filosofia, sociedade

Então Já Foi o Natal

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E o ano novo vem aí.

Este ano uma das tretas que acompanhei na internet é a dos reaças vs. “jovens revoltosos” na ceia de natal em família, que não suportam os parentes mais conservadores e religiosos. Um texto que sumariza bem a questão é o do conservador Eric Balbinus do blog O Reacionário:

http://www.oreacionario.blog.br/2016/12/os-textoes-da-extrema-esquerda-sobre-o.html

Achei o posicionamento válido e o texto bem escrito (e ganha um “bônus” por usar uma imagem do Futurama de ilustração para o post, adoro)  mas não concordo com tudo. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que ateísmo, e antiteísmo em geral, não é uma bandeira de esquerda. Certo, muitos ateus são de esquerda, mas definitivamente nem todos, nem a maioria, e eu percebo que hoje uma grande parte do movimento conservador quer forçar a barra para transformar ateísmo em uma bandeira de esquerda, parecem acreditar que todo ateu é esquerdista, e que cristãos são todos de direita. Nem parece que estamos no mesmo continente em que existe esta aberração grotesca chamada Teologia da Libertação, e no país de falastrões como Leonardo Boff e Frei Beto. A América do Sul é um continente com população majoritariamente cristã, acha mesmo que a esquerda teria avançado tanto por aqui, se fosse necessariamente antirreligiosa? Não, eu não acho que exista um perfil do ateu. Tanto Ayn Rand quanto Karl Marx eram ateus convictos, que exemplo melhor você quer? Também não é verdade que esquerdista não trabalha, ainda que muitos dos cabeças do movimentos de esquerda, e que mais aparecem na mídia e nas redes sociais sejam vagabundos mesmo. Um dos comunistas mais convictos que já conheci foi meu chefe numa empresa que trabalhei, que inclusive era muito gente boa. Este senhor Eric tem uma porção de estereótipos nos quais parece acreditar plenamente, o que não pega muito bem para quem critica tanto os fanáticos de causa que não conseguem enxergar as pessoas, nem os próprios parentes, sem ser pelas lentes distorcidas de seu viés ideológico, desculpe se parto de um mal julgamento.

Mas o texto não fala apenas dos ateus, que não suportam a religiosidade de parentes, mas de feministas e outros “istas” que acham os parentes retrógrados, geralmente adolescentes e jovens adultos. Rendeu até uma piada (idiota) no programa The Noite.

Não sei muito sobre a família dos outros, mas só me pergunto, se para você é tão insuportável a experiência do natal ou outras festividades em família, para que ir? Eu não acho que ninguém seja obrigado a se socializar com pessoas de que não gosta, ainda que sejam da família. Não é meu caso, eu geralmente gosto de reuniões familiares, vou de vez em quando, principalmente em aniversários, para mim não há nenhum defeito insuportável neles, e eles mesmos me toleram do jeito que eu sou, com todas as minhas peculiaridades, vou quando acho que seria mais agradável do que ficar em casa. Na hora das orações, eu apenas fico em silêncio. Se o assunto é futebol, que eu detesto, eu não falo nada. Tão difícil? Não para mim. E nem acho problema um ateu desejar “feliz natal” ou fazer qualquer menção desta festividade, que já virou uma data secular há muito tempo, só não vê quem não quer. Claro que cada família é uma, e ninguém é obrigado a ser tolerante com os familiares só porque eu sou.

Eu sempre fui um inconformista, nunca aceitei decretos de que as coisas são de tal jeito e ponto e acabou, não tem o que discutir. Tenho a impressão de que muita gente vai nestas reuniões de família (e participa dos grupos chatos de WhatsApp de família, outra reclamação frequente) por se sentir obrigado. Eu não acho. Sempre que me dizem “você é obrigado a isso/você tem que aquilo” eu pergunto, por quê? Qual é a punição para eu fazer o contrário? Alguém será prejudicado? Pergunte-se isso você também. Apesar de eu achar lastimável recusar-se a sentar à mesa com pessoas só por elas terem uma ideologia diferente da sua, não podemos dizer que isto não é direito, e é melhor que ser o chato da festa. Se não quiser se indispor com eles, não dá pra pensar numa desculpa?

É claro que muita gente vai em reuniões de família não apenas porque tem um senso de que é obrigado a participar dos eventos de sua família estendida, mas vai “na marra” mesmo, principalmente adolescentes, ou porque a festa é na própria casa, ou porque o pai não deixa ficar em casa jogando videogame ou fazendo outra coisa ao invés de ir na casa da avó ouvir piadas de pavê ou pra cumê, perguntas dos tios sobre as namoradinhas, e fazendo orações. Depois reclama que o filho rebelde fica dando showzinho. Eu sei que não tem como deixar os filhos fazerem só o que querem (acho que se fossem à escola apenas as crianças que querem ir, teríamos mais de 99% de analfabetismo), o que não quer dizer que a vontade deles nunca deva ser respeitada, e julgo a mentalidade autoritária de muitos pais grotesca, até escravagista, esta coisa de achar que por pagar as contas de um filho isso faça dele ou dela propriedade sua, como uma cabeça de gado, não um indivíduo humano com ideias e vontades próprias. Pior ainda quando os filhos são menores de idade e nem poderiam trabalhar para pagar as contas, mesmo que quisessem. Por favor, não seja este tipo de pai.

Fica minha recomendação do filme Feliz Natal, de 2008, primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello. Não sei como foi o seu natal este ano. Mas com certeza não foi pior que o da família do personagem Caio. E também, se serve de consolo, provavelmente não foi pior do que foi o natal de Jerry de Rick and Morty, que passou a festividade toda de cara fechada por não ter aceitado muito bem a novidade de sua mãe, ainda casada, estar agora sendo acompanhada por um michê. Se não estiver muito afim de ir no Réveillon com a família também, mas tiver que ir de qualquer forma, faça como o vovô Rick fez no natal, e se afaste para se ocupar com outra coisa.

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Sabbah

http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/enem-e-vestibular/candidatos-sabatistas-ficam-ate-11-horas-trancados-para-fazer-enem-14439409


É ridículo o número de restrições desnecessárias às quais uma pessoa se sujeita só por acreditar em uma velha superstição idiota, por seguir uma interpretação específica de um livro escrito a cerca de dois milênios atrás por um povo do deserto que nem sabia da existência da América ou que a Terra era redonda. Religião causa incontáveis gastos desnecessários à sociedade, e este é apenas um pequeno exemplo.

Mas quer saber? Eu não sou contra o governo permitir que eles façam o Enem após ficarem voluntariamente encarcerados numa sala por horas sem fazer nada. Sim, eu sou ateu, mas também sou liberal. Quer sofrer à toa? Fique à vontade. Se você for meu amigo, eu vou tentar ao máximo convencê-lo do contrário, mas lógico que eu não tenho a mesma empatia com estranhos, que, de qualquer forma, dificilmente são convencidos de que estão errados. Os sabatistas, contanto que não isso não atrapalhe em nada os demais, que fiquem à vontade para tornar o dia do Enem mais difícil ainda para si mesmos.

Brinde pra vocês:

https://youtu.be/0lVdMbUx1_k

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O mal das meias-medidas

Este vídeo é uma animação feita com um monólogo da série da AMC Breaking Bad. Nele, o personagem Mike conta como tomar uma “meia-medida” custou a vida de uma mulher inocente, quando ele decidiu, por mais uma vez, poupar a vida do marido violento.

Não importa o que os seus avós diziam, não é sempre no meio termo que está a virtude. Ok, admito, muitas vezes é. Mas muitas vezes ao tomar uma decisão que parece ser moderada ou “entre dois extremos” (democrática) você na verdade estará fazendo algo horrível. Fazer o certo muitas vezes exige tomar uma decisão dura, que vai fazer muitos chiarem.

Isto também é conhecido como a falácia do falso meio-termo (vou resistir, não vou colocar o termo em latim, para não me equiparar a um certo filosofo falastrão que eu já critiquei no passado). Não é porque existem dois lados em uma discussão que os dois estão igualmente certos, ou que os dois mereçam o mesmo mérito e a mesma atenção.

Dizer que “cada lado tem um pouco de razão” é só algo que se diz para por fim numa discussão interminável, quando não se quer desagradar ninguém demasiadamente, o famoso pôr panos quentes. É uma atitude covarde, e não necessariamente é a que trará o melhor. Um dos males da democracia é esse, ter que fingir que todo mundo tem um pouco de razão. Não que a moda tenha surgido com a democracia.

Quer um exemplo? O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão, em 1888, dois anos após Cuba. O século XIX viu o movimento abolicionista crescendo no mundo todo. Enquanto isso, no Brasil, o que não faltaram foram meias-medidas, como a lei dos sexagenários (uma piada, visto que quase nenhum escravo chegava aos 60 anos) lei do ventre livre, a proibição do tráfico (famigerada lei para inglês ver), mas sem libertação dos escravos. E todos esses paliativos apenas prolongaram a instituição perversa da escravidão.

Na questão Palestina, já vi alguns “comedidos” decretarem que você está errado apenas por tomar partido, por defender Israel ou Palestina, como se o fato de dois lados estarem numa disputa há muito tempo significasse que os dois tem a mesma razão, que os dois erraram igualmente, e que você tem uma espécie de falha de caráter se achar que um é pior que o outro. Ajuda nisto a moda pós-modernista de decretar que não existe certo ou errado, e tudo é muito relativo. Parece até que tomar partido é uma coisa proibida.

Infelizmente, a maioria das pessoas não têm maturidade para distinguir o que é um ataque pessoal do que é um ataque à uma ideia na qual se acredita, e por isso mesmo crescemos ouvindo que religião, futebol e política não se discute, se tiver um posicionamento, tem que guardar para si próprio, assim temos um povo alienado, covarde, com medo de tocar em qualquer assunto considerado polêmico demais. Os políticos agradecem por você achar que política é um assunto intocável.

Esta mesma covardia (não tem outro nome) é o que torna tão difícil tratar o islamismo como o que na verdade é: A pior religião da atualidade. Muitos ateus também caem na falácia do falso meio-termo, dizendo que todas as religiões são ruins por igual e não podemos criticar nenhuma com mais ênfase do que as outras, o que é uma besteira. Não importa que no passado tenha sido uma religião tão ruim quanto as outras, o fato é que hoje é uma das ideologias mais tóxicas do mundo, motiva atentados terroristas, subjugação das mulheres, execuções por motivos banais, dentre tantas outras mazelas. Mas  a ditadura do politicamente correto não permite falar isso, tem que fingir que todas as religiões são fofinhas e do bem, e o que elas têm de ruim, têm por igual. Uma pessoa minimamente educada dizer isso chega a ser cegueira voluntária.

A falácia do falso meio-termo é também o que está por trás da insistência de alguns religiosos em querer colocar “design inteligente” (criacionismo travestido de ciência) no currículo escolar, como uma teoria alternativa. Gostam de dizer que existe uma polêmica sobre a origem da vida. Não, não existe. A teoria da evolução já é assunto fechado na ciência há cem anos. Escola não é lugar de ensinar crendice. Infelizmente, não falta quem queira instituir esta pseudociência nas escola por achar moralmente obrigatório agradar dois lados de uma discussão. Claro, talvez, em respeito aos neonazistas, também coloquemos no currículo de história a teoria de que o holocausto nunca aconteceu. Talvez também devamos colocar no currículo de geografia a teoria de que a Terra é plana.

Trump corre um sério risco de ser eleito. E não porque ele seja bom, possivelmente seu governo seria catastrófico, mas porque ele não tem medo de tomar decisões impopulares, ou até politicamente incorretas, diz o que quer e não faz questão de agradar ninguém. O povo cansou de almofadinhas como Obama que fazem de tudo para agradar a todos, e acabam não mudando muita coisa.

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ceticismo, filosofia, Humano, sociedade

Negação da ciência MATA

“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)

O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas
humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.

No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça
à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a
falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil,
uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma
outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à
saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da
ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento
científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as
áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da
Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a
aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto
firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.

Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até
fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e
se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam
este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou
não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane,
quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas,
mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio
possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil
o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O
serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que
algumas pessoas preferem ficar com nada.

…Mas eu não quero me entupir de remédios…

 Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma
espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em
pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos
avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem
que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da
falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se
remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou
tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e
cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala
a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem
prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer
tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica
ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de
“macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo
qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo.
Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais
grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios
psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da
consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.

Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade
moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para
muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E
eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam
nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.

Existem  exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que
funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de
medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.

“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”

 

E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou
que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só
para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acupunturistas
profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os
tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos
duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.

E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para
prometer uma suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais
conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as
pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica.
Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.

Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado
não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este
velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom
senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que
realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da
pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.

Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita
coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de
uma espécie de lobotomia.

O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os
tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um
tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o
tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho
do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros).
Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim,
tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias
alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a
ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os
idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.

O movimento anti vacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo
contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o
fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas.
Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois
do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua,
dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que
aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o
movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz
começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e
se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu
extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer
qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo
tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.

O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma
desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente
da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na
internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do
tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.

“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”

Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias
erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que
está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são
importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição,
que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre.
Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso
científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e
o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na
religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está
errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo,
mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a
diferença?


“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”

Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas
teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo
é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada
é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos
e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas
vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão
grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer
língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa
frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar
juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem
mentes parecidas.

Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a
sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências
humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste
confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em
questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para
quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já
que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão
dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos
maus.

A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam
nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua
redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de
dinheiro também já ceifou muitas vidas.

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“…Mas você precisa guardar o seu ateísmo pra você mesmo…”

Não eu não preciso, e não vou.

Já ouvi muito essa. Os religiosos sempre tiveram o direito de divulgar abertamente suas visões deturpadas, fazer manifestações públicas entusiasmadas de sua fé.

Mas quando os ateus finalmente não tiveram mais que se esconder, dizem que estamos sendo chatos, que estamos sendo “iguais aos religiosos fanáticos” e que temos que manter nossa opinião para nós mesmos. Vou frisar:

Não tenho e não vou.

O limiar para considerar um ateu sendo chato é muito mais rígido do que para um religioso. Na verdade, basta expressar que você não acredita em deus, ou em alma, ou apontar que alguém está se enganando ao acreditar nessas coisas, e pronto, já estão te chamando de proselitista. Não importa que você raramente toca no assunto, ou que fale pela primeira vez, quando falar pode apostar que vão rolar os olhos e dizer “ih, ateu chato, vai começar de novo”.

Que eu saiba, ainda não tem ateus tocando a campainha das pessoas domingo de manhã para tentar desconvertê-las, ou fazendo “cultos ateus” com alto-falantes em volume ensurdecedor, então não, não somos iguais aos crentes chatos.

Se escrevemos livros, fazemos páginas do Facebook, e fazemos nosso humor, só vê quem quer.

Querer que um grupo se cale é uma maneira de tentar fazê-lo sumir, de tentar fazer os próprios membros não terem noção de como são numerosos. A política don’t ask don’t tell do exército americano não é nada mais do que isso.

Acho extremamente necessário trazer este tipo de questão (da existência de divindades) a debate, seja público, seja no cotidiano (mas não o tempo todo, claro). Não é um assunto irrelevante, e interfere diretamente no que as pessoas pensam, falam e fazem. Religião é uma das forças mais perniciosas do mundo, isto não é achismo, isto é a pura verdade. Aliás, o que me irrita profundamente, mais do que os próprios religiosos, são os “ateus acanhados”, aqueles que falam que são ateus e imediatamente depois começam a pedir desculpas e garantir que não tem preconceitos.

Não sei que jantares inteligentes são esses que o Pondé anda frequentando, porque nos que eu fui, ser ateu é coisa feia, a ciência é muito “dura”, e bonito é acreditar em besteiras como homeopatia e horóscopo. A situação só vai mudar se os ateus saírem do armário e não se sujeitarem à política do don’t ask don’t tell travestida de cortesia.

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Meu Problema com o Espiritismo

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Os espíritas, em especial os de religiões de matriz africana, e os ateus, possuem uma espécie de “aliança estratégica” no Brasil: Ambos os grupos deixam os cristãos fanáticos putos. Para eles, somos “crias do demônio” do mesmo saco. Admito que é uma das religiões que menos causam problemas hoje em dia, mas nem por isso é perfeita, e não deveria ser imune à críticas. Aliás, absolutamente nenhuma ideia, boa ou ruim, deveria ser imune à críticas em uma sociedade livre. As pessoas deveriam ter maturidade para entender a diferença de atacar uma ideia em que alguém acredita e atacar a própria pessoa.

O problema começa no próprio conceito de alma, que é absolutamente improvável. Quando dizem que você tem “energias”, isto é verdade, mas estas energias não possuem absolutamente nada de místico ou sobrenatural, e não é mistério algum para onde elas vão depois da sua morte: Para os vermes. “Tudo se perderá como lágrimas na chuva”, como dizia o replicante Roy no magnífico filme Blade Runner (androide é a sua mãe). O fato das minhas energias continuarem não significa que a minha consciência continuará, a consicência é um fenômeno bioquímico que se encerra com a morte do indivíduo (esta é a origem da brincadeira que faço na descrição deste blog)

“Alma” era mais ou menos como povos antigos entendiam a mente humana antes de compreendermos o funcionamento do cérebro. E isto faz pouco tempo: No tempo de Aristóteles, nem se sabia que o pensamento se processava no cérebro (Aristóteles pensava que sua função era de resfriar o sangue). Somente do início do século XX descobriu-se o neurônio, graças ao trabalho do cientista espanhol
Santiago Ramón y Cajal. Até então, a doutrina do dualismo (corpo e alma) era amplamente aceita, a alma sendo como um motorista e o corpo um veículo. O dualismo é a base de praticamente todas as religiões, atuais e extintas.

Mas os estudos do cérebro explicaram relativamente bem este órgão formidável, e a psicologia moderna se encarregou de detalhar o funcionamento do software, e de qualquer forma o conceito de alma não faz muito sentido, não explica, por exemplo, como algo imaterial pode mover algo material, a não ser com explicações que são igualmente improváveis, em todos os sentidos. A própria existência de algo como um “além” ou “o mundo de lá”, como dizem popularmente no Brasil, ainda carece de ser provada empiricamente. O próprio conceito de “eu” (que seria o motorista) é provavelmente uma ilusão. Como diria o peso pesado da ciência cognitiva Daniel Dennet “é difícil achar o presidente na sala oval da mente”. Sam Harris, outro peso pesado, também afirma que o “eu” é uma ilusão cognitiva, e aperfeiçoando muito a técnica da meditação, pode-se vivenciar as sensações da consciência sem a ilusão do eu.

O que mais espanta no espiritismo é que ele também se baseia em afirmações que não seriam impossíveis de provar se fossem verdadeiras. Não apenas eles acreditam em alma, mas acreditam que as almas dos mortos, de alguma forma, podem prever o futuro, ou ver o que se passa em qualquer lugar do mundo, e comunicar isto ao médium. Mande um médium ou pai de santo ficar numa sala isolada, vigiada por câmeras, enquanto um pesquisador em outra sala igualmente isolada escreve algo aleatório num papel, e peça para ele adivinhar o que está sendo escrito. O mágico James Randi já ofereceu um prêmio de um milhão de dólares para qualquer um que provasse poderes sobrenaturais. Durante todo o tempo que o prêmio foi oferecido, não apareceu um único paranormal que pudesse provar seus poderes, e não ser apenas um charlatão. Também já ouvi falar de pais de santo que adivinharam os números da loteria para clientes. Por que não adivinharam para eles mesmos?!

“Ouvi falar” é a frase que mais se escuta. A famosa evidência anedótica não tem valor nenhum quando se trata de assuntos de extrema importância como a existência ou não de um mundo do além. Se eu precisar de alguma defesa contra uma evidência anedótica, direi apenas “ontem Donald Trump me ligou e disse que provou que alma não existe”. Você não pode provar que estou mentindo, pode? O conceito de homeopatia também possuem um excesso de evidência anedótica e uma completa falta de evidência científica de que possa curar qualquer coisa melhor que um placebo. Assim como a infame fosfoetanolamina. A lista é longa. Até papagaio fala. A forma como você se sente em um terreiro ou em um centro espírita também não é prova de nada, é possível ter sensações provocadas por todo tipo de coisa.

Os espíritas, como outros religiosos, também partem do pressuposto de que existe um código moral universal, que a moral possui uma realidade objetiva, por isto quando você morre, a sua alma será julgada por uma espécie de tribunal metafísico e punida ou recompensada de acordo.

Primeiramente, a moral é um conceito maleável, que se modificou muito ao longo da história. Eu não estou querendo dizer que deveríamos abandonar qualquer tentativa de diferenciar códigos morais em melhores ou piores, mas o fato é que moral é um conceito humano, surgiu no contexto de sociedades humanas que precisavam de limites para que a convivência fosse possível. Qualquer moral só faz sentido no contexto de indivíduos vivos tendo que conviver juntos. Também não faz sentido uma punição que só passa a valer depois da sua morte, e que ninguém pode com certeza ver alguém que foi punido, sendo que os malfeitores podem simplesmente não acreditar. Por isto mesmo necessitamos de sistemas judiciários com punições que existem além de qualquer dúvida. Acho que não dá pra duvidar da existência de cadeias.

Eu até entendo porque as pessoas acreditam nisso: Porque dá a elas uma certa satisfação. Parece insuportável a ideia de que um ser tão maléfico quanto o Dr. Mengele tenha fugido para a América do Sul após a segunda guerra e morrido idoso por causas naturais. É mais confortável acreditar que ele teve algum tipo de punição no além túmulo. Mas não teve.

Se por um lado a doutrina espírita oferece este tipo de conforto, por outro ela faz a pressuposição, pra lá de insensível, que pessoas que hoje estão sofrendo de alguma forma mereceram aquilo, como se a população da Coréia do Norte ou os famintos da África tivessem alguma culpa pela situação desgraçada em que se encontram.

E também cuidado quando tentam pegar o conceito de evolução biológica para exemplificar seu conceito de seres menos evoluídos tornando-se mais evoluídos. Isto é falácia: A evolução se dá de indivíduo para prole, por pequenas mutações genéticas que são selecionadas pelo meio: Um único indivíduo não evolui infinitamente, muito menos depois da morte. Parece injusto que um ser que nasceu como genes ruins esteja fadado a ser varrido pelo meio sem jamais ter a chance de melhorar? É porque a justiça é um conceito humano, não natural. Se quisermos justiça, é melhor a implementarmos no aqui e agora.

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Espeto de pau

Algo que eu julgo lamentável é ver o sujeito formado em história, ciências sociais e afins sendo católico, protestante, ou membro de qualquer grande religião organizada (não que as pequenas deixem de ser ruins). Quero dizer, você estudou o nascimento de uma mentira e estudou o tanto de mal que ela causou, e continua acreditando nela. Na verdade, um historiador conhece vários dos inúmeros movimentos religiosos que surgiram, e nos quais as pessoas acreditavam com igual fervor, como pode pensar “mas essa aqui é que é certa”? Todas, atuais e extintas, são igualmente pobres em evidência.

É igual a biólogo criacionista, médico que fuma, analista de sistema que cai em site de phishing, e por aí vai. You should know better.

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