Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.2 Ferramentas de Navegação Padrão: Linguagem

 

4.002 O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode exprimir todo sentido, sem fazer ideia de como e do que cada palavra significa – como também falamos sem saber como se produzem os sons particulares. Assim se fala sem saber como os sons singulares são produzidos.

A linguagem corrente é parte do organismo humano, e não é menos complicada do que ele.

É humanamente impossível extrair dela, de modo imediato, a lógica da linguagem.

A linguagem é um traje que disfarça o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que não se pode inferir, da forma exterior do traje, a forma do pensamento trajado; isso porque a forma exterior do traje foi constituída segundo fins inteiramente diferentes de tornar reconhecível a forma do corpo.

Os acordos tácitos que permitem o entendimento da linguagem corrente são enormemente complicados

4.014 O disco gramofônico, a ideia musical, a escrita musical, as ondas sonoras, todos mantêm entre si a mesma relação interna afiguradora que existe entre a linguagem e o mundo.

A construção lógica é comum a todos.

Ludwig Wittgenstein: Tractatus Logico-Philosophicus

Nada tão humano quanto a linguagem. Todos os povos conhecidos, por mais primitivos que sejam, têm linguagem, não necessariamente escrita, mas todo os povos falam. Todo humano saudável possui a capacidade do falar, e só os humanos a possuem. Não que o homem sempre tenha tido a linguagem, que não tenha sido homem antes da linguagem, nada disso: Esta capacidade mental, com circuitos cerebrais dedicados, é uma novidade bem recente em termos evolutivos, e sua forma escrita, recentíssima. Mas desde então este novo poder, o poder da língua, absolutamente idiossincrático, confere ao homem um lugar especial no reino animal. Só os homens pensam e falam em símbolos, e de símbolos fazemos línguas. Como melhor definir em uma frase o que faz do homem moderno diferente dos outros animais? Animal racional? Não serve bem. Outros animais têm uma racionalidade mais limitada, mas têm, os outros primatas também podem ser adestrados para tarefas racionais, assim como os famosos pombos de Skinner, e os ratos que todo aluno de psicologia em algum momento de seu curso precisa ensinar a passar por um labirinto e lembrar o caminho, tarefa impossível sem racionalidade alguma. E que tal dizer que é o único animal com cultura? O único com história? Nunca ouvimos falar de um movimento impressionista símio, ou de uma reforma política das abelhas, cujas colmeias são monárquicas desde sempre, sem sinais de revoltas burguesas até o momento. Mas há algo mais primordial: Temos cultura e temos história porque temos linguagem. Nós falamos, moldamos nossos pensamentos em palavras e expressamos aos demais com palavras, que vocalizamos ou escrevemos.

Papagaios e outros pássaros que falam, como araras e cacatuas até mesmo corvos, procure no YouTube apenas repetem sons, como um gravador. Reproduzem, mas não sabem o que significam, nem sabem interpretá-los para aprender as palavras e a sintaxe e aprender alguma coisa. E nossos amigos de 4 patas? O cachorrinho e o gatinho podem expressar seus estados mentais, de diversas maneiras, por exemplo, ele pode expressar seu desejo de comer pegando sua tigela de comida com a boca e levando até você, e fitá-lo com aqueles olhinhos irresistíveis. O que o felpudo não pode fazer é relatar seu estado mental, como colocou David Rosenthal, citado por Dennett1. Você pode não só relatar seus próprios estados mentais, como pode relatar o de outros seres. Só se faz relatos de forma verbal. Você pode expressar seu amor por uma pessoa abraçando-a, beijando-a, mas só pode relatar o que sente para seu crush por palavras, gravando seus nomes na casca de uma árvore com um estilete, mandando uma mensagem no WhatsApp bêbado às 3h da manhã, pilotando um avião e escrevendo a declaração no céu com a fumaça, relatos são sempre verbais. Ora, mas faz diferença? Toda. O que significam palavras, símbolos? O que eles têm de especial e por que só humanos possuem esta faculdade, o que há de diferente em seus cérebros que possibilita tal forma de comunicação? E principalmente, o qualia tem algo a ver com isso?

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Qualia 1: Mente e Corpo, qual é a dificuldade?

 

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O post de hoje é tão especial que estou o ilustrando com uma foto minha de verdade, só desta vez.

“Os anos 90 são chamados de a década do cérebro. Mas nós provavelmente nunca teremos uma década do pâncreas”, escreveu Steven Pinker em Como a Mente Funciona. Mas por que não? O pâncreas é um órgão complicadíssimo, como todos os demais do corpo humano, uma peça central do sistema endócrino, desempenha diversos papéis no metabolismo. E muitas pesquisas são feitas sobre ele, afinal, doenças do pâncreas, tais como o diabetes, provocam o sofrimento de milhões de pessoas. Steve Jobs morreu de um câncer no pâncreas. E se conseguissem criar um pâncreas artificial? Seria formidável. Ainda assim, não parece que o órgão seja interessante o bastante para suas pesquisas cativarem o público geral, muito menos marcar uma década, como foi o cérebro e sua ciência nos anos 90, com seus exames de neuroimagem avançadíssimos mostrando o que há de disfuncional nos cérebros dos esquizofrênicos e dos psicopatas, e sugerindo como poderíamos estimular o cérebro dos bebês para torna-los mais inteligentes e criativos no futuro (e talvez evitar que se tornem esquizofrênicos ou psicopatas). Nem o fígado, o estômago, ou o baço parecem ter o mesmo “carisma” e o mesmo apelo midiático do cérebro…

Afinal, eles não pensam.

Nosso senso comum parece tratar o cérebro como algo especial porque enquanto todos os outros órgãos, nossos e dos outros animais, desempenham funções apenas, o cérebro abriga ou faz ponte com a consciência, e seu funcionamento, atrelado à consciência, é especial, praticamente sagrado, intimamente ligado à identidade pessoal. Consciência aqui não é no sentido de “bússola moral” ou senso de certo e errado, como em “esses políticos corruptos não têm consciência”.  Consciência é a experiência interior, subjetiva, o “filminho na sua cabeça”, aquilo que se perde temporariamente ao dormir ou desmaiar. Consciência não é qualia. Mas consciência sem qualia não é consciência.

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