ética, filosofia, sociedade

Direitos Humanos: Sim, eu sou a favor

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Quem acompanha meu blog há algum tempo sabe que eu decididamente não sou de esquerda. Apesar do movimento de direitos humanos hoje ter sido apropriado indebitamente pela esquerda (sempre a monopolista das virtudes), os movimentos “comunistas” ou “socialistas” foram e ainda são responsáveis por algumas das piores barbáries da história, como ainda é na Coréia do Norte, praticamente uma Auschwitz contemporânea, que raramente é lembrada.

Portanto não se preocupe, não sou desses “especialistas” folcaultianos que aparecem nos painéis da Globo News para defender que criminosos (especialmente menores de idade) são pobrezinhos que cometeram crimes apenas porque foram feitos assim pela sociedade, mas na verdade não têm maldade nenhuma no coração e podem ser reeducados para viverem de forma honesta. Não, eu não sou tonto. Apesar de definitivamente não acreditar em livre arbítrio (ou seja, ninguém é realmente “livre” para cometer crimes ou não), sei muito bem que uma enorme parcela destas pessoas que estão atrás das grades, descontando os que são inocentes presos por erros da Justiça, lá está por atos que cometeram por malícia ou indiferença à dignidade e aos direitos de suas vítimas, e muitas destas vítimas também são pessoas pobres, ou que nasceram sem recursos, mas nem por isso se tornaram ladrões ou assassinos, nem quiseram se juntar ao tráfico ou a qualquer organização criminosa. Então sim: Em geral, bandido é safado, e nem todos os casos são recuperáveis. Prisão perpétua ou pena de morte é a única solução correta para vários dos casos, em especial aqueles em que o criminoso é um psicopata (tendo a defender mais a prisão perpétua, mas essencialmente elas têm o mesmo resultado). Nem por isto eu acho que estes bandidos mereçam sofrer absolutamente todo e qualquer sofrimento imaginável, ou que eles devam ser despidos de todos os seus direitos, não apenas de sua liberdade, e tratados pior do que animais. Isto não é justiça, é puro sadismo, e não traz bem algum à sociedade.

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A Educação No Brasil é Muito Radical?

Não, é claro que não.

Mas calma, não entrei para a turma dos “isentões” que tentam convencer todo mundo de que
socialistas/comunistas/suzi não existem mais, e todos os numerosos relatos e provas
de doutrinação ideológica nas escolas públicas e particulares do Brasil são na
verdade uma grande conspiração da direita.

Mas isto não significa que o ensino nas escolas, de humanas
especificamente, seja radical ou “revolucionário”. Na verdade, estes professores
(que eu quero frisar, não são todos) possuem um tipo de acordo tácito com as
escolas: Você ensina para os alunos a sua ideologia porra loca, ensina eles a
votarem nos seus candidatos porra loca, mas em troca os condiciona a serem
ovelhinhas obedientes que cumprem regras e normas infalivelmente, andam sempre na
linha, sempre fazendo o que o grupo acha melhor.

Nas aulas de filosofia, ensinam um pastiche de Sócrates e
Kant para dizer que o certo é sempre obedecer às leis e as regras e, no máximo,
sugerir educadamente alguma mudança. Veja a que conclusão absurda chegamos com
o imperativo categórico kantiano: Se um assassino estiver batendo à porta de
sua casa, querendo matar seu amigo, e perguntar se o seu amigo está, você
estaria errado em mentir! Velha ladainha de “se todos mentissem…”. Claro,
foda-se a vida do seu amigo, agradar ao fantasma de Kant é mais importante. E o
filho da mãe que ensina isso nem se dá ao trabalho de ensinar porque esta
conclusão absurda está errada, porque ele acha que não está errada, nós é que
não estamos evoluídos o bastante para entender porque o imperativo categórico
vale mais do que a vida do seu amigo. Quanto a mim, o imperativo que se foda,
prefiro o fantasma de Kant puxando meu pé à noite que ter um amigo morto.

E quanto à Sócrates, que preferiu ser executado injustamente
ao invés de fugir?

Em todos os países, alguns mais do que outros, existe um
descompasso entre o que lei e prática diária, e isto é bom. A verdade é que
liberdade de pensamento e de expressão não adianta nada se você não puder
experimentar coisas novas, sem permissão ou mesmo contra a vontade do Estado.
Se a maconha tivesse efetivamente deixado de existir no instante que todos os
países do mundo a proibiram, hoje jamais estaríamos descobrindo que esta planta
possui algumas propriedades medicinais importantes. E se hoje você possui
entretenimento por download ou por streaming, como Spotify e Netflix, é porque
o público, antes, sinalizou que gostaria de consumir conteúdo assim, com a “pirataria”,
os downloads em massa. Provavelmente ainda estaríamos presos às inconvenientes
e caras mídias físicas se falássemos amém à lei sempre.

Ah sim, e o que dizer dos gays, que eram proibidos de fazer
sexo no Texas até 2003, e ainda o são em vários lugares do mundo, inclusive na
Índia? Deveriam, obedientemente, respeitar a lei e manterem-se virgens até que
os poderosos tenham a boa vontade de permitir-lhes fazer o que quiserem entre
quatro paredes? Que bem, afinal, é gerado desta obediência cega a um moralismo
barato? Ah sim, afagamos o fantasma de Kant, nada importa mais.

As empresas do vale do silício que mais fazem sucesso são
aquelas que apresentam as chamadas inovações disruptivas ou perturbadoras (disruptive
inovations), talvez o exemplo mais famoso sendo o Uber. Fosse o CEO do Uber um
cordeirinho temente à lei, estaria até hoje tentando negociar com o Estado para
começar o Uber, mesma coisa como o AirBnB e tantas outras. E se Bill Gates ou
Steve Jobs antes de lançarem seus respectivos computadores pessoais, pedissem
permissão ao Estado? Inovadores de verdade fazem primeiro, preocupam-se com
permissão depois.

A verdade é que, ao contrário do que repetem ad nauseam em
suas propagandas, as escolas não querem formar cidadãos com pensamento crítico,
porra nenhuma, apenas querem te tornar um vassalo obediente, que lambe até as
bolas do chefe. A única “ética” que se aprende de verdade dentro daqueles muros
é a do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” as outras só são para apreciar
intelectualmente, não para empregar na prática.

Só ensinam a se revoltar pelo que eles dizem para se
revoltar, seja o racismo, a desigualdade social, ou a depredação da natureza,
mais ou menos como nos dois minutos de ódio do 1984.

A escola é a organização mais reacionária, atrasada,
tecnofóbica e conformista no mundo, ambiente análogo a um presídio ou um campo
de concentração. Na verdade, não é problema nenhum o professor ser de esquerda,
mesmo de extrema esquerda, a esquerda é muito afeita à prática de pregar algo diametralmente
oposto ao que se faz, exatamente o que as escolas querem que seus alunos
aprendam a fazer.

Tem que ser assim? Talvez, esta é a conclusão triste do meu
post.

Anarquia (seja a vertente clássica “bandeira preta”, a capitalista,
ou qualquer anarquia) jamais pode ser pregada para o público, não é para
qualquer um, não é uma coisa democrática. A maioria dos anarquistas são idiotas
que se acham muito revolucionários pondo fogo em sacos de lixo e chutando
placas. Os limites de velocidades das ruas, evidentemente, são feitos pensando
nos motoristas menos experientes, o menor denominador comum, sem falar nos
bebuns e nos simplesmente irresponsáveis. Qualquer motorista com um bom tempo
de volante sabe muito bem a velocidade em que está seguro na pista, que é muito
maior do que aquela das placas. Mas, tire os limites de velocidade, e os
idiotas vão tirar racha à 200 km/h.

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Justiça – Parte 1

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A série de TV Justiça, que passa na Globo às 22h30 4 vezes
por semana, é uma das melhores coisas que saiu da TV aberta nos últimos anos. A
Globo sendo a maior emissora do Brasil, e sem dúvida a empresa do Brasil que
pode pagar os melhores cachês e contratar os melhores diretores e roteirista,
seria estatisticamente improvável que não saísse nada de bom nem de vez em
quando. Este post será longo, e irei dividi-lo em dois, o segundo sai amanhã.
Assistir Justiça é como tragar um gole de vodka pura, na verdade, em alguns
momentos foi um soco no estômago. Mas eu gostei de apanhar. Fazia tempo que um
filme ou série não me fazia sentir tanta empatia pelos personagens. Se você
ainda não viu nem os 4 primeiros
capítulos
, recomendo não ler este post ainda, não posso evitar SPOILERS.

Ok, eu sei que eu mesmo não resisti e usei “redeglobense”
uma vez para designar um código de ética normaloide, feito para manter o povo vassalo,
mas com o orgulho de ser um “cidadão consciente”. Mas Justiça foge bastante dos
chavões politicamente corretos da teledramaturgia brasileira. Nada absurdo, só
retrata pessoas de verdade, não caricaturas.

É claro, a série não foge totalmente da cartilha, faz
questão de retratar os negros e mulheres como vítimas. Mas também não os
retrata como coitadinhos inocentes, que nunca fizeram nada de errado e que
vivem totalmente inertes necessitando de ajuda do governo para fazer qualquer
coisa, uma imagem que parece ser a que as pessoas das ciências sociais em seus
delírios foulcaultianos têm. Um amigo meu cogitou que a roteirista desta série
deve ser socióloga. Não sei, mas se for, certamente é uma com bastante tempo de
casa, não uma boba recém-saída da faculdade cheia de teorias de gabinete.

A história se passa na cidade do Recife – PE, no Nordeste, e
desconstrói sem piedade os preconceitos nutridos por certos reacionários de que
nordestinos são vagabundos que só querem receber bolsa-família e votam no PT,
como se fossem todos assim e no Sudeste não houvesse esse tipo de gente. Está vendo
uma coincidência com a ideia das ciências sociais? Pois é. Os personagens são gente
de verdade, que trabalha para ter o que comer, se diverte, fode, usa drogas, se
preocupa com os filhos, briga…

Em uma das histórias (são quatro, que se interligam
ocasionalmente, similar aos filmes Crash, Babel e Pulp Fiction), a personagem
Fátima, mãe de dois filhos pequenos, não suporta o vizinho, Douglas, um
policial inescrupuloso, alcoólatra, que tem um cachorro bravo chamado Douglas, do
qual ele gosta mais do que de qualquer pessoa. Aliás, já que estou no embalo,
podíamos sepultar de uma vez por todas a ideia imbecil de que gostar de cachorro
ou de animais em geral é uma prova incontestável de que alguém é “do bem”, ou
de que gostar de bicho mais do que de gente é alguma espécie de virtude. Eu
tenho um cachorro e gosto muito dele, mas não espero ser beatificado por isso.
O sujeito inclusive chega a perder a esposa (outra cretina, mas não por isso)
que ele trata pior do que seu animal. O cachorro assusta as crianças, estragou
a festa de aniversário da menininha Mayara, e comeu várias das galinhas de
Fátima e seu marido.

Aliás, gente normal tem problema com vizinhos, ou os trata
com quase absoluta indiferença (meu caso) ou não os suporta, por serem
fofoqueiros, meterem-se na sua vida, e vigiarem o que você faz ou deixa de
fazer na sua casa. Um dos aspectos mais burros tanto do comunismo quanto do
anarco-capitalismo (boa e velha metáfora da ferradura) é essa vã esperança de
um mundo de vizinhos se amando e cooperando para o bem comum, ou de que o medo
do que os vizinhos vão pensar é suficiente para impedir que alguém faça coisas
erradas.

Acaba que Fátima mata o cachorro depois desse atacar um de
seus filhos, e depois do cretino Douglas matar seu marido a facadas. E o
filho-da-puta ainda coloca na casa de Fátima uma porção de drogas, para ela ser
presa por tráfico. Os jornais do dia seguinte anunciam que “assassina de
cachorros também era traficante”, o que as pessoas vão ler e julgar sem
conhecer nem metade da história.

A proibição das drogas causa infinitamente mais problemas
sociais do que as próprias drogas. Possuir, usar ou vender drogas absolutamente
não deveria ser crime, pois não há vítimas, isto é algo que deveria mudar para
ontem. Se pelo menos a maconha fosse legalizada, já ajudaria muito. Chega a ser
ilógico proibir maconha e manter o álcool legal, uma droga com potencial de
vício similar, mas que, segundo a ciência, é muito mais nociva para o corpo (procure
o estudo de David Nutt de novembro 2010, da revista Lancett, caso esteja cético
).
Eu mesmo estou permanentemente com uma quantidade de dextroanfetamina em meu
sangue, que foi recomendada por meu médico para tratar minhas dificuldades de
concentração e depressão. A diferença disto para a boa e velha bala ou ecstasy
das festas rave é basicamente a qualidade e a permissão. Quando a medicina e a
lei vão admitir que as pessoas usam drogas por diversão também e a sociedade
não é destruída por isso?

Não só a proibição das drogas é injusta, mas frequentemente
quem se dá mal por ela são pessoas mais indefesas da sociedade, como a
doméstica Fátima e a estudante Rose, de outra linha narrativa, que é presa com
drogas (que ela tinha somente para consumo) em uma festa na praia, em seu
aniversário de 18 anos, enquanto sua amiga Débora, que tinha uma quantidade de
drogas idêntica escondida no sutiã, não é revistada por ser branca. Não dá
para negar que exista racial profiling
na polícia.

Falando da polícia, eu absolutamente não sou contra a atividade
da polícia ou os policiais em geral, e nem acho a polícia fascista, inclusive
já precisei da sua ajuda. Mas não dá para negar que foi muito, muito escroto
revistar exclusivamente negros na festa, e, pior ainda, destruir a vida de uma
menina (que tinha passado em 4º lugar no vestibular) meramente por ser encontrada
com uma substância química, e isto sabemos que acontece na vida real. Aliás, o
crime de tráfico é um em que aparentemente a presunção de inocência é
defenestrada, porque você pode ser preso por tráfico apenas por possuir uma
quantidade de droga que o juiz ache grande (como foi o caso de Rose e Fátima),
sem precisar de uma única prova de que tenha de fato repassado aquilo alguma
vez. Você poder ser preso por tráfico inclusive por ter um único pé de maconha
em casa. Para ser enquadrado em “tráfico” não é preciso nem que haja lucro.
Você acha mesmo justo destruir a vida de uma pessoa colocando-a na cadeia por
isso? A série, como o nome sugere, nos convida a pensar no que é justo ou não,
uma deliciosa provocação.

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