. É como democracia, no fundo ninguém gosta muito. O cristão, que vive reclamando da mordaça do politicamente correto, só aceita liberdade de expressão enquanto não diz nada desagradável sobre a religião dele, e de preferência que também não ofenda a moral e os bons costumes, porque afinal, liberdade de expressão tem limites, os limites deles. Para parecer razoável, até diz que as outras religiões também tem direito de se expressar. Nossa, quanta gentileza! E os ateus? Ah, tudo bem, contanto que se expressem entre si apenas. Inclusive, são cheios de protestos contra a doutrinação nas escolas, mas são cheios de querer meter a bíblia no meio das apostilas. Professor de biologia dar aula de criacionismo, aí sim é liberdade de expressão. Só que liberdade de expressão por conveniência não merece ser assim chamada. Se nunca é sua vez de ficar no barril, então você não é à favor dela.

Continuar lendo

Anúncios
Padrão
ceticismo, Educação, filosofia, Humano

I’m Back

maxresdefault

E peço desculpas aos poucos, mas muito valiosos, leitores deste blog, pela minha ausência inexplicada. Parei de escrever por um tempo por questões pessoais, da minha saúde mental bastante debilitada, que me forçou a fazer viagens diárias à outra cidade para tratar minha depressão com a técnica de estimulação magnética transcraniana, o que foi exaustivo e oneroso, mas o saldo final foi inequivocamente positivo. Após 16 sessões, eu estou novamente funcional, e estou feliz em estar, pretendo prosseguir com este blog, cuja escrita sempre foi um deleite para mim, e encabeçar em novos projetos, estudar e escrever obstinadamente. Eu ainda me recuso a usar o termo “resiliência”, por ser um modismo de autoajuda, e porque eu não me alavanquei sozinho para fora de minha condição de inércia patológica, como um barão de Munchausen se puxando para fora do pântano sozinho. Na verdade, pensei muito em morrer, pensei que seria melhor não existir. Mas mudei de ideia. Agradeço à ciência, e agradeço à minha família e aos meus amigos que me forneceram o apoio moral, financeiro e emocional de que tanto necessitei, bem como dos profissionais de saúde mental que me prestaram seus excelentes serviços. Eu não sou, afinal, um lobo solitário, e tão pouco um ídolo objetivista autossuficiente como os protagonistas da literatura de Ayn Rand. Mas meu fardo ainda é meu para carregar, e eu o aceito. Eu não desejo mais morrer, por mais que a ideia pareça tentadora às vezes.

E isto é bom, e não só pra mim, nem só para os meus amigos e família. Eu preciso me lembrar frequentemente que não estou nesta Terra à toa, eu tenho uma missão. E a minha missão é incomodar. Pois bajuladores e conformistas já há em excesso na sociedade, eu quero mesmo é criar problemas, só quero ter intelecto o bastante para ninguém me derrubar, e os livros que leio engrossam minha armadura. Neurótico, eu? Talvez. Mas os neuróticos também são necessários. Alguns homens parecem ter vindo à terra para viver a vida de uma bromélia, e seguir uma cômoda obediência bovina. O que os marxistas não querem admitir é que a maioria dos homens adora ser alienado, quer mesmo saber o mínimo necessário e considera conformismo uma virtude cívica. E não se engane: Não só nas fábricas, não só entre os pobres. Mas não, eu não. Não sou super-homem nietzchiano, nem sou livre de fraquezas, mas eu tenho coragem, e optei por viver e fazer algo que valha a pena neste mundo. E é preciso ter no lugar em que me encontro.

Falo do ambiente acadêmico. Eu vejo que há um excesso de “doutores” em besteirol por aí. Hoje mesmo, em uma emética palestra de direitos humanos na faculdade (na qual, estranhamente, quase não se falou de direitos humanos) a velha ladainha: As doutoras (de merda) discursando seus refrões enlatados de justiça social. Meu amigo, que sentava ao lado, comentou: “Parece que em toda palestra eles querem nos fazer sentir vergonha de sermos brancos.”. E é verdade. Quando vemos episódios lastimáveis como o que ocorreu recentemente em Virgínia, nos EUA, de manifestações de neonazistas, que chegaram até a matar uma pessoa, não nos esqueçamos que muito do combustível destes movimentos é o tal “efeito mola”, de radicalismo de um lado levando a radicalismo do outro, também conhecido como a “ferradura”. A histeria das SJWs piradas alimentam a ira dos neonazistas e vice-versa, num círculo vicioso boçal.

As doutoras de merda que tive o desprazer de assistir hoje, foram daquelas que querem a todo custo impor a já há muito desprovada teoria da tábula rasa: Tudo é construção social para estes loucos. Em nome da tal justiça social, toda verdade científica pode e deve ser sacrificada. Toda opção que a mulher toma, nesta visão deturpada,  considerada é fruto de uma grande conspiração do patriarcado. Céus, eu juro, em dado momento, se disseram indignadas por terem procurado “brinquedos de menina” no Google e visto só bonecas e coisas cor-de-rosa. Quem diria, não? Ah sim, todo o discurso vitimista convenientemente se esquivando da questão do islamismo, a religião mais misógina (no sentido estrito do termo) do mundo, mas que o politicamente correto decretou imune à crítica. Quando terroristas invadiram a redação do Charlie Hebdo e assassinaram os cartunistas, Glenn Greenwald foi logo dizer que a culpa foi dos cartunistas. Aliás, após tomar coragem de pegar o microfone na sessão de perguntar e comentários e expor minha opinião, me chamaram de indelicado por ter dito que as teorias das palestrantes são anticientíficas. Falei foi pouco. Fui delicado demais.

Enfim, sem entrar em detalhes desnecessários, eu preciso continuar vivo, para ter meu doutorado também, e o meu não será em “justiçagem social” embasada em pseudo-ciência, não senhor. Minha ideologia é a razão. Estamos num país em que homeopatia é especialidade médica, um congresso supostamente laico tem espaço para uma bancada evangélica, um ex-presidente condenado por crimes graves é adorado por multidões que o consideram vítima independente das montanhas de evidências de sua canalhice, criacionismo corre o risco de entrar no currículo de biologia como alternativa à evolução, e falando em educação,a questão educacional virou uma espécie de cabo de guerra de fanáticos religiosos contra pós-modernistas e marxistas por quem tem direito a impor sua agenda ideológica nas escolas. Ideologia de gênero vs. cristianismo. Que tal nenhum deles? Que tal a ideologia da razão?

Minha personalidade não é nada comedida, nada moderada, como alguém poderia associar imediatamente ao apreço pessoal à racionalidade. Não, pelo contrário, eu tenho um emocional complicado, e sou bravo. E acho que preciso ser bravo. Eu sou dos que admiram a razão e a ciência legítima, que acham que academia é lugar para esta, e não para politicagem, a verdade não é relativa ou socialmente construída e jamais deve ser condicionada aos interesses da ideologia da moda, e só a verdade liberta. Sou também daqueles que querem uma economia verdadeiramente livre e próspera, e sabem que isto só se faz com estímulo ao empreendedorismo, com redução de entraves burocráticos e fiscais, e acima de tudo com mérito ao estudo e ao trabalho, com mérito aos feitos do indivíduo, o indivíduo, sim senhor, que não é um mero ponto acéfalo em uma massa chamada sociedade, cujos interesses podem ser sacrificados aleatoriamente para atender alguma agenda escusa de um ideólogo idiota.

Não sou objetivista, nem me considero bem libertário, mas definitivamente não sou socialista. Cada indivíduo é um universo, seu ser é determinado antes de mais nada por sua condição biológica, e esta determina várias de suas facetas, mas além desta, é a somatória de fatores únicos que se passam em sua vida que o tornam singular, que fazem de sua mente idiossincrática. O potencial de um ser humano não é infinito, mas é único. Este ser não é derradeiramente livre, não no sentido teológico, ilógico, que viola as leis da causalidade, como se o cérebro fosse uma quarta dimensão independente das leis da física. Mas é livre no sentido de seguir seus anseios, suas paixões, seus impulsos, e estes estarem em alguma medida mediados por seu conhecimento e sua capacidade racional. Livre-arbítrio? Corte o arbítrio. Por que não apenas “livre”?

E ideologia? Eu acredito em razão, esta é minha ideologia, e isto me faz membro de uma minoria, uma de verdade, não uma minoria do PSOL, uma pequena minoria, mas não calada.

Eu não sou um gênio, e nem estou certo de ser muito inteligente, apenas subo no ombro de gigantes, não de anões, como é o caso dos doutores e doutoras em baboseiras, e procurarei meu lugar ao sol assim. Estou vivo. E é bom estar vivo. Quem não está contente… Bem, como disse, posso ser racionalista, mas tenho um temperamento intempestivo, então mais uma vez tomo aquela frase atribuída ao também intempestivo (e como!) Marquês deSade. Não admiro em nada sua irracionalidade e perversidade, mas sim sua coragem em desafiar o convencional e jamais disfarçar quem é, em desafiar, sempre desafiar, ainda que acabasse preso antes e depois da Revolução, pois não foi capaz de se adequar à mentalidade nem da monarquia, nem do Império de Napoleão. Nem a monarquia nem Napoleão calaram Sade, e nem o politicamente correto (e nem a depressão) me calarão, se quiserem combater minhas ideias, melhor terem ideias melhores, pois não me calarei por delicadeza.

“…repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.”

Padrão
ética, filosofia, Humano, sociedade

Gordofobia

758a8f9e85483805e2c5c316ff7ba5c7

Quem lembra da série de TV Lost? Esta série marcou o início de um renascimento dos seriados de TV na década passada. Uma trama densa, repleta de detalhes e simbologias à lá Dan Brown, entregue em longas temporadas com episódios sequenciais. As séries de TV que mais faziam sucesso nos anos 90, como Arquivo X, eram principalmente em episódios “soltos”, que podiam ser assistidos sem depender muito de saber o que tinha acontecido nos anteriores, às vezes com uma curta recapitulação antes de cada episódio. A popularidade de Lost se deveu à algumas novidades tecnológicas do século XXI, como a popularização dos DVDs, que eram compactos e baratos o bastante para as pessoas comprarem e guardarem em casa ocupando muito menos espaço de prateleira do que seria em VHS, além de serem muito mais resistentes ao desgaste (leia-se: não mofavam). Este é o tipo de obra que não dá pra perder episódios e ter uma experiência satisfatória. E assistindo mais de uma vez o mesmo episódio, pode-se pegar detalhes. Com a internet já popularizada, os fãs podiam se reunir em fóruns de debate na internet e discutir o significado de todos os acontecimentos.

O personagem Hurley era um dos mais divertidos da série. Mesmo que você não tenha visto Lost, já deve ter percebido pela imagem deste post o porquê. Com obesidade grau 3, no linguajar endocrinológico, ele frequentemente servia de alívio cômico, e era um dos principais alvos de piada do sem-noção Sawyer. Era sim um cara muito útil, e importante para o desenrolar da trama, também com suas qualidades de caráter. Uma das teoriasnão assisti até o fim, desculpe mais aceitas de Lost quando estava em seu auge era que a ilha era uma espécie de purgatório, e os personagens lá estavam para serem testados, para provarem ou não serem capazes de se redimir.

O vocalista Charlie, por exemplo, era viciado em heroínaeu nunca entendi por que ele comia heroína, e não injetava, uma droga potente, que causa aos usuários uma onda de euforia e relaxamento incomparável à qualquer outra coisa no mundo. Já ouviu de alguém que anestesia para endoscopia é a sensação mais orgástica do mundo? É um “parente”, o propofol. Em dado momento, Charlie acha estátuas de santas na ilha, com saquinhos de heroína dentro. E poderia ter recaído, não fosse a intervenção do personagem John Locke. E o Hurley é viciado em comida. Que não é um vício simples, nem pouco danoso.

Como funcionam as drogas? Muitas delas, como morfina, seu derivado de alta potência, a heroína, e as formas sintéticas (mas não a cocaína, que tem um mecanismo diferente) imitam alguma substância natural, endógena do corpo. Endorfina originalmente significa “endogenous morphine”, morfina endógena. O seu corpo produz endorfinas em resposta a estímulos satisfatórios, como após uma longa corrida, uma relação sexual, uma refeição muito saborosa. A mente registra uma experiência como boa quando há uma grande descarga de endorfina no sistema límbicoa dopamina, pelos estudos mais recentes, parece estar mais ligada à expectativa de prazer do que ao prazer em si. Um mecanismo evolutivamente perspicaz: Leva organismos a fazerem mais coisa que os levam a viverem mais e se reproduzirem mais, passando adiante os genes com estas mesmas inclinações. Uma anomalia na produção e transmissão de endorfinas podem ter a ver com o transtorno obsessivo-compulsivo: A pessoa não tem o sinal de “saciedade” ao completar uma tarefa, como lavar as mãos. A morfina e seus derivados são um “cheat code”, imitando a estrutura molecular das endorfinas ela ativa os receptores para endorfinas, e uma ativação muito mais intensa e prolongada. Prazer puro, destilado, e sem complicações.

E a comida? A comida que a gente adora, aquelas frituras transbordando de sebo, picanha com gordura na borda, chocolates pra levar a sua glicose pra estratosfera… Eram impensáveis para o homem primitivo e seus ancestrais mais primitivos ainda. Seguro dizer que ninguém morria de diabetes tipo 2 nas cavernas. O pouco de gordura e açúcar disponível na natureza era fundamental para sobreviver, e era difícil e perigoso de obter, um mecanismo biológico de recompensa foi necessário para levar o hominídeo a arriscar a pele caçando um mamute ou roubando favos de mel da colmeia, e era bom que a recompensa fosse grande.

Por muitos séculos, calorias foram raras para a maioria dos homens. Até a industrialização, a economia de mercado e as novas técnicas agrícolas do século XX. Atualmente, milhões ainda passam fome. Mas mesmo nos países pobres, calorias são baratas para muita gente.

19029221_1686990407995817_8663623104416741266_n

O post tá dando fome? Que tal um lanche leve para não engordar? Cortesia do meu querido Zangado

E aquelas substâncias que os homens das cavernas se matariam para obter em uma minúscula quantidade? Um monte dela, toneladas dela, no McDonalds ou na barraquinha de lanches da esquina, ou do tio Zangs. O seu sistema límbico, que faz parte da região mais primitiva do cérebro, pouco se importa com o contexto. Você grita e esperneia numa montanha russa mesmo sabendo que está seguro. E se delicia com um hambúrguer mesmo sabendo que aquilo não te faz bem, mas o sistema límbico é indiferente e te dá prazer, muito prazer. De muitas maneiras, é melhor que as drogas. Praticamente todas as drogas de abuso provocam tolerância, o usuário tem cada vez menos prazer com o uso contínuo, e começa a procurar drogas só para sanar os sintomas de abstinência. Com comida, e especialmente com “porcaria”, não tem tolerância, hambúrgueres e brigadeiros continuam sendo deliciosos sempre. Caso se enjoa de uma comida, há sempre muitas outras opções. Podemos culpar quem se vicia nessa maravilha? O Izzy acha que sim.

Sobre as modelos plus size, quando foi lançada a classificação, se bem me lembro, era bem diferente: As modelos plus size nas passarelas só não eram esqueléticas. O padrão da beleza na moda costumava ser não só só irreal, mas patológico, e não foram poucas as meninas que até morreram tentando chegar nele, diria que o protesto contra isto era justo. E sinceramente, você realmente acha linda uma mulher que é só pele em osso? Podia servir para vender roupa de grife, mas não sei se a maioria dos homens heterossexuais acham realmente linda uma mulher que não só é magra, mas excessivamente magra.

Mantendo tudo mais constante, o que parece bonito às pessoas são sinais de saúde. Corpos desproporcionais são feios. Os nossos instintos são sábios ao suspeitarem que uma pessoa muito magra ou muito gorda não é saudável. E não dá pra reprogramar o que as pessoas acham bonito ou não. Não é, portanto, a mídia que ensina às pessoas o que elas devem achar bonito, como os panacas foulcaultianos pensam, na verdade são as pessoas que se atraem por esta ou aquela característica e determinam o que querem ver. As modelos plus size do começoplus size raiz? eram muito bonitas, em minha opinião. Mas esta aí que arrumou treta no avião… Sério, que gorda escrota. Tão grande quanto o Hurley, mas sem um pingo do carisma do personagem, barraqueira e intrometida. Retrato perfeito do politicamente correto e seus guerreiros.

Eu mesmo sou bem paranoico com questões de privacidade. Se uma figura dessas tira fotos das mensagens privadas que eu estou trocando durante um voo e depois vem tirar satisfação comigo, sou capaz de dar um soco na cara da infeliz justiceira social. Agora não só temos que respeitar os gordos, temos que nos refrear de achar obesidade algo ruim, feio ou insalubre, fazer de conta que está tudo bem em nome da autoestima. Se antes o padrão de beleza nas passarelas era doentio e irreal, o que os justiceiros sociais querem por no lugar é doentio e irreal também. E ai de quem discordar, mesmo que em privado!

baleia azul

Certa feita, alguém mandou essa imagem pro grupo de WhatsApp da minha turma da faculdade, e os “lacradores de plantão” começaram a reclamar da gordofobia no grupo. E pior que eles eram magros.

Mas o Izzy é escroto pra caralho em uma parte de sua argumentação. Existem duas atitudes que um gordo pode tomar quanto à críticas e deboches à sua forma física:

  • “Você é preconceituso, gordofóbico preso à padrões de beleza do sistema capitalista! Não existe peso saudável, existe saúde para todos os pesos, saúde é relativa, beleza é relativa também, todo mundo tem sua beleza, e uma pessoa de 150 quilos também é linda…” queima pós-modernista de merda.
  • “Sou gordo mas isto é problema meu, não me enche o saco, é o meu corpo e não é você que paga minha comida, e nem estou pedindo pra você dar pra mim. E mais: Sou gordo mas posso emagrecer. E você, que é feio?” Perfeito, faça assim.

Claro que o Izzy tira a velha carta do “a sua obesidade influencia indiretamente nos custos da saúde pública” o que eu responderia com um curto e grosso foda-se. É com esta frase que se justifica cercear toda e qualquer liberdade. Tudo influencia indiretamente nos gastos públicos. O problema do estado babá não é só que ele toma dinheiro de todo mundo para pagar certos serviços, mas ele achar que por isso tem o direito a tutelar a vida privada de seus indivíduos, e os serviços oferecidos pelo mercado, para eles não serem onerosos ao sistema público, como foi em São Paulo com a grotesca lei que proíbe refil de refrigerante em lanchonete. Mas sempre têm as ovelhinhas bem comportadas que se põe a balir em favor das regulamentações “bééé, é para o bem de todos, béééé”, como aqueles que aceitaram de bom grado até a imposição do bizarro padrão de tomadas brasileiro em nome da segurança, e aceitam que o Estado diga o que é bom ou não para você e tutele a sua rotina.

E pior ainda: Acham que isso é motivo para importunar as pessoas. O cara no avião estava só falando privadamente com um amigo dele sobre a gorda do lado, ele não estava a humilhando ou ofendendo de maneira alguma, nem a obrigando a perder peso, e nem estava incomodado com o simples fato dela ser gorda, mas da banha dela estar invadindo o espaço da poltrona dele.  Mas há alguns que vão bem mais longe que o cara. Desconfie sempre desse tipo de gente, o valentão com boas intenções: Vou encher o saco do gordo pelo bem da saúde dele. Eu absolutamente não sou a favor de impedir estas pessoas de se expressarem e serem escrotas na vida digital e fora dela, isto é, de impor sanções legais à elas, deixe a lei fora dos debates, mas eu também sou livre para expressar quanto elas são desprezíveis.

As pessoas sempre trocam saúde por prazer, e tomam escolhas de vida pouco saudáveis em nome de outras coisas. Ninguém diz a um estudante que vara noites sem dormir estudando a matéria de seu curso que ele é um burro ou irresponsável por estar destruindo a sua saúde e bem-estar emocional desse jeito, podem até criticar o jeito que está levando a vida, mas sempre com muita gentileza e compreensão, ele é um exemplo, só exagera um pouquinho. Você pode detonar a sua saúde só se for produtivo, fazê-lo por prazer não pode, é imediatamente taxado de burro e execrado, como é com os fumantes, não basta que eles não possam fumar do seu lado e obrigá-lo a respirar a fumaça tóxica, é preciso também deixar claro que são a escória da humanidade. Até o tempo que os pais passam em companhia dos filhos, que não faz mal algum à saúde, precisou se “gourmetizado”, apelidado de “tempo de qualidade”, para as pessoas terem o direito de passar o tempo com os filhos, só pode se for de alguma forma produtivo.

E a escolha? O Izzy diz que todo mundo é livre para ser gordo ou não, que ninguém é coagido a comer demais ou a fazer exercício de menos. Bem, num sentido de liberdade, sim, você é livre, e é esta a liberdade que o Estado viola ao impor leis dizendo que a lanchonete não pode te deixar encher o copo gratuitamente. Isto basta, esta liberdade “virtual”, quando uma pessoa mentalmente sã faz algo sabendo o que está fazendo sem violar o direito de terceiros, e é capaz de entender as consequências. Mas poderia dizer que nenhum gordo é digno de alguma compaixão ou simpatia por sua forma física, ou mesmo digno de ser deixado em paz? Assim como os “zumbis” da cracolândia tem que ser deixados para morrer na sarjeta e ninguém precisa ter pena, porque escolheram aquilo, como muitos pensam? Ou que uma mulher que engravidou por não usar contraceptivos deve ser obrigada a levar a gravidez até o fim, e bem feito? Essa linha de pensamento é correta?

Eu não defendo essa babaquice. Por obséquio, pelo menos seja um babaca autêntico, não um babaca que diz “é para o seu próprio bem”. Falando apenas dos gordos, quantas coisas não interferem para alguém ser obeso? Não, eu não acredito neste absurdo de “livre-arbítrio”, liberdade derradeira e absoluta que independe das circunstâncias. Mesmo que a gordice não seja justificada por causas genéticas que alterem a função metabólica ou coisa que o valha, tem mais por trás… A pessoa nasceu sem receber educação sobre alimentação saudável, ou tem um autocontrole baixo, que não dá conta de frear os impulsos primitivos que clamam por mais gordura ou açúcar, ou detesta fazer atividades físicas,   ou a comida é uma ótima válvula de escape para certas frustrações… Ou ela simplesmente gosta!

Você pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quiser. A política do bullying público de gordos não me parece nada legal, vamos fazer você fazer um merda de indivíduofat shaming até você começar a fazer exercícios e comer menos. E se eu não quiser? Eu mesmo sou gordo. Não peço a ninguém que faça de conta que a minha condição física é saudável, muito menos que achem minha barriga bonita, e tão pouco peço para alguém se abster de fazer memes sobre o assunto. Piada é piada, gordos estão perdendo o senso de humor e isto é um problema. Mas eu não sou obrigado a perder um tempo do meu dia correndo numa esteira ou levantando ferro porque alguém acha que é meu dever, não amigo, minha consciência não vai pesar por isto. Ah, e se uma série de TV faz um personagem gordo simpático, mas sem apontar os problemas disso? Deixe. Arte com responsabilidade social é um saco.

Na verdade, não só as pessoas aporrinham os gordos que não se preocupam em emagrecer, mas aqueles que não querem emagrecer de uma maneira tradicional, difícil. Vá à seção de comentários de qualquer notícia falando de algum novo remédio para emagrecimento, como o Saxendaque eu uso e só não recomendo por infelizmente ser muito caro ou sobre lipoaspiração, que você verá o comentário dos magros rabugentos “humpf, e academia que é bom nada, né?”. Claro, senhor magro azedo, agora eu tenho que fazer tudo da maneira mais dura, espartana, porque você não se conforma que eu faça de uma maneira mais fácil mesmo pagando do meu bolso. As pessoas tem vidas chatas e corridas, mas sempre vem um rabugento dizendo que você é obrigado a deixá-la pior ainda: Ir segunda de manhã para o trabalho é uma merda, e você deveria também ir de bicicleta, para chegar cansado e suado à reunião. E também deveria trocar o elevador pela escada e o controle da garagem pelo controle manual em nome da balança, e não pode ter uma refeição deliciosa em nome da dieta. Vigilantes do peso, por gentileza, se conformem em vigiar o próprio peso.

Padrão
ceticismo, filosofia, vídeos

Nerdologia Livre Arbítrio

 

O Nerdologia, em minha opinião, é um dos melhores projetos que já saíram da “família” Jovem Nerd, não apenas porque ele consegue informar de forma divertida (como no Mundo de Beakman que fez as infâncias de muitos de nós) mas porque o pessoal do Nerdologia é bastante cuidadoso com a veracidade das informações apresentadas, apesar de fazerem vídeos com grande frequência, ao contrário de muitos canais de YouTube por aí. O Átila e o Filipe (do Nerdologia História) também deixam quase sempre uma lista de livros recomendadas para quem quiser se informar mais sobre o assunto abordado no vídeo, além é claro de fazerem as suculentas conexões com o universo nerd. E este vídeo não foi exceção, está caprichado. Só vi dois erros importantes nele. Isto é, dois e meio:

  • O Átila deixa a entender no começo do vídeo que todos os sistemas legais dependem de livre-arbítrio, o que não é verdade. A aplicação da pena por uma ação pode se justificar apenas por conhecimento ou não do que se está fazendo (em oposição à negligência), falta de coerção externa imediata, além do simples fato de que a lei e sua aplicação em si é um fato que pesa sobre a decisão, faz possíveis criminosos pensarem duas vezes.
  • No final, fazendo uma concessão aos compatibilistas, ele diz que o livre-arbítrio pode até não existir em ações brutas como mover a mão direita ou esquerda, mas pode estar em decisões mais complexas, como se candidatar à uma vaga de emprego ou se casar. Não, não há livre-arbítrio ou liberdade derradeira em nenhuma decisão, a diferença é apenas de grau. Uma calculadora comum de 8 digitos funciona de forma muito mais simples que um notebook, mas o que eles fazem é essencialmente o mesmo. Do ponto de vista lógico, exibir 4 em resposta ao input 2+2 também é resultado de uma decisão (é o que sai de um nó decisório), tanto quanto exibir o vídeo do YouTube é resultado de inúmeras operações de renderização na sua placa de vídeo. Mas ambas são igualmente não-livres. O cérebro nada mais é que um computador biológico. O fato de ações humanas mais importantes e deliberadas serem difíceis de prever não prova que elas sejam livres.

E o “meio-erro” (mais como uma pequena decepção) é que normalmente o Nerdologia dá as dicas de livros que os interessados podem consultar sobre o assunto. Neste vídeo, foram citados apenas dois, que não são exatamente focados no tema livre-arbítrio, mas o Átila explica que não indicou mais porque boa parte da literatura a respeito é inédita no Brasil, uma pena. O Free Will, de Sam Harris (que no Brasil conta apenas com tradução não oficial) é o principal deles, ou pelo menos o que aborda o tema de forma mais pontual e suscita, mas no Como a Mente Fuciona e  Tabula Rasa do Pinker, que têm edição brasileira, o assunto também é abordado. O livro Elbow Room, de Daniel Dennett, é uma indicação para quem quiser conhecer o lado oposto, isto é, o que os acadêmicos sérios que são a favor da ideia de livre-arbítrio, os compatibilistas, têm a dizer. Mas já vou dar um “spoiler”: Basicamente Daniel Dennett só está preocupado com as consequências de não se acreditar mais em livre-arbítrio (como Dostoievski estava preocupado com as consequências do ateísmo) e tenta resignificar o termo… Só que aí também não é mais livre-arbítrio. É mais ou menos como dizer que “dragões existem” porque existe um animal na Indonésia chamado Dragão de Komodo… Que não cospe fogo, nem voa, nem sequestra princesas.

Você também pode ler os meus posts sobre o assunto, se quiser… Não que você seja livre para querer ou não.

 

 

Padrão
ética, filosofia, Humano, Política, Resenha, Segurança e Privacidade, sociedade

Devemos Queimar Bojack Horseman? Um Ensaio Sobre Liberdade.

“Voluntarioso, colérico, arrebatado, extremado em tudo, de um desregramento de imaginação quanto aos costumes como igual nunca houve, ateu até o fanatismo, eis em duas palavras como eu sou; e repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.

Bojack é um cavalo. E um homem. Ou algo entre essas duas definições. Na série de animação para adultos de mesmo nome, que se passa em uma versão fictícia psicodélica de Hollywood, alguns personagens são humanos normais, como a escritora Diane e o faz-nada Todd, e alguns personagens são animais antropomorfizados (com forma de humanos) como o próprio Bojack, o cavalo ator (ou seria um ator cavalo?), assim como sua agente e parceira sexual ocasional Princess Caroline, o colega ator Mr. Peanutbutter, um labrador amarelo, que Bojack detesta, e maldosamente tenta prejudicar mais de uma vez, mas Mr. Peanutbutter parece não perceber ou não se importar, e trata Bojack como amigo mesmo assim.

Nesta série, maluca, às vezes cômica, mas muito séria e trágica essencialmente, os personagens se tratam mais ou menos como iguais independente das espécies, apesar da personalidade e nome de muitos deles fazer lembrar os animais, como Mr. Peanutbutter (Sr. Manteiga de Amendoim), que tem um nome de animal de estimação e aquele jeito bobalhão simpático, sempre alegre e amigável, típico dos labradores. Bojack, por sua vez, é um decadente ator deprimido e um tanto quanto narcisista (as duas condições não são auto excludentes), que apesar de ainda ser muito rico, já não faz papel em filmes ou séries de TV há muitos anos, e vive das glórias do passado, é viciado em assistir episódios da sitcom Horsing Around, dos anos 90, na qual foi protagonista, papel que o levou ao estrelato e o enriqueceu. Adora beber, fuma também, e tem um relacionamento para lá de difícil com os outros personagens, é deveras indelicado e insensível, para dizer o mínimo, apesar de se magoar também, e mais de uma vez se preocupar com outras pessoas, além de definitivamente ter sentimento por elas, inclusive um amor platônico por uma veada que trabalhou na produção em seus tempos de TV.

Tudo isto é bem humano, e talvez você se lembre de algumas pessoas que já conheceu que tenham estas características. Ah, mas ele também tem cara de cavalo, corpo de cavalo, apenas com membros mais parecidos em forma e proporção com membros humanos, e explica em determinado episódio que é muito resistente à bebida (é preciso muito álcool para deixar um cavalo bêbado), também relincha em algumas ocasiões, como quando está transando com Sarah Lynn, atriz (totalmente humana) que atuou com ele em Horsing Around, sexo para lá de selvagem.  Zoofilia ou apenas sexo normal, dentro do contexto? Afinal, são animais, ou gente? Esses conceitos ainda fazem sentido no universo da série? São animais… Mas não como todo mundo imagina animais.

Continuar lendo

Padrão
ética, Educação, filosofia, sociedade

É justo zoar os atrasados do Enem?

Este vídeo do Izzy Nobre foi um bom pretexto para falar sobre as questões de ética e escolha, em mais profundidade do que em meu último post sobre o assunto livre-arbítrio.

Primeiramente, vou deixar claro que ODEIO atrasados. Neste país temos a mania de achar que se preocupar com horário é coisa de gente “noiada” e “careta”, que você não deve a ninguém e “o importante é ser feliz”, foda-se os outros, e tudo bem chegar meia-hora ou uma hora depois do combinado, se a outra pessoa ficar nervosa, ela é que está errada, não você que é folgado. E médico, como médico atrasa: Já fui chamado para entrar no consultório 40 min depois do horário, e o filho-da-puta ainda me recebe sem nem pedir desculpas nem dar explicações. Se reclamar, ainda te encaminha para o psiquiatra. E nem foi no SUS.

Mas é certo fazer os “atrasados do Enem” de palhaços, rir da desgraça deles (e para muitos é uma desgraça mesmo, significa um ano no “limbo” do cursinho), ou até sentar numa caixa de cerveja e assistir o desespero dos atrasados? Que fique claro, eu sou radicalmente a favor da liberdade de expressão, radicalmente mesmo, sou contra proibir as pessoas de rir do que quiserem, mesmo que seja humor negro, mesmo que seja de péssimo gosto. Muitas vezes eu também rio, apesar de não achar a menor graça no caso dos atrasados do Enem, talvez por sentir empatia por eles e não com vítimas “genéricas” de piadas de humor negro. Portanto não, não proíbam esse tipo de humor. Mas o fato de eu não achar que deveria ser ilegal não significa que eu não possa achar ruim, e manifestar isso, eu tenho liberdade de expressão também.

Primeiramente, vamos fazer uma distinção: Não é o mesmo tipo de atraso, ainda que o mesmo tipo de pessoa que se atrasa em um tipo de compromisso se atrasar em todos, em geral, mas mesmo assim, são situações diferentes. Uma coisa é você firmar um compromisso com uma pessoa e deixá-la esperando. Você está prejudicando alguém. Uma prova como o Enem é outro tipo de compromisso, impessoal, que você não vai prejudicar ninguém (além de si mesmo) chegando atrasado, e eu acho que não faz sentido ficar com raiva ou humilhar alguém que se atrasou para isto. Me enoja sim o fiscal, que quase transpira o prazer sádico que tem de estar fodendo a vida de alguém por minutos ou mesmo segundos de atraso, amparado pela burocracia. E por favor, não me venha com este argumento de vaquinha de presépio de “as coisas são assim mesmo”, “regras são regras, ele só fez o que foi mandado”, o tribunal de Nuremberg estava cheio de réus que só estava cumprindo ordens (cumprindo ordens com muito gosto).

Em todo caso, você não sabe o que aconteceu. Há mil maneiras de chegar atrasado mesmo saindo cedo de casa. Existem, claro, casos de pessoas que se atrasaram por motivos idiotas, como uma que supostamente teria se atrasado porque ficou rezando no carro com a mãe, ou porque parou para comprar lanche na rua. Claro que o cara da caixa de cerveja, e o Cauê Moura, que praticamente endeusou o cara da caixa de cerveja, nem pensam nisso, e riem da desgraça alheia independente das causas. Engraçado que o Cauê, muitos anos atrás, fez um vídeo dizendo como as pequenas autoridades, em geral, são cretinas e detestáveis (são mesmo), dando como exemplo um segurança que não o deixou entrar numa festa de bermuda. Mas quando é o fiscal do Enem proibindo um aluno de entrar após um minuto de atraso, ele acha o cara o máximo. Que coisa, não?

Mesmo nesses casos, acho uma crueldade idiota rir da cara dessas pessoas e fazê-las de palhaças no YouTube (mais uma vez frisando que não quero que o YouTube e muito menos o governo proíbam isso, e nunca dei flag num vídeo do YouTube, nem por isso nem por outro motivo), ainda mais sendo que elas não fizeram nada para você, que é o mesmo motivo pelo qual acho grotesco ficar fazendo piadas de futebol para zoar os amigos, do que já tratei em outro post. O Izzy tenta fazer uma distinção, diz que uma coisa é rir da desgraça de alguém por algo que aconteceu à ele fora de seu controle, por exemplo, sofrer um assalto, ou ser atropelado. Outra é rir dos vacilos de alguém, por coisas que ela escolheu e que foram uma merda, e dá o exemplo de um amigo que casou com uma mulher que todos os amigos do grupo avisaram que não prestava, e de outro que comprou um carro que todos avisaram ser ruim. A distinção é razoável, mas mesmo assim, essas pessoas realmente fizeram uma “livre escolha”?

Na verdade, não. Ainda que elas pensassem que estavam agindo livremente, se questionadas sobre isso, estudos científicos já provaram que a sensação da liberdade só é de fato formada na mente depois da ação ter sido feita, basicamente uma ilusão cognitiva. Um pesquisador observando um electroencefalograma consegue, por exemplo, saber se você vai mover a sua mão direita ou esquerda antes de você mesmo saber. Nem acho que precisaria de estudo científico para isso. A ideia de livre-arbítrio é ilógica, impossível, implicaria no cérebro ser um órgão que existe em uma realidade paralela que existe alheia às leis da física, mais ou menos como no filme Divertidamente, mesmo assim, eu não consigo imaginar como este livre-arbítrio funcionaria. Ainda que ignoremos as causas de muitas ações humanas, nossa ignorância não é prova de que sejam livres. Cada disparo de cada neurônio seu foi provocado por sinais vindo de outro neurônio, ou de alguma informação do ambiente (ondas sonoras, luz, calor etc) isto acontece sem você necessariamente saber, sem necessariamente perceber, e sem que você possa mudar o que acontece. Mesmo se for verdade que o funcionamento do neurônio seja afetado por fenômenos quânticos mais ou menos aleatórios, o que não foi provado, ainda assim você não teria livre arbítrio, seus pensamentos e ações apenas estariam sendo determinados por eventos aleatórios.

Felizmente, a língua tem as palavras “liberdade” e “livre-arbítrio” distintas. O conceito de liberdade do qual falo no terceiro parágrafo, por exemplo, liberdade de expressão, independe de livre arbítrio, e basicamente significa expressar o que você quiser sem punição. Mais ou menos o mesmo ocorre com liberdade no sentido político e jurídico, que, pelo menos a princípio, podem ser mantidas mesmo sabendo que não há livre arbítrio. O erro da maioria dos grupos de direitos humanos não é sugerir que os criminosos foram vítimas passivas de fatores sobre os quais não tiveram controle (foram mesmo), mas achar que isto justifica impunidade, e que todo criminoso pode ser recuperado. De qualquer forma, esses mesmos grupos não deixariam de demonizar um político reacionário (um Bolsonaro, por exemplo) que quisesse endurecer as penas para crimes como roubo e furto, ou até propor pena de morte, quando no fundo este político teve tão pouca liberdade em mudar suas ações quanto um menino de rua que pratica furtos.

Mas então, deveríamos mudar nossas emoções, em vista desta nova informação? Você pode, por exemplo, chegar à conclusão de que está certo, não é completamente arbitrário, sentir raiva e querer punir alguém que fez algo estando perfeitamente ciente das informações a respeito de sua ação, nutrida por sentimento de malícia ou simples indiferença, ainda que no fundo a pessoa não tenha escolhido sentir estas emoções ou agir perante elas, certo ou não, é como eu penso quando julgo alguém errado. Ou talvez você pense que, então, não faz sentido mesmo sentir raiva. Independente do que você pensar, infelizmente, deixar de sentir ódio (justificado ou não) é impossível. Talvez seja mais fácil perdoar as pessoas, deixar de ódiá-las, se tiver em mente que elas nunca poderiam ter agido diferente, mas sentir ódio em algum momento você vai. Aliás, quem nunca sentiu raiva do computador travando, mesmo sem nenhuma ilusão de que ele seja livre?  O intelecto não tem grande poder em mudar o emocional, como qualquer pessoa com fobia sabe bem. Sem dúvida iríamos repensar muita coisa, se nos déssemos conta de que livre-arbítrio é uma ilusão. Talvez Izzy pensasse que seu amigo, antes de ser um alvo aceitável de piadas, é alguém digno de pena, por ter uma mente que o obrigou a se casar com uma mulher cretina, ainda que houvesse plena informação de que estava fazendo algo de que iria se arrepender. Mais do que isso,  teríamos de rearquitetar vários conceitos que deixariam de fazer sentido, até a responsabilidade, culpa, vergonha e orgulho deixariam de fazer sentido. Mas calma, esta mudança de paradigma só seria a longo prazo. E fazer as pessoas se sentirem responsáveis pelo que fazem, e se envergonhar do que fazem errado, ainda é uma das melhores formas de condicionar alguém a fazer o certo, por exemplo, não chegar atrasado em compromissos.

Por fim, vou deixar aqui o único meme do Enem que eu gostei. E no fundo, gostaria muito que isso acontecesse de verdade:

cj-enem

 

Sugestões:

Livre Arbítrio e “Livre Arbítrio” – Como as minhas opiniões diferem das de Daniel Dennett

https://rebeldiametafisica.wordpress.com/tag/sam-harris/

 

 

Padrão
ética, filosofia

Colocações Condicionadas Sobre Livre-arbítrio

Livre-arbítrio não existe. Na verdade, quanto
mais pesquiso sobre ele mais me convenço de que é na verdade ilógico, contraria
as leis da física e da química, e portanto, não é algo real. Existir
livre-arbítrio implicaria na existência de ações não causadas, que não são o
fim de uma cadeia de causa e efeito. Pense no modo como funciona o cérebro, uma
máquina bioquímica composta de neurônios que disparam e sinalizam uns aos
outros com neurotransmissores. Um excita e inibe o outro, que excita ou inibe o
outro…. Não há espaço para livre-arbítrio. Na verdade, várias experiências
psicológicas já provaram que a sensação de liberdade é formada no cérebro das
pessoas depois do ato já ter sido feito, o tal processo de tomada de decisão é feito
inconscientemente, obedecendo diversos mecanismos psicológicos inconscientes.

Liberdade pode ter conceitos diferentes, não necessariamente
livre-arbítrio. Se liberdade for livre arbítrio, então acabou, não existe
liberdade, e o que as pessoas chamam de “ações livres” são apenas ações que
ignoramos as causas. Mas claro que liberdade pode significar apenas agir
segundo a sua vontade, o seu ímpeto. Quando eu escolho tomar uma Coca-Cola sem
gelo e limão, isto pode ser chamado de uma ação livre, no sentido de que eu estou obedecendo apenas a um processo mais ou menos aleatório no meu cérebro,
não possuo nenhuma doença que me predisponha a tomar coca com ou sem gelo e
limão, nem possuo alguém me coagindo a escolher uma destas opções. Esta definição de liberdade é a que usamos para falar de liberdade política, por exemplo, liberdade de expressão e liberdade de pensamento, e é suficiente para isto.

Mas mesmo que o processo seja aleatório (aparentemente
alguns processos quânticos são mesmo aleatórios) isto ainda não seria estritamente
livre-arbítrio. Agir obedecendo algum processo aleatório não é agir de forma
livre. Uma moeda é livre por ela poder cair em cara ou coroa?

A aversão da maioria das pessoas a este tipo de constatação
é porque frequentemente ouvimos gente de esquerda, os famosos justiceiros
sociais, defendendo criminosos com base em sua falta de liberdade (“a sociedade
o fez assim”). Primeiramente, isto é apenas parcialmente verdadeiro, pois a
genética determina grande parte do comportamento e personalidade de uma pessoa,
o que também não é realmente escolhido pela pessoa, nada é. Mas, ao contrário
do que os justiceiros sociais querem passar, isto não significa que qualquer
pessoa possa ser recuperada,  isto obviamente não é verdade, e criminosos perigosos não devem ser deixados à solta na sociedade. E também não muda o fato de
que é preciso que seja imposta uma punição para desencorajar comportamentos criminosos,
exatamente porque as pessoas são determinadas – em parte – pelo seu meio
social.

Em teoria, chegar a esta conclusão deveria fazer de uma
pessoa tolerante, a conclusão é de que não há motivo para ficar com ódio de
ninguém, e de fato nem para condenar moralmente alguém por algo, não mais do
que condenaríamos um lobo que devora um cordeiro ou um doente mental que mata
alguém durante um surto psicótico. Pensando bem, não deveríamos odiar Trump, nem Bolsonaro, nem Hitler,
nem o trombadinha da esquina… Mas eu odeio, e desprezo certos grupos mesmo
assim. Se alguém é babaca, eu vou odiar essa pessoa por ser babaca, independente
dela ter escolhido ser assim ou não. É, eu não sou perfeito. Mas não é culpa
minha, não escolhi ser assim.

Padrão