Educação, filosofia, Humano, sociedade

Arte, Entretenimento e “Alienação”


Acho que todos nós já tivemos um professor comunista chato de galochas, daqueles que acham que toda e qualquer obra de arte que visa o entretenimento é errada de alguma maneira, e talvez nem mereça ser chamada de arte. “Novela?! Alienação, para imbecilizar o povo!”, “Esses Transformers e Batmans e Esquadrões Suicidas: pura propaganda imperialista estadunidense…” Aliás, quer uma dica para pegar um cinéfilo falso, poser? Pergunta o que ele acha do cinema americano. Da forma mais genérica possível, “cinema americano, você gosta?”. Se vier com papinho de que é tudo filme comercial, e arte comercial não é arte de verdade, que só filme argentino que passa em mostra de cinema no Memorial da América Latina é que é arte de verdade…. Nem dê trela pro sujeito. Ou ainda, se quiser embaraça-lo um pouco, lembre-o que O Poderoso Chefão é cinema americano também.

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filosofia, história, Política, Sem categoria, sociedade

Pelo Fim Do Financiamento Estatal ao Lazer E Cultura

Cabe deixar bem explícito aqui: Eu me considero de direita liberal, mais ou menos, é o rótulo que me descreve mais razoavelmente, como uma roupa justa. Não sou anarco-capitalista, nem me considero libertário. O lema dos anacaps como Dâniel Fraga e o sujeito do Ideias Radicais parece ser “abaixo a ditadura do Estado! Viva a ditadura do síndico do condomínio e do chefe!”. Não acho bom, e nem possível, na verdade, o fim do Estado, e nem acho que liberdade econômica signifique deixar as empresas fazerem o que bem quiserem com os funcionários.Mais detalhes em meu post sobre anarquia.

Mas em questão de tamanho de Estado, eu sou enfático em dizer: Quanto menos, melhor. Assim como o lema do Unix – “um programa deve fazer uma coisa só, e fazer bem” – acho que o Estado deve gastar apenas no estritamente necessário, apenas no que for de sua alçada. Talvez você já tenha passado um perrengue no SUS por receber tratamento inadequado, demorado, e falta de materiais, talvez você conheça alguém pobre porque não teve oportunidade de estudar numa escola decente. Mas quando foi a última vez que você viu alguém desesperado por falta de lazer e cultura?

Provavelmente nunca. Não há necessidade nenhuma do Estado colaborar com um centavo sequer com atividades deste tipo, que deveria permanecer 100% na esfera privada. Cultura não deveria receber auxílio do governo nem por financiamento direto, nem por financiamento indireto, via Lei Rouanet, que dá abonos fiscais às empresas que patrocinam produções como filmes e peças de teatro (diga-se de passagem, algumas de péssimo gosto). Nada disso precisa existir. Eu sei que é uma ideia radical (de verdade), mas e daí? Moderação nem sempre é uma virtude, e falta de coragem em tomar uma decisão difícil pode não ser cautela, mas apenas covardia. A abolição da escravatura também foi uma decisão radical (e no caso do Brasil, apesar de ter demorado, foi sem indenização aos ex-donos de escravos, mais radical ainda). Temer extinguiu o Minc e depois voltou atrás, porque foi covarde, não porque foi “comedido”.

Aqui quando falo de cultura, estou falando de cultura no geral, no sentido apenas de obras artísticas como filmes e peças teatrais, sem julgamento de valor sobre o quão elevado ou eruditas estas obras são, nem se são boas ou não. Eu sei que há diferença entre arte e cultura, mas não quero perder o foco, estas diferenças semânticas não são o importante aqui.

O fato é que cultura sempre existiu, é algo muito humano, cultura diverte e informa, por isto as pessoas vão atrás e sempre conseguem, de uma maneira ou de outra, e continuará a existir enquanto estivermos no planeta. Artistas que tenham algum valor não precisam de patrocínio do governo, porque recebem verba do público, não verba pública. Ninguém jamais precisou de dinheiro do Estado para compor músicas, dirigir filmes, ou escrever livros, ou se precisou, provavelmente nem faria falta para o cenário cultural. E nem para consumi-los. O povo se vira para achar diversão em geral e cultura, a cultura que eles querem, não o que os intelectuais julgam que é adequado para o povo, como uma mãe chata que não deixa o filho ver coisas violentas na TV.

Se tem, por exemplo, um show do Wesley Safadão em Campinas, o pessoal de Morungaba (interiorzão de SP) fica sabendo, junta uma grana, alugam uma van e vão ao show, ou se for muito caro, vão assistir algum outro artista de seu agrado que saia mais barato, não tem só Safadão. E pra quem curte mais um rock e metal (como eu) um ingresso pro Matanza não custa uma fortuna. Mesmo se não der para ir ao show, baixam na internet ou veem no YouTube, compram CD (nem que seja pirata)  e por aí vai. E cinema? As pessoas baixam na internet, compram DVD (sim, ainda) assinam Netflix, e, quando vão ao cinema, em geral vão ver filmes hollywoodianos, porque são mais divertidos e possuem um valor de entretenimento universal, e não custaram um centavo dos cofres públicos de país algum.

Nos EUA a indústria do cinema não é financiada pelo Estado, é tão privada quanto o Vale do Silício, e não apenas EUA é a meca do cinema mundial, onde são produzidos a maioria dos filmes que todos amam, mas também foi o lugar em que figuras tão escrachadas quanto John Waters (Pink Flamingos, Hairspray) e Harmony Korine (Kids, Gummo) , reis do cinema alternativo, conseguiram fazer seu trabalho, com filmes que, sendo muito generoso, nem todos amam. Se eles puderam, por que o diretor de Aquarius não pode? O que acontece com o cinema brasileiro, na maioria das vezes, é que o governo paga para intelectuais fazerem filmes para outros intelectuais apreciarem. O povo quer mesmo é ver Esquadrão Suicida.

Uma das formas de entretenimento mais acessíveis no Brasil é a teledramaturgia, acessível à toda população que tem TV (isto é, quase toda população do país) e paga pelos patrocinadores da Globo. E o Netflix, que oferece um catálogo imenso de filmes e séries com preços começando em R$20 por mês? Seria melhor ainda se a internet não dependesse deste lixo que é o oligopólio das telecons. A iniciativa privada faz infinitamente mais para levar cultura ao povo do que o governo, e o governo na verdade não deveria fazer nada além de não atrapalhar, neste quesito.

E não é preciso ser especialista em economia para ver o problema: Dinheiro é limitado, o que é gasto com uma inutilidade poderia ser gasto com algo útil. É conta de mais e menos, aritmética básica, não tem muito o que explicar. O dinheiro que vai pagar (ou que deixou de ser recebido) a produção de Aquarius, ou a biografia da Cláudia Leite (quem precisa de meio milhão de reais pra escrever a biografia de uma cantora? Depois ela acabou arregando, menos mal) poderia estar sendo usado para o posto de saúde comprar gaze, para a escola pagar melhor um professor. Isto é o tipo de serviço que, se dependesse apenas da iniciativa privada, muita gente ficaria sem, e sentiriam muita falta. Sem falar é claro do problema da segurança pública. Falta dinheiro para a polícia, para melhores equipamentos, e treinamento, e também para pagar os policiais. Mas ninguém está sofrendo por falta de show do Chico Buarque.

O fato é que o Estado patrocina cultura porque é interessante para o próprio Estado, é uma ferramenta útil para os poderosos manterem “o gado” pacífico, não para benefício da população em si, isto desde os tempos da Roma Antiga, com a política do pão e circo. Por mais que hoje fomento à cultura seja considerada uma bandeira de esquerda, a ideia no Brasil começou literalmente como uma ideia de ditador, começou com Getúlio Vargas. Veja este trecho da constituição de 1934:

Art. 148 Cabe à União, aos Estados e aos Municípios favorecer e animar o desenvolvimento das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral, proteger os objetos de interesse histórico e o patrimônio artístico do País, bem como prestar assistência ao trabalhador intelectual.(BRASIL, 1934)

E a lei Rouanet? Filhote do sociopata chamado Fernando Collor de Mello.

Não é preciso dizer que nem nos anos de 30 de Getúlio – quando os negros praticavam sua capoeira livremente nas praças, e as rodas de samba se reuniam nos bares – nem nos anos 90 de Collor – e dos Mamonas Assassinas –  existiam artistas (artistas bons, isto é) precisando de dinheiro público, nem gente precisando de dinheiro para consumir cultura. O que existia era um Estado sedento por controle, querendo controlar as mentes das pessoas determinando o que é bom para elas ouvirem e verem. Difícil uma obra cultural paga com dinheiro público ser contra os valores do governo vigente. Não se morde a mão que alimenta.

Fonte:

https://jus.com.br/artigos/25092/aspectos-historicos-do-mecenato-cultural-incentivado

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ética, filosofia

Arte comercial: Eu sou a favor

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Antes de mais nada, um aviso de como pegar um falso cinéfilo: Pergunte a ele o que ele pensa sobre arte que é feita visando o lucro. Se o sujeito desconsiderar completamente esta forma de arte, e disser que filmes iranianos (ou brasileiros, ou qualquer nicho) é que são arte de verdade, enquanto filmes “hollywoodianos” são só comércio, por favor, não dê bola para o sujeito, é só um pós-modernista esnobe. A maioria das críticas que se ouve sobre englobar games ou séries de TV no conceito de arte também são neste sentido, não esclarecem nada sobre o conceito de arte, é apenas a velha ladainha anticapitalista dos pós-modernistas.

Não importa o que você, ou eu, ou a academia pensemos sobre o real significado de arte, ou se ela deve agradar ou não, aliás, eu duvido que você encontre duas pessoas com a mesma definição. O fato é que se a sua definição de arte descartar tudo que foi feito com fins lucrativos, o problema não é da indústria, é seu. Sim, porque você estaria desprezando até mesmo clássicos de todos os tempos como Laranja Mecânica, O Poderoso Chefão, e tantos outros.

Eu não penso que arte tenha que ser algo 100% independente, que para ser arte de verdade o artista tenha que estar se lixando para o público, e fazer algo tão incompreensível que só alguém com pós-doutorado possa compreender. Parece que, para certas pessoas, arte só pode dar dinheiro sem querer.

Meu caro, pegue uma bela produção de Hollywood, e ela irá tocar os seus sentimentos de diversas maneiras, você pode chorar, você pode ficar com raiva, medo, e se não lhe faltar o senso de empatia, pode sentir-se mal pelos personagens em suas dificuldade. Hollywood (e outros locais em que se produz cinema) está cheia de artistas talentosos que sabem contar uma boa história, rica em detalhes, intrincada, mas não incompreensível. A maioria dos filmes que vêm logo à cabeça quando se pensa em cinema comercial e arte comercial em geral, como Saga Crepúsculo, filmes da DC e Marvel e Transformes, são feitos para o público adolescente, que em média querem só besteirol mesmo. Felizmente o público do cinema não é apenas de adolescentes.

Mas não existe um único tipo de pessoa que vai ao cinema, que compra livros, ou que ouve música, e também não existe um só tipo de pessoa que compra games, de forma que o artista pode ser autêntico sem necessariamente agradar a todos. Pegue um filme recente como A Bruxa, que é bastante “parado” e veja o quão pouco em comum ele tem com outro sucesso recente, Deadpool além do fato de que alguém teve que convencer um estúdio a comprar a ideia, e conseguiu. Há muita variedade no cinema comercial. Não sei como um ramo de produção artística que permite expressão de tantas formas possa ser falso. Nos games também.  Esta mídia – que tem conseguido abarcar um público muito maior do que nos anos 90 – também está experimentando mais, vide o sucesso de jogos esquisitos no Steam e PSN, como Goat Simulator, sem falar dos mais jogos mais cabeça como a série Metal Gear Solid, com suas densas narrativas, e Silent Hill, cheios de simbologias.

Acho que o sucesso destas obras de arte é serem apreciáveis pelo grande público, mas ao mesmo tempo oferecerem algo mais para quem gosta de usar a cabeça. Você pode até ter saído do cinema após assistir Inception (A Origem) ou Interstelar sem entender muita coisa, mas você com certeza saiu com a sensação de ter visto um “filmão”. E como negar a genialidade dos filmes de Tarantino? Que são filmes relativamente fáceis. Ser incognoscível não é sinônimo de ser inteligente, ou mesmo de ser profundo. Os pós-modernos insistem em tratar o cinema comercial e arte comercial em geral como se fosse tudo a mesma coisa, que é mais ou menos como dizer que todo restaurante é fast-food.

Pior ainda é o que estes sujeitos, com os quais eu não simpatizo nem um pouco, sugerem como substituto para a arte comercial: A arte “engajada”, ou seja, o que os intelectuais politicamente corretos, em sua arrogância, acham que o público deveria assistir para ser educado, porque ele é burro demais para escolher o que é bom para si próprio, está apenas sendo enganado para pensar que quer aquilo, como ensinava Foulcault (mais ou menos). Quando você ouve falar de noções de “cidadania” em novelas da Globo (porque as pessoas são tão estúpidas que vão fazer tudo o que aparece na novela, alguns pensam), aí você vê como estes sujeitinho são preconceituosos, ainda que publicamente abominem o preconceito. Isso sim é uma arte escrava, a “arte politicamente correta cidadã” feita para realizar um plano de engenharia social.

Uma grande parte da arte feita com recursos públicos, incluindo aí peças de teatro e shows, não são feitas para o agrado do público, são feitas por intelectualoides pós-modernistas em suas torres de marfim, que passam o dia cogitando o que a massa deveria assistir para ser mais “consciente”, ou seja, para seguir sua agenda ideológica. Daí vemos o excesso de filmes e peças para retratar a miséria do povo, documentários sobre a cultura do grafite e etc. Sem falar da “sacanagem em nome da arte”: Apenas busque no Google pela peça “Macaquinhos” e você entenderá porque as pessoas ficaram nervosas ao saber que o dinheiro dos seus impostos estava financiando aquilo.

Falando em arte subversiva, ela sempre existiu e foi perfeitamente possível sem qualquer apoio governamental, como foi o caso dos romances do Marquês de Sade, ou, para usar um exemplo mais moderno, os filmes de John Waters como Pink Flamingos. Basta que não esteja sendo financiado publicamente que ninguém tem nada a ver com isso, problema é de quem compra o ingresso. Em lugar nenhum é preciso que o governo “fomente” a arte, ou ajude o público a consumir arte. Quando as pessoas querem, elas conseguem.

Seria sim muito bom se mais pessoas pudessem apreciar conteúdo mais inteligente, o que pode acontecer com a melhoria das condições de educação, algo que eu não sei se vai acontecer. Até lá, eu só posso ficar feliz por maravilhas como De Olhos Bem Fechados e Taxi Driver poderem ter sido comercialmente viáveis.

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