filosofia

Tecnofobia

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Detesto profundamente tecnofobia e tecnofóbicos. Tecnologia é fantástica, em especial aquela que é prática, barata e e eficiente: Você gasta menos tempo com o que não é importante e dedica mais tempo ao que é importante, seja para lazer ou produtividade. Se nos anos 90, década da minha infância, alguém dissesse que no futuro seria possível fazer videochamadas, até mesmo na rua, com um aparelho portátil, a lá Os Jetsons, o prognóstico logo seria ridicularizado como um sonho fantasioso, no máximo um luxo para milionários, pensariam. Surpresa: Hoje isto acontece, e está acessível a grande parte da população; se não na rua – devido às velocidades altas e preços baixos do 4g – no wi-fi não é difícil. Mas parece que todo mundo vê isto como totalmente supérfluo. Que triste.

Ok, eu sou obrigado a admitir que nem tudo que é “tecnológico” é bom ou útil, e que videochamadas não são imprescindíveis no cotidiano, apesar de serem legais. Mas por que esta fixação com papel?! Voltando aos anos 90, se dissessem ao Anomalouzinho que no futuro ele poderia usar notebook para fazer anotações de aula, ele acharia isto formidável e acreditaria, mas não acreditaria se dissessem que ele seria único da sala a fazer anotações num notebook não por ser o único que tem, mas porque os outros preferem papel. Adivinha só…

Atualmente eu trabalho de dia e faço um curso de história à noite. A maioria dos meus colegas têm notebook. Todos menos eu preferem fazer seus garranchos em calhamaços de papel espiralados a fazer anotações ligeiras num editor de textos, salvas na nuvem para que fiquem logo disponíveis para serem consultadas no celular ou no computador de casa. E o que dizer de agendas de papel, estes fósseis de uma era pré- smart phone, que já deveriam ter sido abolidas. E quase todos os meus colegas são bem mais jovens que eu. “Esta geração mais nova já nasce conectada com o mundo virtual…” meu pau de óculos. Até gerenciar uma pasta compartilhada para arquivos de aula é complicado demais. Sabem o mais superficial possível, e possuem uma adoração por soluções arcaicas, sequer pensam na possibilidade de usar a tecnologia que já têm para fazer as coisas de uma forma mais moderna, limpa e rápida; não dão chance ao novo por puro tradicionalismo e preguiça mental. E eu que sou velho.

Mas talvez você seja moderno também: Prefere pedir comida no iFood que perder alguns minutos no telefone conversando com um atendente entediado (e meio surdo), prefere acompanhar notícias na internet do que se sentar na frente da TV, que aliás serve para jogar e assistir séries por streaming, não para assistir canais de TV abertos ou à cabo. E os eBooks, que maravilha! Ler confortavelmente um livro de 500 páginas na cama com as luzes desligadas, fazer grifos e anotações sem sujeira e poder acessá-las onde quiser, comprar livros pelo mesmo preço dos de papel, que não ocupam espaço na casa nem pesam na mochila, sem ter que pegar o carro e ir até o shopping e esperar na fila da livraria. Muito bacana, não? Auto lá! Há quem repudie nosso estilo de vida e principalmente as empresas que o possibilitam.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/04/escritor-faz-manifesto-com-sete-razoes-para-ser-contra-a-amazon.shtml

Neste longo e tedioso artigo, o escritor espanhol Jorge Carrión (Catalunha ainda é Espanha) faz um longo e tedioso protesto contra a maligna Amazon. O texto, provido de uma generosa dose de antiamericanismo e anticapitalismo – naquela vibe Tempos Modernos – repudia a megacorporação e seu CEO Jeff Bezos – homem mais rico do mundo – por ter vilipendiado o mercado editorial e livreiro  e o próprio hábito da leitura com sua nefasta mentalidade capitalista que está sempre em busca de novas tecnologias que acelerem o processo de produção e de entrega. Cada palavra de seu lamento é permeado por um sentimento de nostalgia imbecil, daquela que não se conforma em lembrar com carinho as lembranças do passado, mas considera qualquer mudança nele uma corrupção, uma afronta a um valor romântico de valor inestimável, além é claro de “alienar” e “mecanizar” o homem e funcionar de uma forma tão abstrata que todo processo parece invisível, simplesmente não se conforma que as pessoas queiram soluções mais modernas que economiza tempo em dinheiro, não, isto é doença, de uma forma que só ele e seus compadres entendem.

“Graças a toda essa tecnologia da eficiência e da imediatez que o prédio agora abriga, Barcelona já é uma das 45 cidades do mundo em que a empresa garante a entrega de seus produtos em uma hora.” Ele escreve como se acusasse um grave crime: “Meu Deus, as pessoas vão receber no mesmo dia o que compraram na internet, que pesadelo, o povo jamais se recuperará deste grande trauma!” Eu, você, e o cidadão catalão agraciado pela agilidade da entrega, não fazemos a menor ideia do que há de errado, porque nós somos uns pobres operários ou pequenos burgueses alienados que deveríamos nos atentar aos perigos que intelectuais como ele, em sua torre de marfim, estão alertando, e com os quais só eles mesmos se importam.

Os mesmos clichês de sempre: A textura e o cheiro do papel, a experiência de abrir um livro pela primeira vez… Na boa, ninguém nunca se importou, ou ao menos não tanto. Quase todo mundo que se formou numa faculdade brasileira leu boa parte do que precisou em xerox, que de romântico não tem nada, o que importa sempre foi o texto, não onde está sendo lido. E mesmo com os livros de verdade, já há muito tempo o processo de editoração é inteiramente computadorizado; todo processo que que acontece até as letras serem gravados em papel é digital. Mas Jorge Carrión e outros dinossauros como ele (inclusive dinossauros de 19 anos) aparentemente não se importam que haja computação em todo processo de produção de um livro, contanto que não vejam os computadores. Parece que gostam de se alienar também…

Todos carregamos implantes.

Todos dependemos dessa prótese: nosso celular.

Todos somos ciborgues: bastante humanos, um pouco máquinas.

Mas não queremos ser robôs.

Ciborgue com muito orgulho! Um ciborgue que tem o acesso ao conhecimento do mundo em um aparelho leve que cabe confortavelmente no bolso.

Quanto à Amazon, ela inegavelmente tem muitos podres, principalmente no que tange ao tratamento de seus funcionários. Como qualquer empresa, ela faz coisas boas e ruins – aliás como qualquer pessoa – e deve ser responsabilizadas pelo que fazem de mal, e pressionada a melhorar. Mas o benefício que ela produz ao mundo todo é mais importante que o mal. Uma crítica séria e pertinente à Amazon ou qualquer outra empresa deveria apontar objetivamente as práticas condenáveis, quais punições são cabíveis e como o consumidor deveria agir… Mas condenar uma empresa porque ela preza por eficiência, rapidez e redução de custos é burrice. Aliás, o dinossauro espanhol está longe de ser o único crítico da Amazon por motivos banais. Donald Trump também a detesta, acusando a empresa de dar prejuízo para o correio americano (não é verdade), uma nesga certamente motivado pelo fato do Washington Post, um dos jornais mais críticos ao presidente, ser também uma empresa de Jeff Bezos.

7) Porque não sou ingênuo:

Não: não sou.

Não sou ingênuo. Assisto a séries da Amazon. Compro livros que não poderia conseguir de outra maneira na iberlibro.com (que pertence a abebooks.com, que em 2008 foi comprada pela Amazon). Busco constantemente informação no Google. E constantemente ofereço a ele meus dados, mais ou menos maquiados. E ao Facebook também.

Sei que são os três tenores da globalização.

Ingênuo não,  hipócrita, que abomina a modernidade, a globalização, a tecnologia e a lógica de mercado, mas vive confortavelmente com tudo que há do bom e do melhor que ela tem a oferecer (menos ebooks) inclusive aquilo que considera fútil. Se você realmente é contra a sociedade moderna, capitalista e tecnológica, então deveria fazer como Ted Kaczynski, vulgo Unabomber, único crítico da modernidade coerente de que já ouvi falar: Brilhante matemático, e profundamente incomodado com os males da modernidade, abandonou sua carreira acadêmica para viver em uma cabana de madeira na floresta, sem eletricidade, com uma máquina de escrever como única coisa tecnológica, com a qual escrevia seus manifestos, visto que se os fizesse por escrito, poderia ter sua caligrafia reconhecida (e ainda é mais moderno que os meus colegas). Faça como ele, vá morar no meio do mato. Só por favor não imite a coisa de fazer bombas e mandar pelo correio.

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ética, filosofia, Política, sociedade

Greed is Good?*

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Por que é tão difícil fazer as pessoas gostarem do capitalismo? E mesmo quando trocamos capitalismo pelo eufemismo livre mercado, que não é incorreto, mas é quase a mesma coisa, continua difícil. Os argumentos da direita, seja a direita conservadora ou liberal, parecem intragáveis para muitas pessoas, mesmo os argumentos mais moderados, por mais sólidos e embasados que sejam. Ora, é verdade, o livre mercado não apenas cria desigualdades, mas multiplica riqueza. Um “pobre” de hoje em dia está infinitamente melhor do que um pobre que vivia o capitalismo incipiente do século XIX, tendo acesso inclusive a bens de consumo que nem os ricos do mesmo século teriam, como antibióticos. O estado natural do homem não é a abundância, como pregava Rousseau, mas a pobreza, a escassez e a necessidade. O capitalismo, com todos os seus defeitos, se provou o sistema econômico mais eficiente, no sentido de que ele gera abundância, e não só para algumas poucas pessoas. As grandes empresas do século XX, em sua grande maioria, prosperaram não atendendo nichos, mas com produção em massa, com bens que podem ser adquiridos por um imenso contingente populacional. De certa forma, nos países industrializados o capitalismo deu tão certo que hoje precisamos lidar com os excessos causados por sua eficiência, como o excesso de calorias tornando pessoas obesas (e pobres obesos, quem imaginaria?!),  excesso de carros, excesso de lixo…. A busca do lucro também é um gás fantástico para a inovação, e mais ainda para inovações voltadas ao consumidor, coisas inimagináveis um século atrás hoje são acessíveis a milhões, e até mesmo a bilhões… Eu não falo apenas de bens de alto valor agregado e relativamente caros, como smarphones, mas mesmo um item simples como uma torradeira ou uma lâmpada seria impossível ou ridiculamente caro, não fosse uma imensa e descentralizada rede de produção globalizada. E um livro? Quanto custava um livro antes da invenção da brochura, e popularização e barateamento do formato, graças a editoras pioneiras como a Penguin Books? Quando um estudante comunista compra sua edição do O Capital de Marx num sebo por 10 reais, não faz ideia de quanto capitalismo foi necessário para sua leitura… Então, por que todo esse ressentimento com a economia de livre mercado?

Os defensores do livre mercado são babacas pra caralho

Eu realmente espero não estar entrando nesse rol… Mas enfim. Agora até que está melhorando, com blogs como o Spotinks, que recomendo muito, nada babaca, ou só de leve. Mas uma grande (enorme!) parte dos defensores ferrenhos do livre mercado parecem ser parte de uma seita religiosa, uma “Igreja Universal da Mão Invisível”. Isto é, não se contentam, como eu, em dizer que soluções de livre mercado na maioria das vezes são mais eficientes, e devemos favorecê-las primeiro, incentivar o empreendedorismo, e não intervir quando tudo está correndo bem. Não, tem que dizer que a lógica de livre mercado é absolutamente infalível, o mercado jamais deixa ninguém na mão, o mercado sempre dá um jeito de atender todo mundo, e tudo que o empresariado faz acaba sendo para o bem da população de uma maneira ou de outra, ele trabalha de forma misteriosa… Se você citar qualquer um dos inúmeros contraexemplos, ele vai retrucar que você não entendeu direito e precisa ler Mises, e fim de papo.

Em especial os libertários parecem ter esta fé quase religiosa. Eu me considero um liberal realista. Eu sei que apesar do mercado ser eficiente atender às necessidades de um grande número de pessoas, afinal, ele quer vender para o maior número de pessoas, sempre vai ter gente de fora. Encaremos a verdade, não fosse pela educação pública, muito mais gente seria analfabeta hoje em dia, porque a família não teve dinheiro para pagar nem a escola mais barata, ou teve dinheiro e preferiu gastar em outras coisas. Ainda mais se fosse num “fantástico” mundo anacap sem assistência social, ou com uma assistência social privada, que é engraçado só de imaginar. E não fosse pela saúde pública, ainda mais gente ia morrer por falta de atendimento. Saúde particular não é essa coca cola toda, e mesmo sistemas públicos de saúde e educação como os do Brasil, tão imperfeitos, decididamente são melhores do que nada, para quem não pode pagar por coisa melhor, e são passíveis de melhoria. Mas pressione o bastante um libertário radical, e eventualmente ele vai confessar que quer que se foda se alguém for morrer na rua por falta de atendimento, dizendo que fazer a população toda pagar por saúde é uma forma de roubo e de escravidão, e que na verdade se você for pobre, tem mais é que se foder. E mais, que na verdade, se você for pobre, você é preguiçoso, pois preguiça é a única explicação possível para a pobreza. Você consegue ter simpatia por um cara desses? Nem eu.

Encarando a realidade, sempre vão haver coisas que os empresários poderão fazer para ferrar todo mundo, sem consequências para si. Sim, temos um excesso de regulamentações no Brasil, e regulamentações ineficientes… Vocês sabem do que eu estou falando. É bem verdade, uma grande parte da razão do esquema de corrupção investigado pela operação Carne Fraca (os vegetarianos e veganos devem estar até estourando champanhe com as notícias) é pelo modelo de capitalismo clientelista do Brasil, crony capitalism, em que umas poucas empresas amigas do governo prosperam, enquanto o microempresário pena com a burocracia impeditiva, os altíssimos encargos, e obrigações trabalhistas, muitas das quais são inúteis. Eu disse muitas, não todas. Liberdade de mercado não tem nada a ver com deixar um chefe humilhar o funcionário se achar que isso o fará mais eficiente, permitir que ele obrigue o funcionário a trabalhar 48h seguidas, e muito menos deixar que as empresas fiquem completamente à vontade para incluir o que quiserem na composição dos seus produtos, até mesmo coisas perigosas que consumidor nenhum gostaria de consumir… O caso do papelão na carne é grave, mas alguém realmente acha que haveria menos  escândalos como esse abolindo todas as legislações sanitárias e permitindo às empresas colocarem o que quiserem em seus produtos, sem ter que prestar contas a ninguém? Parece contra-intuitivo? É mesmo.

Meritocracia não é regra

Sem dúvida, temos uma sociedade em que mobilidade social é possível, muito mais do que países que seguiram o rumo do socialismo, como na Coreia do Norte e Cuba (eu realmente não quero entrar na discussão se isso é comunismo de verdade), mas ainda assim, nascer mais rico inquestionavelmente torna a vida mais fácil em qualquer país, ainda mais em um país com educação deficitária, como o Brasil. E sorte ainda vale muito: Há muita gente que ganha fortunas por sorte, com pouco ou nenhum trabalho, por inventar um joguinho de celular ridículo que vira febre por algumas semanas (lembra do Flappy Bird?) ou fazendo um vídeo tosco que viraliza no YouTube, compondo uma letra de funk grotesca…

Mas meritocracia deve ser uma coisa boa, porque as pessoas que reclamam da meritocracia, na verdade, estão reclamando da nossa sociedade não ser mais meritocrática ainda. No livre mercado, as pessoas só se importam com o valor do que você produz, e cada um dá valor para o que quer, e eventualmente, dão muito valor à besteiras, paciência. Para produzir valor, esforço e inteligência contam muito, sem eles pode-se inclusive perder uma fortuna. Veja quantos ex-BBBs ganharam uma bolada com o prêmio do reality show mas hoje estão na merda… O sistema de livre mercado é enorme, caótico, possui muitos fatores em jogos, muitas relações possíveis. Por mais que tenha sido, de longe, o sistema que mais criou riquezas no mundo, não há como alguém honestamente garantir que ninguém sai perdendo neste jogo, que ninguém será injustiçado e todos os malfeitos serão punidos automaticamente pelo próprio mercado.

O livre mercado não precisa ser venerado

Apesar de haver muitos devotos de São Mises ou da Santa Ayn Rand, este é um fenômeno relativamente novo e ainda pequeno, o livre mercado é apenas o que o nome diz: Um sistema que surge naturalmente, no qual pessoas não relacionadas, que não se interessam muito pelo bem umas das outras, trocam bens e serviços de forma voluntária e egoísta, por interesses próprios. Em seu cerne, é um sistema econômico apenas, não uma doutrina política, uma ideologia, que requeira adesão, muito menos veneração. Muitas das pessoas que participam ativamente no mercado nem lembram que esta palavra existe. Inclusive, você pode ser bem sucedido no capitalismo enquanto odeia o capitalismo, pode até mesmo fazer dinheiro, pilhas de dinheiro, falando e escrevendo contra o capitalismo, como Marilena Chauí, com suas palestras de 8000 reais em que esculacha a classe média. O capitalismo tolera a hipocrisia. Em quantos países comunistas é possível sequer continuar vivo criticando abertamente o comunismo?

Não só não requer adoração, como nem sequer requer gratidão. Até porque relações egoístas, como as que ocorrem em livre mercado, são exatamente aquelas pelas quais as pessoas não sentem gratidão. Você trabalhou um tempão para, por exemplo, comprar aquela linda TV de 50 polegadas e poder assistir o Netflix em 4K no conforto de sua sala. Ou comprou um celular novo, ou uma camisa nova. Comprou com dinheiro que ganhou trabalhando. Você se sentiria realmente devendo gratidão a alguém após sua compra, sendo que ninguém lhe fez favor algum? Sim, é verdade, essa TV é o fruto de uma longa cadeia de produção global e de um processo de desenvolvimento da ciência e da tecnologia movido por interesses egoístas, blá blá blá, mas esse sistema não te deu de presente. Não é natural sentir que se deva gratidão num sistema de trocas egoístas como esse, por isso soa meio estranho quando os liberais e libertários dizem que você deveria se sentir grato ao sistema pelo seus bens materiais, e não estou criticando. A apologia ao capitalismo deve ser de uma forma sóbria, não emocional.

O capitalismo não é um sistema baseado em doações benevolentes, mas em trocas voluntárias e egoístas. Não deveríamos valorizar e defender os empresários, investidores e outros “capitalistas” por benevolência nem por simpatia às suas pessoas, mas avaliá-los de forma fria e utilitária, ou seja, com a forma de avaliação do próprio mercado: Ele produz mais e melhor do que num sistema de economia planificada, ou em qualquer civilização pré-industrial, e nos oferece uma vida muito mais agradável do que seria sem ele. É duro aceitar isso, mas muitas das melhores coisas do mundo são fruto do trabalho de egoístas buscando dinheiro, não de ideólogos altruístas, e muito menos de políticos. As propostas políticas, pelo contrário, facilmente entram na psicologia popular como favores, pelos quais se fica devendo gratidão, e votos. Fica difícil competir com este apelo emocional dos políticos populistas, sejam da direita ou da esquerda.

Mesmo os problemas sociais que surgem num país com liberdade econômica têm muito mais chance de serem resolvidos dentro do contexto de um país democrático e economicamente livre do que com qualquer revolução radical. A esquerda adora citar os países escandinavos e o Canadá como exemplos de países com socialismo que funciona, mas raramente lembram que estes países já eram bastante ricos quando começaram as reformas sociais, e até hoje são alguns dos mais liberais economicamente, com menos burocracia, menos normas inúteis e sem uma penca de entidades de classe e sindicatos (alguns de afiliação obrigatória) e direitos trabalhistas absurdos como os do Brasil, como o “direito” de “contribuir” uma parte de seu salário para um esquema de pirâmide, com a promessa do Estado cuidar de você na velhice, e o “direito” não opcional de receber o seu salário em 13 prestações, ao  invés de doze.

* A frase do título, de forma gramaticalmente correta, seria “Is Greed Good?”, mas eu não resisti deixar daquela forma, apesar de equivocada, para ficar mais parecido com a fala do personagem Gordon Gekko

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Sífilis Engarrafada

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O capitalismo
tem problemas? Mas é lógico que tem! É excesso de mau-caratismo, ou no mínimo
autoengano, dizer que o capitalismo – ou qualquer sistema econômico já
inventado – é perfeito e tudo que precisa para a sociedade ficar perfeita é
deixá-lo reinar absoluto.

Eu tenho uma
seríssima desconfiança com vários tipos de pessoas (não sei se é maturidade ou
apenas amargura) e o tipo do qual eu mais desconfio, mais ainda do que os
misantropos de pelúcia, é daqueles “worklovers” hiper-produtivos que dizem amar
acordar segunda de manhã para trabalhar, dizem regozijar-se com o som do
despertador, e gastar cada segundo de seu tempo sendo produtivos e eficientes,
parecem posterboys dos livros de autoajuda para executivos, assim são figuras
bizarras como Bel Pesce (que me faz lembrar Hermione do Harry Potter 3 com seu
“vira-tempo”) e Kim Kataguiri. Sério, eles nem parecem humanos.

Na verdade, às
vezes me parece que o mundo do livre-mercado é uma espécie de jogo no qual é
preciso trapacear para sair ganhando. O melhor cenário: Você nascer rico. O
segundo melhor cenário é você encontrar uma profissão da qual você realmente
goste, e assim cada segundo do seu dia é extremamente gratificante, e você não
vai passar o dia fazendo algo cansativo e inútil. Supondo que isso realmente
exista e não seja uma ficção que as pessoas mantém para se sentir melhores.

Para a maioria
de nós, o jogo é todo uma roubada em que você vai trabalhar (sempre mais de) 8
horas por dia e (sempre mais de) 5 dias por semana para ganhar pouco dinheiro
que você não vai ter tempo de gastar. É, esse é truque, se você quiser ganhar
muito dinheiro, o que também depende consideravelmente de sorte, não vai ter
tempo de gastar esse dinheiro, a não ser quando já estiver velho e cansado. O
mundo de hoje nos oferece uma quantidade imensa de entretenimento como séries
de TV e games, mas para poder pagar por tudo isso, você precisa trabalhar
muito, e no seu tempo livre, estudar para que o bicho papão do “ponto de
conforto” não pegue você. Para ter tempo de diversão, você precisa tirar horas
de sono necessárias e acordar feito um zumbi.

Na verdade, eu
me convenci tanto de que esse arranjo é uma roubada que decidi não ter filhos,
mesmo que surja a oportunidade. Para que colocar alguém no mundo para essa
rotina estúpida? Não seria melhor não existir? Possivelmente Schopenhauer está
certo, e a vida é um episódio não lucrativo.

Então o comunismo/socialismo
é melhor? Não porra!!!!
[momento Alborguetti]

Precisamos
parar com o velho hábito de achar que, diante de um problema, qualquer solução
serve, e o comunismo é literalmente uma das piores ideias que uma pessoa já
teve.

Na época que
foi lançado o game Postal 2, um crítico disse “este foi o pior produto já
lançado, até que alguém resolva engarrafar sífilis e vender no mercado”, frase
que a politicamente incorreta desenvolvedora Running With Scissors até mesmo
imprimiu na caixa do jogo em edições posteriores. Mas comunismo é pior que a
sífilis engarrafada, porque essa, pelo menos, as pessoas saberiam logo de cara
que se trata de algo ruim e não iriam querer comprar, enquanto comunismo vende
muito, muito fácil.

Destruir a
livre iniciativa e deixar que um órgão central, o Estado, regule tudo, decida
as necessidades de todos e o tanto que cada um merece, e esperar que as pessoas
se desfaçam de seus desejos e aspirações pessoais para se matarem de trabalhar
pelo bem da sociedade é uma ideia realmente estúpida. Os comunistas realmente
se consideram seres superiores, incorruptíveis, mas toda sociedade comunista
afogou-se em corrupção interminável, e, como qualquer dogma, o seu é imune à
evidências que apontem que ele esteja errado. Dizer que um regime que falhou em
não matar dezenas de milhões de seus próprios cidadãos é uma espécie de erro
gramatical. Sério, o emprego da palavra falhar está errado. Você pode falhar em
passar no vestibular, falhar em chegar a um compromisso no horário certo,
falhar em fazer uma empresa dar lucro… Você não “falha”em não assassinar
brutalmente, ou matar de fome, dezenas de milhões de pessoas, é um nível
diferente.

Não importa
quantos países fracassem com a experiência vermelha, danem-se as pilhas de
corpos que se acumularam nas valas comuns, eles sempre vão usar aquela falácia
suja (existe de outro tipo?) do falso escocês: Baseado em algumas diferenças
cosméticas, vão papaguear a ladainha de “este não era comunismo de
verdade”. Cuba não era comunismo de verdade, Coreia do Norte não era comunismo
de verdade… Isto é o mesmo que dizer que o Ubuntu não é Linux de verdade ou o
Mac não é Unix de verdade. É sim. Chama-se desonestidade intelectual
quando a sua ideia é posta à prova várias vezes, falha em todas, e você
cinicamente diz que essas não valeram. Ah, e por favor, não adianta mudar de
nome: Na prática, socialismo e comunismo é a mesma bosta.

Desculpe se
estou boca-suja demais, mas não ter como ser enfático demais para apontar a
desonestidade intelectual da esquerda.

Os socialistas,
a propósito, jamais foram sinceramente contra as diferenças de classe. Em quase
toda sociedade existiu uma classe dominante que sempre está bem, vivendo um
padrão de vida surrealmente superior ao de toda a população, e no comunismo não
foi exceção, apenas veja quão bem vivem os Kim na Coréia do Norte, e os Castro
em Cuba. Aliás, regime mais parecido com a velha monarquia, impossível. Na
verdade, nos países comunistas (ou socialistas… chame de Suzi se quiser, não
faz diferença) as diferenças de classe são extremamente cristalizadas, no caso
da Coréia do Norte, por exemplo, elas são baseadas na lealdade da pessoa ao
partido, passam de geração em geração (a não ser que alguém cometa um deslize e
condene a família toda) e interferem diretamente na ração que suas famílias
receberão do Estado, que na verdade é sempre muito pouca.

Talvez uma das
maiores qualidades do capitalismo seja que ele não exija devoção, você não
precisa gostar do capitalismo, na verdade, você pode ficar muito rico dentro do
capitalismo criticando-o publicamente, como provam Leandro Karnal (que acha que
cobrar mil reais por palestra é coisa de Zé Ninguém) e Marilena Chauí, no
Brasil, assim como de Michael Moore e Noam Chomsky nos EUA, apenas para citar 4
exemplos mais famosos. O capitalismo tolera a hipocrisia. Já no comunismo, se
você é crítico do regime, não tem direito nem à sua vida.

E não dá pra
negar, ele trouxe coisas boas. Não apenas confortos, apesar de ter trazido
bastante disso, mas principalmente itens necessários à higiene básica e saúde
tornaram-se acessíveis na economia de mercado. Na verdade, os medicamentos
tornaram-se tão acessíveis que em economias mais ou menos desenvolvidas as pessoas podem se dar ao luxo de esnobá-los,
uma burrice que eu já critiquei em outro post.

De várias
maneiras, o capitalismo deu tão certo que hoje precisamos lidar com problemas
causados pelos excessos que ele trouxe, que seriam impensáveis antes do século
XX. Quem imaginaria que excesso de carros tornar-se-iam um problema um dia? E
que excesso de calorias estaria fazendo as pessoas doentes?

Infelizmente,
é preciso admitir que coisas boas vieram de um sistema com muitas coisas
condenáveis. É, é difícil. Assim como muitas cidades na América em que hoje
vivemos existem porque nossos antepassados ceifaram povos indígenas primitivos
que cá estavam antes. Teria sido melhor deixá-los em paz, enquanto mantinham um
continente inteiro ocioso? A história do bom selvagem é uma mentira mantida por
departamentos de humanas, a vida era extremamente violenta, como bem descreveu
Hobbes, “pobre, desagradável, brutal e curta”, mas os europeus sem dúvida
trouxeram mais violência ainda. O resultado foi o mundo de hoje, com
escritórios com ar-condicionado e cadeiras ergométricas, regras de conduta e
departamentos de RH te apavorando com o ponto de conforto.

Valeu a pena?
Não sei. Mas é melhor que a sífilis.

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