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A Apple é Ruim?

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Antes de ler aqui, recomendo assistir este vídeo do Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=WzYXU2b_6cM

É verdade, as empresas não são sua família nem suas amigas, e nem acho que seja papel delas serem. Mesmo assim, acho que empresas, como pessoas, possuem pontos positivos e negativos, e a Apple não é diferente. Cada usuário deve avaliar friamente estes pontos positivos e negativos quando vai escolher sua máquina.

O que a Apple tem de ruim acho que a maioria das pessoas já sabem: Subcontratam legiões de funcionários chineses em condições de semiescravidão para fabricar seus aparelhos, praticam, em sua própria sede, assédio moral, dentre outras práticas condenáveis (o próprio Steve Jobs era fã disso, típico chefe que ninguém suporta), cobra preços altíssimos por aparelhos simplesmente pela marca, seus sistemas operacionais são limitadíssimos, não dão liberdade ao usuário…. Eles até usam padrões estranhos de parafuso em seus dispositivos para dificultar o trabalho de assistências não autorizadas. A lista é longa.

Mas será só isso?

Eu vou dizer que realmente não acho que valha a pena ter um iPhone ou um iPad, para quase nenhum perfil de usuário. Neste caso, realmente, trata-se simplesmente de pagar caro pela marca. O sistema é muito limitado, não é possível nem mesmo trocar arquivos livremente por USB com o PC, instalar aplicativos da fonte que você quiser (a não ser que você faça um jailbreak, que é arriscado e invalida garantia). Até pouco tempo atrás, não sei se ainda é assim, não dava nem para trocar arquivos com Bluetooth com outros celulares, porque Steve Jobs estava mais preocupado com proteger direitos autorais do que permitir mais liberdade de uso aos seus clientes. Ah, acredita que no Telegram para iOS os canais de pornografia são censurados?

Quanto aos computadores iMac e MacBook, estes realmente valem a pena. Porque o hardware é de altíssima qualidade, durável, demora para ficar obsoleto, e o macOS (até pouco tempo atrás chamado OSX) é um sistema operacional Unix sólido, seguro, mas tão livre quanto qualquer Unix. Ao contrário do iOS, pode instalar programas de onde quiser (inclusive piratas), mexer nos arquivos do sistema, ou fazer qualquer coisa, além de possuir suporte a aplicações comerciais como Office, Photoshop, e AutoCAD. Mesmo os jogos, que eram o calcanhar de aquiles do Mac, agora já estão disponíveis em grande número. O preço de um Mac é realmente caro (começando em 7mil reais) por isto eu acho que vale mais a pena comprar um usado, ou mesmo viajar aos EUA comprar um (pasme, sai mais barato). O MacBook é o computador de escolha do hacker Moxie Marlinspike, da Open Whisper Systems, organização que fez o protocolo de mensagens seguras Signal.

Falando nisto, a Apple tem uma reputação muito melhor em proteger a privacidade dos usuários do que Google e Microsoft, chegando até a se recusar a colaborar com o governo americano para quebrar a criptografia do iPhone de uma terrorista, o que não seria possível fazer sem comprometer a criptografia de todos os usuários de iPhone. A Microsoft, em especial, é a pior nesse aspecto, nenhuma empresa ajudou tanto a NSA a quebrar a privacidade dos usuários.

Acusam muito a Apple de praticar a “obsolescência programada”, que é quando as fabricantes deixam de oferecer suporte aos seus aparelhos para forçar os consumidores a comprarem novos. Todas tem um pouco de culpa nisso, e a Apple também, mas não é das piores. Os Macs, iPhones e iPads recebem atualizações por longos períodos, o iPad 2, por exemplo, lançado em 2011, recebeu atualização ainda neste ano para iOS9, não que eu ache que por isto valha a pena comprar um. Acho que uma grande parte das acusações de obsolescência programada é por ignorância técnica. Se um computador de 10 anos atrás roda com lentidão um sistema operacional moderno, isto não se trata de uma conspiração da fabricante para as pessoas comprarem mais, mas simplesmente porque sistemas novos exigem mais memória e poder de processamento para novos recursos. Chega a ser ridículo exigir que ele funcione com o mesmo desempenho de sempre. Algumas fabricantes de Android oferecem suporte por mais tempo que outras (a Samsung é a pior neste sentido), mas a liberdade dos aparelhos feitos para Android significa que você pode instalar roms customizadas e se manter atualizado mesmo após o fabricante abandonar o aparelho.

A segurança é outro ponto forte dos Macs: Como todos sabem, malwares para Mac são raros, e o sistema tem muito poucas brechas que possam ser exploradas por crackers, muito menos que o Windows. É verdade que você pode ter uma segurança parecida usando Linux, que hoje em dia é muito mais fácil do que costumava ser. O problema do Linux para usuários pouco experientes é que quando dá alguma encrenca no Linux, você não tem suporte dedicado, apenas fóruns cheios de caras muito babacas que praticamente vão exigir para você resolver o problema sozinho antes de mexer um dedo para te ajudar (é verdade que o pessoal do Ubuntu é bem mais sipático que a média). Também há muito pouco suporte para aplicações comerciais, e para muitos usuários, as soluções livres não bastam. Em geral, as distribuições Linux não são tão estáveis, bonitas, nem oferecem uma experiência de uso tão agradável quanto o macOS.

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Use Criptografia

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E, se necessário, use também estenografia e negação plausível.

Proteger as suas informações pessoais é a melhor proteção que você possui contra o abuso do poder da autoridade. Criptografia é mais importante que armas, porque é uma defesa efetiva, contra um ataque frequente. Na maioria das nações democráticas, o Estado raramente usa força letal contra os cidadãos, e quando usa, há grande comoção popular, e o governo pode sofrer punições por isso. Mas caso use, o tipo de armas ao qual o cidadão comum possui acesso não é nada perto do que o Estado possui. O que é um revólver .38 perto do arsenal militar do Estado? Armas são, no máximo, uma proteção para agentes individuais do Estado agindo de maneira corrupta por conta própria. Mas violar a privacidade da informações é algo que as autoridades fazem o tempo todo sem muita represália. A boa notícia é que usar sistemas de criptografia fortes para as suas comunicações e armazenar dados pessoais, no entanto, é uma proteção realmente eficiente, páreo para o que o Estado possui para usar contra você. Criptografia funciona. É preciso, urgentemente, vencer o pensamento fatalista de que privacidade não existe mais. Podemos tanto estar vivendo na era do fim da privacidade como na era da privacidade.

Mas não se engane, a iniciativa privada também pode e vai quebrar a sua privacidade para prejudicá-lo. Especialmente se você tiver um cargo de base, pouco valorizado: Um post errado no Facebook pode custar o seu emprego. Pense bem, se o seu chefe soubesse de tudo que você faz fora do escritório, provavelmente você já estaria sem emprego.
Também usam dos seus dados para traçar o seu perfil psicológico e empurrar propagandas para tentar fazê-lo comprar por impulso. A simples instalação de uma extensão de navegador como o Privacy Badger ou o AdBlock Plus pode barrar esta invasão, e você também pode usar um mecanismo de busca privado ao invés do Google, como o Duck Duck Go e StartPage.

Hoje em dia, criptografia é grátis e é fácil de usar. Apenas baixando um aplicativo como os  rivais Telegram e Signal, você terá uma via de conexão protegida para conversar com seus contatos pela internet com a mesma privacidade que teria em uma praia deserta ou em sua casa. E para proteger seus próprios dados, pode até mesmo usar ferramentas que já vem embutidas nos sistemas operacionais modernos, como o BitLocker da Microsoft e o FileVault da Apple. Também pode optar por uma solução robusta gratuita  como o TrueCrypt e VeraCrypt. Até mesmo a criptografia padrão do WinRAR , WinZip e 7Zip (famoso RAR com chave) são bem decentes, contanto que você escolha uma senha boa.

É importante que todos usem criptografia, não apenas aqueles que pensam possuir algo à esconder. Na verdade, todos possuem algo a esconder. Há vários motivos práticos para usar criptografia, como a proteção dos dados caso seu dispositivo seja roubado ou confiscado, e evitar que alguém se apodere da sua senha de internet banking para roubar seu dinheiro. Mas não é apenas isto.

Eu não quero viver num mundo em que o Estado e grandes organizações tenham acesso à tudo que as pessoas fazem, tudo que elas conversam, o que elas pensam, ou seja, em que apenas clicando num botão é possível ter um perfil completo de uma pessoa, com afiliações e preferências pessoais. Isto seria um mundo acovardado, um mundo sem liberdade. Já foi provado e demonstrado que as pessoas agem de forma muito menos espontânea e mais controlada quando pensam estar sendo observadas. Elas experimentam menos, fazem tudo da forma que acreditam ser a esperada, evitam tentar o novo e o diferente. O conceito de Panopticon, elaborado pelo filósofo Jeremy Bentham é exatamente isto.

Numa sociedade realmente livre, é importante, inclusive, que as pessoas possam quebrar a lei. Liberdade de expressão e pensamento não bastam, pois certas coisas não podemos saber como são sem experimentar. Imagine se quando a maconha foi proibida, na primeira metade do século XX, todos tivessem parado de usar e plantar maconha. Jamais teríamos descoberto suas propriedades medicinais benéficas, pois já seria uma espécie extinta. Em muitos países do mundo, ainda é proibido ter relações sexuais homossexuais. Deveriam os gays obedientemente esperar pela permissão do Estado para fazer sexo? Muitas inovações e descobertas não teriam acontecido se o Estado fosse onisciente e possuísse o poder de saber infalivelmente quando algum cidadão quebra a lei.

Aliás, o que faz você pensar que é tão puro? O código legal, o do Brasil e de outros países, é enorme, prolixo, confuso, prevê punições até para coisas triviais no dia-a-dia, como baixar músicas, e vender alguma coisa sem nota fiscal. Se eles soubessem tudo o que você faz, poderiam te prender pelo que quisessem, a qualquer momento, mesmo que você se considere “cidadão de bem”.

Se as pessoas usam criptografia apenas quando acreditam estar trocando informação muito sigilosa, isto é um problema: Se uma pessoa for pega usando criptografia, já se saberá que é algo sigiloso. As pessoas que mais precisam usá-la (dissidentes políticos, delatores, jornalistas) ficam marcadas quando usam. Por isto é errado a maneira como Telegram e Allo empregam criptografia ponto-a-ponto, como algo opcional, para ser ligado apenas quando necessário. É sempre necessário. No caso do Telegram, pelo menos, o chat normal também usa criptografia, mas do tipo cliente-servidor, e as mensagens ficam criptografadas no servidor também, com chaves guardadas em servidores separados, em países diferentes.

Em alguns países mais autoritários, como Reino Unido, um juiz pode obrigar uma pessoa a fornecer as chaves para decapitar um arquivo. Aí entra a necessidade de técnicas de estenografia (para ocultar a existência, não apenas o significado, da mensagem) e negação plausível, para que um mesmo arquivo criptografado, se usado com duas chaves diferentes, possa resultar em duas mensagens diferentes. Mas isto já é muito avançado. Para a maioria das pessoas, criptografia já basta. Uma dica: Ao invés de não usar o Telegram porque ninguém usa, quebre o ciclo vicioso, instale no celular e diga para os seus amigos fazerem o mesmo. Não é preciso escolher entre ele e o WhatsApp, afinal, ele ocupa muito pouco espaço na memória do celular. Para ligações de voz e vídeo, esqueça o Skype, procure o Wire, e, se for apenas voz, o Signal (antigo RedPhone).

Moxxie Marlinspike, da empresa Open Whisper System, que fez o aplicativo Signal, cujo protocolo criptográfico é usado no WhatsApp, é rival de Pavel Durov, do Telegram. Um acusa o aplicativo do outro de ser falho. Mas nós só temos a ganhar com esta rivalidade.

https://moxie.org/blog/we-should-all-have-something-to-hide/

http://blog.sidstamm.com/2012/12/what-is-privacy.html

https://www.gnu.org/philosophy/surveillance-vs-democracy.html (disponível em português)

https://telegram.blog.br/use/ (em português)

https://www.washingtonpost.com/investigations/us-intelligence-mining-data-from-nine-us-internet-companies-in-broad-secret-program/2013/06/06/3a0c0da8-cebf-11e2-8845-d970ccb04497_story.html

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