filosofia, Humano, Política, sociedade

Um Manifesto Contra os Inimigos da Modernidade – Parte 1

Título Original: A Manifesto Against the Enemies of Modernity
Autores: James A. Lindsay e Helen Pluckrose, para a Areo Magazine
Texto original:
https://areomagazine.com/2017/08/22/a-manifesto-against-the-enemies-of-modernity/

Tradução por c0Anomalous, autorizada pelo editor chefe da Areo Magazine, Malhar Mali. Revisão: Mayumi Busi.

Um agradecimento especial a Malhar Mali pela atenção e autorização, e à minha amiga Mayumi Busi, estudante de ciências sociais, que revisou a tradução.

Esforcei-me para ser o mais preciso possível, conservando quase integralmente a escolha dos autores quanto a aspas, parênteses, itálicos, e maiúsculas para certos termos; fazendo o mínimo necessário de ajustes para a sintaxe portuguesa. Coloquei entre parênteses o termo original quando não encontrei uma tradução exata, e Mayumi ajudou a alisar as arestas. Se ainda assim houver erros, por favor, não deixe de aponta-los nos comentários. Segunda parte em breve.


“Modernidade” é o nome da profunda transformação cultural em que vimos a ascensão da democracia representativa, a era da ciência, a primazia da razão sobre a fé, e o estabelecimento de liberdades individuais para viver de acordo com os próprios valores. Em seu cerne, ela valoriza a concessão de poder (empowerment) ao indivíduo para pensar, acreditar, ler, escrever, falar duvidar, questionar, discutir e refutar absolutamente qualquer ideia na busca pela verdade. O que há na sociedade de hoje para alguém que ainda acredita nisso? Se nós insistirmos em continuar a pensar em termos puramente políticos, há duas escolhas principais, e ambas são ruins.

Nos é oferecido um caminho da esquerda pelo qual cruzados progressistas intitulam-se como justos defensores da Justiça Social e do progresso moral, e, portanto, do verdadeiro futuro da Modernidade. Além deste, indo para o lado oposto da bifurcação, jaz um caminho da direita sobre o qual se posicionam os bastiões do conservadorismo como os últimos desesperados defensores do coração do projeto da Modernidade, os assim chamados “valores da Civilização Ocidental”, defendendo-o de potenciais fracassos da experimentação progressiva econômica e social. Por qual destes caminhos pode um esperançoso partidário da Modernidade esperar encontrar a pedra fundamental do projeto Moderno, qual deles está comprometido em buscar a verdade objetiva e erigir instituições fortes para assegurar os frutos da Modernidade?

Nenhum deles.

A esquerda progressista alinhou-se não com a Modernidade, mas com o pós-modernismo, que rejeita a verdade objetiva como uma fantasia sonhada pelos ingênuos e/ou pelos arrogantemente chauvinistas (bigoted) pensadores do Iluminismo, que subestimavam as consequências colaterais do progresso da Modernidade. A direita regressiva prega o pré-modernismo ao invés disso, que é pouco mais que uma grande ilusão de que as complexidades intrincadas da sociedade Moderna podem funcionar sem uma infraestrutura elaborada requerida para gerir uma sociedade Moderna em primeiro lugar. Ambos são rejeições descaradas do compromisso do Iluminismo para com a verdade.

Se você valoriza a Modernidade, muita da vida política e cultural de ultimamente assim parece ficar nesta deplorável encruzilhada, não da verdade, mas do que Stephen Colberth apelidou “verdadeza” (“truthiness”), aquilo que se sente como sendo verdade, embora não seja – ou, colocando de maneira resoluta, uma intuição de uma “verdade” moral ou ideológica que tem pouco a ver com qualquer realidade objetiva.

Tome o caminho à esquerda, e você encontrará a questionável noção de que a verdade está “situada” em identidade, que leva à absurda crença de que a verdade é relativa ao que quer que o panorama
cultural de alguém manteve como sendo verdade – a não ser que se considere que esta cultura tenha dominado injustamente no passado, neste caso qualquer coisa que ela mantenha como verdade deve ser refutada em princípio.

Se isto soa confuso, não se preocupe. Representantes sacerdotais elegeram a si mesmos ao longo deste caminho para definir quem não pode dizer o que para quem, e sob que circunstâncias. Você precisa apenas conferir seus privilégios na vida, entrar na linha, tornar-se um “aliado”, se calar, e ouvir aqueles considerados mais oprimidos do que você é. O calar-se é particularmente importante. É quase impossível evitar ser “problemático” falando independentemente. Você provavelmente não gostará de ouvir que sua existência é ultrapassada, mas de acordo com a rubrica (sobre a qual você será lembrado em toda oportunidade) há aqueles menos privilegiados no mundo e eles gostam menos ainda da opressão que sofrem.

Enverede para a direita ao invés disso, e você ficará similarmente desapontado. Ali, a verdade não é muito diferente, apesar de que eles não a chamariam de “situada” (mas é). É o tipo de Verdade com T maiúsculo que é simultaneamente “óbvia” para todos e simplista demais para ser verdade, e está situada na experiência vivida do homem comum tradicionalmente reconhecido. Esta Verdade de direita frequentemente chega como um amálgama ou adivinhação sobre a experiência cotidiana de caipiras e sobre as exegeses (interpretações do texto sagrado, n.t.) localmente acordadas dos manuscritos antigos preferidos de Deus. Uma Verdade Sofisticada, com S maiúsculo, pode ser encontrada ao longo do caminho da direita, lá colocada pela própria Natureza na forma da Lei Natural filosoficamente racionalizada, a despeito da demonstrada insignificância deste termo e de sua distinção de qualquer coisa estabelecida pelas ciências naturais. Verdade, à direita, é assim exatamente o Senso Comum “plenamente verdadeiro” que todo mundo “sabe” (exceto as elites e os experts, que são considerados muito educados e muito fora de contato com a Vida Real para ver o que plenamente é o caso).

Como você pode saber o que é “plenamente Verdade” ao longo do caminho da direita, então? É o que quer que pareça imediatamente óbvio, o que “obviamente” funciona bem o bastante para se seguir em frente (contanto que a maioria das complexidades dos sistemas e interações humanas sejam descartados), ou é aquilo que está de acordo com as visões dos religiosos provincialmente corretas ou deidades políticas ou seus emissários autointitulados. Se você está preocupado que aquele Senso Comum, em sua forma aperfeiçoada de letras maiúsculas, não é de fato terrivelmente comum, que os pretenciosos evangelistas (Holy Rollers) e disseminadores de medo (fearmongers) podem não falar por você, e que heurística simples frequentemente perdem o ponto, o caminho da mão direita será uma escolha frustrante e dolorosa. Você estaria completamente certo em acreditar que a Modernidade requer um pouco mais do que senso comum e “Lei Natural” para manter-se funcionando e avançando. Não apenas isto, mas indo por este caminho, se você estiver preocupado que o que é aceito como Verdade com V maiúsculo frequentemente tende a racionalizar e exacerbar as desigualdades estruturais na sociedade, sua tarefa será lidar com o que é Verdade, engolir, e manter suas perguntas e interferências para si mesmo.

“Coletivamente, estes dois grupos representam um ethos sobreposto. Ambos são anti-modernistas…”

Nenhum destes caminhos parece bom. Na realidade, são ambos ruins. Você não chegará muito longe em nenhum destes caminhos antes de observar que as commodities principais entre os dois são pânico moral histérico e uma consequente intolerância absoluta quanto a pensar diferente – devidamente disfarçada atrás de alegações de apreciar os tipos certos de diversidade (limitada). E é assim que, com um pouquinho de observação paciente, você se dará conta de que estes pré-modernistas e pós-modernistas, apesar de seus dialetos morais distintos e diferenças impossíveis de conciliar em todo âmbito político, são quase indistinguíveis. Ambos se envergam ao autoritarismo e valores contrários à Modernidade.

Coletivamente, estes dois grupos representam um ethos em justaposição. São ambos anti-modernistas, e são os inimigos da Modernidade. Tratados como uma única entidade, eles representam uma minoria relativamente pequena, dividida, mas preocupantemente poderosa. Separadamente, estas duas facções giram em uma espiral centrífuga mortífera para a sociedade levada por um ódio mútuo quase religioso e irredimível. Eles procedem como se dotados de um superpoder, uma vez que são quase imbatíveis quanto a fomentar polarizações (divisivineness) entre a maioria que acredita na Modernidade. Eles deveriam ser vistos e opostos como sendo um único dragão com duas cabeças nefastas que representam muito mais perigo a todos os demais do que cada uma por si só. Independente da validade de qualquer afirmação sobre qual cabeça é pior, o debate é um exercício de muita discussão infrutífera que alimenta o dragão ao invés de ceifá-lo.

Modernidade

Quando advogamos em defesa da modernidade, estamos falando dos frutos da era Moderna, os desenvolvimentos positivos daquele período da Renascença até o presente. Este período é distinto de seu predecessor, o período Medieval, por várias mudanças intelectuais importantes, incluindo o Iluminismo, a formação de sociedades livres governadas por democracias representativas, e a Revolução Científica. Ao longo dos últimos 500 anos, a sociedade ocidental viu uma alternância de epistemologia dominante baseada em fé religiosa para uma baseada em razão e ciência, e de um sistema social baseado em coletivos no seio de uma hierarquia para um reconhecimento do valor humano individual e a necessidade da liberdade humana. Se você acredita no progresso legítimo dos últimos 500 anos e deseja vê-lo continuar, e se você apoia os valores morais e intelectuais que nos trouxeram até aqui, então você acredita na Modernidade também.

Alguns alegam que ver a Modernidade desta maneira é criar categorias históricas falsas que ignoram continuidades, com a intenção de romantizar um período que permaneceu repleto de crenças falsas e injustiças. Este é um parecer justo, mas que perde o foco. Nossa intenção não é alegar que tudo era terrível e de repente o Iluminismo aconteceu e tudo ficou maravilhoso. O Iluminismo, a Revolução científica e a democracia liberal são processos que se iniciaram neste período e progrediram gradualmente através dele. Ao longo do caminho, eles encontraram muitos entraves e retrocessos, e cometeram equívocos que são proporcionalmente grandes em relação à sua visão ampla. Eles foram e continuam sendo parte de projetos em andamento, sob o guarda-chuva da Modernidade, que podem jamais serem completados, mas que e são essenciais para que o bem-estar da humanidade possa continuar.

Ser a favor da Modernidade não é apoiar tudo que ocorreu no período Moderno a ponto de incluir guerra, genocídio, imperialismo, escravidão, ou seus impactos negativos, mas sim valorizar a alternância intelectual que produziu benefícios que antes não existiam, ou que haviam sido perdidos na era medieval. Você é a favor da modernidade se você acredita no método científico, direitos humanos, democracia liberal, liberdade individual e epistemologias estabelecidas baseadas em evidência e razão.

Os pilares da Modernidade são um conjunto de valores que serviram para nos impulsionar para fora do período medieval e para dentro do mundo dramaticamente melhorado que costumamos tomar como certo hoje em dia. Estes valores essenciais são:

  • Um profundo respeito pelo poder da razão e a utilidade e força da ciência;
  • Um compromisso inabalável às normas das repúblicas democráticas seculares, inclusive o Estado de direito, e uma crença de que são a força política mais benéfica que o mundo já conheceu;
  • Uma perspicaz compreensão de que quaisquer que sejam e como quer que seja que as dinâmicas de grupo possam influenciar sociedades humanas, a unidade atômica da sociedade, a ser defendida e prestigiada, é o indivíduo.
  • Uma sincera apreciação de que o Bem é melhor alcançado através de um equilíbrio entre cooperação humana e competição intermediada pela interação das instituições que trabalham em nome de instituições públicas e privadas.

Apesar de serem incrivelmente populares, estes pilares da Modernidade estão atualmente sob ameaça.

A Ampla Popularidade da Modernidade

A coisa mais bizarra sobre a ameaça atual à Modernidade é que ela acontece no interior de uma sociedade ocidental, que ainda apoia com unanimidade seus valores e reconhece seus benefícios. Oponentes dedicados da ciência, democracia, liberdade, direitos humanos e razão são uma pequena minoria, encontrada apenas nas periferias ruidosas da política. Ainda assim, apesar de possivelmente deter o mais amplo apoio que qualquer projeto já teve na História, a Modernidade em si mesma conta com pouca defesa direta, muito possivelmente porque defender a Modernidade e seus benefícios parece óbvio demais para se dar ao trabalho. No entanto, falhar em defender a Modernidade é se colocar sobre um poço de escuridão – um do qual com muito esforço escalamos para fora, atente-se – e serrar o galho sobre o qual todos estamos apoiados. Mas quem faria tal coisa?! Principalmente pessoas que acreditam estar fazendo o oposto.

As ruidosas periferias anti-modernas plantaram cada uma sua bandeira no solo da Modernidade e se impuseram como únicas luminares da esquerda e a direita; como os únicos Escoceses de Verdade das visões ideológicas diametralmente opostas à Modernidade: liberalismo e conservadorismo. Estes luminares morais exigem que encaremos uma absurda escolha entre o odioso besteirol e o repulsivo desatino (odious poppycock and loathsome codswallop): Apenas pelo perfeito pensamento de esquerda pode a verdadeira Utopia Moderna ser alcançada, e apenas pelo perfeito pensamento radical de direita podemos esperar reconquistar a Era de Ouro perdida pela Modernidade.

Enquanto isso, a vasta maioria das pessoas da direita e da esquerda acreditam em progresso incremental, e apelam primeiro aos próprios princípios e instituições da Modernidade ao criticar os extremos do outro lado. Aqueles que afirmam que a ciência e a razão são uma forma de imperialismo ou uma afronta arrogante a Deus são amplamente reconhecidos como lunáticos. Aqueles que se opõe à democracia, liberdade e direitos humanos em nome de qualquer visão autoritária são amplamente percebidos como fanáticos perigosos. O respeito e o desejo de defender os frutos da Modernidade são a visão predominante, e isto transcende partidarismo, mas ainda assim, eles estão em risco de serem vítimas das maquinações intransigentes das periferias.


Os Inimigos da Modernidade

Os fundamentos filosóficos destes dois tipos de anti-modernismo são o pós-modernismo (esquerda) e pré-modernismo (direita).

A extrema esquerda manifesta anti-modernismo como pós-modernismo; um complexo conjunto de ideias originadas dos trabalhos de teóricos como Jean-François Lyotard, Jean Baudrillard e Jacques Derrida, adaptados e ainda mais politizados dentro dos campos do feminismo intersecional, teoria racial crítica, pós-colonialismo, teoria queer; e manifesta em variados graus em políticas de esquerda e ativismo pela Justiça Social. Por seu foco em justiça pelos danos sistêmicos na sociedade, o besteirol pós-moderno teórico apela facilmente às pessoas com inclinações liberais.

Fundamentado por uma crença no poder da linguagem, especificamente discursos – fala que assume ou promove certa visão – o pós-modernismo considera a sociedade, o conhecimento, a verdade e até mesmo o indivíduo em termos de construção social. Nossos valores, nossa ética, nossas instituições, e mesmo nosso conhecimento científico e processos racionais são tidos como sendo construídos de acordo com os vieses dos grupos dominantes na sociedade, e que agora precisam ser desconstruídos para permitir que outros valores, conhecimentos e verdades possam emergir. Como as sociedades ocidentais foram emergentes no período moderno, são estas sociedades e o conhecimento, instituições e valores formados no decorrer deste período que são atacados mais enfaticamente.

Apesar dos pais fundadores do pós-modernismo alegarem estar continuando o projeto da Modernidade, ao continuarem derrubando estruturas de poder e instituições opressivas, da mesma maneira como o patriarcalismo e o feudalismo, muitas destas estruturas e instituições são de fato produtos da Modernidade, que a maioria busca corrigir progressivamente e, em última instância, proteger.

“Anti-modernistas em geral tratam a verdade seletivamente, como aquela porção do todo da verdade que apoia suas ambições morais.”

O anti-modernismo em sua forma de extrema direita poderia ser corretamente pensado em termos de pré-modernismo. Pré-modernistas gostariam de restaurar a sociedade para um estado idílico que existe apenas na memória nostálgica e nas revisões da história, antes de ocorrerem o que percebem como corrupções do progressismo que acompanharam desenvolvimentos posteriores à Modernidade. Desatino pré-moderno, através destes valores, frequentemente apelam às pessoas com inclinações morais conservadoras ou libertárias.

Pré-modernismo valoriza a simplicidade e a pureza que imagina em termos de papéis, leis e direitos naturais. Ele sente que estes foram subvertidos pelo crescimento de instituições e estruturas sociais complexas. Ele também desconfia profundamente da expertise por uma variedade de razões complicadas, incluindo um certo ressentimento (autoconfiante, mas ao mesmo tempo autopiedoso) para com o aprimoramento sociocultural, o enfraquecimento de papéis “naturais”, o questionamento e desafio aos valores tradicionais, e a engenharia nas esferas social, cultural e política.

No caso dos libertários, em particular, uma grande influência é a teoria política de Friedrich Hayek, que viu a crescente regulamentação centralizada pelo governo no período moderno mais recente como um gradual retorno à servidão, que ameaça levar ao totalitarismo. Em Caminho para a Servidão, ele argumenta, mimetizando os pós-modernistas, que conhecimento e verdade são, dessa maneira, irremediavelmente ligados e construídos sobre estruturas de poder. Aqui e em A Constituição da Liberdade, Hayek levantou críticas influentes, mas profundamente duvidosas sobre o racionalismo na forma de expertise usada no planejamento e organização de programas socioeconômicos, isto porque, ele argumenta, o conhecimento do homem é sempre limitado. Ele advertiu que racionalismo impõe uma forma de perfeccionismo destrutivo que despreza antigas tradições e valores e restringe a liberdade individual.obs.A obra de Hayek, deve-se observar, não é o único pilar do libertarianismo, e sua desconfiança com o racionalismo não é unânime dentro do movimento: Ayn Rand, autora tão influente quanto Hayek para o libertarianismo, defendia radicalmente a verdade objetiva, o racionalismo e o progresso científico.(n.t.)

À sua maneira, o pré-modernismo também alega salvaguardar os valores da Modernidade – particularmente a liberdade – e acredita defender a visão de mundo que levou a Modernidade (normalmente usando o termo “Civilização Ocidental”) ao mundo e que agora se perdeu. À serviço desta desilusão, o pré-modernismo ameaça os valores da Modernidade que carregam os frutos que a ampla maioria deseja manter – incluindo liberdade individual, que em sociedades grandes e complexas precisam ser asseguradas por instituições efetivas, dirigidas por elites.

Inimigos da Ciência e da Razão

Em nenhum outro âmbito são os anti-modernistas mais danosos à Modernidade do que em sua relação desrespeitosa com a verdade. Anti-modernistas no geral tratam a verdade seletivamente, como aquela porção da verdade como um todo que apoia suas ambições morais. Desta forma mais do que em qualquer outra, eles se revelam como inimigos da Modernidade.

A esquerda pós-modernista é abertamente hostil ao conceito de realidade objetiva e mesmo à ciência e à razão. A estes ela associa os abusos que surgiram da aplicação de ganhos tecnológicos, o que ela usa para alegar que a própria empreitada do Iluminismo é irremediavelmente permeada com vieses. Nos últimos 30 anos, de fato, pós-modernismo contemporâneo chegou ao ponto de dizer que a busca empírica da verdade objetiva é maligna por sua intrínseca opressão aos grupos oprimidos historicamente por exploração europeia. É claro que eles têm um fundo de verdade, mas simplesmente ter um fundo de verdade é, como sempre, perder o foco. Sua hostilidade contra a ciência é tanto imerecida quanto perigosa.

Não há redenção filosófica aqui. Pós-modernistas, como “teóricos”, posicionam-se contra a ciência empírica desde o princípio. Seu ataque (implicitamente moralizante) contra ela originou-se da desconfiança generalizada de Lyotard quanto às “metanarrativas”, dentre as quais ele elencou o cristianismo, o marxismo, e a ciência como narrativas construídas socialmente, de forma equivalente. Relativismo pós-modernista reduz a ciência como apenas um “jeito de saber”, que julga ser uma alternativa opositora e injustamente desvalorativa quanto a epistemologias alternativas (leia-se: pobres) que podem ser encontradas em outras culturas menos ignóbeis. Isto, incrivelmente, é ensinado abertamente em quase toda universidade.

Além do mais, pós-modernismo ligou a ciência ao poder opressivo institucional de forma indissociável. As alegações da empreitada científica de estar no ramo de obter verdade objetiva foram apresentadas como sendo tanto falsas quanto – apesar disto ser irrelevante para a questão – maculadas por sua associação com os fracassos morais que vieram com o industrialismo, colonialismo, imperialismo e capitalismo. Tal prosa sem sentido tão em voga permeou os desenvolvimentos conseguintes da teoria crítica e do ativismo pela Justiça Social, cujos proponentes – não se dando conta da ironia de seus privilégios – pregarão incessantemente a você insuportáveis mensagens repetitivas, concatenadas com jargão desnorteante, atrás de suas bebidas cafeinadas gourmet (Starbucks, n.t.), mensagens enviadas furiosamente de seus iPhones.

Para a direita pré-moderna, sua oposição à ciência e à razão é bem mais antiga, sendo estas desafiadoras como são às crenças cristãs tão caras a muitos, e o oferecendo descobertas suspeitas e contraintuitivas, consideradas uma afronta ao pleno Senso Comum. Oposição pré-moderna à impertinência científica é, afinal, a linha de pensamento que justificou a prisão domiciliar de Galileu e a execução de Giordano Bruno na fogueira. Apesar da Inquisição ter acabado séculos atrás, a desconfiança pré-moderna quanto à inconveniente ciência não cessou. Criacionismo bíblico, por exemplo, ainda se mantém em evidência – como um debate falso – mesmo agora, mais de um século depois de ter sido dispensado por firme consenso científico.

O impulso pré-moderno contra a ciência surge principalmente quando os esforços científicos, e as elites que os resguardam, oferecem verdades provisórias que sobrepujam o Senso Comum – sabedoria tradicional intrínseca à cultura dominante – ou aquela que é paroquialmente consagrada como expressão do Bem e do Sagrado. Nas ocasiões em que estas descobertas provisórias se provam erradas, às vezes catastroficamente erradas, o impulso anticientífico é intensificado. Isto também é o que resulta quando elites bem-intencionadas utilizam da ciência para justificar iniciativas sociais ou culturais de esquerda para problemas que “não precisavam ser resolvidos”. Em particular, pré-modernistas rejeitam enfaticamente a ciência social intrometida, por razões que vão de crítica legítima a métodos e vieses metodológicos a preocupações inflamadas sobre manipulação social a paranoia sobre elucidar fatos que ameaçam o status quo. Estas coisas, também, eles vão lhe dizer prontamente em linguagem extremamente clara, de seus amados iPhones, normalmente em um tom polidamente teimoso, que insiste ser a expertise apenas uma opinião, enquanto a opinião deles vai no sentido contrário.

Tanto para pós-modernistas quanto para pré-modernistas, ciência e razão, tal como manifestas em muitas formas de expertise legal e profissional, são consideradas elitistas e afastadas da experiência de vida dos não-experts que – algo como feitiçaria moral os informa – detêm uma forma de conhecimento muito mais profunda e verdadeira do que aquela que pode ser obtida em qualquer universidade ou instituição de elite. Para o pós-modernista de esquerda, os sagrados grupos de não-experts podem ser grupos de minorias, imigrantes, indígenas (ou mulheres) no interior da sociedade. Para pré-modernistas à direita, eles são o homem comum do sal-da-terra (e seu irmão). Em ambos os casos, tanto a suspeita e rejeição da expertise quanto o equivocado relativismo sobre a verdade são o mesmo, e as justificativas são meras variações morais de uma mesma lógica tortuosa.


 

 

Bônus

https://youtu.be/fkup6oPhRew

 

 

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