Educação, filosofia, Humano, sociedade

Arte, Entretenimento e “Alienação”


Acho que todos nós já tivemos um professor comunista chato de galochas, daqueles que acham que toda e qualquer obra de arte que visa o entretenimento é errada de alguma maneira, e talvez nem mereça ser chamada de arte. “Novela?! Alienação, para imbecilizar o povo!”, “Esses Transformers e Batmans e Esquadrões Suicidas: pura propaganda imperialista estadunidense…” Aliás, quer uma dica para pegar um cinéfilo falso, poser? Pergunta o que ele acha do cinema americano. Da forma mais genérica possível, “cinema americano, você gosta?”. Se vier com papinho de que é tudo filme comercial, e arte comercial não é arte de verdade, que só filme argentino que passa em mostra de cinema no Memorial da América Latina é que é arte de verdade…. Nem dê trela pro sujeito. Ou ainda, se quiser embaraça-lo um pouco, lembre-o que O Poderoso Chefão é cinema americano também.


Eu conheço cinéfilo de verdade, que assiste de tudo, inclusive cinema americano mainstream, e assiste com gosto, e também os mais alternativos, inclusive os argentinos, brasileiros, japoneses… E reconhece as produções valiosas de cada um. Concepções de arte há das mais diversas, algumas melhores que a outra, mas simplesmente decretar que “arte comercial” não é arte não tem fundamento nenhum, é só a velha birra da esquerda contra o mercado. Todo artista no fundo quer agradar ao público de alguma forma, e nem toda arte comercial é imbecil. O cineasta também pode visar um público mais maduro e fazer algo ao mesmo tempo cabeça e divertido, e sim, isto é possível no sistema de mercado, vulgo capitalismo. O que mais me admira em Hollywood, e em outros núcleos de produção de cinema comercial, é como eles são capazes de fazer algo ao mesmo tempo profundo, “cerebral”, mas com potencial de entretenimento para quem quer só se divertir. Para citar um exemplo, pegue o filme A Bruxa, do ano passado. Profundo, enredo denso, personagens cativantes, preciso na ambientação do período histórico retratado… Do gênero de suspense, também me cativou muito o filme Encarnação do Mal 2. Fiquei simplesmente boquiaberto.
Outro exemplo, de um gênero diferente: Interestelar. Mal tenho palavras para designar tal obra prima. Não parece exagero dizer que é um novo “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Que aliás, como todos os filmes do Kubrick, também é “arte comercial”. Outro exemplo que você pode citar para embaraçar o seu amigo cinéfilo poser.

No fundo esses sujeitos acham que o povo é burro demais pra saber o que é bom para si mesmo, e acreditam ser eles, os intelectuais superiores em suas torres de marfim, que devem decidir aquilo que é adequado para as massas, e descartar aquilo que seja contra a “cidadania”, mantendo em sua pasteurização apenas aquilo que na concepção deles é bom para a sociedade. Entretenimento, especialmente se for entretenimento pela arte, só pode ser o que eles julgam adequado…
E os videogames, estes perpétuos alvos dos rabugentos… Lembra ano passado, quando foi a febre do Pokémon Go? Abriu-se a temporada de caça para os rabugentos de plantão…. Um ativista de esquerda, Richard Stallman (mais conhecido por sua militância pelo software livre) disse que mesmo se o jogo fosse software livre, ele não recomendaria alguém jogar, porque na verdade se você tem tempo livre deveria estar usando esse tempo para lutar por um mundo melhor… Vai pentear macaco.

Games são inquestionavelmente uma forma de arte. Games contam histórias que nos deixam engajados, podem nos fazer rir e nos levar às lágrimas, podemos aprender com eles, aprender lições, ou simplesmente relaxar e descontrair por algumas horas. Ou seja, têm o potencial de prover a mesma coisa que filmes, peças de teatro e literatura. Mas ainda assim, seu status como arte é controverso… Alguém mais erudito em artes que eu pode me explicar o que falta exatamente para eles serem considerados arte? Não me venha com essa ladainha de que são feitos para o mercado…

Quando não está, supostamente, afastando os jovens do engajamento político, está no mínimo os tornando ignorantes, dizem os rabugentos: Malditos videogames, tudo um grande complô para fazer os jovens pararem de ler e ficarem alienados, tornando cada vez mais distante o passado idílico em que os jovens ficavam em casa de terno lendo Machado de Assis e José de Alencar para debater no jantar com os pais…. Você lembra desse tempo? Não? É porque ele nunca existiu. Criança e adolescente sempre gostou de se distrair com besteira. Os seus avós não jogavam videogame porque não tinha, não porque eram muito intelectuais para isso, então tinham que se contentar em jogar bets e pelada na rua.

E aliás, falando em literatura, eu mesmo sou um leitor voraz, leio principalmente história e filosofia analítica, mas recentemente me entreguei à ficção novamente. A nossa civilização não está deixando de ler, como os velhos rabugentos acham, longe disso. Ah, mas Chronicles of Ice and Fire (Game of Thrones), isso não conta, é arte comercial, ignorante e pornográfica! E aquilo que lemos no Twitter, em textões ou textículos*com o perdão do trocadilho… no Facebook, em blogs…. Ah, isto não conta, ler só vale se for algo encadernado e impresso em brochura ou capa dura, e que seja bem velho e chato. Os bibliófilos mais radicais detestam até os leitores de ebook como o Kindle e o Lev. Eu não me dou muito bem com a maioria dos bibliófilos. Não só por seu desprezo gratuito aos ebooks (uma das invenções mais fantásticas de todos os tempos) mas porque emanam um certo ranço ufanista e nostálgico, de achar que Machado de Assis(e outros “clássicos da Fuvest”) foi o escritor mais fantástico do universo só porque a sua professora de português falou que é. Lamento, mas Turma da Mônica, Harry Potter, Crepúsculo e os livros baseados em games fizeram infinitamente mais para popularizar o hábito da leitura entre os jovens do que as escolhas desastradas dos currículos escolares do Brasil.

E não se engane: Existe muito ressentimento do outro lado do espectro político também. Meu pai, provavelmente um dos mais ferrenhos anticomunistas que conheci (e você deve imaginar já a rabugice da figura) odeia toda e qualquer obra de ficção com heróis, ou quaisquer elementos fantasiosos. E vive implicando com minha mãe por ela assistir novelas. Ele não está sozinho. Os “reaças” Reclamam que estas coisas estão corrompendo a juventude e minando a moral e os bons costumes, que as novelas destroem as famílias… Sendo que ele é provavelmente fã de Nelson Rodriguez. Quanta coerência, não? Um sujeito que se diz conservador atacar a novela como destruidora da família e ser admirador da suposta genialidade de Nelson Rodriguez e suas mil e uma variações do tema traição.

As pessoas não absorvem o conteúdo das obras de arte que apreciam, em qualquer mídia, de maneira passiva, sem reflexão e sem confrontar com a realidade que os cercam. Não é novela (nem contos do Nelson Rodriguez) que vão fazer alguém pular a cerca, assim como, apesar de todo o estardalhaço que já se fez sobre o assunto, os videogames violentos nunca tornaram ninguém um assassino. Se alguém é tão mentalmente desequilibrado que começaria um massacre inspirado pelo GTA, provavelmente começaria um massacre sem GTA. Nós aprendemos com a arte, mas não somos escravos dela.

Que fique claro, eu não parto de um relativismo, de dizer que todo valor de uma obra de arte é subjetivo, e gosto não se discute. Eu reconheço: Existem obras de arte mais intelectual e de maior mérito que outras. Lamento, mas A Nona Sinfonia de Beethoven é superior (intelectualmente) a qualquer letra de funk, e Dostoiévski é superior a Cinquenta Tons de Cinza. Tem obras de arte que são puro besteirol. Mas quer saber? As pessoas de todas as idades têm direito de distrair a cabeça com o que quiserem, inclusive, se acharem mais divertido, filmes de besteirol, novelas, jogos de celular…

Esta é provavelmente a forma mais saudável de escapismo que existe. Claro, assim como no caso de algumas drogas, o problema é a pessoa se viciar naquilo e não querer voltar à realidade, como o sujeito que perde noites de sono fazendo maratona de Netflix e chega feito um zumbi no trabalho, ou o adolescente que só tira notas baixas por só ficar jogando videogame o dia inteiro e não estudar nada. Mas no caso do entretenimento, de fato, é o excesso que faz mal, seja entretenimento pela apreciação da arte ou de outro tipo. Mas entretenimento não precisa ser um vício.

Alguém que tem uma rotina atribulada de trabalho e/ou estudo merece descansar a cabeça no fim do dia ou no fim de semana com o que for mais agradável, inclusive se for algo muito imbecil, e o sistema de livre mercado é muito bom em prover isto que eu chamo de “merecido escapismo”. Eu mesmo, apesar de também gostar de esfriar a massa encefálica com besteirol vez ou outra, não gosto de filmes de herói (com a honrosa exceção da trilogia Batman de Nolan), mas nem por isso quero proibir alguém de assistir, nem vou menosprezar alguém só porque gosta.

E aqui faço um mea culpa, quanto a um dos poucos posts deste blog que deserdei (e despubliquei) sobre futebol. Eu realmente não me interesso por futebol. Não assisto nem final da copa do mundo, nem se não tiver mais nada para fazer. Mas minha opinião atual é que futebol, no fundo, é só mais uma forma de entretenimento que as pessoas podem usar para relaxar e se distrair, e uma minoria acaba se viciando. Alguns vão levar a coisa longe demais, brigar com membros de outra torcida, entrar em depressão porque o time perdeu, mas quer saber? Se você for um desses que leva futebol longe demais… Problema seu. Não sou eu, nem ninguém mais, que deve dizer como você deve apreciar o seu ópio favorito (usando um termo bem marxista, a título de escárnio).

Voltando ao tema literatura: Toda leitura pode ser valiosa, inclusive aquela que encontramos “em sachês” na internet. Nossa cultura não está abandonando o hábito da leitura e da escrita, nem está assassinando a gramática e o estilo, longe disso. Como colocou Steven Pinker no prólogo de Guia de Escrita:

As pessoas me perguntam frequentemente se hoje alguém ainda liga para o estilo. A língua inglesa, dizem elas, enfrenta uma nova ameaça com o crescimento da internet e suas práticas de “texting” tuítes, e-mails e salas de chat. Certamente a arte da escrita declinou, comparando com antes dos smartphones e da web. Você se lembra daquele tempo, não? Lá pelos anos 1980, quando os adolescentes falavam em parágrafos fluentes, os burocratas escreviam num inglês claro e todo trabalho acadêmico era uma obra-prima na arte do ensaio? (Ou seria nos anos 1970?) O problema com a teoria de que a internet-está-nos-tornando-analfabetos, claro, é que a prosa ruim oprimiu os leitores em todos os tempos. (…)

O que os derrotistas de hoje não conseguem perceber é que, precisamente, o que eles deploram é que as mídias faladas – rádio, telefone, televisão – estão cedendo o lugar para mídias escritas. Não faz muito tempo, o rádio e a televisão eram acusados de estarem destruindo a língua. Mais do que nunca, agora a moeda corrente de nossas vidas sociais e culturais é a palavra escrita. E nem tudo é fanfarrice semianalfabeta do folclore da internet. Surfando um pouco, vê-se que muitos usuários da internet valorizam a linguagem clara, gramatical, em boa ortografia e pontuação, não só nos livros impressos e nas mídias tradicionais, mas também nos zines eletrônicos, nos blogs, nos verbetes de Wikipédia, nas avaliações de consumidores, e mesmo em boa parte dos e-mails.

Levantamentos mostraram que universitários estão escrevendo mais do que seus colegas de gerações anteriores, e que não fazem um número de erros maior por página. E, contradizendo uma lenda urbana, não salpicam seus trabalhos com carinhas sorridentes e abreviações de mensagens instantâneas como IMHO e L8TR III mais do que as gerações anteriores se equivocavam no uso das preposições e artigos, pelo hábito de omitir essas palavras nos telegramas. Os membros da geração da internet, como todos os usuários da língua, ajustam a formulação de suas frases ao contexto e à audiência e têm uma boa noção do que é adequado na escrita formal.

PINKER, Steven. Guia de Escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância. Trad. Rodolfo Ilari. Edição do Kindle. Editora Contexto, 2015.

 

Mas claro que, apesar de encontrarmos bom material de leitura “em sachês” na internet (seja para se entreter ou para se informar), o livro – digital ou de papel – ainda é insubstituível. Afinal, eles proveem uma experiência prolongada: Em centenas de páginas, com editoração profissional, entramos nas histórias com maior riqueza de detalhes que em outras mídias, como o autor imaginou. Afinal, literatura ainda é a arte mais barata, fazer um livro ou série de livros permite ao artista colocar o que pretende com muito menos cortes do que teria de ser, por exemplo, num filme ou numa série de TV. Isto falando de ficção. Acho que deixei claro nos primeiros parágrafos que valorizo outras mídias também, e muito. Cada uma tem algo de especial. Mas o que há de especial nos livros é serem longos, detalhados. Sobre livros de não-ficção: Um dado assunto pode ser estudado de forma muito mais detalhada, e compreendido pelo leitor em muito mais profundidade, do que informações “soltas” na internet. Por isto nos meus posts eu sempre listo a bibliografia que eu consulto, para o caso de algum dos leitores do Computações Anômalas se interessarem pelos assuntos de que trato e quiserem conhece-lo mais afundo (e pelas palavras de autores muito mais sagazes do que eu). Mas você precisa ser seletivo: Assim como tem muita besteira na internet, também tem muita besteira que chega às estantes das livrarias. Mas até besteira pode ser “útil”. Antes de mais nada, porque pode servir para se divertir e descontrair, que é um bem por si só. E também, como disse um professor de português em um nerdcast sobre língua portuguesa, “pior que quem lê Crepúsculo é quem não lê”. É verdade. Escrever bem, com estilo adequado e poucos erros gramaticais, é uma habilidade valiosa em qualquer campo de trabalho ou estudo, e nada melhor para aprender a escrever bem do que ler bastante.

Muita gente que conheço diz que detesta ler, não tem paciência para tal, e não consegue ver prazer nisto. Mas eu desconfio (talvez seja otimista demais) que todo mundo pode aprender a gostar de ler, e desenvolver a disciplina de ficar um longo período focado no mesmo texto. Basta ser apresentado à um livro de um assunto que gosta. Por exemplo, se o seu amigo é fissurado em futebol, dê a ele no aniversário um livro sobre futebol, ou sobre seu time favorito. Você nunca sabe.

Fica a dica: Siga o conselho do pichador de baixo. Hentai tem mais valor de entretenimento. E cultura.

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