Educação, filosofia, geek, internet

Sci-Hub, as publicações acadêmicas, e aprendendo a citar

sci-hub_rabe_buecher

Sci-hub foi uma das descobertas mais quentes que eu fiz este ano. Comentei no final do meu post sobre o Kindle, mas o assunto merece um post próprio. É um site de distribuição gratuita – “pirataria” – de artigos acadêmicos, que fez a alegria de estudantes e pesquisadores de todo mundo, que não podiam acessar artigos que precisavam pelo alto custo e burocracia. Mas antes, acho que convém falar o que exatamente é um artigo acadêmico e como funcionam as publicações e a divulgação científica… Neste post, também vou dar algumas dicas básicas para você que é estudante e precisa fazer citações no seu trabalho, aprenda a fazer bonito. E com o sci-hub, fontes não vão faltar…

Continuar lendo

Anúncios
Padrão
Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.1 – Ferramentas Padrão de Navegação: Intuição

fallout-4-special-perks-chart

Qual a medida do verossímil?

Toda obra de ficção é uma espécie de truque de mágica. Tal como o ilusionismo de palco, ela suprime alguns elementos da realidade, mas tudo bem, contato que até o final do ato o espectador permaneça entretido. Ele desconsidera estas pequenas fugas e permite-se imergir naquele universo, na famosa suspensão voluntária de descrença. Pela licença artística, podemos perdoar alguns detalhes inverossímeis, podemos nem perceber, ou perceber e desconsiderar: Por que os romanos falam inglês? Como aquelas crianças dos filmes do Spielberg conseguem percorrer tão grandes distâncias de bicicleta? Por que os astronautas têm iluminação dentro do capacete? Como Nathan Drake consegue tomar tantos tiros durante o jogo Uncharted e não morrer? E como os personagens de Streets of Rage conseguem se recuperar de ferimentos, e não morrer de intoxicação alimentar, comendo sanduíches e maçãs do lixo? Por que Tony Montana não teve uma overdose no final de Scarface?

Ficção não é realidade, afinal, e certas convenções são necessárias para contar histórias em qualquer mídia. Algumas destas quebras da realidade só os chatos nerds percebem, mas outras saltam aos olhos de qualquer um. A qualidade geral da obra parece influenciar mais no que vamos perdoar. Quando o filme/game/livro é bom, só os nerds se dão ao trabalho de encontrar defeitos, ainda que seja para por defeito e mesmo assim continuar dando valor para a obra, ou mesmo pensar em teorias para justificar a falha. Podemos admitir e ignorar alguns elementos fantásticos, mas exigimos coerência interna: Ok, eu admito que no universo deste game, você pode ser salvo da morte por um item mágico. Mas então por que no Final Fantasy VII Aeris morre definitivamente no final do disco 1? Os outros não poderiam ter dado um phoenix down para ela?

aerith-death-43518

E peço desculpas pelo spoiler.

Mesmo em uma série tão “maluca” quanto Hora da Aventura, maluca em comparação com o nosso mundo, existe uma coerência interna muito grande, uma vez que se vai a fundo, você sabe que os personagens são capazes de fazer algumas coisas mas não outras. Em Gravity Falls, o sobrenatural funciona de uma forma tão precisa que é praticamente ciência.

Mesmo os apreciadores mais casuais não perdoam tudo em nome da liberdade artística, não senhor, suspensão voluntária de descrença é criteriosa, e certos absurdos fazem a obra parecer tosca. Aceitamos o irreal, mas não o inverossímil. Então, mesmo dentro de um universo fantasioso, existe algum critério que determina como o mundo deve funcionar, qual o lugar de cada coisa e como elas devem interagir. Nossa capacidade de distinguir o que vale e o que não vale, e no fundo é a mesma que usamos para interpretar e prever a nossa realidade. Às vezes a realidade pode até parecer irreal.

Continuar lendo

Padrão
Educação, filosofia, história, Humano

Devo Fazer Um Curso de Humanas?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, principalmente para adolescentes que estão fazendo o ensino médio. E se eu tivesse uma resposta perfeita, certeira para todo mundo, eu talvez tivesse um milhão de dólares. Acho que não chego a isto, mas posso desfazer algumas confusões das pessoas sobre cursos de humanas, não só para adolescentes que querem fazer seu primeiro curso superior, mas para profissionais que já se formaram em outra coisa e pensam em uma segunda graduação, que é meu caso.

Continuar lendo

Padrão
ceticismo, Educação, filosofia, Humano, sociedade

Haverá esperanças para os seres racionais deste mundo? Quando eu vejo o meio acadêmico, que deveria ser um templo da razão, da investigação e debate céticos e imparciais, tornando-se um antro de (não) pensamento anticientífico, politicagem, pós-modernismo e marxismo, onde há pouco espaço para divergência e tolerância, tão pouco abertura ao debate impessoal, eu temo pelo nosso futuro. Talvez estejamos condenados a voltar às cavernas.

Link
Educação, filosofia

Reducionismo Bom e Ruim

architecturediagram_lg

De todas as ideias que já absorvi nas milhares de páginas que já li do cientista cognitivo Steven Pinker, meu ídolo pessoal, uma das mais valiosas, talvez a mais valiosa, é a explicação de que existem dois tipos de reducionismo: Bom e ruim. Em um único capítulo de seu livro Tábula Rasa, ele põe fim, com as frases mais claras possíveis, à uma das maiores confusões epistemológicas do mundo, no meio acadêmico e fora dele.

A ideia do conhecimento em camadas, e o esclarecimento de quais tipos de reducionismo são válidos e quais não são, caso fosse disseminada adequadamente, poderia de uma vez por todas dar fim à esta rixa idiota que existe entre humanas e exatas, que não deveria nunca passar do colegial, e seria melhor ainda se nem começasse. Mas ainda é frequente ver até mesmo pós-graduados em ciências exatas achando que humanas é um vale tudo em que nada é verdade nem mentira, e “o povo de humanas” é um bando de vagabundos esquerdistas maconheiros que vivem da venda de miçangas ou dos pais, e também se ouve muito pessoas de humanas descrevendo, explícita ou implicitamente, os de exatas como sendo psicopatas frios e calculistas, que escolheram exatas porque são incapazes de compreender sentimentos e emoções, e provavelmente nem os têm. Sério, vamos acabar com esta merda? Universidade não é uma gincana do Show da Xuxa ou do Gugu.

Podemos dizer que o conhecimento humano é dividido em camadas de complexidade, empilhadas. Reducionismo é quando alguém tenta explicar na camada x-1 um fenômeno que normalmente é visto pela ótica da camada x. Um dos exemplos mais claros é quando se tenta explicar um fenômeno da psicologia por fatos da biologia. A biologia está um nível abaixo da psicologia, pois ela detalha como funcionam os seres vivos como um todo, enquanto que a psicologia descreve o comportamento e o universo subjetivo interior de uma espécie de ser vivo em especial. Este reducionismo é dos que mais causam tabu, mas não precisaria: A biologia não torna inútil a psicologia por ser anterior à ela, nem é mais verdadeira. Da mesma forma que não faz estas coisas com a medicina.

Reducionismo ruim é quando pesquisadores mau-caráter querem passar esta ideia (esta nova descoberta da neuroanatomia fará você jogar todos os livros de psicologia no lixo!). Também já vi muito este tipo de argumento por parte de niilistas radicais, que querem passar a ideia de que sentimentos humanos são farsas porque podem ser explicados em termos biológicos. “O seu amor, seus sentimentos de carinho? É apenas o seu cérebro se enchendo de oxitocina! Uma farsa, amor não existe, é só oxitocina!”. Não preciso nem dizer o quanto esta explicação (juro que não estou criando espantalhos, realmente existe esse tipo de idiota falando publicamente, mas eu não quero dar publicidade a nenhum deles) completamente idiota, além de se basear em conhecimentos rasos sobre o assunto sobre o qual o sujeito finge para leitor ser um expert, também não explica por que deveríamos parar no nível da biologia, simplesmente a biologia estar no limiar de exatas e não exatas não vale; poderia eu responder ao niilista “a oxitocina é uma farsa! O que existe de verdade é C43H66N12O12S2 !  Árvores não existem, a dura realidade é que toda a floresta é madeira e folhas!

Os níveis superiores de abstração não são mais falsos ou menos rigorosos, eles são necessários para que possamos pensar sobre certos assuntos. Parece ser o novo dogma do MEC decretar que compartimentalização do conhecimento é algo nefasto que deve ser abolido, ou no mínimos devemos usar os rótulos mais genéricos possíveis (parte da agenda de decretar todos os rótulos como sendo coisa feia e ultrapassada), daí veio esta breguice de “ciências da natureza e suas tecnologias” e afins. Compartimentos – ou melhor, camadas – podem não ser linhas precisas, traçadas à laser (por exemplo, existe uma grande intersecção entre química e física) mas nem por isto são inúteis, simplesmente seria impossível pensar a fundo sobre certas coisas sem ignorar os pormenores.

Pense no absurdo: Deveríamos exigir que um dentista se formasse em medicina? Ou que o médico fosse também especialistas em todos os organismos vivos? E claro, pra que parar na biologia? Tente explicar a 2ª Guerra Mundial em termos de quarks e planks. Se for casado e estiver tendo problemas conjugais, vá ver um físico quântico ao invés de um terapeuta de casais. Aliás, a própria física é mais ou menos dividida em duas, a física Newtoniana, inventada no século XVII e válida até hoje, e a física subatômica, que explica fenômenos como eletricidade, luz e afins. Um físico provavelmente acharia esta minha divisão simplória e até grosseira, e me daria inúmeras outras classificações (óptica, termometria, cinemática, elétrica…) mas nenhuma delas anula a outra. A odontologia, por exemplo, é considerada uma disciplina separada da ciência que estuda o resto do corpo humano, talvez por razões históricas, mas mesmo assim ela funciona perfeitamente bem, e isto não é um fato desprezível.

O que não pode, é claro, é uma camada entrar em contradição com a anterior, a noção de dente de um dentista invalidar o que se sabe a respeito do dente pela medicina. Um dos dois tem que estar errado, e normalmente é a camada de cima. O reducionismo bom é o que vem desfazer estas confusões. Por exemplo, quando as técnicas de imageamento do cérebro por PET scan, e ressonância magnética funcional, exibiram em tempo real quais áreas do cérebro tinham maior atividade, o cérebro (e por consequência, a mente), deixou de ser uma caixa-preta, como consideravam os behavioristas radicais, e também vimos que ele é muito mais complexo do que a divisão em Id, Ego e Superego de Freud e da psicanálise. Aliás, uma grande parte das teorias freudianas podem ser desmentidas simplesmente observando o cotidiano, simplesmente vivendo: Quase ninguém sente tesão pela mãe nem quer matar o pai, você que está me lendo quase com certeza não, e não porque o seu superego reprimiu este desejo, mas porque ele não existe mesmo, a evolução de nossa espécie não favoreceu o incesto nem o parricídio, e por consequência eles são raros.

Mas psicologia não se resume à psicanálise (e, para ser justo, psicanálise não se resume à Freud), e portanto os neurocientistas não querem aposentar os psicólogos, e os que dizem que querem estão agindo de má fé, fazendo um reducionismo ruim. Ainda precisamos de pessoas que se dediquem exclusivamente à compreensão da mente humana, e é bom que elas se embasem em fatos rígidos.

Para quem é programador, mesmo principiante, o conceito não é novo: Programação é dividida em camadas. Além das chamadas linguagens de baixo nível – Assembly, essencialmente – e alto nível – C++, C#, Java, Python –  uma aplicação também é dividida em camadas – nível de interface gráfica e de aplicação, no mínimo, dentre várias outras disponíveis – e o próprio computador é divididas em camadas. Abra um livro texto de Andrew Tanenbaum ou outro cientista da computação, e verá que as camadas do computador são muito mais numerosas que duas, software e hardware. O sistema operacional, por exemplo, é uma das camadas intermediárias, apesar de ser software. Pense em uma boneca matroska. Mas nenhuma camada é mais verdadeira ou melhor que a de baixo. Nenhum dos softwares que usamos hoje em dia e facilitam enormemente nossa vida existiria se os programadores precisassem programar em código binário, e os usuários só pudessem usar programa em interface de comandos de texto estilo DOS.

Grande parte do desprezo que as pessoas têm sobre humanas é por acharem que porque uma ciência não é exata ela é um vale tudo em que não existe certo ou errado, é tudo relativo. Um preconceito mentiroso: Uma ciência pode ser rigorosa sem ser exata, e este é o caso da filosofia, da psicologia, da história e da sociologia. Para usar apenas uma ciência humana como exemplo, existem convenções de historiadores, e nestes eventos eles são capazes de se comunicar entre si perfeitamente, mesmo advindos de instituições diferentes e mesmo de países diferentes, falam nos mesmos termos contanto que falem a mesma língua (normalmente o inglês). Portanto não, em humanas não é tudo relativo. Não que tudo em humanas seja válido…

Grande parte do motivo das pessoas acharem que ciências humanas é Casa da Mãe Joana é a corrupção do meio acadêmico pela doutrina do pós-modernismo, de charlatões como Foulcault e Baudrillard, doutrina baseada em grande parte nos livros de ficção do escritor esquizofrênico Philip K. Dick. Que são excelentes livros, que originaram filmes fantásticos como Blade Runner e Vingador do Futuro, o problema foram os idiotas fazerem uma filosofia “pra valer” com base neles, que nega o próprio conceito de verdadeiro e falso, certo e errado. Por isso o que vem a cabeça de muita gente, ao ouvir ciências humanas, são os intelectuais (de merda) que aparecem na televisão defendendo criminosos como vítima da sociedade.

Se acha que estou inventando espantalhos, ou generalizando demais, experimente mencionar a um rousseauniano como todos os achados da arqueologia e a teoria da evolução disprovam tudo que Rousseau falou (o homem em estado de natureza ao qual ele se refere nunca existiu, e a vida em estado natural é um inferno, não uma utopia), para ver como ele trata este “pequeno” detalhe como insignificante, e você um ingênuo por achar que isto interfere na “elegância” das ideias de Rousseau. Defender uma ideologia baseada em fatos não verídicos com base em elegância é como insistir em vender passagens para voos em um modelo de avião que sempre cai e acaba em um desastre como o do Chapecoense em todos os voos, ressaltando, em sua defesa, o fato das poltronas serem muito confortáveis. E não se engane, os rousseaunianos não se interessam em Rousseau e ensinam sobre eles apenas para contextualização histórica. E, no fundo, os cursos de filosofia do Brasil estão mais para cursos de história da filosofia.

Mas atenção, os pós-modernistas (e seus asseclas) nunca admitem ser pós-modernistas. Igual aos hipsters. Só que ciências humanas não se resumem apenas ao pós-modernismo, podermos perfeitamente mandar esta porcaria para sua merecida lata do lixo (de preferência junto do marxismo) e as ciências humanas só melhorariam e ganhariam mais respeito com isto.

Update: Agora mesmo, assim que acabei de postar, fiz um reducionismo. Não conseguia escrever nada depois da fórmula da oxitocina, porque ficava tudo em letras pequenas, como 2 no final da fórmula, até o ponto de exclamação ficou pequeno. O WordPress oferece duas interfaces para o usuário: Visual (que lembra um editor de texto como o Word) e HTML, que mostra as tags “feias” que informam ao navegador como exibir as palavras. Tive que ir à interface HTML para ele parar de deixar tudo pequeno depois da fórmula da oxitocina, fechei uma tag, a tag < sub >. Isto não significa que obtive uma grande revelação, que a interface visual que eu estava usando antes é uma grande farsa, uma interface é a pílula azul e a outra a vermelha, e nem que daqui em diante usarei apenas a interface HTML, ou que meus textos seriam melhores se fizesse isto.

Padrão
Educação, filosofia, sociedade

Todo Mundo Deveria Fazer Universidade?

diplomapb

Acredito que não, o diploma de ensino superior é supervalorizado no Brasil, e para muita gente é perda de tempo e dinheiro. E olha que sou formado, e pretendo fazer outra faculdade ano que vem. Mas nem todo mundo é igual a mim (graças à Zeus).

Eu sei que muita gente poderia tirar grande proveito de um curso universitário, colaborando para a própria carreira e também com a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, mas não podem fazer um curso superior por condições econômicas e sociais adversas, e isto realmente é uma lástima, é bom que estas pessoas tenham ajuda. Mas, ao mesmo tempo, sei que muita gente que não fez faculdade provavelmente nem deveria fazer.

Parece que ensino superior é uma coisa “obrigatória” em nossa cultura, as pessoas sentem-se compelidas, em vários círculos sociais, a fazer alguma faculdade, qualquer faculdade que seja, se já forem adultas e não tiverem feito. Se você fala pra alguém que não fez ensino superior, já olham na sua cara tentando adivinhar o que deu errado na sua vida. Se for mulher, vão achar que é porque engravidou na adolescência, se for homem, que era um vagabundo que vivia matando aula pra fumar maconha. Mas este preconceito é injusto e idiota (como a maioria dos preconceitos) e eu não penso que, à priori, tenha que acontecer algo “errado” na vida de uma pessoa para ela não fazer faculdade.

Pense que você é um menino que é bom de mecânica, aprendeu com o pai desde pequeno, fez até um curso técnico no ensino médio, e passou a ajudar o pai na oficina. Mas aí vem os parentes que vão dizer “não, mas você tem que fazer ADM pra tomar conta da oficina quando o pai se aposentar”, independente do pai saber muito bem administrar a própria oficina há décadas e ter passado isso pro filho também.

Aí o rapaz vai entrar numa UniDaEsquina qualquer, dessas instituições de ensino que anunciam cursos como se fosse financiamento de veículo, vai trabalhar o dia todo, e, estressado, à noite, ao invés de poder chegar em casa, jantar, e assistir TV tomando uma cerveja bem gelada, vai ter que ficar sentado na cadeira de uma sala abafada ao som do ventilador que só faz barulho mesmo e também ao som, ainda mais desagradável, do lerolero teórico inútil de algum sujeito qualquer que a faculdade chamou pra dar a matéria, e muitos desses só vão ficar passando e lendo apresentação de PowerPoint.

Claro que você poderia dizer “se tivesse estudado mais na escola, ele poderia ter entrado numa boa faculdade”, mas e se ele preferia trabalhar para ganhar uma grana, ou simplesmente não gostava de estudar? Merece o fogo do inferno por isso? Há pessoas que falam de um jeito que parece deixar subentendido que sim, que quem não gosta (muito) de estudar, e estudar matemática de preferência, é necessariamente inútil e merece a miséria. Discordo enfaticamente. Se simplesmente não ter diploma de ensino superior num país for algo que condene alguém a ser pobre, isto é um sinal de uma economia péssima, não “justiça divina” como alguns idiotas dizem. E nem acho que a sina seja esta no Brasil, não necessariamente. O mecânico faz uma atividade extremamente útil e necessária, assim como o barbeiro, o encanador, o cozinheiro, e tantos outros que não precisaram de diploma de ensino superior para fazer algo útil, e aprenderam mais com a experiência ou com cursos curtos e pragmáticos. Não seria melhor deixar eles relaxarem depois de um dia exaustivo de trabalho?

Aliás, ensino técnico é algo que deveria ser muito mais valorizado na educação brasileira, escolas técnicas não deveriam ser especiais, deveriam ser o padrão. As escolas dos EUA (e outros países desenvolvidos), ao contrário do que muitos pensam, não servem apenas para os alunos serem massacrados por maníacos armados, lá os alunos tem uma disciplina chamada “economia doméstica” que ensina coisas necessárias ao dia-a-dia, e aprendem a dirigir na escola mesmo, não tem a indústria da auto-escola.

Dei o exemplo do curso embusteiro de administração, mas existem muitos outros, e a indústria do diploma no Brasil parece ser sustentada por gente que vai estudar de má vontade e acaba  como um profissional medíocre e endividado. E os cursos de informática, sobre eles eu posso falar por experiência própria: Grande parte deles, em faculdades públicas e privadas, são pura enrolação, você vai concluir o curso (se não estudar muito por conta própria) com conhecimento “avançado” pra fazer um jogo da velha em Java e páginas HTML feias, e o que o mercado vai valorizar mesmo (além da experiência, claro) são certificações como as da Cisco, Microsoft, Oracle, LP 1 e 2 e etc. As faculdades valem mais pelo networking do que qualquer outra coisa.

Pra não dizerem que sofro de complexo de vira-lata, nos EUA também há uma indústria do diploma, ou, como eles chamam “diploma mill” (moinhos de diploma). Muitos são cursos por correspondência com demandas para lá de flexíveis para com os alunos, procurados por pessoas que querem grau superior apenas para ganhar uma promoção no trabalho sem fazer nada, e são completas falcatruas. Outras tentam atrair estudantes de boa fé, mas esses acabam descobrindo, tarde demais, que a tal universidade nem sequer é credenciada para conceder grau. Donald Trump foi dono de um desses moinhos de diploma, a Trump University, que a Justiça do estado de Nova York obrigou a tirar o University do nome. Recentemente, ele concordou em pagar 25 milhões de dólares para encerrar uma longa disputa judicial envolvendo a “universidade” fraudulenta. O sujeito tinha um exército de operadores de telemarketing treinados com uma detalhada retórica maliciosa (lembra Lobo de Wall Street?) para convencer pessoas a entrarem para a Trump University nem que tivessem que vender a própria mãe para pagar o curso, garantia de ficar rico que nem o Trump depois da formatura. Tão diferentes das nossas faculdades de esquina daqui?

Padrão