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Um Manifesto Contra os Inimigos da Modernidade

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LEMONNIER, Anicet-Charles-Gabriel (1812): “No salão da madame Geoffrin em 1755”.

https://areomagazine.com/2017/08/22/a-manifesto-against-the-enemies-of-modernity/

Um dos ensaios mais inspiradores que li em 2017, recomendo a todos que também gostam do mundo moderno. E acredite: Você gosta, mesmo que não tenha nem pensado nisto. Ela trouxe muito mais do que conforto e luxos, e beneficiou muito mais do que os mais ricos. E você certamente não deseja sua destruição. Nosso mundo tem problemas, muitos. Mas estes problemas só serão resolvidos ou diminuídos com mais ciência, política mais democrática e eficiente, mais liberdade individual e mais liberdade de mercado, não com menos. Não tenho qualquer plano mirabolante de como resolvê-los, não sei como exatamente criar um mundo melhor, e ninguém tem. Mas certamente não será fazendo-o mais ignorante, pobre e autoritário. Infelizmente, muitos sabotadores estão tentando destruir aquilo que foi tão demorado e custoso para a humanidade construir. Estou falando dos conservadores – reacionários – teocratas da direita, iludidos por sua idílica imagem de um passado áureo em que tudo era perfeito, bem como dos esquerdistas pós-modernos que acham que o modernismo falhou e estamos vivendo sua ressaca. Nenhuma dessas ideologias trará nada de bom ao nosso mundo.

Os autores elaboraram um sumário em itens com as ideias centrais do ensaio, que traduzi. Leia abaixo. Caso haja interesse, posso traduzir o texto na íntegra, e ficaria feliz de fazê-lo.

  • A Modernidade, em termos das visões e valores que nos trouxeram fora do feudalismo do período Medieval e nos levaram à relativa riqueza e conforto de que que gozamos hoje (e que está rapidamente se espalhando pelo mundo), está sob ameaça de extremos em ambos os lados do espectro político.
  • Vale à pena lutar pela modernidade se você desfruta e deseja que outros desfrutem dos benefícios de uma existência de primeiro mundo em relativa segurança, e com os altos níveis de liberdade individual que pode se expressar em sociedades funcionais.
  • A maioria das pessoas apoiam a Modernidade e desejam que seus inimigos antimodernos se calem.
  • Os inimigos da Modernidade atualmente formam duas facções discordantes – os pós-modernos à esquerda e os pré-modernos à direita – e no geral representam duas visões ideológicas para rejeitar a Modernidade e os bons frutos do Iluminismo, razão, democracia republicana, Estado de Direito, e o mais próximo do que podemos alegar ser progresso moral objetivo.
  • Parceria esquerda-direita é a ferramenta pela qual eles condenam a Modernidade e continuamente radicalizam simpatizantes para escolher entre duas facções beligerantes de anti-modernismo: Pós-modernismo e pré-modernismo.
  • Uma posição centrista “Novo Centro” é bem-intencionada, representa a política da maioria da população, e não se sustenta. Ela é naturalmente instável e reforça o próprio pensamento que perpetua nosso atual estado do que chamamos pelo termo polarização existencial.
  • Aqueles que apoiam a Modernidade devem apoiar destemidamente e sem referência a diferenças partidárias menores espalhadas pela divisa “liberal/conservador”. A luta perante nós é maior que isto, e os extremos em ambos os lados estão dominando o espectro político usual, para o mal de todos.
  • Pode-se lutar pela Modernidade, e isto é provavelmente o que você já deseja, a não ser que esteja nos grupos periféricos de lunáticos à esquerda ou à
    direita.
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Os Piores Argumentos (supostamente) Contra o Ateísmo

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Uma grande maioria dos cristãos que conheço sequer tentam explicar crença ou colocá-la em termos racionais. “Sei lá, apenas acredito”, é o que eu costumo ouvir, e eu não debato com eles, principalmente porque eles não querem debater. Eu admito que diversos ateus, especialmente os adolescentes, são extremamente inconvenientes, petulantes, e insistem em debater  sobre existência de deus e assuntos relacionados toda hora, não falam de outra coisa, e teimam em começar debates com quem acha esse assunto chato e não quer debater, uma atitude totalmente inadequada no convívio social, que não beneficia ninguém  e acaba por afastar as pessoas do ateu em questão, além de sujar a imagem dos ateus em geral. Mas eu não respondo por todos os ateus.

Confesso que já  fui mais afoito, hoje eu sou mais reservado, apesar de minha descrença não ter oscilado nem um pouco. Ao meu ver, estes cristãos que sequer tentam colocar sua crença como racional, simplesmente acreditam, são honestos. E não entro mais em debates, não muito, porque, francamente, eu não tenho mais muita paciência para discussões, e porque pra mim o assunto já está resolvido; não há absolutamente nenhum motivo racional para crer em alguma divindade, assim como não há motivo para crer em qualquer personagem fictício. A existência de qualquer deus é desnecessária para qualquer compreensão lúcida da história e do funcionamento do mundo, ponto final. Me interesso mais atualmente por problemas que me parecem mais desafiadores, como a consciência.

Mas infelizmente há também os religiosos petulantes, aqueles que são excepcionalmente ruidosos não só quanto à sua fé mas quanto ao seu desprezo pelos ateus, e defendem seu posicionamento com “argumentos” tão toscos que é de se impressionar que ainda são repetidos, mesmo sendo tão fáceis de derrubar, mas é por serem ainda muito repetidos que eu acho interessante falar sobre eles.

Queda Livre

A predileta destes sujeitos é a história do avião caindo. “Quando o avião começa a cair, todo ateu começa a acreditar em deus”. O problema maior não é sequer a falta de evidências quanto ao que se afirma como sendo uma lei (foi feita alguma perícia em caixas-pretas de acidentes aéreos para concluir que 100% dos passageiros ateus se converteram?). Claro que existem alguns ateus que ainda têm uma centelha de dúvida.  O problema maior é que isto sequer é um argumento contra o ateísmo, ou um argumento para a existência de algum deus. A única coisa que se quer dizer com esse reclame é que os ateus não são sinceros quanto à sua descrença, e voltam a crer em momentos desesperadores. Mesmo que fosse o caso de todo ateu não ser sincero consigo mesmo, isto não significa que eles não deveriam ser sinceros, que eles não teriam razão de serem convictos.

E na verdade, o fato de alguém estar em um momento de pânico, quando já se esgotaram todas as possibilidades de se salvar, regredir para a crença religiosa, não necessariamente significa que esta é sua verdadeira crença. Pessoas em situações limítrofes frequentemente perdem a cabeça e fazem besteiras, fazem a coisa menos racional, inclusive em situações mais prosaicas que a queda de um avião, como em acidentes de carros, assaltos e incêndio. E é especialmente fácil regredir quando não se tem mais nada o que fazer, já está tudo perdido mesmo. Quando o avião está caindo, o piloto não está rezando nem ponderando questões metafísicas, está fazendo tudo que puder para salvar a tripulação, porque só ele e o copiloto realmente estão no controle e podem fazer algo. Para os passageiros, tanto faz. Em uma situação pessoal trágica, mas que permite tempo para pensar, como a descoberta de uma doença grave,  quase todo mundo recorre primeiro aos tratamentos clínicos, científicos, e só vão para o curandeirismo ou a “medicina alternativa” (que na verdade são a mesma coisa) quando já não tem mais o que fazer, ou no máximo como complemento ao tratamento médico de verdade. Inclusive os religiosos.

Ateus cagões

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Outro discurso clichê é aquele de que os ateus só são corajosos para peitar o cristianismo, mas nunca tem coragem para peitar o islamismo, e jamais se atrevem a fazem piadas sobre esta religião. Sim, ateus fazem piadas com muçulmanos, inclusive no Brasil. E quem não lembra do trágico caso da revista Charlie Hebdo? Como alguém ainda tem a cara de pau de dizer que os ateus não fazem piada do islamismo depois que alguns foram mortos por fazer?!

E além do humor, vários ateus já criticaram seriamente o islamismo. Um deles é Sam Harris, que em seu livro de 2004 The End of Faith (O Fim da Fé) dedica um capítulo a criticar duramente o islã, e duramente é a maneira correta de tratar o assunto, pois se trata da religião mais perigosa do mundo. Danem-se os politicamente corretos que acham que todas as religiões são lindas e fofinhas e merecem ser respeitadas por igual. E principalmente, danem-se os ateus que acham que temos que criticar todas as religiões por igual, democraticamente. O perigo representado pelo islamismo no mundo é desproporcionalmente maior que o das demais religiões.

Os radicais islâmicos não seguem uma “vertente distorcida” do islã, como apresentadores de jornal adoram dizer, quando não usam da velha falácia do escocês de verdade e afirmam que “não são muçulmanos de verdade”. Isto é como dizer que uma velhinha que faz procissão em Aparecida do Norte não é católica de verdade. Eles são os que a seguem mais fielmente os mandamentos de sua religião, e contam com o apoio tácito de uma considerável parcela dos bilhões de seus correligionários “moderados”. Isto não é motivo para hostilizar o sr. Ahmed da esfiharia, ou a Jade, que vai de véu para o escritório. Isto é, não há justificativa para desrespeitar indivíduos muçulmanos que não fazem nada de errado.

Podemos acreditar que alguém segue uma ideia perigosa, e atacar sua ideia, mas não sua pessoa, não enquanto não faz mal a ninguém. Eu também já acreditei e certamente ainda acredito em muita merda, nem por isso mereço levar uma cuspida na cara. Atacar ideias, com humor ou com discurso sério, não significa atacar a pessoa daqueles que acreditam nela.

É verdade que o cristianismo já foi tão violento quanto, e também é verdade que hoje há relativamente pouca violência cometida em seu nome, por fiéis fanáticos. “O cristianismo foi domesticado”. Aqueles valores que os cristãos de hoje chamam de valores cristãos, aparentemente, os cristãos aprenderam com os iluministas secularistas no século XVIII. Felizmente, a bíblia é um texto muito vago, repleto de ambiguidades, e pode ser interpretado de mil e uma maneiras. O Corão e o Hadith (textos sobre a vida do profeta Maomé, também canônicos para os muçulmanos de todas as vertentes) têm uma linguagem muito mais explícita e menos aberta a interpretações. Não é realista querer abolir o islã, mas ele precisa ser reformado, como outras religiões foram. O que é um grande desafio, pois se trata de uma religião quase impermeável a novidades. Os terroristas muçulmanos de hoje são como católicos do século XIV com armas de século XXI. Não é à toa que muitos ateus não têm a coragem de Sam Harris e se privam de criticar ou ridicularizar o islã.

E como no caso do avião, este argumento falha porque também não é um argumento contra o ateísmo. É apenas um insulto aos ateus em geral, chamando-os de covardes; mesmo que seja verdade que muitos ateus se privam de falar do islã por medo, isto não significa que estejam errados em ser ateus. E não é um insulto justo: Você acha que todo mundo tem o dever de morrer pelo que acredita ou não, que quem não arrisca a própria vida inutilmente por suas crenças não merece ser levado em consideração?

Faço uma analogia: Imagine que no seu bairro haja um sério problema com o tráfico, que ameaça a segurança de todos os moradores. Há trocas de tiro, balas perdidas, o barulho à noite não deixa ninguém dormir, os traficantes têm tão pouco respeito pelos moradores que usam suas casas sem permissão para esconder drogas. Então eu digo pra você “Ah, você odeia mesmo o tráfico do bairro? Quero ver ir lá dar dois tapinhas na cara de um deles e colocá-lo em seu devido lugar!”. Martírio é um valor religioso, não ateu, não nos cobre por isso. Eu não consigo deixar de notar que nas palavras dos cristãos que provocam os ateus dessa maneira está implícito um desejo de poder fazer igual aos muçulmanos…

A Aposta de Pascal

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Esta foi uma famosa apologia ao valor da crença religiosa, elaborado pelo pensador Blaise Pascal. Pascal foi um pensador de genialidade indiscutível, tendo feito contribuições, dentre outras coisas, para a teoria das probabilidades em matemática, e para a mecânica de fluídos em física. Mas, assim como vários cientistas no decorrer da história, ele empregava sua racionalidade plenamente quando estava trabalhando com ciência, e a deixava de folga quando pensava em questões metafísicas caras a si mesmo. Seu argumento contra o ateísmo, como resume a Wikipédia, é o seguinte:

  • se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

É mais vantajoso acreditar em deus. Sem dúvida um argumento mais “elegante” que os outros dois, e um que pelo menos dá pra chamar de argumento sem aspas. Mas ainda está errado, e ainda não é um argumento que defende que os ateus estão errados. Desde quando a vantagem em acreditar em alguma coisa é argumento para a verdade desta coisa? Pode ser mais vantajoso acreditar em Deus, mas isto continuar sendo uma ilusão. Aliás, como eu posso simplesmente passar acreditar em algo que atualmente não acredito por conveniência? Se eu achasse que seria muito bom para mim acreditar na teoria da Terra plana, eu poderia? Aliás, o que significa possuir uma crença? Bem, isto já é assunto para outro post…

Mas a aposta de Pascal também falha ao fazer uma falsa dicotomia. Um devoto católico, Pascal neste argumento parece levar em conta que existem apenas duas possibilidades: Ou se é ateu, ou se acredita em Deus, que seria a possibilidade totalmente segura. Em qual dos incontáveis deuses que já foram inventados? E de qual das incontáveis maneiras de se adorar a deus se teria esta garantia de ganho infinito? Os muçulmanos – do tempo de Pascal e do nosso – são igualmente convictos em sua ideia de deus e suas leis, e não há nenhum parâmetro confiável para ver quem está certo. E se eles estiverem, e neste caso Pascal foi para o inferno por ter sido católico? Existem muitas crenças religiosas no mercado, algumas inclusive com muita história e tradição atrás de si, e todas oferecendo alguma recompensa no além túmulo para os seguidores fiéis, e a maioria prevendo algum castigo para os seguidores de outras religiões. mas seus dogmas não são mutuamente compatíveis. Todas possuem exatamente o mesmo grau de credibilidade, isto é, nenhum. Viva como se deus ou qualquer ordem metafísica não existisse, esta é a única aposta razoável.

Mas se você acredita de todo jeito, “porque sim”, tudo bem. Eu tenho minhas dúvidas quanto à essa coisa de “liberdade religiosa”. Não sou contra uma pessoa ter o direito de seguir acreditando no que quiser sem ser importunada, de forma alguma. Só sou cético quanto a tratar a suposta escolha de religião como se fosse a mesma coisa que escolher comprar um Xbox ou um PlayStation, pensando nos prós e contras de cada um. A maioria das pessoas seguem a religião da família em que cresceram, e continuam seguindo por inércia, porque nunca se deram ao trabalho ou nunca se permitiram considerar que ela pode estar errada.

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Não tenho boca e preciso gritar

 

Qual seria a punição mais perversa para um ser humano?

A história antiga e recente mostra toda a funesta criatividade humana em criar meios dos mais sofisticados em causar sofrimento ao outro. Quebrar na roda, queimar dentro de um touro de ferro em brasas, fazer um bode lamber as solas dos pés com sua língua áspera, amarrar um cavalo em cada membro e fazer os animais correrem, despedaçando o sujeito…

Mas digamos que você seja um carrasco, encarregado de torturar pelo maior tempo possível um prisioneiro condenado por crimes graves, mas não pode usar de nada disso que foi citado. Por um motivo ou outro – sérias limitações orçamentárias, ou pressão por grupos de direitos humanos – você precisa inventar o castigo mais cruel possível sem sangue, hematomas, mutilações e, na verdade, até mesmo sem gritos. E precisa durar o maior tempo possível, não pode matar a vítima cedo. O que fazer?

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Arte, Entretenimento e “Alienação”


Acho que todos nós já tivemos um professor comunista chato de galochas, daqueles que acham que toda e qualquer obra de arte que visa o entretenimento é errada de alguma maneira, e talvez nem mereça ser chamada de arte. “Novela?! Alienação, para imbecilizar o povo!”, “Esses Transformers e Batmans e Esquadrões Suicidas: pura propaganda imperialista estadunidense…” Aliás, quer uma dica para pegar um cinéfilo falso, poser? Pergunta o que ele acha do cinema americano. Da forma mais genérica possível, “cinema americano, você gosta?”. Se vier com papinho de que é tudo filme comercial, e arte comercial não é arte de verdade, que só filme argentino que passa em mostra de cinema no Memorial da América Latina é que é arte de verdade…. Nem dê trela pro sujeito. Ou ainda, se quiser embaraça-lo um pouco, lembre-o que O Poderoso Chefão é cinema americano também.

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Armas: Minha Opinião

 

Eu não tenho problema algum em defender uma posição extrema caso seja esta a posição mais verdadeira. A verdade nem sempre está na opinião mais “diplomática”, que dá um pouco de razão para cada um. Mas na questão das armas – ou melhor, da posse e porte de armas por civis – eu realmente dou um pouco de razão para cada um dos lados da discussão que se inflama sempre que há tragédias como a mais recente, em Las Vegas, em que um homem num quarto de hotel, com uma arma automática, atirou numa multidão em um show, ceifando quase 60 vidas e deixando incontáveis feridos. Eis minha opinião sobre armas, no Brasil e no mundo.

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Qualia 2.2 Ferramentas de Navegação Padrão: Linguagem

 

4.002 O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode exprimir todo sentido, sem fazer ideia de como e do que cada palavra significa – como também falamos sem saber como se produzem os sons particulares. Assim se fala sem saber como os sons singulares são produzidos.

A linguagem corrente é parte do organismo humano, e não é menos complicada do que ele.

É humanamente impossível extrair dela, de modo imediato, a lógica da linguagem.

A linguagem é um traje que disfarça o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que não se pode inferir, da forma exterior do traje, a forma do pensamento trajado; isso porque a forma exterior do traje foi constituída segundo fins inteiramente diferentes de tornar reconhecível a forma do corpo.

Os acordos tácitos que permitem o entendimento da linguagem corrente são enormemente complicados

4.014 O disco gramofônico, a ideia musical, a escrita musical, as ondas sonoras, todos mantêm entre si a mesma relação interna afiguradora que existe entre a linguagem e o mundo.

A construção lógica é comum a todos.

Ludwig Wittgenstein: Tractatus Logico-Philosophicus

Nada tão humano quanto a linguagem. Todos os povos conhecidos, por mais primitivos que sejam, têm linguagem, não necessariamente escrita, mas todo os povos falam. Todo humano saudável possui a capacidade do falar, e só os humanos a possuem. Não que o homem sempre tenha tido a linguagem, que não tenha sido homem antes da linguagem, nada disso: Esta capacidade mental, com circuitos cerebrais dedicados, é uma novidade bem recente em termos evolutivos, e sua forma escrita, recentíssima. Mas desde então este novo poder, o poder da língua, absolutamente idiossincrático, confere ao homem um lugar especial no reino animal. Só os homens pensam e falam em símbolos, e de símbolos fazemos línguas. Como melhor definir em uma frase o que faz do homem moderno diferente dos outros animais? Animal racional? Não serve bem. Outros animais têm uma racionalidade mais limitada, mas têm, os outros primatas também podem ser adestrados para tarefas racionais, assim como os famosos pombos de Skinner, e os ratos que todo aluno de psicologia em algum momento de seu curso precisa ensinar a passar por um labirinto e lembrar o caminho, tarefa impossível sem racionalidade alguma. E que tal dizer que é o único animal com cultura? O único com história? Nunca ouvimos falar de um movimento impressionista símio, ou de uma reforma política das abelhas, cujas colmeias são monárquicas desde sempre, sem sinais de revoltas burguesas até o momento. Mas há algo mais primordial: Temos cultura e temos história porque temos linguagem. Nós falamos, moldamos nossos pensamentos em palavras e expressamos aos demais com palavras, que vocalizamos ou escrevemos.

Papagaios e outros pássaros que falam, como araras e cacatuas até mesmo corvos, procure no YouTube apenas repetem sons, como um gravador. Reproduzem, mas não sabem o que significam, nem sabem interpretá-los para aprender as palavras e a sintaxe e aprender alguma coisa. E nossos amigos de 4 patas? O cachorrinho e o gatinho podem expressar seus estados mentais, de diversas maneiras, por exemplo, ele pode expressar seu desejo de comer pegando sua tigela de comida com a boca e levando até você, e fitá-lo com aqueles olhinhos irresistíveis. O que o felpudo não pode fazer é relatar seu estado mental, como colocou David Rosenthal, citado por Dennett1. Você pode não só relatar seus próprios estados mentais, como pode relatar o de outros seres. Só se faz relatos de forma verbal. Você pode expressar seu amor por uma pessoa abraçando-a, beijando-a, mas só pode relatar o que sente para seu crush por palavras, gravando seus nomes na casca de uma árvore com um estilete, mandando uma mensagem no WhatsApp bêbado às 3h da manhã, pilotando um avião e escrevendo a declaração no céu com a fumaça, relatos são sempre verbais. Ora, mas faz diferença? Toda. O que significam palavras, símbolos? O que eles têm de especial e por que só humanos possuem esta faculdade, o que há de diferente em seus cérebros que possibilita tal forma de comunicação? E principalmente, o qualia tem algo a ver com isso?

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