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Telegram: É Hora de Mudar de Perspectiva

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O Telegram é melhor que o WhatsApp em quase todos os aspectos. As funções “novas” que vejo aparecerem no WhatsApp e outros aplicativos são imitações do que o Telegram já tem há muito tempo. E os stickers, marca registrada do Telegram e uma das funções mais divertidas do aplicativo, que a Apple comprou e agora está vendendo para os usuários do iMessage por um dólar por pacote , enquanto continuam de graça no Telegram…

Uma de suas maiores vantagens é que é multidispositivo, de verdade, não aquela gambiarra tosca do WhatsApp Web. Tem um cliente Telegram para quase toda plataforma, até porque a API é aberta, e a organização Telegram LLC sempre encorajou programadores a desenvolverem clientes não oficiais (tem até pra BlackBerry). As mensagens são mandadas com muita velocidade e com extrema segurança, garantida pelo protocolo MTProto. Apesar de todo ceticismo que o cerca, nenhum criptógrafo conseguiu achar uma falha no MTProto que pudesse ser usada para um ataque. Ficam salvas na nuvem por padrão, mas, ao contrário do que já li em muitos lugares, isto não significa que não são criptografadas, apenas que não são criptografadas ponta-a-ponta, mas ficam criptografadas nos servidores do Telegram, que ficam em vários países, em locais secretos, as chaves para criptografia e os arquivos ficam sempre em jurisdições diferentes.

Até hoje, jamais entregaram dados a governo nenhum, nem a empresa nenhuma, e alegam que qualquer pedido de entrega de dados é jogado no lixo. O Telegram LLC não divulga o endereço de seus escritórios, e Pavel Durov (o “dono” do Telegram) e seu grupo de programadores vivem nomadicamente, tudo para evitar assédio de autoridades. Sem dúvida, o serviço de nuvem mais seguro do mundo, tanto contra governo quanto contra crackers, e basicamente o máximo de segurança que você pode ter com a conveniência de ter as mensagens na nuvem, acessíveis em vários dispositivos. Mas se você não confia nestes servidores, ou não usa vários dispositivos, use o chat secreto.

E você pode mandar qualquer tipo de arquivo pelo Telegram (ao contrário do WhatsApp, que só aceita alguns formatos, como PDF e DOC), de no máximo 1,5 GB cada, mas sem limite  no número de arquivos ou no tamanho total da sua nuvem. E você pode mandar mensagens para si mesmo, tendo, ao mesmo tempo, um bloco de anotações e uma nuvem pessoal ilimitada.

Só isso já derruba o argumento que eu ouço de quase todos quando ofereço o Telegram (pra que eu vou usar isso se ninguém mais usa?). Tenho uma nuvem pessoal ilimitada. Ah, um ótimo jeito de não perder seu carro no estacionamento é, ao estacionar, mandar a sua localização para si mesmo pelo Telegram. Ele também oferece grupos bem maiores que os do WhatsApp e tem mais recursos, como fixar mensagens, à moda dos bons e velhos fóruns BBCode. Também tem a função de canais, que é como um Twitter, mas sem limite de caracteres.

Mesmo sem a nuvem pessoal, a ladainha de “ninguém usa” estaria errada. Mude esta perspectiva: O Telegram é grátis e você não precisa optar entre ter ele ou o WhatsApp em seu celular, pode perfeitamente ter os dois. E se ao invés de dizer “ninguém usa” e continuar usando o aplicativo pior, você instalar o Telegram  e disser aos seus amigos para fazerem o mesmo? Se você tiver 5 amigos, pelo menos já tem 5 contatos com os quais falar no Telegram, o WhatsApp fica pros demais. Parece que ninguém quer criar uma corrente, como se fosse demais pedir a alguém para instalar um app grátis no celular.

Eu disse que ele é melhor que o WhatsApp em quase todos os aspectos porque o WhatsApp conta com chamadas de áudio e vídeo. E o que me deixa perplexo é que essas funções, que literalmente são as únicas coisas que o WhatsApp tem e o Telegram não, ninguém usa! As pessoas falam cada vez menos ao telefone, e, quando falam, parece que ignoram a chamada de voz do WhatsApp e usam o telefone convencional. E chamada de vídeo é mais ignorada ainda… Uma lástima. As poucas pessoas que fazem videoconferência, normalmente para trabalho, usam Skype. Mas mesmo se você quiser estas funções, o melhor aplicativo para você é o Wire, aplicativo multiplataforma (desktop e mobile) feito por uma equipe liderada por um ex-funcionário do Skype, e é para o Skype o que o Telegram é para o WhatsApp, melhor em qualidade de som e vídeo, e mais ainda em questão de privacidade e segurança em geral. Mesma coisa que o Telegram, ao invés de reclamar que ninguém usa, comece um círculo virtuoso, ao invés de alimentar um vicioso.

Por fim, fique com esta mensagem do próprio Telegram, sobre como eles tratam os seus dados:

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Use Criptografia

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E, se necessário, use também estenografia e negação plausível.

Proteger as suas informações pessoais é a melhor proteção que você possui contra o abuso do poder da autoridade. Criptografia é mais importante que armas, porque é uma defesa efetiva, contra um ataque frequente. Na maioria das nações democráticas, o Estado raramente usa força letal contra os cidadãos, e quando usa, há grande comoção popular, e o governo pode sofrer punições por isso. Mas caso use, o tipo de armas ao qual o cidadão comum possui acesso não é nada perto do que o Estado possui. O que é um revólver .38 perto do arsenal militar do Estado? Armas são, no máximo, uma proteção para agentes individuais do Estado agindo de maneira corrupta por conta própria. Mas violar a privacidade da informações é algo que as autoridades fazem o tempo todo sem muita represália. A boa notícia é que usar sistemas de criptografia fortes para as suas comunicações e armazenar dados pessoais, no entanto, é uma proteção realmente eficiente, páreo para o que o Estado possui para usar contra você. Criptografia funciona. É preciso, urgentemente, vencer o pensamento fatalista de que privacidade não existe mais. Podemos tanto estar vivendo na era do fim da privacidade como na era da privacidade.

Mas não se engane, a iniciativa privada também pode e vai quebrar a sua privacidade para prejudicá-lo. Especialmente se você tiver um cargo de base, pouco valorizado: Um post errado no Facebook pode custar o seu emprego. Pense bem, se o seu chefe soubesse de tudo que você faz fora do escritório, provavelmente você já estaria sem emprego.
Também usam dos seus dados para traçar o seu perfil psicológico e empurrar propagandas para tentar fazê-lo comprar por impulso. A simples instalação de uma extensão de navegador como o Privacy Badger ou o AdBlock Plus pode barrar esta invasão, e você também pode usar um mecanismo de busca privado ao invés do Google, como o Duck Duck Go e StartPage.

Hoje em dia, criptografia é grátis e é fácil de usar. Apenas baixando um aplicativo como os  rivais Telegram e Signal, você terá uma via de conexão protegida para conversar com seus contatos pela internet com a mesma privacidade que teria em uma praia deserta ou em sua casa. E para proteger seus próprios dados, pode até mesmo usar ferramentas que já vem embutidas nos sistemas operacionais modernos, como o BitLocker da Microsoft e o FileVault da Apple. Também pode optar por uma solução robusta gratuita  como o TrueCrypt e VeraCrypt. Até mesmo a criptografia padrão do WinRAR , WinZip e 7Zip (famoso RAR com chave) são bem decentes, contanto que você escolha uma senha boa.

É importante que todos usem criptografia, não apenas aqueles que pensam possuir algo à esconder. Na verdade, todos possuem algo a esconder. Há vários motivos práticos para usar criptografia, como a proteção dos dados caso seu dispositivo seja roubado ou confiscado, e evitar que alguém se apodere da sua senha de internet banking para roubar seu dinheiro. Mas não é apenas isto.

Eu não quero viver num mundo em que o Estado e grandes organizações tenham acesso à tudo que as pessoas fazem, tudo que elas conversam, o que elas pensam, ou seja, em que apenas clicando num botão é possível ter um perfil completo de uma pessoa, com afiliações e preferências pessoais. Isto seria um mundo acovardado, um mundo sem liberdade. Já foi provado e demonstrado que as pessoas agem de forma muito menos espontânea e mais controlada quando pensam estar sendo observadas. Elas experimentam menos, fazem tudo da forma que acreditam ser a esperada, evitam tentar o novo e o diferente. O conceito de Panopticon, elaborado pelo filósofo Jeremy Bentham é exatamente isto.

Numa sociedade realmente livre, é importante, inclusive, que as pessoas possam quebrar a lei. Liberdade de expressão e pensamento não bastam, pois certas coisas não podemos saber como são sem experimentar. Imagine se quando a maconha foi proibida, na primeira metade do século XX, todos tivessem parado de usar e plantar maconha. Jamais teríamos descoberto suas propriedades medicinais benéficas, pois já seria uma espécie extinta. Em muitos países do mundo, ainda é proibido ter relações sexuais homossexuais. Deveriam os gays obedientemente esperar pela permissão do Estado para fazer sexo? Muitas inovações e descobertas não teriam acontecido se o Estado fosse onisciente e possuísse o poder de saber infalivelmente quando algum cidadão quebra a lei.

Aliás, o que faz você pensar que é tão puro? O código legal, o do Brasil e de outros países, é enorme, prolixo, confuso, prevê punições até para coisas triviais no dia-a-dia, como baixar músicas, e vender alguma coisa sem nota fiscal. Se eles soubessem tudo o que você faz, poderiam te prender pelo que quisessem, a qualquer momento, mesmo que você se considere “cidadão de bem”.

Se as pessoas usam criptografia apenas quando acreditam estar trocando informação muito sigilosa, isto é um problema: Se uma pessoa for pega usando criptografia, já se saberá que é algo sigiloso. As pessoas que mais precisam usá-la (dissidentes políticos, delatores, jornalistas) ficam marcadas quando usam. Por isto é errado a maneira como Telegram e Allo empregam criptografia ponto-a-ponto, como algo opcional, para ser ligado apenas quando necessário. É sempre necessário. No caso do Telegram, pelo menos, o chat normal também usa criptografia, mas do tipo cliente-servidor, e as mensagens ficam criptografadas no servidor também, com chaves guardadas em servidores separados, em países diferentes.

Em alguns países mais autoritários, como Reino Unido, um juiz pode obrigar uma pessoa a fornecer as chaves para decapitar um arquivo. Aí entra a necessidade de técnicas de estenografia (para ocultar a existência, não apenas o significado, da mensagem) e negação plausível, para que um mesmo arquivo criptografado, se usado com duas chaves diferentes, possa resultar em duas mensagens diferentes. Mas isto já é muito avançado. Para a maioria das pessoas, criptografia já basta. Uma dica: Ao invés de não usar o Telegram porque ninguém usa, quebre o ciclo vicioso, instale no celular e diga para os seus amigos fazerem o mesmo. Não é preciso escolher entre ele e o WhatsApp, afinal, ele ocupa muito pouco espaço na memória do celular. Para ligações de voz e vídeo, esqueça o Skype, procure o Wire, e, se for apenas voz, o Signal (antigo RedPhone).

Moxxie Marlinspike, da empresa Open Whisper System, que fez o aplicativo Signal, cujo protocolo criptográfico é usado no WhatsApp, é rival de Pavel Durov, do Telegram. Um acusa o aplicativo do outro de ser falho. Mas nós só temos a ganhar com esta rivalidade.

https://moxie.org/blog/we-should-all-have-something-to-hide/

http://blog.sidstamm.com/2012/12/what-is-privacy.html

https://www.gnu.org/philosophy/surveillance-vs-democracy.html (disponível em português)

https://telegram.blog.br/use/ (em português)

https://www.washingtonpost.com/investigations/us-intelligence-mining-data-from-nine-us-internet-companies-in-broad-secret-program/2013/06/06/3a0c0da8-cebf-11e2-8845-d970ccb04497_story.html

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