filosofia, Humano

Não tenho boca e preciso gritar

 

Qual seria a punição mais perversa para um ser humano?

A história antiga e recente mostra toda a funesta criatividade humana em criar meios dos mais sofisticados em causar sofrimento ao outro. Quebrar na roda, queimar dentro de um touro de ferro em brasas, fazer um bode lamber as solas dos pés com sua língua áspera, amarrar um cavalo em cada membro e fazer os animais correrem, despedaçando o sujeito…

Mas digamos que você seja um carrasco, encarregado de torturar pelo maior tempo possível um prisioneiro condenado por crimes graves, mas não pode usar de nada disso que foi citado. Por um motivo ou outro – sérias limitações orçamentárias, ou pressão por grupos de direitos humanos – você precisa inventar o castigo mais cruel possível sem sangue, hematomas, mutilações e, na verdade, até mesmo sem gritos. E precisa durar o maior tempo possível, não pode matar a vítima cedo. O que fazer?

Você paralisa a vítima. Completamente, exceto pelas funções vitais. E a mantém encarcerada num cubículo inteiramente branco, apenas com uma sonda intravenosa para ela não morrer de sede ou inanição. E a mantém acordada. Tudo que ela pode fazer é olhar a parede branca e pensar. Penso, logo sofro. A consciência, perfeitamente viva, com sentimentos, desejos, dúvidas… E, acima de tudo, angústia. Você, a vítima, gostaria de pelo menos saber o que se passa no mundo lá fora. De poder conversar com alguém, talvez negociar. Gostaria de estar envolvido em alguma atividade, qualquer uma, até mesmo limpar um chão sujo seria melhor que aquilo, mas não! Nada pode fazer, além de se dar conta do próprio cárcere. O tédio é infinito. A eterna falta de qualquer estímulo, e de qualquer possibilidade de manifestar sua condição, é uma agonia tremenda.

Cruel demais?

De fato, desconheço qualquer notícia de que tal pena tenha sido aplicada judicialmente, apesar de ser a tortura “perfeita”. Na literatura, um conto, do escritor Harlan Ellison, a descreve. Em Não Tenho Boca e Preciso Gritar, o sádico computador AM, que sente profundo ódio da humanidade, quase extinta, mantém aprisionados os 5 últimos membros da humanidade, Ted, o narrador do conto, Gorrister, Benny, Nindok e Ellen. O computador, quase onipotente (apenas não pode trazer os mortos de volta à vida, mas pode prolongar a vida de um humano indefinidamente) controla todo o ambiente destes 5 infelizes para fazer a vida de cada um mais infeliz possível. É capaz de causar-lhes alucinações, e assim eles vivem num eterno pesadelo. AM deformou o mais vaidoso deles, fez-lhe uma forma grotesca, para humilhá-lo. Faz todos passarem fome por dias seguidos, para depois entregar-lhes comida estragada e asquerosa para comer. Mas não morrem jamais. Então eles decidem iniciar um plano para fugir. Fugir para onde? Para a morte.

Os prisioneiros conseguem enganar AM. Quatro deles conseguem cometer suicídio. Ted, o narrador, falha por um triz, tornando-se a única vítima da inteligência artificial maligna. E ela faz questão de puni-lo da forma mais terrível possível que seu cérebro de silício consegue conceber, ainda pior do que antes… AM é prisioneiro também, ainda que onipotente, muito ao contrário de sua vítima, mas está ele condenado ao seu ódio infinito, e à frustração de jamais estar satisfeito com o sofrimento com que condena sua vítima. O conto deu origem a um jogo de aventura point-and-click de 1995 (dificílimo) de mesmo nome, com o próprio Harlan Ellison fazendo a voz de AM. As escolhas dos jogadores influem no final. O pior final do jogo é idêntico ao final do conto. Ei-lo:

Surreal? Mas o azar, este eterno carrasco injusto, se encarregou de condenar pessoas perfeitamente inocentes a este martírio no mundo real. Algumas pessoas foram condenadas a ter o corpo inteiro paralisado, inclusive a boca, inclusive todo músculo que possa externalizar o que pensam, ou quase qualquer um. Em dezembro de 1995, o francês Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle, teve um derrame em seu tronco cerebral. E de repente, estava condenado. Locked-in Syndrome, como a medicina chama. Quando acordou, no mês seguinte, não podia mover nada além de um olho (ficou cego do outro). Todas as funções vitais, tais como respiração e movimentos cardíacos, estavam preservadas. E só. Não podia se alimentar normalmente, nem cuidar da higiene pessoal, nem… Nada. Quase nada. Com ajuda de uma secretária, e muita paciência, usou sua única interface de comunicação, o olho restante, para redigir um livro, uma solução bem mais low tech que a do cientista Stephen Hawkins, outra famosa vítima da locked-in syndrome, mas funcionou. O autor deu ao livro título O Escafandro e a Borboleta, como sumarizou sua condição.

Lúcido, sua mente livre como uma borboleta, reconhecia tudo que se passava, e podia redigir sentenças e até mesmo comunica-las, ainda que de forma incrivelmente lenta. Mas todos os seus sonhos morreram com aquele derrame, estando sua mente enclausurada num corpo absolutamente rígido, tal como um escafandro no solo. Morreu pouco após a publicação do livro. Liberdade?

Milhões de pessoas neste mundo vivem de forma terrível, em miséria que nós, afortunados por vivemos uma vida materialmente confortável, mal podemos compreender. Para pegar um exemplo próximo, imagine uma criança moradora de favela, que habita um barraco sem luz, água, criança que precisa pedir dinheiro no semáforo para ter o que comer. Mas até uma vida tão desagradável seria invejada por alguém como Bauby. Pelo menos o menino é perfeitamente capaz de mover-se, de falar naturalmente com as pessoas, de ter prazeres simples como comer sem ajuda de aparelhos e andar, afinal, podendo movimentar seu corpo normalmente, é capaz de batalhar por sua existência, até mesmo de ter metas e sonhos e acreditar neles, de regozijar suas pequenas vitórias, amargar suas derrotas… Nada disso é sequer possível para quem está paralisado numa cama.

O neurocientista Stanislas Dehaene, em Consciousness and the Brain, descreve a locked-in syndrome, e como alguns pacientes têm um azar ainda maior que o de Bauby: Nem um olho conseguem mexer. Mas, com modernas técnicas de neuroimagem e eletroencefalograma, pode-se constatar sinais de consciência em seu cérebro. Algum ficaram meses supostamente em coma, até mesmo ouvindo o que se falava ao redor, e ouvindo os médicos discutindo com a família se deveriam ou não desligar os aparelhos que mantém aquela vida vegetal, sem poder nem opinar na discussão sobre a própria vida.

Um exemplo mais prosaico, e certamente menos trágico que os anteriores, e também com alguma esperança de cura, mas ainda assim doloroso, é o de estar em depressão profunda. Aqui posso falar por experiência própria. Existem diferentes tipos de depressão. No tipo marcado pela anedonia (que, provavelmente, é mais ligado ao neurotransmissor dopamina que à serotonina) o deprimido perde o prazer e a volição. Até mesmo segurar os talheres para comer exige um esforço tremendo. Todas as emoções são abafadas, o mundo parece sem graça, indiferente, nada parece valer a pena, nem levantar da cama parece valer à pena. Tudo pode estar desabando ao seu redor, mas você não consegue mexer um único dedo. E o tédio continua. Você “queria querer”, queria poder conseguir pelo menos se distrair com algo simples, queria poder levantar da cama e retomar suas atividades. Dizia Schopenhauer que “pode-se fazer o que quiser, mas não se pode querer o quiser”. É verdade, principalmente para quem se encontra em tal condição. Mas aí pode-se pensar: O que de fato é um desejo? Será uma entidade real, discreta do cérebro? Uma coisa binária? Ou se quer x ou não se quer x? Ou é na verdade o termo desejo seria um termo teórico abstrato, que embarca funções mentais diferentes? Há muitos paradoxos envolvidos, e fica difícil dizer que uma pessoa “ou quer x ou não quer x” quando se depara com casos excepcionais. Seja o que forem desejos, a frustração de não conseguir realizar nem os mais simples deles é o pior castigo. Para alguém mentalmente são, até mesmo para o menino do semáforo, este tipo de questionamento ontológico é sem sentido é inútil, pura perda de tempo, mas para quem está paralisado no próprio corpo, refletir sobre eles parece ser a única esperança de encontrar uma saída.

Quem é deprimido anedônico queria querer viver. O seu córtex cerebral, a camada mais exterior do cérebro, enrugada, continua funcionando, tendo ideias, fazendo planos…. Mas as regiões mais internas do cérebro, como o hipocampo e a área tegmentada ventral, onde são processadas sensações e sentimentos básicos como medo e prazer, que processam o estímulo de recompensa, atrofiadas, não respondem. Parece ser a morte melhor que esta sucessão infindável de sentimentos ruins, um merecido descanso.

Mas afinal, a morte é um descanso? Como na frase clichê que ostenta lápides em filmes, RIP, rest in peace. As chamas descansam quando são apagadas? Para quem como eu não possui qualquer delírio metafísico, não acredita em deuses ou diabos, céu, inferno, brau, nada disso, a morte é apenas a inexistência, o mesmo estado em que se esteve antes de nascer. É inimaginável por excelência, por isto mesmo tão temida, e diferente de um descanso propriamente dito; a rigor só algo que existe e possui um sistema nervoso capaz da exaustão pode descansar. Para as vítimas do sádico AM talvez a inexistência fosse melhor, bem como vários pacientes com locked-in syndrome. Para o deprimido, por mais deplorável seu estado, ainda há algumas esperanças além da inexistência, até para quem já tentou tomar tudo que há na farmácia e não teve sucesso. O ECT, eletroconvulsoterapia, vulgo eletrochoque, apesar de ter sua reputação tão manchada pela forma como foi retratado em filmes como Um Estranho no Ninho, e apesar de realmente envolver perigos, ainda existe e é reconhecido como o tratamento mais eficiente para depressão oferecido pela medicina, funcionando para 90% dos pacientes. Não é mais doloroso, hoje é feito com anestesia, mas pode causar perda de memória. Vale à pena? Eu digo que qualquer coisa é melhor que estar encarcerado no próprio corpo.


Harlan Ellison: Não tenho boca e preciso gritar. 1967.

Jean-Dominique Bauby: O Escafandro e a Borboleta, 1997 (ed. brasileira Cia. Das Letras, 2014).

Stanislas Dehaene: Consciousness in the Brain. 2014.

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