ética, filosofia, Humano, sociedade

Gordofobia

758a8f9e85483805e2c5c316ff7ba5c7

Quem lembra da série de TV Lost? Esta série marcou o início de um renascimento dos seriados de TV na década passada. Uma trama densa, repleta de detalhes e simbologias à lá Dan Brown, entregue em longas temporadas com episódios sequenciais. As séries de TV que mais faziam sucesso nos anos 90, como Arquivo X, eram principalmente em episódios “soltos”, que podiam ser assistidos sem depender muito de saber o que tinha acontecido nos anteriores, às vezes com uma curta recapitulação antes de cada episódio. A popularidade de Lost se deveu à algumas novidades tecnológicas do século XXI, como a popularização dos DVDs, que eram compactos e baratos o bastante para as pessoas comprarem e guardarem em casa ocupando muito menos espaço de prateleira do que seria em VHS, além de serem muito mais resistentes ao desgaste (leia-se: não mofavam). Este é o tipo de obra que não dá pra perder episódios e ter uma experiência satisfatória. E assistindo mais de uma vez o mesmo episódio, pode-se pegar detalhes. Com a internet já popularizada, os fãs podiam se reunir em fóruns de debate na internet e discutir o significado de todos os acontecimentos.

O personagem Hurley era um dos mais divertidos da série. Mesmo que você não tenha visto Lost, já deve ter percebido pela imagem deste post o porquê. Com obesidade grau 3, no linguajar endocrinológico, ele frequentemente servia de alívio cômico, e era um dos principais alvos de piada do sem-noção Sawyer. Era sim um cara muito útil, e importante para o desenrolar da trama, também com suas qualidades de caráter. Uma das teoriasnão assisti até o fim, desculpe mais aceitas de Lost quando estava em seu auge era que a ilha era uma espécie de purgatório, e os personagens lá estavam para serem testados, para provarem ou não serem capazes de se redimir.

O vocalista Charlie, por exemplo, era viciado em heroínaeu nunca entendi por que ele comia heroína, e não injetava, uma droga potente, que causa aos usuários uma onda de euforia e relaxamento incomparável à qualquer outra coisa no mundo. Já ouviu de alguém que anestesia para endoscopia é a sensação mais orgástica do mundo? É um “parente”, o propofol. Em dado momento, Charlie acha estátuas de santas na ilha, com saquinhos de heroína dentro. E poderia ter recaído, não fosse a intervenção do personagem John Locke. E o Hurley é viciado em comida. Que não é um vício simples, nem pouco danoso.

Como funcionam as drogas? Muitas delas, como morfina, seu derivado de alta potência, a heroína, e as formas sintéticas (mas não a cocaína, que tem um mecanismo diferente) imitam alguma substância natural, endógena do corpo. Endorfina originalmente significa “endogenous morphine”, morfina endógena. O seu corpo produz endorfinas em resposta a estímulos satisfatórios, como após uma longa corrida, uma relação sexual, uma refeição muito saborosa. A mente registra uma experiência como boa quando há uma grande descarga de endorfina no sistema límbicoa dopamina, pelos estudos mais recentes, parece estar mais ligada à expectativa de prazer do que ao prazer em si. Um mecanismo evolutivamente perspicaz: Leva organismos a fazerem mais coisa que os levam a viverem mais e se reproduzirem mais, passando adiante os genes com estas mesmas inclinações. Uma anomalia na produção e transmissão de endorfinas podem ter a ver com o transtorno obsessivo-compulsivo: A pessoa não tem o sinal de “saciedade” ao completar uma tarefa, como lavar as mãos. A morfina e seus derivados são um “cheat code”, imitando a estrutura molecular das endorfinas ela ativa os receptores para endorfinas, e uma ativação muito mais intensa e prolongada. Prazer puro, destilado, e sem complicações.

E a comida? A comida que a gente adora, aquelas frituras transbordando de sebo, picanha com gordura na borda, chocolates pra levar a sua glicose pra estratosfera… Eram impensáveis para o homem primitivo e seus ancestrais mais primitivos ainda. Seguro dizer que ninguém morria de diabetes tipo 2 nas cavernas. O pouco de gordura e açúcar disponível na natureza era fundamental para sobreviver, e era difícil e perigoso de obter, um mecanismo biológico de recompensa foi necessário para levar o hominídeo a arriscar a pele caçando um mamute ou roubando favos de mel da colmeia, e era bom que a recompensa fosse grande.

Por muitos séculos, calorias foram raras para a maioria dos homens. Até a industrialização, a economia de mercado e as novas técnicas agrícolas do século XX. Atualmente, milhões ainda passam fome. Mas mesmo nos países pobres, calorias são baratas para muita gente.

19029221_1686990407995817_8663623104416741266_n

O post tá dando fome? Que tal um lanche leve para não engordar? Cortesia do meu querido Zangado

E aquelas substâncias que os homens das cavernas se matariam para obter em uma minúscula quantidade? Um monte dela, toneladas dela, no McDonalds ou na barraquinha de lanches da esquina, ou do tio Zangs. O seu sistema límbico, que faz parte da região mais primitiva do cérebro, pouco se importa com o contexto. Você grita e esperneia numa montanha russa mesmo sabendo que está seguro. E se delicia com um hambúrguer mesmo sabendo que aquilo não te faz bem, mas o sistema límbico é indiferente e te dá prazer, muito prazer. De muitas maneiras, é melhor que as drogas. Praticamente todas as drogas de abuso provocam tolerância, o usuário tem cada vez menos prazer com o uso contínuo, e começa a procurar drogas só para sanar os sintomas de abstinência. Com comida, e especialmente com “porcaria”, não tem tolerância, hambúrgueres e brigadeiros continuam sendo deliciosos sempre. Caso se enjoa de uma comida, há sempre muitas outras opções. Podemos culpar quem se vicia nessa maravilha? O Izzy acha que sim.

Sobre as modelos plus size, quando foi lançada a classificação, se bem me lembro, era bem diferente: As modelos plus size nas passarelas só não eram esqueléticas. O padrão da beleza na moda costumava ser não só só irreal, mas patológico, e não foram poucas as meninas que até morreram tentando chegar nele, diria que o protesto contra isto era justo. E sinceramente, você realmente acha linda uma mulher que é só pele em osso? Podia servir para vender roupa de grife, mas não sei se a maioria dos homens heterossexuais acham realmente linda uma mulher que não só é magra, mas excessivamente magra.

Mantendo tudo mais constante, o que parece bonito às pessoas são sinais de saúde. Corpos desproporcionais são feios. Os nossos instintos são sábios ao suspeitarem que uma pessoa muito magra ou muito gorda não é saudável. E não dá pra reprogramar o que as pessoas acham bonito ou não. Não é, portanto, a mídia que ensina às pessoas o que elas devem achar bonito, como os panacas foulcaultianos pensam, na verdade são as pessoas que se atraem por esta ou aquela característica e determinam o que querem ver. As modelos plus size do começoplus size raiz? eram muito bonitas, em minha opinião. Mas esta aí que arrumou treta no avião… Sério, que gorda escrota. Tão grande quanto o Hurley, mas sem um pingo do carisma do personagem, barraqueira e intrometida. Retrato perfeito do politicamente correto e seus guerreiros.

Eu mesmo sou bem paranoico com questões de privacidade. Se uma figura dessas tira fotos das mensagens privadas que eu estou trocando durante um voo e depois vem tirar satisfação comigo, sou capaz de dar um soco na cara da infeliz justiceira social. Agora não só temos que respeitar os gordos, temos que nos refrear de achar obesidade algo ruim, feio ou insalubre, fazer de conta que está tudo bem em nome da autoestima. Se antes o padrão de beleza nas passarelas era doentio e irreal, o que os justiceiros sociais querem por no lugar é doentio e irreal também. E ai de quem discordar, mesmo que em privado!

baleia azul

Certa feita, alguém mandou essa imagem pro grupo de WhatsApp da minha turma da faculdade, e os “lacradores de plantão” começaram a reclamar da gordofobia no grupo. E pior que eles eram magros.

Mas o Izzy é escroto pra caralho em uma parte de sua argumentação. Existem duas atitudes que um gordo pode tomar quanto à críticas e deboches à sua forma física:

  • “Você é preconceituso, gordofóbico preso à padrões de beleza do sistema capitalista! Não existe peso saudável, existe saúde para todos os pesos, saúde é relativa, beleza é relativa também, todo mundo tem sua beleza, e uma pessoa de 150 quilos também é linda…” queima pós-modernista de merda.
  • “Sou gordo mas isto é problema meu, não me enche o saco, é o meu corpo e não é você que paga minha comida, e nem estou pedindo pra você dar pra mim. E mais: Sou gordo mas posso emagrecer. E você, que é feio?” Perfeito, faça assim.

Claro que o Izzy tira a velha carta do “a sua obesidade influencia indiretamente nos custos da saúde pública” o que eu responderia com um curto e grosso foda-se. É com esta frase que se justifica cercear toda e qualquer liberdade. Tudo influencia indiretamente nos gastos públicos. O problema do estado babá não é só que ele toma dinheiro de todo mundo para pagar certos serviços, mas ele achar que por isso tem o direito a tutelar a vida privada de seus indivíduos, e os serviços oferecidos pelo mercado, para eles não serem onerosos ao sistema público, como foi em São Paulo com a grotesca lei que proíbe refil de refrigerante em lanchonete. Mas sempre têm as ovelhinhas bem comportadas que se põe a balir em favor das regulamentações “bééé, é para o bem de todos, béééé”, como aqueles que aceitaram de bom grado até a imposição do bizarro padrão de tomadas brasileiro em nome da segurança, e aceitam que o Estado diga o que é bom ou não para você e tutele a sua rotina.

E pior ainda: Acham que isso é motivo para importunar as pessoas. O cara no avião estava só falando privadamente com um amigo dele sobre a gorda do lado, ele não estava a humilhando ou ofendendo de maneira alguma, nem a obrigando a perder peso, e nem estava incomodado com o simples fato dela ser gorda, mas da banha dela estar invadindo o espaço da poltrona dele.  Mas há alguns que vão bem mais longe que o cara. Desconfie sempre desse tipo de gente, o valentão com boas intenções: Vou encher o saco do gordo pelo bem da saúde dele. Eu absolutamente não sou a favor de impedir estas pessoas de se expressarem e serem escrotas na vida digital e fora dela, isto é, de impor sanções legais à elas, deixe a lei fora dos debates, mas eu também sou livre para expressar quanto elas são desprezíveis.

As pessoas sempre trocam saúde por prazer, e tomam escolhas de vida pouco saudáveis em nome de outras coisas. Ninguém diz a um estudante que vara noites sem dormir estudando a matéria de seu curso que ele é um burro ou irresponsável por estar destruindo a sua saúde e bem-estar emocional desse jeito, podem até criticar o jeito que está levando a vida, mas sempre com muita gentileza e compreensão, ele é um exemplo, só exagera um pouquinho. Você pode detonar a sua saúde só se for produtivo, fazê-lo por prazer não pode, é imediatamente taxado de burro e execrado, como é com os fumantes, não basta que eles não possam fumar do seu lado e obrigá-lo a respirar a fumaça tóxica, é preciso também deixar claro que são a escória da humanidade. Até o tempo que os pais passam em companhia dos filhos, que não faz mal algum à saúde, precisou se “gourmetizado”, apelidado de “tempo de qualidade”, para as pessoas terem o direito de passar o tempo com os filhos, só pode se for de alguma forma produtivo.

E a escolha? O Izzy diz que todo mundo é livre para ser gordo ou não, que ninguém é coagido a comer demais ou a fazer exercício de menos. Bem, num sentido de liberdade, sim, você é livre, e é esta a liberdade que o Estado viola ao impor leis dizendo que a lanchonete não pode te deixar encher o copo gratuitamente. Isto basta, esta liberdade “virtual”, quando uma pessoa mentalmente sã faz algo sabendo o que está fazendo sem violar o direito de terceiros, e é capaz de entender as consequências. Mas poderia dizer que nenhum gordo é digno de alguma compaixão ou simpatia por sua forma física, ou mesmo digno de ser deixado em paz? Assim como os “zumbis” da cracolândia tem que ser deixados para morrer na sarjeta e ninguém precisa ter pena, porque escolheram aquilo, como muitos pensam? Ou que uma mulher que engravidou por não usar contraceptivos deve ser obrigada a levar a gravidez até o fim, e bem feito? Essa linha de pensamento é correta?

Eu não defendo essa babaquice. Por obséquio, pelo menos seja um babaca autêntico, não um babaca que diz “é para o seu próprio bem”. Falando apenas dos gordos, quantas coisas não interferem para alguém ser obeso? Não, eu não acredito neste absurdo de “livre-arbítrio”, liberdade derradeira e absoluta que independe das circunstâncias. Mesmo que a gordice não seja justificada por causas genéticas que alterem a função metabólica ou coisa que o valha, tem mais por trás… A pessoa nasceu sem receber educação sobre alimentação saudável, ou tem um autocontrole baixo, que não dá conta de frear os impulsos primitivos que clamam por mais gordura ou açúcar, ou detesta fazer atividades físicas,   ou a comida é uma ótima válvula de escape para certas frustrações… Ou ela simplesmente gosta!

Você pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quiser. A política do bullying público de gordos não me parece nada legal, vamos fazer você fazer um merda de indivíduofat shaming até você começar a fazer exercícios e comer menos. E se eu não quiser? Eu mesmo sou gordo. Não peço a ninguém que faça de conta que a minha condição física é saudável, muito menos que achem minha barriga bonita, e tão pouco peço para alguém se abster de fazer memes sobre o assunto. Piada é piada, gordos estão perdendo o senso de humor e isto é um problema. Mas eu não sou obrigado a perder um tempo do meu dia correndo numa esteira ou levantando ferro porque alguém acha que é meu dever, não amigo, minha consciência não vai pesar por isto. Ah, e se uma série de TV faz um personagem gordo simpático, mas sem apontar os problemas disso? Deixe. Arte com responsabilidade social é um saco.

Na verdade, não só as pessoas aporrinham os gordos que não se preocupam em emagrecer, mas aqueles que não querem emagrecer de uma maneira tradicional, difícil. Vá à seção de comentários de qualquer notícia falando de algum novo remédio para emagrecimento, como o Saxendaque eu uso e só não recomendo por infelizmente ser muito caro ou sobre lipoaspiração, que você verá o comentário dos magros rabugentos “humpf, e academia que é bom nada, né?”. Claro, senhor magro azedo, agora eu tenho que fazer tudo da maneira mais dura, espartana, porque você não se conforma que eu faça de uma maneira mais fácil mesmo pagando do meu bolso. As pessoas tem vidas chatas e corridas, mas sempre vem um rabugento dizendo que você é obrigado a deixá-la pior ainda: Ir segunda de manhã para o trabalho é uma merda, e você deveria também ir de bicicleta, para chegar cansado e suado à reunião. E também deveria trocar o elevador pela escada e o controle da garagem pelo controle manual em nome da balança, e não pode ter uma refeição deliciosa em nome da dieta. Vigilantes do peso, por gentileza, se conformem em vigiar o próprio peso.

Anúncios
Padrão
Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.1 – Ferramentas Padrão de Navegação: Intuição

fallout-4-special-perks-chart

Qual a medida do verossímil?

Toda obra de ficção é uma espécie de truque de mágica. Tal como o ilusionismo de palco, ela suprime alguns elementos da realidade, mas tudo bem, contato que até o final do ato o espectador permaneça entretido. Ele desconsidera estas pequenas fugas e permite-se imergir naquele universo, na famosa suspensão voluntária de descrença. Pela licença artística, podemos perdoar alguns detalhes inverossímeis, podemos nem perceber, ou perceber e desconsiderar: Por que os romanos falam inglês? Como aquelas crianças dos filmes do Spielberg conseguem percorrer tão grandes distâncias de bicicleta? Por que os astronautas têm iluminação dentro do capacete? Como Nathan Drake consegue tomar tantos tiros durante o jogo Uncharted e não morrer? E como os personagens de Streets of Rage conseguem se recuperar de ferimentos, e não morrer de intoxicação alimentar, comendo sanduíches e maçãs do lixo? Por que Tony Montana não teve uma overdose no final de Scarface?

Ficção não é realidade, afinal, e certas convenções são necessárias para contar histórias em qualquer mídia. Algumas destas quebras da realidade só os chatos nerds percebem, mas outras saltam aos olhos de qualquer um. A qualidade geral da obra parece influenciar mais no que vamos perdoar. Quando o filme/game/livro é bom, só os nerds se dão ao trabalho de encontrar defeitos, ainda que seja para por defeito e mesmo assim continuar dando valor para a obra, ou mesmo pensar em teorias para justificar a falha. Podemos admitir e ignorar alguns elementos fantásticos, mas exigimos coerência interna: Ok, eu admito que no universo deste game, você pode ser salvo da morte por um item mágico. Mas então por que no Final Fantasy VII Aeris morre definitivamente no final do disco 1? Os outros não poderiam ter dado um phoenix down para ela?

aerith-death-43518

E peço desculpas pelo spoiler.

Mesmo em uma série tão “maluca” quanto Hora da Aventura, maluca em comparação com o nosso mundo, existe uma coerência interna muito grande, uma vez que se vai a fundo, você sabe que os personagens são capazes de fazer algumas coisas mas não outras. Em Gravity Falls, o sobrenatural funciona de uma forma tão precisa que é praticamente ciência.

Mesmo os apreciadores mais casuais não perdoam tudo em nome da liberdade artística, não senhor, suspensão voluntária de descrença é criteriosa, e certos absurdos fazem a obra parecer tosca. Aceitamos o irreal, mas não o inverossímil. Então, mesmo dentro de um universo fantasioso, existe algum critério que determina como o mundo deve funcionar, qual o lugar de cada coisa e como elas devem interagir. Nossa capacidade de distinguir o que vale e o que não vale, e no fundo é a mesma que usamos para interpretar e prever a nossa realidade. Às vezes a realidade pode até parecer irreal.

Continuar lendo

Padrão
filosofia, Humano

Qualia 1: Mente e Corpo, qual é a dificuldade?

 

spect c0

O post de hoje é tão especial que estou o ilustrando com uma foto minha de verdade, só desta vez.

“Os anos 90 são chamados de a década do cérebro. Mas nós provavelmente nunca teremos uma década do pâncreas”, escreveu Steven Pinker em Como a Mente Funciona. Mas por que não? O pâncreas é um órgão complicadíssimo, como todos os demais do corpo humano, uma peça central do sistema endócrino, desempenha diversos papéis no metabolismo. E muitas pesquisas são feitas sobre ele, afinal, doenças do pâncreas, tais como o diabetes, provocam o sofrimento de milhões de pessoas. Steve Jobs morreu de um câncer no pâncreas. E se conseguissem criar um pâncreas artificial? Seria formidável. Ainda assim, não parece que o órgão seja interessante o bastante para suas pesquisas cativarem o público geral, muito menos marcar uma década, como foi o cérebro e sua ciência nos anos 90, com seus exames de neuroimagem avançadíssimos mostrando o que há de disfuncional nos cérebros dos esquizofrênicos e dos psicopatas, e sugerindo como poderíamos estimular o cérebro dos bebês para torna-los mais inteligentes e criativos no futuro (e talvez evitar que se tornem esquizofrênicos ou psicopatas). Nem o fígado, o estômago, ou o baço parecem ter o mesmo “carisma” e o mesmo apelo midiático do cérebro…

Afinal, eles não pensam.

Nosso senso comum parece tratar o cérebro como algo especial porque enquanto todos os outros órgãos, nossos e dos outros animais, desempenham funções apenas, o cérebro abriga ou faz ponte com a consciência, e seu funcionamento, atrelado à consciência, é especial, praticamente sagrado, intimamente ligado à identidade pessoal. Consciência aqui não é no sentido de “bússola moral” ou senso de certo e errado, como em “esses políticos corruptos não têm consciência”.  Consciência é a experiência interior, subjetiva, o “filminho na sua cabeça”, aquilo que se perde temporariamente ao dormir ou desmaiar. Consciência não é qualia. Mas consciência sem qualia não é consciência.

Continuar lendo

Padrão
filosofia, Humano

Qualia: Introdução

descartes_mind_and_body

Ontem à noite, durante uma aula vaga, sentei-me em um banco de concreto numa praça em minha universidade para fumar cachimbo e ler enquanto ouvia música. Tinha adquirido saboroso tabaco cavendish de minha marca favorita, Captain Black. O fumar me trazia prazer, e este certamente tinha uma causa mais complexa que a enxurrada de dopamina que a nicotina provocava no sistema de recompensa de meu cérebro. Era tudo, o sabor peculiar daquele tabaco, o fato dele queimar bem, de forma homogênea, a visão das lufadas de fumaça. Não saberia dizer se obtive prazer “bruto” ou uma “sensação bruta” de degustar tabaco, independente dos outros fatores que conhecia e apreciava, e estou certo de que alguém que não gostasse de fumar detestaria experimentar uma baforada do melhor tabaco que fosse, assim como alguém que estivesse mais preocupado do que eu com seus efeitos nocivos à saúde. Será a sensação anterior e separada do julgamento?

A música também era fabulosa, desta vez escolhi uma excelente playlist: A trilha sonora do jogo GTA: Vice City, especificamente da rádio V-rock. Adoro rock e adoro heavy metal, e possuo saudosas lembranças deste clássico que tanto joguei em minha adolescência. Por mais premiada que tenha sido a trilha sonora, não diria com certeza que ela me comprazeria tanto se não lembrasse com tanto carinho do jogo. E definitivamente não me comprazeria nada se não amasse o estilo (eu não escolhi, por exemplo, a rádio Espantoso, de música latina, do mesmo jogo). Mas então, o que é essa experiência musical que fazia parte de minha experiência consciente? Poderia esta ser independente dos julgamentos e lembranças que a acompanham? O que exatamente se passaria em meu cérebro enquanto este decodificava os estímulos sonoros?

Falando de meu cérebro, como este conseguia se ocupar de tantos estímulos diferentes e ainda assim me permitir manter a atenção nas letras de meu Kindle? E quantos estímulos! Não só os que eu mesmo introduzia para tornar minha experiência mais agradável – e surpreendentemente a música intensa não prejudicou a leitura, pelo contrário –  mas também não prestei atenção por muito tempo na forma e cor da folhagem das árvores ao meu redor, a textura e falta de conforto do banco ou das pedras no chão, ou das vozes das pessoas próximas ou ao longe, e mesmo outros estímulos mais sutis, como a textura de minhas roupas contra minha pele, e a temperatura e umidade do ar, provavelmente estavam sendo percebidos em algum momento, apesar de eu não estar  notando. Ou estava? De que forma foi decidido quais fenômenos ficariam em primeiro e segundo plano?

Outros pensamentos foram passando em minha mente (onde?), que logo eram afastados (por quem?) para retomar meu foco na leitura. Dentre estes pensamentos, se não estava incomodando as outras pessoas com o fumo. Afinal, considerei (inconscientemente?) que eram pessoas de alguma forma similares a mim, e que também sentem prazer e desprazer com certas coisas no ambiente, e muitos não gostam do aroma e fumaça de tabaco. Não gosto de ser desagradável, ao menos não com quem julgo ter alguma similaridade fundamental comigo mesmo, eu provavelmente não me importaria em incomodar robôs. Mas deliberei, enfim, que estava em uma das poucas áreas do campus em que é permitido fumar, que provavelmente eram fumantes também, e não precisariam ficar lá se não quisessem.

Este e outros devaneios ocorreram principalmente de forma não verbal, não exatamente recitando frase por frase para mim mesmo, mas numa espécie de linguagem interna. E tudo isso enquanto, de alguma forma, absorvia as palavras e as organizava em significados, primeiro de um livro, depois troquei por outro, resultado de alguma somatória de deliberações psicológicas, que também não apreciei conscientemente. Outras opções sem dúvida estavam latentes e querendo ter vez para controlar o sistema: E se eu voltasse à sala e fosse ver o meu amigo que também foi à toa naquele dia? Ou se eu escrevesse no blog? Ou voltar aos trabalhos da faculdade? Ou conversar com um amigo no Telegram?

E estas memórias, onde estão? Este texto, por mais que me dedique à ele, é um mero vestígio de um evento que aconteceu ontem, e que já não existe mais, que já é passado, como uma notícia de um jornal antigo, falando sobre algum acidente de carro, que não teve grandes repercussões, sendo que não existe mais nem o carro nem as pessoas envolvidas do acidente. Um exemplo exagerado: Claro que a minha memória é mais recente, e provavelmente as outras pessoas da praça ainda estão vivas, e talvez lembrem do cara do cachimbo. Está viva alguma coisa em minha mente (e nas deles) que alude àquele lugar naquela noite…, mas do que se trata este “algo”, esta memória?

Essas pessoas que eu me lembro e digo que estão em minha consciência agora, essa praça, o banco, eles não têm massa, nem temperatura, nem propriedade física alguma. Meras representações, como um filme. Mas certamente algo bem diferente do que seria um arquivo de vídeo num computador. Não é algo que pode ser exibido diretamente (não dá para ligar um projetor no meu cérebro) e ainda que estas sensações apareçam para mim de alguma forma, restam dúvidas: Para mim quem, exatamente? E onde exatamente estas imagens e sons estão se passando? Algum projetor interno numa tela interna então? E de que forma estão gravadas no meu cérebro?

É bem distante de um arquivo de vídeo ou de uma película, pois minha lembrança é bem limitada: Lembro que não estava sozinho, que estava escuro, que havia algumas pessoas… Sem dúvida eram mais de 2 e menos de 50, e também não tinha ninguém que eu conhecesse por lá (ou tinha?), tampouco alguém tocando clarineta ou fazendo tricô. Mas se você me perguntar exatamente quantas pessoas tinha, e que tipo de roupas estavam usando, ou mesmo quais cores de roupas estavam usando, eu não saberia dizer, independente dessas informações terem sido recebidas por meu cérebro em algum momento. Então, se não tenho essa informação, minha mente completa a cena, criando roupas e outros detalhes para cada um? E se tinha alguém que eu conhecesse em meu campo visual, mas não percebi porque estava atento ao livro, eu realmente vi este alguém?

Agora no Computações Anômalas eu inicio a série Qualia, em que vou compartilhar o que já estudei e refleti sobre filosofia da mente e neurociência. Não tenha pressa, não vou escrever as próximas partes tão logo, não só porque tenho outras tarefas, mas porque qualidade é melhor que quantidade, e eu quero estudar o máximo possível antes de escrever. E pretendo deixar a coisa mais leve e didática o possível, usando obras da ficção e histórias como a deste post como base para os paradoxos do qualia. Dedico-me bastante, sou aficionado, mas o que eu sei, admito, é pouco, e não me arrogo como dono da verdade, por mais que eu tenha zelo ao escrever, posso errar. A seção de comentários é livre. Espero que possa servir para despertar o seu interesse por este assunto. O ser humano é o objeto de estudos mais fascinante e misterioso de todos.

 

Padrão
ética, filosofia, história, Humano, Política, sociedade

Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza

 

13271_gg

Estamos vivendo tempos tumultuosos, bárbaros, ao menos em relação com o que nos permitimos acostumar no passado recente. Mais um atentado terrorista na Europa, como de costume uma cortesia da “religião da paz”, e dessa vez na Inglaterra. No Brasil, a nauseante sucessão de reviravoltas da crise política culminou em manifestantes comunistas fazendo protestos truculentos em Brasília, pagos por entidades sindicais, depredando ministérios e até mesmo iniciando incêndios, para reclamar depois que a polícia não foi suficientemente delicada. Reacionários idiotas pedem um novo golpe militar, e a CUT trata de providenciar justificativas. É, as pessoas estão perdendo as estribeiras. A violência está voltando à política de nosso país. Para quem quiser manter a sanidade nestes tempos de barbárie e tentar ver algum sentido, resta estudar, e procurar os autores sensatos. Não, o problema no mundo não é falta de amor: Falta no mundo inteligência, falta razão.

O que não falta ao cientista cognitivo norte-americano Steven Pinker, que em 2011 lançou  Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Como a violência diminuiu. Este é o livro da minha vida. O deleite que tive ao ler as páginas de Pinker, com seu estilo denso, detalhado e preciso, mas tão claro quanto possível, me auxiliaram tremendamente a lidar com uma das piores e mais longas crises depressivas de minha vida. Os Bons Anjos reacendeu meu interesse por história, que eventualmente me levou a cursar uma faculdade de história na qual estou, reacendeu também meu gosto pela leitura (praticamente todos os meus gostos estavam mortos quando estava nesse período), não só a ler mais do mesmo autor, mas de outros que escrevem assuntos correlatos. E não seria exagero dizer, Pinker ajudou a moldar meu caráter, mesmo bem depois da maioridade, suas análises desafiaram minhas noções de ética e meu entendimento de mundo, é o tipo de autor que força você a fazer uma reavaliação dos conceitos.

O título é ousado pois a opinião comum é que o mundo nunca esteve tão violento. Balela. “Tempos áureos” é uma ilusão. As chances de qualquer pessoa em qualquer lugar no mundo sofrer uma morte violenta ou sofrer qualquer tipo de violência – como um roubo, um estupro, ser torturado e executado por pequenos crimes ou recrutado para lutar numa guerra – aumenta quanto mais se volta tempo, assim como também é notável que a sociedade era menos sensível à violência e pouco prezava pela paz.

Claro que Pinker foi acusado de ser uma Poliana, ingenuamente otimista, de ver a atualidade de um jeito muito pink (desculpe, não resisti ao trocadilho), de achar que paz equivale a shoppings com ar condicionado… E pode ter certeza que a grande maioria destes críticos não leram o livro, ou leram sem fazer o menor esforço de entender. Criticar é válido, sempre, mas não com total ignorância do que se está falando.

Pinker não é um “positivista”, que acredita num rumo comum que todas as civilizações seguem, um progresso rumo à paz que seria tão inevitável quanto a entropia do universo. Pelo contrário: Sua análise retrata a paz com um fruto conquistado às duras penas pela civilização. Custou um tanto de sorte. E apesar do mundo, como um todo, estar bem menos violento do que no passado, mesmo em relação a 100 anos antes, não é de maneira alguma homogeneamente pacífico, óbvio, e nem é esta tendência irreversível. Nós temos, sim, motivos para temer com revezes como os dessas últimas semanas. Mas não para nos desesperar.

As análises sociológicas de Pinker são embasadas por rigorosos estudos estatísticos, valendo-se de dados sobre homicídios no mundo todo de séculos atrás, elaborando sua teoria também com base em relatos históricos, da literatura, de achados da arqueologia… Ele não dá ponto sem nó. Ao contrário do que outros críticos disseram, fazendo a imortal falácia ad-hominem, Pinker não acha que o mundo se restringe ao seu confortável ambiente acadêmico norte-americano,  ele não ignorou ou menosprezou a violência nos países em desenvolvimento, mas procurou entender o que deu errado neles e o que poderia ser feito para melhorar.

Não se preocupe, o livro não é extremamente complicado, e não precisa ser bom em matemática para entendê-lo, ou eu mesmo não teria entendido, mas precisa de atenção. O mérito do autor é ter se baseado  em ciência. Sim, ele pode ter cometido equívocos (e num estudo desse tamanho, dificilmente não se comete erros), e ninguém jamais deve estar imune à críticas. Mas definitivamente estes possíveis erros não foram por desonestidade, ou por nem estar tentando trabalhar sério, ou seja, por falta de uma metodologia rigorosa. E o que não falta por aí são análises sociais baseadas em achismo. Mas para os rabugentos, achismo é o que vale, só o fato de se basear em números, ainda que parcialmente, já é um erro. Comentou o Pondé :”Mesmo a “estatística do bem” só convence quem crê em estatística aplicada a seres humanos. ” Claro, Pondé, estatísticas são uma besteira, vamos interpretar a sociedade de acordo com a bíblia, como você julga mais correto, isso sim é inteligente.

Recomendado a todos que se interessam por história, psicologia, sociologia… Pensando bem, recomendado a todos  que queiram algum motivo para compreender com lucidez nosso mundo, sem cruzar os braços num cômodo derrotismo, ou tolo de achar que tudo vai se resolver pela bondade de deus.

Título original: THE BETTER ANGELS OF OUR NATURE
Tradução: Bernardo Joffily
Laura Teixeira Motta
Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio
Adriano Guarnieri / Máquina Estúdio
Páginas: 1088
Formato: 16.00 x 23.00 cm
Peso: 1.380 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 28/03/2013
ISBN: 9788535922325
Selo: Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13271

 

Padrão
Educação, filosofia, história, Humano

Devo Fazer Um Curso de Humanas?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, principalmente para adolescentes que estão fazendo o ensino médio. E se eu tivesse uma resposta perfeita, certeira para todo mundo, eu talvez tivesse um milhão de dólares. Acho que não chego a isto, mas posso desfazer algumas confusões das pessoas sobre cursos de humanas, não só para adolescentes que querem fazer seu primeiro curso superior, mas para profissionais que já se formaram em outra coisa e pensam em uma segunda graduação, que é meu caso.

Continuar lendo

Padrão
filosofia, Humano, sociedade

Assexualidade

2000px-asexual_flag-svg

Desde os polêmicos estudos de Alfred Kinsey nos anos 50, muito se estudou e se discutiu sobre sexo e sexualidade humana. Em todo mundo discutiu-se sobre a homossexualidade e o que ela significa, o que faz os gays serem gays, como a sociedade deveria encarar a homossexualidade e como o Estado e a lei deveriam tratar os homossexuais. Eventualmente, homossexualidade deixou de ser crime, na maior parte do mundo (no Texas, só em 2003). E separou-se sexualidade de gênero: O travesti e o transexual mereceram suas próprias letras na sigla do movimento, eventualmente o bissexual ganhou sua letra também, a sigla cresceu, cada vez maior, de GLS para GLBTT, e esta já deve estar desatualizada agora. Em momentos diferentes, todas as minorias sexuais foram ganhando seus merecidos direitos civis, em alguns lugares mais do que outros. Homossexualidade não só deixou de ser crime, como deixou de ser considerada doença (mas transexualidade não). Especialistas sérios e farsantes discutiram e ainda discutem interminavelmente sobre as questões do sexo, o que seria sexo bom, o que torna uma boa trepada, quais as dinâmicas interpessoais entram em jogo na cama, e incontáveis manuais de autoajuda foram redigidos sobre como enlouquecer o parceiro ou parceiro na cama. Falou-se e escreveu-se muito sobre taras, sobre o que se passa na cabeça dos sadomasoquistas, se pessoas com este ou aquele fetiche foram vítimas de mães e pais repressores, se deveríamos tratar pedófilos como doentes ou criminosos … Foram décadas de pesquisa, debate, e militância. Mas um grupo ficou de fora, como se não existisse: O daqueles que não têm interesse em fazer sexo com ninguém. O próprio Kinsey reconheceu a existência deste grupo, os assexuais, marcados com um X em sua famosa escala da sexualidade humana, mas todo mundo que falou e escreveu sobre sexo no restante do século XX praticamente ignorou a existência desta minoria, que só começou a ser reconhecida no século XXI, e eventualmente surgiu até um pequeno movimento, com cores, uma bandeira e com seus símbolos, como o bolo.

Continuar lendo

Padrão