filosofia

Loop

circularmilling

Em 1921, em uma expedição na selva da Guiana, o biólogo americano William Beebe notou um macabro fenômeno que acometia às formigas de determinada espécie: Elas às vezes começavam a marchar em círculo sem parar, uma atrás da outra, formando um redemoinho, e continuavam marchando em círculo até que todas estivessem mortas.

Cada formiga sabe apenas que deve seguir o rastro de feromônio, e assim elas conseguem achar o caminho para o formigueiro, o que geralmente funciona. Geralmente. Na verdade, dizer que ela “sabe” é uma metáfora forçada. A formiga praticamente não sabe nada. Só tem um mecanismo interno que a comanda para se locomover na direção do feromônio, ela não reflete sobre isso, não calcula se é o melhor  dadas as circunstâncias… Se a trilha é perdida, ela começa a seguir o cheiro da outra, e esta começa a seguir o cheiro das outra…

Às vezes dão sorte, alguma perturbação afeta o sistema e interrompe o loop (por exemplo, as outras formigas do formigueiro voltam, ou um viajante benevolente as coloca no lugar) e elas se salvam, senão, marcham em círculo até a morte.


Cada um dos bilhões de neurônios do seu cérebro e sistema nervoso periférico é tão autômato quanto as formigas de Beebe. Independente de tipo e localização, é um mecanismo que reage de forma perfeitamente determinística: Recebe tais e tais neurotransmissores que o excitam – aumentando a chance de um potencial de ação, ou “disparo” – ou o inibem – diminuindo a chance de um potencial de ação – com mais algumas complicações, como a dessensibilização e redução do número de receptores, em resposta a um aumento constante de neurotransmissores ou agentes exógenos (o mecanismo de tolerância das drogas); a neurogênese e neuroplasticidade… Mas isto não importa aqui, todos são autômatos “burros” que fazem uma tarefa programada sem saber nada.

O seu cérebro é consciente, mas os neurônios não são, eles não têm uma mente. O seu cérebro funciona bem a maior parte do tempo (talvez), mas às vezes algo inesperado acontece… Como as formigas em redemoinho, o seu fluxo mental entra em um padrão cíclico autodestrutivo, que se retroalimenta, um loop infinito.

convulsão

Eletroencefalograma durante funcionamento normal do cérebro, em uma convulsão parcial e em uma generalizada. Fonte: https://www.drugs.com/health-guide/seizure.html

 

Um exemplo bom para compreender o problema do ciclo vicioso é o dos epiléticos, que possuem algumas trilhas de neurônios em um arranjo físico defeituoso, o que provoca ondas de estimulação desenfreada, que resultam constantes transtornos, podendo ser estes, dependendo do tipo de epilepsia, uma perda breve de consciência, paralisia parcial de um membro, ou uma convulsão generalizada. Algumas convulsões são desencadeadas sem nenhum estímulo identificável, outras acontecem em resposta a certos eventos, como na epilepsia fotossensível, a mais conhecida, em que estímulos visuais como luzes piscantes fazem com que os neurônios disparem sincronizadamente em uma mesma frequência, desencadeando a convulsão. Eles estão apenas fazendo aquilo que podem fazer, não se “importam” que isto cause problemas para o corpo de que fazem parte. Os remédios anticonvulsionantes (como o famigerado Gardenal) em geral potencializam o neurotransmissor inibitório Gaba. Em alguns casos neurocirurgia é necessária, para remover o circuito defeituoso.

Nem todos os casos de padrões cerebrais defeituosos são tão drásticos ou fáceis de notar, e alguns podem acontecer sem haver nada fisicamente errado detectável no cérebro. Você se sente ansioso, sem motivo; digamos que você tenha ansiedade social e se sinta angustiado após uma interação casual com um grupo de pessoas que nem têm importância pra você. “Será que eu deixei uma boa impressão? Será que eu comi bola quando falei isso ou aquilo?” Que besteira, você sabe, e sabe que está ansioso sem motivo válido, mas saber que está ansioso não só não ajuda como o deixa mais ansioso ainda. Pode ser um caso de ansiedade crônica, e nestes normalmente há mudanças anatômicas em regiões subcorticais como a amídala, desequilíbrio de neurotransmissores e hormônios, mas às vezes não: É o instinto de luta ou fuga engatando em momentos inapropriados, mas a chave para entender o porquê não está na fisiologia, é apenas um dos inúmeros padrões em que um cérebro aparentemente saudável poderia se configurar, mas que não é bom para o corpo em que ele está.

Diferente da colônia de formigas, você tem uma consciência. Tem algo que é ser como você, e algo monitorando o que acontece dentro de si, pensamentos sobre pensamentos e pensamentos que são reflexões de seu próprio estado físico, os sentimentos. Mas a consciência não é uma entidade externa, separada do que acontece no cérebro e que pode mudar tudo, como um usuário nervoso apertando ctrl+alt+del para encerrar um programa travado na marra. Você pode dar sorte, e um destes padrões disfuncionais ter uma cláusula de saída, ou acontecer algum outro estímulo externo que o livre dele, como o viajante benevolente que vê as formigas em um redemoinho interminável e decide usar um graveto para separá-lo.

Mas não pense que estar ciente da falha catastrófica que está lhe ocorrendo é suficiente para interrompê-la. É verdade, há muito que se pode fazer para conter problemas de ansiedade e afins, com e sem medicamentos. O sistema não é fechado, e a inteligência do homem é especial exatamente por ter esta margem de manobra. Seja qual for a solução, você precisa ser apresentado à ela primeiro, e ter a sorte de possuir uma disposição para responder a ela.

Os seus processos mentais são parte de um processo físico, orgânico, que é um ciclo, entram informações sobre o meio interno e externo, são tomadas decisões com base nesta informação, e depois recebido um feedback do resultado das decisões… Um fluxo de relações causais, não aleatórias nem “livres”. Você não é uma formiga perdida no redemoinho e nem é alguém de fora controlando o redemoinho por controle remoto. Você é o redemoinho.


A inspiração para este post veio do autor Jeff Wise, em seu blog no portal Psychology Today, que encontrei um dia quando estava em uma de minhas frequentes crises de ansiedade e buscava algum meio de sair dela. Seu texto é bem menos trágico e mais otimista que o meu. Pode te ajudar a encontrar as cláusulas de saída do loop infinito. Se tiver sorte.

https://www.psychologytoday.com/us/blog/extreme-fear/201205/breaking-anxietys-bizarre-death-loop

Leituras recomendadas:

DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Editora Companhia das Letras, 2012. Publicado originalmente em 1994.

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinoza: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Editora Companhia das Letras, 2004. Publicado originalmente em 2003.

HARRIS, Sam. Free will. Simon and Schuster, 2012.
Este não tem edição em português, mas há uma tradução não oficial do livro, pelo blog Rebeldia Metafísica: https://rebeldiametafisica.wordpress.com/naturalismo/o-livre-arbitrio/

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