filosofia, Humano

Não tenho boca e preciso gritar

 

Qual seria a punição mais perversa para um ser humano?

A história antiga e recente mostra toda a funesta criatividade humana em criar meios dos mais sofisticados em causar sofrimento ao outro. Quebrar na roda, queimar dentro de um touro de ferro em brasas, fazer um bode lamber as solas dos pés com sua língua áspera, amarrar um cavalo em cada membro e fazer os animais correrem, despedaçando o sujeito…

Mas digamos que você seja um carrasco, encarregado de torturar pelo maior tempo possível um prisioneiro condenado por crimes graves, mas não pode usar de nada disso que foi citado. Por um motivo ou outro – sérias limitações orçamentárias, ou pressão por grupos de direitos humanos – você precisa inventar o castigo mais cruel possível sem sangue, hematomas, mutilações e, na verdade, até mesmo sem gritos. E precisa durar o maior tempo possível, não pode matar a vítima cedo. O que fazer?

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Educação, filosofia, Humano, sociedade

Arte, Entretenimento e “Alienação”


Acho que todos nós já tivemos um professor comunista chato de galochas, daqueles que acham que toda e qualquer obra de arte que visa o entretenimento é errada de alguma maneira, e talvez nem mereça ser chamada de arte. “Novela?! Alienação, para imbecilizar o povo!”, “Esses Transformers e Batmans e Esquadrões Suicidas: pura propaganda imperialista estadunidense…” Aliás, quer uma dica para pegar um cinéfilo falso, poser? Pergunta o que ele acha do cinema americano. Da forma mais genérica possível, “cinema americano, você gosta?”. Se vier com papinho de que é tudo filme comercial, e arte comercial não é arte de verdade, que só filme argentino que passa em mostra de cinema no Memorial da América Latina é que é arte de verdade…. Nem dê trela pro sujeito. Ou ainda, se quiser embaraça-lo um pouco, lembre-o que O Poderoso Chefão é cinema americano também.

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filosofia, Política, sociedade

Armas: Minha Opinião

 

Eu não tenho problema algum em defender uma posição extrema caso seja esta a posição mais verdadeira. A verdade nem sempre está na opinião mais “diplomática”, que dá um pouco de razão para cada um. Mas na questão das armas – ou melhor, da posse e porte de armas por civis – eu realmente dou um pouco de razão para cada um dos lados da discussão que se inflama sempre que há tragédias como a mais recente, em Las Vegas, em que um homem num quarto de hotel, com uma arma automática, atirou numa multidão em um show, ceifando quase 60 vidas e deixando incontáveis feridos. Eis minha opinião sobre armas, no Brasil e no mundo.

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Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.2 Ferramentas de Navegação Padrão: Linguagem

 

4.002 O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode exprimir todo sentido, sem fazer ideia de como e do que cada palavra significa – como também falamos sem saber como se produzem os sons particulares. Assim se fala sem saber como os sons singulares são produzidos.

A linguagem corrente é parte do organismo humano, e não é menos complicada do que ele.

É humanamente impossível extrair dela, de modo imediato, a lógica da linguagem.

A linguagem é um traje que disfarça o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que não se pode inferir, da forma exterior do traje, a forma do pensamento trajado; isso porque a forma exterior do traje foi constituída segundo fins inteiramente diferentes de tornar reconhecível a forma do corpo.

Os acordos tácitos que permitem o entendimento da linguagem corrente são enormemente complicados

4.014 O disco gramofônico, a ideia musical, a escrita musical, as ondas sonoras, todos mantêm entre si a mesma relação interna afiguradora que existe entre a linguagem e o mundo.

A construção lógica é comum a todos.

Ludwig Wittgenstein: Tractatus Logico-Philosophicus

Nada tão humano quanto a linguagem. Todos os povos conhecidos, por mais primitivos que sejam, têm linguagem, não necessariamente escrita, mas todo os povos falam. Todo humano saudável possui a capacidade do falar, e só os humanos a possuem. Não que o homem sempre tenha tido a linguagem, que não tenha sido homem antes da linguagem, nada disso: Esta capacidade mental, com circuitos cerebrais dedicados, é uma novidade bem recente em termos evolutivos, e sua forma escrita, recentíssima. Mas desde então este novo poder, o poder da língua, absolutamente idiossincrático, confere ao homem um lugar especial no reino animal. Só os homens pensam e falam em símbolos, e de símbolos fazemos línguas. Como melhor definir em uma frase o que faz do homem moderno diferente dos outros animais? Animal racional? Não serve bem. Outros animais têm uma racionalidade mais limitada, mas têm, os outros primatas também podem ser adestrados para tarefas racionais, assim como os famosos pombos de Skinner, e os ratos que todo aluno de psicologia em algum momento de seu curso precisa ensinar a passar por um labirinto e lembrar o caminho, tarefa impossível sem racionalidade alguma. E que tal dizer que é o único animal com cultura? O único com história? Nunca ouvimos falar de um movimento impressionista símio, ou de uma reforma política das abelhas, cujas colmeias são monárquicas desde sempre, sem sinais de revoltas burguesas até o momento. Mas há algo mais primordial: Temos cultura e temos história porque temos linguagem. Nós falamos, moldamos nossos pensamentos em palavras e expressamos aos demais com palavras, que vocalizamos ou escrevemos.

Papagaios e outros pássaros que falam, como araras e cacatuas até mesmo corvos, procure no YouTube apenas repetem sons, como um gravador. Reproduzem, mas não sabem o que significam, nem sabem interpretá-los para aprender as palavras e a sintaxe e aprender alguma coisa. E nossos amigos de 4 patas? O cachorrinho e o gatinho podem expressar seus estados mentais, de diversas maneiras, por exemplo, ele pode expressar seu desejo de comer pegando sua tigela de comida com a boca e levando até você, e fitá-lo com aqueles olhinhos irresistíveis. O que o felpudo não pode fazer é relatar seu estado mental, como colocou David Rosenthal, citado por Dennett1. Você pode não só relatar seus próprios estados mentais, como pode relatar o de outros seres. Só se faz relatos de forma verbal. Você pode expressar seu amor por uma pessoa abraçando-a, beijando-a, mas só pode relatar o que sente para seu crush por palavras, gravando seus nomes na casca de uma árvore com um estilete, mandando uma mensagem no WhatsApp bêbado às 3h da manhã, pilotando um avião e escrevendo a declaração no céu com a fumaça, relatos são sempre verbais. Ora, mas faz diferença? Toda. O que significam palavras, símbolos? O que eles têm de especial e por que só humanos possuem esta faculdade, o que há de diferente em seus cérebros que possibilita tal forma de comunicação? E principalmente, o qualia tem algo a ver com isso?

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Quem Gosta de Liberdade de Expressão?

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Será que alguém gosta de verdade?

Vou começar com uma piada. Cretina, mas serve para ilustrar a  questão, eu prometo:

O pirata novato, em seu primeiro dia na tripulação, pergunta ao outro pirata: “Mas afinal, nós vamos ficar meses em alto-mar, sem nenhuma mulher por perto… Como vocês costumam fazer para aliviar a vontade sexual?” E o outro pirata responde “Ah, é só ir lá naquele barril e enfiar o seu pinto no buraquinho. Experimente, é uma delícia”. O pirata foi, e achou uma sensação deliciosa aquele buraquinho, sensacional, poderia aguentar a viagem numa boa daquele jeito. E foi ao barril novamente no dia seguinte, no outro, e no outro… Até que chegou segunda-feira, e ele acordou sendo carregado pelos outros piratas para o convés. “Ei, o que está acontecendo?” Pergunta o pirata novato. “Hoje é seu dia de ficar no barril”.

E o problema da liberdade de expressão? É que só se é a favor dela até chegar a vez de ficar no barril. É como democracia, no fundo ninguém gosta muito. O cristão, que vive reclamando da mordaça do politicamente correto, só aceita liberdade de expressão enquanto não diz nada desagradável sobre a religião dele, e de preferência que também não ofenda a moral e os bons costumes, porque afinal, liberdade de expressão tem limites, os limites deles. Para parecer razoável, até diz que as outras religiões também tem direito de se expressar. Nossa, quanta gentileza! E os ateus? Ah, tudo bem, contanto que se expressem entre si apenas. Inclusive, são cheios de protestos contra a doutrinação nas escolas, mas são cheios de querer meter a bíblia no meio das apostilas. Professor de biologia dar aula de criacionismo, aí sim é liberdade de expressão. Só que liberdade de expressão por conveniência não merece ser assim chamada. Se nunca é sua vez de ficar no barril, então você não é à favor dela.

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Explicando Alienação com Beakman (e Lester, o ludita)

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Os anos passam, e os marxistas continuam falando da tal alienação com o mesmo tom tenebroso com o qual os cristãos devotos falam de “pecado”. Geralmente remetendo-se ao filme Tempos Modernos de Chaplin como ilustração do suposto problema, o professor marxista lamenta como os trabalhadores das fábricas, ignorantes, passam o dia a fazer tarefas repetitivas para montar coisas que nem eles sabem o que são…

E não se espante se o tal professor (que aqui apelidarei de “Professor Mexerico”) falar deste assunto auxiliado por uma apresentação de PowerPoint projetada na lousa ou em uma tela com um datashow. Que coisa, não? Quanta tecnologia para criticar a especialização de tarefas que possibilita a tecnologia. Afinal, professor Mexerico, saberia o senhor montar, peça por peça, o computador e o projetor que usas para dar aula? Mesmo que se conforme com uma solução mais low-tech, você também provavelmente não saberia fabricar o giz, o apagador e a lousa,  acabaria colando as mãos enquanto tenta montar a madeira, e martelando o dedo também, e perderia tempo que poderia estar dedicando aos seus queridos livros de Marx e Foulcault….

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