ceticismo, Educação, filosofia, Humano, sociedade

Haverá esperanças para os seres racionais deste mundo? Quando eu vejo o meio acadêmico, que deveria ser um templo da razão, da investigação e debate céticos e imparciais, tornando-se um antro de (não) pensamento anticientífico, politicagem, pós-modernismo e marxismo, onde há pouco espaço para divergência e tolerância, tão pouco abertura ao debate impessoal, eu temo pelo nosso futuro. Talvez estejamos condenados a voltar às cavernas.

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ceticismo, filosofia, Humano, sociedade

http://www.bulevoador.com.br/2016/03/a-ciencia-nao-e-sua-inimiga/

http://www.bulevoador.com.br/2016/03/a-ciencia-nao-e-sua-inimiga-parte-2/

Original: https://newrepublic.com/article/114127/science-not-enemy-humanities

Texto brilhante, muito esclarecedor. Agora podemos parar com essa rixa besta de humanas x exatas de uma vez por todas? Academia não é gincana da Xuxa nem Olimpíadas do Faustão.

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ceticismo, farsas, filosofia, história, Humano, política, sociedade

Pós-Verdade é uma Nova Mentira

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Ou será tão nova? A palavra composta certamente é, junto do termo “fatos alternativos” empregado pelo departamento de marketing de Trump para tentar justificar sua visão das coisas, por exemplo, a posse de Trump, que segundo estatísticas confiáveis, teve muito pouco público, mas para Trump, teve muito, e isto é um fato alternativo, não uma mentira. Mas o meme para mim é velho, com eufemismo novo.

Primeiramente, gostaria de deixar claro que escrevo este post, e todos os demais, partindo de uma premissa que julgo razoável, necessária, e auto evidente:

“Existem fatos que todas ou quase todas as pessoas mentalmente sãs e inteligentes concordam, quando julgando de maneira fria, impessoal e desinteressada. Estes fatos são verdadeiros, são verdades objetivas, e apesar de não ser fácil, não é impossível obter estas verdades, julgando de maneira fria, impessoal e desinteressada, no interesse apenas da verdade.”

Para mim isto é uma obviedade. Se você não concorda, então por gentileza saia do meu blog e volte a entulhar sua mente com Foulcault, Baudrillard e seus asseclas.

Os eventos políticos mais importantes de 2016, o Brexit e a eleição de Trump, vistos como exemplos tragicamente explícitos da irracionalidade das massas, fizeram muitos se perguntarem se acabou a era da objetividade e da razão, se agora já não entramos numa era em que cada um tem sua verdade particular condizente ao próprio gosto, e o mercado, sempre atento aos caprichos de seus clientes, vende fatos que a clientela quer, como sintetiza William Davies, um colunista do The New York Times, falando sobre os institutos de pesquisas, sempre apresentando as estatísticas que o cliente quer. William Davies deixa claro que tendência já começou há muito tempo, apesar de ter se intensificado tremendamente com a anarquia das redes sociais. O “vendedor de estatísticas” mais infame do Brasil provavelmente é o Datafolha, também conhecido como Datafalha, por suas estimativas estapafúrdias sobre números de participantes em manifestações. O número da PM é sempre muito diferente. Então, em quem acreditar? Se eu tiver um relógio em cada pulso, cada um marcando um horário diferente, eu jamais saberei dizer que horas são.

A enxurrada de informações que escoam diariamente das redes sociais (e escoam sem muito tratamento de esgoto), a montanha cada vez mais crescente de informações com pouco ou nenhum embasamento, e a alta seletividade (mas não do tipo bom, cético) das pessoas, que cada vez mais se fecham em bolhas de opiniões similares às próprias, estariam nos levando rapidamente a um mundo sem verdades e sem mentiras, somente com “fatos” de valor puramente subjetivo, vendidos à granel? Como naquela citação atribuída a Nietzsche, “não existem fatos, somente interpretações”.  Terá o jogo Metal Gear Solid 2 (de 2001, quando redes sociais ainda eram praticamente irrelevantes) sido realmente profético ao prever que a ampla oferta de informação de má qualidade é uma conspiração para fazer o mundo cada vez mais burro?

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Pós-Modernismo: Para quem ainda não entendeu

Meus colegas do Universo Racionalista fizeram um novo post excelente alertando sobre este movimento “filosófico” embusteiro:

http://www.universoracionalista.org/a-farsa-intelectual-dos-pos-modernos/

Só tenho a lhes parabenizar pelo ótimo serviço. Vou trazer mais uma vez uma de minhas citações favoritas de filme, do Lucy: “Conhecimento não leva ao caos, ignorância leva.” Os charlatões pós-modernos aproveitam-se de da ignorância generalizada sobre ciência para tecer suas teorias obscurantistas que só causam ainda mais confusão. Aproveitar-se da ignorância alheia para obter vantagem (são todos contra o capitalismo, mas lucram horrores com seus livros e palestras) é a definição legal de estelionato, e em ciências, chama-se isso de má-fé ou desonestidade intelectual.

Recomendadíssimo também:

https://www.universoracionalista.org/a-quem-incomoda-o-atual-criticismo-ao-pos-modernismo-simples-a-quem-tem-medo-da-ciencia-da-razao-e-do-cientificismo/

https://www.universoracionalista.org/anticiencia-do-seculo-xv-aos-pos-modernos/

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Feminismo – Três Lados da Moeda

Por acaso encontrei esse debate no YouTube, e gostaria de fazer algumas observações sobre ele. Recomendo assisti-lo todo antes de ler o post. O comecinho do vídeo não tem som mesmo, os primeiros segundos. E seria bom se no resto do vídeo o áudio da loira continuasse mudo.

As duas participantes, Nádia, a morena à esquerda, e Taís, a loira, à direita, têm suas respectivas páginas no Facebook; a de Nádia é a Moça, não sou obrigada a ser feminista e a página da Taís é Sem Censuras por Favor (que eu me recuso a linkar aqui). A Jovem Pan dificilmente encontraria figuras mais antagônicas para debater o assunto, e nessa meia hora de debate podemos ver não apenas uma mera diferença de opinião, mas uma diferença de maturidade intelectual entre as participantes: Nádia fala sempre de forma clara, pragmática, reconhecendo problemas sociais de forma realista e imparcial. Ela não aparenta em seu discurso nenhuma neura nem fanatismo ideológico de qualquer tipo. Já a Taís…. Que dó. Tão bonita, mas defeca tanto pela boca. Só papagaiou discursinhos prontos politicamente corretos do começo ao fim.

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Educação, filosofia

Reducionismo Bom e Ruim

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De todas as ideias que já absorvi nas milhares de páginas que já li do cientista cognitivo Steven Pinker, meu ídolo pessoal, uma das mais valiosas, talvez a mais valiosa, é a explicação de que existem dois tipos de reducionismo: Bom e ruim. Em um único capítulo de seu livro Tábula Rasa, ele põe fim, com as frases mais claras possíveis, à uma das maiores confusões epistemológicas do mundo, no meio acadêmico e fora dele.

A ideia do conhecimento em camadas, e o esclarecimento de quais tipos de reducionismo são válidos e quais não são, caso fosse disseminada adequadamente, poderia de uma vez por todas dar fim à esta rixa idiota que existe entre humanas e exatas, que não deveria nunca passar do colegial, e seria melhor ainda se nem começasse. Mas ainda é frequente ver até mesmo pós-graduados em ciências exatas achando que humanas é um vale tudo em que nada é verdade nem mentira, e “o povo de humanas” é um bando de vagabundos esquerdistas maconheiros que vivem da venda de miçangas ou dos pais, e também se ouve muito pessoas de humanas descrevendo, explícita ou implicitamente, os de exatas como sendo psicopatas frios e calculistas, que escolheram exatas porque são incapazes de compreender sentimentos e emoções, e provavelmente nem os têm. Sério, vamos acabar com esta merda? Universidade não é uma gincana do Show da Xuxa ou do Gugu.

Podemos dizer que o conhecimento humano é dividido em camadas de complexidade, empilhadas. Reducionismo é quando alguém tenta explicar na camada x-1 um fenômeno que normalmente é visto pela ótica da camada x. Um dos exemplos mais claros é quando se tenta explicar um fenômeno da psicologia por fatos da biologia. A biologia está um nível abaixo da psicologia, pois ela detalha como funcionam os seres vivos como um todo, enquanto que a psicologia descreve o comportamento e o universo subjetivo interior de uma espécie de ser vivo em especial. Este reducionismo é dos que mais causam tabu, mas não precisaria: A biologia não torna inútil a psicologia por ser anterior à ela, nem é mais verdadeira. Da mesma forma que não faz estas coisas com a medicina.

Reducionismo ruim é quando pesquisadores mau-caráter querem passar esta ideia (esta nova descoberta da neuroanatomia fará você jogar todos os livros de psicologia no lixo!). Também já vi muito este tipo de argumento por parte de niilistas radicais, que querem passar a ideia de que sentimentos humanos são farsas porque podem ser explicados em termos biológicos. “O seu amor, seus sentimentos de carinho? É apenas o seu cérebro se enchendo de oxitocina! Uma farsa, amor não existe, é só oxitocina!”. Não preciso nem dizer o quanto esta explicação (juro que não estou criando espantalhos, realmente existe esse tipo de idiota falando publicamente, mas eu não quero dar publicidade a nenhum deles) completamente idiota, além de se basear em conhecimentos rasos sobre o assunto sobre o qual o sujeito finge para leitor ser um expert, também não explica por que deveríamos parar no nível da biologia, simplesmente a biologia estar no limiar de exatas e não exatas não vale; poderia eu responder ao niilista “a oxitocina é uma farsa! O que existe de verdade é C43H66N12O12S2 !  Árvores não existem, a dura realidade é que toda a floresta é madeira e folhas!

Os níveis superiores de abstração não são mais falsos ou menos rigorosos, eles são necessários para que possamos pensar sobre certos assuntos. Parece ser o novo dogma do MEC decretar que compartimentalização do conhecimento é algo nefasto que deve ser abolido, ou no mínimos devemos usar os rótulos mais genéricos possíveis (parte da agenda de decretar todos os rótulos como sendo coisa feia e ultrapassada), daí veio esta breguice de “ciências da natureza e suas tecnologias” e afins. Compartimentos – ou melhor, camadas – podem não ser linhas precisas, traçadas à laser (por exemplo, existe uma grande intersecção entre química e física) mas nem por isto são inúteis, simplesmente seria impossível pensar a fundo sobre certas coisas sem ignorar os pormenores.

Pense no absurdo: Deveríamos exigir que um dentista se formasse em medicina? Ou que o médico fosse também especialistas em todos os organismos vivos? E claro, pra que parar na biologia? Tente explicar a 2ª Guerra Mundial em termos de quarks e planks. Se for casado e estiver tendo problemas conjugais, vá ver um físico quântico ao invés de um terapeuta de casais. Aliás, a própria física é mais ou menos dividida em duas, a física Newtoniana, inventada no século XVII e válida até hoje, e a física subatômica, que explica fenômenos como eletricidade, luz e afins. Um físico provavelmente acharia esta minha divisão simplória e até grosseira, e me daria inúmeras outras classificações (óptica, termometria, cinemática, elétrica…) mas nenhuma delas anula a outra. A odontologia, por exemplo, é considerada uma disciplina separada da ciência que estuda o resto do corpo humano, talvez por razões históricas, mas mesmo assim ela funciona perfeitamente bem, e isto não é um fato desprezível.

O que não pode, é claro, é uma camada entrar em contradição com a anterior, a noção de dente de um dentista invalidar o que se sabe a respeito do dente pela medicina. Um dos dois tem que estar errado, e normalmente é a camada de cima. O reducionismo bom é o que vem desfazer estas confusões. Por exemplo, quando as técnicas de imageamento do cérebro por PET scan, e ressonância magnética funcional, exibiram em tempo real quais áreas do cérebro tinham maior atividade, o cérebro (e por consequência, a mente), deixou de ser uma caixa-preta, como consideravam os behavioristas radicais, e também vimos que ele é muito mais complexo do que a divisão em Id, Ego e Superego de Freud e da psicanálise. Aliás, uma grande parte das teorias freudianas podem ser desmentidas simplesmente observando o cotidiano, simplesmente vivendo: Quase ninguém sente tesão pela mãe nem quer matar o pai, você que está me lendo quase com certeza não, e não porque o seu superego reprimiu este desejo, mas porque ele não existe mesmo, a evolução de nossa espécie não favoreceu o incesto nem o parricídio, e por consequência eles são raros.

Mas psicologia não se resume à psicanálise (e, para ser justo, psicanálise não se resume à Freud), e portanto os neurocientistas não querem aposentar os psicólogos, e os que dizem que querem estão agindo de má fé, fazendo um reducionismo ruim. Ainda precisamos de pessoas que se dediquem exclusivamente à compreensão da mente humana, e é bom que elas se embasem em fatos rígidos.

Para quem é programador, mesmo principiante, o conceito não é novo: Programação é dividida em camadas. Além das chamadas linguagens de baixo nível – Assembly, essencialmente – e alto nível – C++, C#, Java, Python –  uma aplicação também é dividida em camadas – nível de interface gráfica e de aplicação, no mínimo, dentre várias outras disponíveis – e o próprio computador é divididas em camadas. Abra um livro texto de Andrew Tanenbaum ou outro cientista da computação, e verá que as camadas do computador são muito mais numerosas que duas, software e hardware. O sistema operacional, por exemplo, é uma das camadas intermediárias, apesar de ser software. Pense em uma boneca matroska. Mas nenhuma camada é mais verdadeira ou melhor que a de baixo. Nenhum dos softwares que usamos hoje em dia e facilitam enormemente nossa vida existiria se os programadores precisassem programar em código binário, e os usuários só pudessem usar programa em interface de comandos de texto estilo DOS.

Grande parte do desprezo que as pessoas têm sobre humanas é por acharem que porque uma ciência não é exata ela é um vale tudo em que não existe certo ou errado, é tudo relativo. Um preconceito mentiroso: Uma ciência pode ser rigorosa sem ser exata, e este é o caso da filosofia, da psicologia, da história e da sociologia. Para usar apenas uma ciência humana como exemplo, existem convenções de historiadores, e nestes eventos eles são capazes de se comunicar entre si perfeitamente, mesmo advindos de instituições diferentes e mesmo de países diferentes, falam nos mesmos termos contanto que falem a mesma língua (normalmente o inglês). Portanto não, em humanas não é tudo relativo. Não que tudo em humanas seja válido…

Grande parte do motivo das pessoas acharem que ciências humanas é Casa da Mãe Joana é a corrupção do meio acadêmico pela doutrina do pós-modernismo, de charlatões como Foulcault e Baudrillard, doutrina baseada em grande parte nos livros de ficção do escritor esquizofrênico Philip K. Dick. Que são excelentes livros, que originaram filmes fantásticos como Blade Runner e Vingador do Futuro, o problema foram os idiotas fazerem uma filosofia “pra valer” com base neles, que nega o próprio conceito de verdadeiro e falso, certo e errado. Por isso o que vem a cabeça de muita gente, ao ouvir ciências humanas, são os intelectuais (de merda) que aparecem na televisão defendendo criminosos como vítima da sociedade.

Se acha que estou inventando espantalhos, ou generalizando demais, experimente mencionar a um rousseauniano como todos os achados da arqueologia e a teoria da evolução disprovam tudo que Rousseau falou (o homem em estado de natureza ao qual ele se refere nunca existiu, e a vida em estado natural é um inferno, não uma utopia), para ver como ele trata este “pequeno” detalhe como insignificante, e você um ingênuo por achar que isto interfere na “elegância” das ideias de Rousseau. Defender uma ideologia baseada em fatos não verídicos com base em elegância é como insistir em vender passagens para voos em um modelo de avião que sempre cai e acaba em um desastre como o do Chapecoense em todos os voos, ressaltando, em sua defesa, o fato das poltronas serem muito confortáveis. E não se engane, os rousseaunianos não se interessam em Rousseau e ensinam sobre eles apenas para contextualização histórica. E, no fundo, os cursos de filosofia do Brasil estão mais para cursos de história da filosofia.

Mas atenção, os pós-modernistas (e seus asseclas) nunca admitem ser pós-modernistas. Igual aos hipsters. Só que ciências humanas não se resumem apenas ao pós-modernismo, podermos perfeitamente mandar esta porcaria para sua merecida lata do lixo (de preferência junto do marxismo) e as ciências humanas só melhorariam e ganhariam mais respeito com isto.

Update: Agora mesmo, assim que acabei de postar, fiz um reducionismo. Não conseguia escrever nada depois da fórmula da oxitocina, porque ficava tudo em letras pequenas, como 2 no final da fórmula, até o ponto de exclamação ficou pequeno. O WordPress oferece duas interfaces para o usuário: Visual (que lembra um editor de texto como o Word) e HTML, que mostra as tags “feias” que informam ao navegador como exibir as palavras. Tive que ir à interface HTML para ele parar de deixar tudo pequeno depois da fórmula da oxitocina, fechei uma tag, a tag < sub >. Isto não significa que obtive uma grande revelação, que a interface visual que eu estava usando antes é uma grande farsa, uma interface é a pílula azul e a outra a vermelha, e nem que daqui em diante usarei apenas a interface HTML, ou que meus textos seriam melhores se fizesse isto.

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Negação da ciência MATA

“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)

O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas
humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.

No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça
à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a
falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil,
uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma
outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à
saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da
ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento
científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as
áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da
Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a
aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto
firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.

Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até
fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e
se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam
este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou
não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane,
quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas,
mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio
possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil
o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O
serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que
algumas pessoas preferem ficar com nada.

…Mas eu não quero me entupir de remédios…

 Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma
espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em
pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos
avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem
que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da
falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se
remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou
tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e
cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala
a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem
prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer
tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica
ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de
“macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo
qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo.
Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais
grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios
psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da
consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.

Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade
moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para
muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E
eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam
nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.

Existem  exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que
funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de
medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.

“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”

 

E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou
que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só
para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acupunturistas
profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os
tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos
duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.

E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para
prometer uma suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais
conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as
pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica.
Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.

Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado
não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este
velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom
senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que
realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da
pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.

Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita
coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de
uma espécie de lobotomia.

O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os
tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um
tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o
tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho
do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros).
Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim,
tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias
alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a
ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os
idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.

O movimento anti vacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo
contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o
fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas.
Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois
do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua,
dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que
aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o
movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz
começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e
se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu
extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer
qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo
tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.

O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma
desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente
da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na
internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do
tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.

“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”

Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias
erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que
está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são
importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição,
que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre.
Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso
científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e
o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na
religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está
errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo,
mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a
diferença?


“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”

Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas
teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo
é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada
é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos
e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas
vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão
grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer
língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa
frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar
juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem
mentes parecidas.

Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a
sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências
humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste
confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em
questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para
quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já
que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão
dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos
maus.

A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam
nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua
redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de
dinheiro também já ceifou muitas vidas.

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