Alguém me diz como faz pra incluir o Computações Anômalas no paquete?

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Quem Gosta de Liberdade de Expressão?

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Será que alguém gosta de verdade?

Vou começar com uma piada. Cretina, mas serve para ilustrar a  questão, eu prometo:

O pirata novato, em seu primeiro dia na tripulação, pergunta ao outro pirata: “Mas afinal, nós vamos ficar meses em alto-mar, sem nenhuma mulher por perto… Como vocês costumam fazer para aliviar a vontade sexual?” E o outro pirata responde “Ah, é só ir lá naquele barril e enfiar o seu pinto no buraquinho. Experimente, é uma delícia”. O pirata foi, e achou uma sensação deliciosa aquele buraquinho, sensacional, poderia aguentar a viagem numa boa daquele jeito. E foi ao barril novamente no dia seguinte, no outro, e no outro… Até que chegou segunda-feira, e ele acordou sendo carregado pelos outros piratas para o convés. “Ei, o que está acontecendo?” Pergunta o pirata novato. “Hoje é seu dia de ficar no barril”.

E o problema da liberdade de expressão? É que só se é a favor dela até chegar a vez de ficar no barril. É como democracia, no fundo ninguém gosta muito. O cristão, que vive reclamando da mordaça do politicamente correto, só aceita liberdade de expressão enquanto não diz nada desagradável sobre a religião dele, e de preferência que também não ofenda a moral e os bons costumes, porque afinal, liberdade de expressão tem limites, os limites deles. Para parecer razoável, até diz que as outras religiões também tem direito de se expressar. Nossa, quanta gentileza! E os ateus? Ah, tudo bem, contanto que se expressem entre si apenas. Inclusive, são cheios de protestos contra a doutrinação nas escolas, mas são cheios de querer meter a bíblia no meio das apostilas. Professor de biologia dar aula de criacionismo, aí sim é liberdade de expressão. Só que liberdade de expressão por conveniência não merece ser assim chamada. Se nunca é sua vez de ficar no barril, então você não é à favor dela.

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Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza

 

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Estamos vivendo tempos tumultuosos, bárbaros, ao menos em relação com o que nos permitimos acostumar no passado recente. Mais um atentado terrorista na Europa, como de costume uma cortesia da “religião da paz”, e dessa vez na Inglaterra. No Brasil, a nauseante sucessão de reviravoltas da crise política culminou em manifestantes comunistas fazendo protestos truculentos em Brasília, pagos por entidades sindicais, depredando ministérios e até mesmo iniciando incêndios, para reclamar depois que a polícia não foi suficientemente delicada. Reacionários idiotas pedem um novo golpe militar, e a CUT trata de providenciar justificativas. É, as pessoas estão perdendo as estribeiras. A violência está voltando à política de nosso país. Para quem quiser manter a sanidade nestes tempos de barbárie e tentar ver algum sentido, resta estudar, e procurar os autores sensatos. Não, o problema no mundo não é falta de amor: Falta no mundo inteligência, falta razão.

O que não falta ao cientista cognitivo norte-americano Steven Pinker, que em 2011 lançou  Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Como a violência diminuiu. Este é o livro da minha vida. O deleite que tive ao ler as páginas de Pinker, com seu estilo denso, detalhado e preciso, mas tão claro quanto possível, me auxiliaram tremendamente a lidar com uma das piores e mais longas crises depressivas de minha vida. Os Bons Anjos reacendeu meu interesse por história, que eventualmente me levou a cursar uma faculdade de história na qual estou, reacendeu também meu gosto pela leitura (praticamente todos os meus gostos estavam mortos quando estava nesse período), não só a ler mais do mesmo autor, mas de outros que escrevem assuntos correlatos. E não seria exagero dizer, Pinker ajudou a moldar meu caráter, mesmo bem depois da maioridade, suas análises desafiaram minhas noções de ética e meu entendimento de mundo, é o tipo de autor que força você a fazer uma reavaliação dos conceitos.

O título é ousado pois a opinião comum é que o mundo nunca esteve tão violento. Balela. “Tempos áureos” é uma ilusão. As chances de qualquer pessoa em qualquer lugar no mundo sofrer uma morte violenta ou sofrer qualquer tipo de violência – como um roubo, um estupro, ser torturado e executado por pequenos crimes ou recrutado para lutar numa guerra – aumenta quanto mais se volta tempo, assim como também é notável que a sociedade era menos sensível à violência e pouco prezava pela paz.

Claro que Pinker foi acusado de ser uma Poliana, ingenuamente otimista, de ver a atualidade de um jeito muito pink (desculpe, não resisti ao trocadilho), de achar que paz equivale a shoppings com ar condicionado… E pode ter certeza que a grande maioria destes críticos não leram o livro, ou leram sem fazer o menor esforço de entender. Criticar é válido, sempre, mas não com total ignorância do que se está falando.

Pinker não é um “positivista”, que acredita num rumo comum que todas as civilizações seguem, um progresso rumo à paz que seria tão inevitável quanto a entropia do universo. Pelo contrário: Sua análise retrata a paz com um fruto conquistado às duras penas pela civilização. Custou um tanto de sorte. E apesar do mundo, como um todo, estar bem menos violento do que no passado, mesmo em relação a 100 anos antes, não é de maneira alguma homogeneamente pacífico, óbvio, e nem é esta tendência irreversível. Nós temos, sim, motivos para temer com revezes como os dessas últimas semanas. Mas não para nos desesperar.

As análises sociológicas de Pinker são embasadas por rigorosos estudos estatísticos, valendo-se de dados sobre homicídios no mundo todo de séculos atrás, elaborando sua teoria também com base em relatos históricos, da literatura, de achados da arqueologia… Ele não dá ponto sem nó. Ao contrário do que outros críticos disseram, fazendo a imortal falácia ad-hominem, Pinker não acha que o mundo se restringe ao seu confortável ambiente acadêmico norte-americano,  ele não ignorou ou menosprezou a violência nos países em desenvolvimento, mas procurou entender o que deu errado neles e o que poderia ser feito para melhorar.

Não se preocupe, o livro não é extremamente complicado, e não precisa ser bom em matemática para entendê-lo, ou eu mesmo não teria entendido, mas precisa de atenção. O mérito do autor é ter se baseado  em ciência. Sim, ele pode ter cometido equívocos (e num estudo desse tamanho, dificilmente não se comete erros), e ninguém jamais deve estar imune à críticas. Mas definitivamente estes possíveis erros não foram por desonestidade, ou por nem estar tentando trabalhar sério, ou seja, por falta de uma metodologia rigorosa. E o que não falta por aí são análises sociais baseadas em achismo. Mas para os rabugentos, achismo é o que vale, só o fato de se basear em números, ainda que parcialmente, já é um erro. Comentou o Pondé :”Mesmo a “estatística do bem” só convence quem crê em estatística aplicada a seres humanos. ” Claro, Pondé, estatísticas são uma besteira, vamos interpretar a sociedade de acordo com a bíblia, como você julga mais correto, isso sim é inteligente.

Recomendado a todos que se interessam por história, psicologia, sociologia… Pensando bem, recomendado a todos  que queiram algum motivo para compreender com lucidez nosso mundo, sem cruzar os braços num cômodo derrotismo, ou tolo de achar que tudo vai se resolver pela bondade de deus.

Título original: THE BETTER ANGELS OF OUR NATURE
Tradução: Bernardo Joffily
Laura Teixeira Motta
Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio
Adriano Guarnieri / Máquina Estúdio
Páginas: 1088
Formato: 16.00 x 23.00 cm
Peso: 1.380 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 28/03/2013
ISBN: 9788535922325
Selo: Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13271

 

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Insensatez

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Eu tenho uma pior: Vamos resolver a crise política derrubando o governo e começando do zero

Desculpe, o post de hoje será sem muito estilo, no calor do momento, não estou muito inspirado. Não é um bom momento. Nem para mim, nem para ninguém. Não há motivo para comemorar nada, e nada bom virá para este país no futuro próximo.

Eu estava feliz que o país estava melhorando um pouquinho, até o desemprego teve uma leve queda. De leve. Mas já era algo. Pelo menos estava estável, e estabilidade é algo bom por si só. Investidor perde o tesão pra botar dinheiro num país instável, só sobram os loucos. Ninguém tem paz, ninguém dorme. Eu acreditava que o Temer, por mais que não fosse nenhuma maravilha, tivesse pelo menos um pouco mais de cérebro que seus antecessores. Talvez cérebro tenha, mas certamente caráter não, nem manha de queimar todas as evidências como o Lula fez.

E o resultado disso é mais um trauma político para o Brasil, mais uma ruptura. E é diferente do que foi com o impeachment da Dilma: Os petistas estavam se cagando para o tamanho da roubalheira e que país estar indo para a fossa com a incompetência da baranga: O governo sendo de esquerda é o que importa, Dilma foi endeusada, seus opositores demonizados. No meu caso, e de quaisquer outras pessoas sensatas, eu não tenho absolutamente nenhuma simpatia por Temer (alguém, além da Marcela, tem?), mas temo pelo meu país. O Brasil é como uma criança vendo sua mãe se divorciar do segundo marido, desculpe se a comparação é tosca.

Eu apoio o movimento MBL e me considero um liberal de verdade, mas desde que comecei a me engajar com o movimento, devo dizer que estou abismado com o nível de vários dos participantes: Viúvas da ditadura, gente sonhando com um novo golpe militar, gente querendo derrubar o governo com uma revolução e começar tudo de novo, gente querendo derrubar o governo e não colocar nada no lugar, afinal isso deu tão certo na Somália… Minha nossa. Eu não sei por que dividiram o espectro político em quatro se no final na direita são todos os mesmos reaças de sempre. Eu sou liberal de verdade. Quem defende soldado marchando na rua, prendendo gente sem habeas corpus e censurando a imprensa não é liberal, é como puta se chamando de casta. Eu aqui não estou me referindo ao Kim Kataguiri, Fernando Holiday e outros dirigentes, contra os quais eu não tenho nada contra, mas a alguns dos militantes que eu tive o (des)prazer de conhecer. Pra mim de nada adianta liberdade econômica sem liberdade civil. Não adianta eu poder comprar os livros que quiser se “os livros que eu quiser” forem determinados por algum governante, que vai decidir quais são subversivos demais para o gado. Aliás, tão “liberais” os nossos militares que barraram a importação de eletrônicos para obrigar os brasileiros à comprar as tranqueiras da indústria nacional. Acordem, idiotas, os militares teriam proibido o Uber no mesmo dia e mandado prender os motoristas.

Não, o caminho para estabilidade política no Brasil não vai ser fácil, e não há bons candidatos à vista. Não sei em quem vou votar, vou no menos pior. O caminho lento ainda é melhor. Pedir pro exército entrar e fazer uma revolução (ou golpe, chamem do que quiser, foda-se) é uma ideia BURRA. Acreditar que milico vai respeitar um prazo e sair do poder depois dele, deixando a casa arrumada para a democracia, como uma empregada obediente, é uma ideia BURRA. O número de países em que revolução armada deu um bom resultado é infinitamente menor do que o de países em que a revolução só levou o país à mais tragédia. E por favor, não me venham com essa ladainha de “ai, minha vó viveu a ditadura e falou que foi tudo muito bom”. Ok, também tem um monte de gente que diz que o período do governo Lula foi maravilhoso, mas eu não sou tonto pra acreditar.

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“Arte” Moderna: Um Infiltrado Entre As Bacantes

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Como já narrei, agora faço um curso de história em uma universidade brasileira (que por aqui chamo Universidade de Gothan). O curso não é sem prazeres, mas também não é sem moléstias, e uma delas é a cota de horas de atividades complementares que todo aluno é obrigado a fazer até a graduação, atividades que podem incluir peças teatrais.

Vi que estava em cartaz a peça Bacantes de Eurípedes no Teatro Oficina em São Paulo. Cinco horas e meia de peça. Eu já esperava ser uma merda, mas cinco horas e meia me ajuda bastante a bater a minha cota. Fui à peça. E não me enganei, é uma bosta retardada mesmo. Mas não me arrependi, valeu pelas horas. E por este post.

O meu integrador acadêmico, o Lamar, é um esquerdista pós-modernista e já se disse fã do Zé Celso. Então é claro que não serei louco de falar mal da peça no relatório. Mas tenho vontade de falar mal. Então, farei uma espécie de caixa-dois: Aqui no blog, vai minha verdadeira opinião. Para o senhor Lamar, vou escrever o que ele quiser ler. E ainda vou escrever completamente bêbado.

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Greed is Good?*

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Por que é tão difícil fazer as pessoas gostarem do capitalismo? E mesmo quando trocamos capitalismo pelo eufemismo livre mercado, que não é incorreto, mas é quase a mesma coisa, continua difícil. Os argumentos da direita, seja a direita conservadora ou liberal, parecem intragáveis para muitas pessoas, mesmo os argumentos mais moderados, por mais sólidos e embasados que sejam. Ora, é verdade, o livre mercado não apenas cria desigualdades, mas multiplica riqueza. Um “pobre” de hoje em dia está infinitamente melhor do que um pobre que vivia o capitalismo incipiente do século XIX, tendo acesso inclusive a bens de consumo que nem os ricos do mesmo século teriam, como antibióticos. O estado natural do homem não é a abundância, como pregava Rousseau, mas a pobreza, a escassez e a necessidade. O capitalismo, com todos os seus defeitos, se provou o sistema econômico mais eficiente, no sentido de que ele gera abundância, e não só para algumas poucas pessoas. As grandes empresas do século XX, em sua grande maioria, prosperaram não atendendo nichos, mas com produção em massa, com bens que podem ser adquiridos por um imenso contingente populacional. De certa forma, nos países industrializados o capitalismo deu tão certo que hoje precisamos lidar com os excessos causados por sua eficiência, como o excesso de calorias tornando pessoas obesas (e pobres obesos, quem imaginaria?!),  excesso de carros, excesso de lixo…. A busca do lucro também é um gás fantástico para a inovação, e mais ainda para inovações voltadas ao consumidor, coisas inimagináveis um século atrás hoje são acessíveis a milhões, e até mesmo a bilhões… Eu não falo apenas de bens de alto valor agregado e relativamente caros, como smarphones, mas mesmo um item simples como uma torradeira ou uma lâmpada seria impossível ou ridiculamente caro, não fosse uma imensa e descentralizada rede de produção globalizada. E um livro? Quanto custava um livro antes da invenção da brochura, e popularização e barateamento do formato, graças a editoras pioneiras como a Penguin Books? Quando um estudante comunista compra sua edição do O Capital de Marx num sebo por 10 reais, não faz ideia de quanto capitalismo foi necessário para sua leitura… Então, por que todo esse ressentimento com a economia de livre mercado?

Os defensores do livre mercado são babacas pra caralho

Eu realmente espero não estar entrando nesse rol… Mas enfim. Agora até que está melhorando, com blogs como o Spotinks, que recomendo muito, nada babaca, ou só de leve. Mas uma grande (enorme!) parte dos defensores ferrenhos do livre mercado parecem ser parte de uma seita religiosa, uma “Igreja Universal da Mão Invisível”. Isto é, não se contentam, como eu, em dizer que soluções de livre mercado na maioria das vezes são mais eficientes, e devemos favorecê-las primeiro, incentivar o empreendedorismo, e não intervir quando tudo está correndo bem. Não, tem que dizer que a lógica de livre mercado é absolutamente infalível, o mercado jamais deixa ninguém na mão, o mercado sempre dá um jeito de atender todo mundo, e tudo que o empresariado faz acaba sendo para o bem da população de uma maneira ou de outra, ele trabalha de forma misteriosa… Se você citar qualquer um dos inúmeros contraexemplos, ele vai retrucar que você não entendeu direito e precisa ler Mises, e fim de papo.

Em especial os libertários parecem ter esta fé quase religiosa. Eu me considero um liberal realista. Eu sei que apesar do mercado ser eficiente atender às necessidades de um grande número de pessoas, afinal, ele quer vender para o maior número de pessoas, sempre vai ter gente de fora. Encaremos a verdade, não fosse pela educação pública, muito mais gente seria analfabeta hoje em dia, porque a família não teve dinheiro para pagar nem a escola mais barata, ou teve dinheiro e preferiu gastar em outras coisas. Ainda mais se fosse num “fantástico” mundo anacap sem assistência social, ou com uma assistência social privada, que é engraçado só de imaginar. E não fosse pela saúde pública, ainda mais gente ia morrer por falta de atendimento. Saúde particular não é essa coca cola toda, e mesmo sistemas públicos de saúde e educação como os do Brasil, tão imperfeitos, decididamente são melhores do que nada, para quem não pode pagar por coisa melhor, e são passíveis de melhoria. Mas pressione o bastante um libertário radical, e eventualmente ele vai confessar que quer que se foda se alguém for morrer na rua por falta de atendimento, dizendo que fazer a população toda pagar por saúde é uma forma de roubo e de escravidão, e que na verdade se você for pobre, tem mais é que se foder. E mais, que na verdade, se você for pobre, você é preguiçoso, pois preguiça é a única explicação possível para a pobreza. Você consegue ter simpatia por um cara desses? Nem eu.

Encarando a realidade, sempre vão haver coisas que os empresários poderão fazer para ferrar todo mundo, sem consequências para si. Sim, temos um excesso de regulamentações no Brasil, e regulamentações ineficientes… Vocês sabem do que eu estou falando. É bem verdade, uma grande parte da razão do esquema de corrupção investigado pela operação Carne Fraca (os vegetarianos e veganos devem estar até estourando champanhe com as notícias) é pelo modelo de capitalismo clientelista do Brasil, crony capitalism, em que umas poucas empresas amigas do governo prosperam, enquanto o microempresário pena com a burocracia impeditiva, os altíssimos encargos, e obrigações trabalhistas, muitas das quais são inúteis. Eu disse muitas, não todas. Liberdade de mercado não tem nada a ver com deixar um chefe humilhar o funcionário se achar que isso o fará mais eficiente, permitir que ele obrigue o funcionário a trabalhar 48h seguidas, e muito menos deixar que as empresas fiquem completamente à vontade para incluir o que quiserem na composição dos seus produtos, até mesmo coisas perigosas que consumidor nenhum gostaria de consumir… O caso do papelão na carne é grave, mas alguém realmente acha que haveria menos  escândalos como esse abolindo todas as legislações sanitárias e permitindo às empresas colocarem o que quiserem em seus produtos, sem ter que prestar contas a ninguém? Parece contra-intuitivo? É mesmo.

Meritocracia não é regra

Sem dúvida, temos uma sociedade em que mobilidade social é possível, muito mais do que países que seguiram o rumo do socialismo, como na Coreia do Norte e Cuba (eu realmente não quero entrar na discussão se isso é comunismo de verdade), mas ainda assim, nascer mais rico inquestionavelmente torna a vida mais fácil em qualquer país, ainda mais em um país com educação deficitária, como o Brasil. E sorte ainda vale muito: Há muita gente que ganha fortunas por sorte, com pouco ou nenhum trabalho, por inventar um joguinho de celular ridículo que vira febre por algumas semanas (lembra do Flappy Bird?) ou fazendo um vídeo tosco que viraliza no YouTube, compondo uma letra de funk grotesca…

Mas meritocracia deve ser uma coisa boa, porque as pessoas que reclamam da meritocracia, na verdade, estão reclamando da nossa sociedade não ser mais meritocrática ainda. No livre mercado, as pessoas só se importam com o valor do que você produz, e cada um dá valor para o que quer, e eventualmente, dão muito valor à besteiras, paciência. Para produzir valor, esforço e inteligência contam muito, sem eles pode-se inclusive perder uma fortuna. Veja quantos ex-BBBs ganharam uma bolada com o prêmio do reality show mas hoje estão na merda… O sistema de livre mercado é enorme, caótico, possui muitos fatores em jogos, muitas relações possíveis. Por mais que tenha sido, de longe, o sistema que mais criou riquezas no mundo, não há como alguém honestamente garantir que ninguém sai perdendo neste jogo, que ninguém será injustiçado e todos os malfeitos serão punidos automaticamente pelo próprio mercado.

O livre mercado não precisa ser venerado

Apesar de haver muitos devotos de São Mises ou da Santa Ayn Rand, este é um fenômeno relativamente novo e ainda pequeno, o livre mercado é apenas o que o nome diz: Um sistema que surge naturalmente, no qual pessoas não relacionadas, que não se interessam muito pelo bem umas das outras, trocam bens e serviços de forma voluntária e egoísta, por interesses próprios. Em seu cerne, é um sistema econômico apenas, não uma doutrina política, uma ideologia, que requeira adesão, muito menos veneração. Muitas das pessoas que participam ativamente no mercado nem lembram que esta palavra existe. Inclusive, você pode ser bem sucedido no capitalismo enquanto odeia o capitalismo, pode até mesmo fazer dinheiro, pilhas de dinheiro, falando e escrevendo contra o capitalismo, como Marilena Chauí, com suas palestras de 8000 reais em que esculacha a classe média. O capitalismo tolera a hipocrisia. Em quantos países comunistas é possível sequer continuar vivo criticando abertamente o comunismo?

Não só não requer adoração, como nem sequer requer gratidão. Até porque relações egoístas, como as que ocorrem em livre mercado, são exatamente aquelas pelas quais as pessoas não sentem gratidão. Você trabalhou um tempão para, por exemplo, comprar aquela linda TV de 50 polegadas e poder assistir o Netflix em 4K no conforto de sua sala. Ou comprou um celular novo, ou uma camisa nova. Comprou com dinheiro que ganhou trabalhando. Você se sentiria realmente devendo gratidão a alguém após sua compra, sendo que ninguém lhe fez favor algum? Sim, é verdade, essa TV é o fruto de uma longa cadeia de produção global e de um processo de desenvolvimento da ciência e da tecnologia movido por interesses egoístas, blá blá blá, mas esse sistema não te deu de presente. Não é natural sentir que se deva gratidão num sistema de trocas egoístas como esse, por isso soa meio estranho quando os liberais e libertários dizem que você deveria se sentir grato ao sistema pelo seus bens materiais, e não estou criticando. A apologia ao capitalismo deve ser de uma forma sóbria, não emocional.

O capitalismo não é um sistema baseado em doações benevolentes, mas em trocas voluntárias e egoístas. Não deveríamos valorizar e defender os empresários, investidores e outros “capitalistas” por benevolência nem por simpatia às suas pessoas, mas avaliá-los de forma fria e utilitária, ou seja, com a forma de avaliação do próprio mercado: Ele produz mais e melhor do que num sistema de economia planificada, ou em qualquer civilização pré-industrial, e nos oferece uma vida muito mais agradável do que seria sem ele. É duro aceitar isso, mas muitas das melhores coisas do mundo são fruto do trabalho de egoístas buscando dinheiro, não de ideólogos altruístas, e muito menos de políticos. As propostas políticas, pelo contrário, facilmente entram na psicologia popular como favores, pelos quais se fica devendo gratidão, e votos. Fica difícil competir com este apelo emocional dos políticos populistas, sejam da direita ou da esquerda.

Mesmo os problemas sociais que surgem num país com liberdade econômica têm muito mais chance de serem resolvidos dentro do contexto de um país democrático e economicamente livre do que com qualquer revolução radical. A esquerda adora citar os países escandinavos e o Canadá como exemplos de países com socialismo que funciona, mas raramente lembram que estes países já eram bastante ricos quando começaram as reformas sociais, e até hoje são alguns dos mais liberais economicamente, com menos burocracia, menos normas inúteis e sem uma penca de entidades de classe e sindicatos (alguns de afiliação obrigatória) e direitos trabalhistas absurdos como os do Brasil, como o “direito” de “contribuir” uma parte de seu salário para um esquema de pirâmide, com a promessa do Estado cuidar de você na velhice, e o “direito” não opcional de receber o seu salário em 13 prestações, ao  invés de doze.

* A frase do título, de forma gramaticalmente correta, seria “Is Greed Good?”, mas eu não resisti deixar daquela forma, apesar de equivocada, para ficar mais parecido com a fala do personagem Gordon Gekko

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