Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.2 Ferramentas de Navegação Padrão: Linguagem

 

4.002 O homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode exprimir todo sentido, sem fazer ideia de como e do que cada palavra significa – como também falamos sem saber como se produzem os sons particulares. Assim se fala sem saber como os sons singulares são produzidos.

A linguagem corrente é parte do organismo humano, e não é menos complicada do que ele.

É humanamente impossível extrair dela, de modo imediato, a lógica da linguagem.

A linguagem é um traje que disfarça o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que não se pode inferir, da forma exterior do traje, a forma do pensamento trajado; isso porque a forma exterior do traje foi constituída segundo fins inteiramente diferentes de tornar reconhecível a forma do corpo.

Os acordos tácitos que permitem o entendimento da linguagem corrente são enormemente complicados

4.014 O disco gramofônico, a ideia musical, a escrita musical, as ondas sonoras, todos mantêm entre si a mesma relação interna afiguradora que existe entre a linguagem e o mundo.

A construção lógica é comum a todos.

Ludwig Wittgenstein: Tractatus Logico-Philosophicus

Nada tão humano quanto a linguagem. Todos os povos conhecidos, por mais primitivos que sejam, têm linguagem, não necessariamente escrita, mas todo os povos falam. Todo humano saudável possui a capacidade do falar, e só os humanos a possuem. Não que o homem sempre tenha tido a linguagem, que não tenha sido homem antes da linguagem, nada disso: Esta capacidade mental, com circuitos cerebrais dedicados, é uma novidade bem recente em termos evolutivos, e sua forma escrita, recentíssima. Mas desde então este novo poder, o poder da língua, absolutamente idiossincrático, confere ao homem um lugar especial no reino animal. Só os homens pensam e falam em símbolos, e de símbolos fazemos línguas. Como melhor definir em uma frase o que faz do homem moderno diferente dos outros animais? Animal racional? Não serve bem. Outros animais têm uma racionalidade mais limitada, mas têm, os outros primatas também podem ser adestrados para tarefas racionais, assim como os famosos pombos de Skinner, e os ratos que todo aluno de psicologia em algum momento de seu curso precisa ensinar a passar por um labirinto e lembrar o caminho, tarefa impossível sem racionalidade alguma. E que tal dizer que é o único animal com cultura? O único com história? Nunca ouvimos falar de um movimento impressionista símio, ou de uma reforma política das abelhas, cujas colmeias são monárquicas desde sempre, sem sinais de revoltas burguesas até o momento. Mas há algo mais primordial: Temos cultura e temos história porque temos linguagem. Nós falamos, moldamos nossos pensamentos em palavras e expressamos aos demais com palavras, que vocalizamos ou escrevemos.

Papagaios e outros pássaros que falam, como araras e cacatuas até mesmo corvos, procure no YouTube apenas repetem sons, como um gravador. Reproduzem, mas não sabem o que significam, nem sabem interpretá-los para aprender as palavras e a sintaxe e aprender alguma coisa. E nossos amigos de 4 patas? O cachorrinho e o gatinho podem expressar seus estados mentais, de diversas maneiras, por exemplo, ele pode expressar seu desejo de comer pegando sua tigela de comida com a boca e levando até você, e fitá-lo com aqueles olhinhos irresistíveis. O que o felpudo não pode fazer é relatar seu estado mental, como colocou David Rosenthal, citado por Dennett1. Você pode não só relatar seus próprios estados mentais, como pode relatar o de outros seres. Só se faz relatos de forma verbal. Você pode expressar seu amor por uma pessoa abraçando-a, beijando-a, mas só pode relatar o que sente para seu crush por palavras, gravando seus nomes na casca de uma árvore com um estilete, mandando uma mensagem no WhatsApp bêbado às 3h da manhã, pilotando um avião e escrevendo a declaração no céu com a fumaça, relatos são sempre verbais. Ora, mas faz diferença? Toda. O que significam palavras, símbolos? O que eles têm de especial e por que só humanos possuem esta faculdade, o que há de diferente em seus cérebros que possibilita tal forma de comunicação? E principalmente, o qualia tem algo a ver com isso?

Símbolos e linguagens

Símbolo é uma coisa que carrega um significado. E é uma coisa que existe em relação a outra coisa. Portanto, ele tem um referente. O símbolo e o referente mantêm entre si uma relação isomórfica: Possuem em comum uma forma lógica. O referente pode ser um objeto no mundo real, uma coisa, ou uma ideia na mente do interlocutor ou de outras pessoas… Símbolos não são só palavras, há outros tipos, bem mais simples.

Como aprendemos em uma das melhores demonstrações de didatismo já exibidas na TV brasileira, uma caveira significa perigo.

professor

PRE-RI-GO!

O docente em questão, Seu Madruga, possui em sua mente um símbolo, uma caveira, que associa ao significado perigo. Ele tem uma crença: Bebidas com o símbolo da caveira no rótulo são venenosas, isto porque o fabricante, que sabe que seu produto é venenoso e acredita que todo mundo irá partilhar deste conhecimento se vir a caveira, então estampa a caveira no rótulo, evitando assim possíveis processos. Seu Madruga desenha o símbolo na lousa, usa de formas de expressão verbal (relatos) e não verbais (mímica; fingindo ser eletrocutado ou simulando tomar um copo de veneno) para que seus alunos aprendam o símbolo e formem em suas mentes a mesma associação que ele. Agora eles, com a crença de que a caveira significa perigo, e o desejo de não morrerem, poderão evitar este fim.

Outro exemplo televisivo interessante vem da sitcom Big Bang Theory. Em um dos episódios da primeira temporada, o físico Sheldon Cooper chama sua vizinha Penny para sanar uma dúvida: Ele vê uma gravata vermelha pendurada na maçaneta do quarto de seu colega Leonard, e quer saber o que significa.

sheldon penny gravata vermelha

Ora, Sheldon, como qualquer ser humano, sabe que símbolos são usados por humanos para informar as ações de outros humanos, e identifica a incomum gravata vermelha como um símbolo, mas não sabe o que significa. Ele possui uma relação de amizade e respeito com seu amigo (possui o desejo de não infringir seus limites), e não quer entrar no quarto do amigo sem saber se o que a gravata significa. Penny explica da melhor forma possível que a gravata vermelha significa que as pessoas naquele quarto estão fazendo sexo e não querem ser perturbadas. Símbolos simples como a gravata e a caveira tem a vantagem de serem rápidos para compreensão, e universalmente conhecidos. Bem, quase universalmente: É difícil fazer Sheldon compreender, não foi fácil como foi para Seu Madruga explicar que a caveira significa “perigo”. O personagem Sheldon, que a maior parte dos fãs concordam possuir algum grau de autismo, apesar de ser um físico genial, possui uma certa dificuldade de compreender aqueles símbolos que dizem respeito a interações humanas.

O próprio mestre Madruga mostra que a coisa pode ser um pouco complicada: No começo da aula, ele pergunta retoricamente aos alunos o que significa a caveira, e sugere outras interpretações: Uma bandeira de pirata? Não! Ué, mas poderia ser… A mesma série mexicana usa também o símbolo da caveira em outro episódio com Seu Madruga: Aquele em que ele, em seu aniversário, e ouvindo várias pessoas perguntarem se sente mal, contempla o espelho e vê nele uma caveira. O espectador logo entende: Este senhor teme que a morte se aproxima. Mas símbolos simples têm o problema de serem muito vagos: Podem ter muitos significados, podem ser ambíguos, e não conseguem representar nada muito complexo. Os sinais de perigo no mundo real geralmente são mais específicos que uma caveira (há o trifólio, por exemplo, que indica risco de radioatividade, e o símbolo de risco biológico), mas tem um limite do que dá para dizer sem palavras. Palavras são mais precisas. E palavras encadeadas em sentenças permitem formar proposições complexas, que permitem representar (quase?) tudo que uma mente precisa representar.

Línguas existem em grande número e de diversos tipos, as mais primitivas não possuem sequer uma forma escrita, mas todas contam com um conjunto limitado de símbolos básicos, um alfabeto, que podem ser combinados para formar palavras, que podem ser combinadas em frases para exprimir inúmeros significados completamente diferentes. Todas as línguas têm recursividade, que permite “engatar” sentenças umas nas outras, conferindo sua riqueza, riqueza que está em possibilitar, com um número de caracteres limitado, um número virtualmente infinito de expressão. Como no poema de Drummond:

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. ”

Uma frase pode significar mais que mil imagens, e significar com precisão. Por mais que as línguas humanas sejam diferentes entre si, elas todas têm aproximadamente o mesmo poder de exprimir estados de coisas no mundo e estados de pensamento. É claro que há controvérsias.

O Relativismo Linguístico (Sapir – Whorf)

Relativismo linguístico é uma teoria crítica à linguagem, crítica ao seu poder de informar sobre estados do mundo, de organizar e transmitir ideias. Seu marco inaugural é em meados do século XX com as ideias dos linguistas Edward Sapir e Benjamin Whorf, popularmente sintetizadas pelo termo hipótese Sapir-Whorf, uma hipótese não apenas de relativismo, mas de determinismo linguístico. Mas na verdade, o marco está equivocado, a ideia começou a ser desenvolvida bem antes (ambos foram inspirados principalmente pelo trabalho do linguista alemão Franz Boas) e estes dois pensadores nem foram tão radicais assim. A teoria do relativismo linguístico, junto de outros relativismos, foi muito além de Sapir e Whorf, se desenvolveu no século XX em variantes mais ou menos radicais, culminando no pós-estruturalismo dos filósofos franceses como Jaques Derridá, Gilles Deleuze e Roland Barthes, Mas antes de descer a lenha no relativismo, como eu costumo fazer, preciso admitir que há razões válidas para questionar o poder e a exatidão da língua. Nada deve ser imune a críticas, mas há maneiras mais ou menos inteligentes de criticar. Primeiro, vamos tentar sumarizar o que é exatamente este relativismo linguístico, em seu cerne:

O relativismo linguístico rejeita a noção de símbolos com referentes no mundo real. Não seria excessivo dizer que o relativismo não apenas é crítico, mas se rebela contra a linguagem, ou, como gostam de dizer, fazem uma “desconstrução”. Na verdade, segundo a teoria, a linguagem é um sistema fechado, hermético, com palavras fazendo referências apenas umas às outras, como se vê em um dicionário, em que os verbetes acabam em circularidade. E o tal referente no mundo real seria apenas uma miragem: Achamos que palavras e sentenças possuem significados reais, mas tudo não passa de uma convenção (e uma imposição) social. Ou seja, tudo se resume a construção social, e agora você deve ter entendido porque a filosofia francesa gosta tanto desta teoria (no final tudo se resume à opressão).

Ludwig Wittgenstein, que citei na epígrafe deste post, e que é uma das mais importantes figuras da filosofia analítica, sumarizando com maestria os principais problemas da linguagem em seu livro Tractatus Logico-Philosophicus (o único publicado em vida)2 e em escritos posteriores, nos quais demonstrou a questão do significado da linguagem com sua metáfora do besouro na caixa: Imagine que todo mundo tenha uma caixa com um besouro, e cada um diz aos outros a mesma coisa, que tem um besouro na caixa; mas ninguém pode olhar dentro da caixa. O conteúdo da caixa, portanto não pode ser o determinante do termo “caixa com um besouro”, e apenas o uso que as pessoas fazem do termo – como o termo se encaixa dentro das proposições – e o fato de conseguirem se comunicar com ele, é que determina o significado. Os nossos pensamentos são estritamente privados (na concepção de Skinner, “fenômenos privados”). Mas isto é um exemplo de uma crítica lógica e válida, não da rebeldia barata com a linguagem que se seguiu principalmente na filosofia pós-modernista.

O relativismo é intimamente relacionado ao determinismo linguístico, que dá um papel maquiavélico à linguagem: Ela restringe nosso pensamento, determina exatamente o que pode ou não ser pensado e como pode ou não ser pensado. A língua é uma prisão. Steven Pinker, em Tábula Rasa3 dá o irônico prêmio de afirmação relativista mais exagerada de todas à uma frase de Roland Barthes: “O homem não existe antes da linguagem, nem como espécie, nem como indivíduo”. Quanta bosta, não? Na verdade, já ouvi esta mesma citação sendo pronunciada orgulhosamente por um professor na faculdade que curso atualmente, que foi um dos eventos que fez eu me dar conta do estado deplorável em que se encontra a dita “intelectualidade” do meio acadêmico brasileiro.

A Chegada

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Um exemplo mais “simpático” do relativismo linguístico é o que permeia o roteiro do filme A Chegada (Arrival, 2016). Longe de mim desmerecer o valor artístico da obra, que me deixou boquiaberto quando a assisti no cinema, e sem dúvida uma das variações mais criativas do tema “invasão alienígena” (meu colega do WordPress Felipe Calabrez já não gostou tanto). Na história do filme, chegam naves alienígenas à terra, naves em formato amendoado que estranhamente não fazem nada além de pairarem sobre o solo, enquanto seus tripulantes estabelecem contato com as autoridades dos locais em que pousaram, criando muito receio na população, que permanece alheia ao que está acontecendo, imaginando o pior. Este contato consiste, em primeiro lugar, em tentar ensinar nossas línguas aos alienígenas, para tentar descobrir o que eles desejam. “Viemos em paz” ou não? Nos EUA, a renomada linguista Louise Banks e o físico Ian Donnelly chefiam a equipe que sobe à nave para fazer contato com os alienígenas. Numa troca que acontece no avião que leva a dupla ao local de pouso da nave, os dois divergem quanto ao que seria a base da civilização: A língua, segundo Louise, e a ciência, segundo Ian (dica: não é nenhuma das duas coisas). Os alienígenas, de uma espécie denominada hectapodes, ficam sempre em um ambiente esfumaçado isolado dos humanos por uma tela branca. Não ficam bem visíveis, só se vê que são criaturas gigantes com tentáculos. São apelidados de Abbot e Costelo por Ian. Louise logo desiste de tentar fazer a análise dos sons que Abbot e Costelo emitem (similares aos sons arrepiantes de baleias) e se foca nos desenhos que eles fazem na tela com tinta preta, símbolos circulares como este que ilustra esta seção. Ela tenta ensinar conceitos básicos da gramática inglesa a Abbot e Costelo com técnicas pedagógicas simples (escrevendo o próprio nome em uma lousinha, apontando para si mesma, e dizendo “I’m Louise”) e enquanto isto as respostas, na forma de círculos de tinta na tela, ficam gravadas… É dela a tarefa de decifrar o que significa o que. Um belo quebra cabeça, e a pressão para desvendá-lo aumenta conforme os dias passam e a população fica mais revoltada com a atitude sigilosa do governo.

O enredo descamba para o relativismo, infelizmente, ainda que o faça com beleza poética (spoilers neste parágrafo): Louise começa a enlouquecer durante o processo de decifrar a língua dos hectapodes. Desde o princípio do filme, vemos que ela tem sonhos estranhos com uma menina, sua filha, que no começo do filme entendemos serem flashbacks de uma filha que ela perdeu. E eles se intensificam. Ela começa a sonhar também com as criaturas cuja linguagem tenta decifrar. Mas o fato é que Louise não está de fato enlouquecendo, pelo contrário, está assimilando um novo poder. A linguagem dos hectapodes é circular porque eles não veem o tempo de forma linear como nós, são seres oniscientes que enxergam passado, presente e futuro. Louise, ao assimilar a língua dos hectapodes, torna também sua mente capaz de ver o futuro. Os supostos flashbacks eram premonições: Após os eventos da trama, ela viria a se casar com Ian e ter uma filha com ele, que morreria antes da idade adulta. Os alienígenas eram bem-intencionados, isto é, vieram pedir ajuda, pois sabiam que no futuro os humanos os ajudariam (non zero sum game). Na China, outro lugar em que pousou uma nave, os encarregados da comunicação tentaram ensinar os hectapodes usando símbolos de mahjong, que é um jogo competitivo *apesar de ser mais conhecido no ocidente pela sua versão “paciência”, para um jogador só, a mahjong solitaire, que vem pré-instalada em algumas distros de Linux, foi como eu o conheci por isto extraíram sentidos ameaçadores das mensagens dos hectapodes. Uma língua competitiva, violenta só pode dar origem (este é o sentido da coisa no relativismo linguístico) a pensamentos violentos. É uma espécie de conto com temas Lovecraftianos otimista. Nas histórias de Lovecraft, o protagonista sempre acabava enlouquecendo ao tentar entender os deuses anciãos, cuja língua é tão estranha que mal pode ser pronunciada (Cthullu, parece um soluço, não?). Acho o Lovecraft original mais realista: Se um cérebro humano comum com uma mente comum, ainda que muito inteligente, tentasse assimilar uma língua de uma civilização muito avançada, não adquiriria poderes, mas enlouqueceria. O hardware não comportaria este software. (fim dos spoilers)

O enredo é intrincado e talvez você se perca divagando sobre os paradoxos lógicos (dica: fica mais fácil quando você entende que não existe livre-arbítrio). Eu disse a um amigo, que também gostou do filme, que se fosse em nosso mundo real, teriam chamado o Steven Pinker. Mas o Pinker sem dúvidas não se basearia em relativismo linguístico. Para usar um eufemismo acadêmico moderno, a tese do relativismo linguístico não se sustenta. Independentemente de ser mais ou menos radical, é o tipo de coisa que devemos varrer para o lixo das teorias fracassadas e ir em frente com o que temos de concreto. O relativismo linguístico não se sustenta quando você entende como surgiu a língua em nossa espécie, e somente em nossa espécie.

Máquinas Simbólicas Biológicas

Pinker cita um comediante que, em uma frase, resume o que há de errado no relativismo linguístico, em correntes como o pós-estruturalismo, e tomo a liberdade de fazer uma adaptação moderna dela: O pós-estruturalista é um sujeito que dá uma palestra sobre como a língua não possue referentes no mundo real, e depois manda um recado de voz pelo WhatsApp para a esposa pedindo para ela ligar para a pizzaria e pedir uma pizza de pepperoni”. Pois é, até que este sistema simbólico funciona relativamente bem, apesar de todo ataque que sofreu por este segmento da linguística. E podemos nos divertir imaginando Roland Barthes olhando a fatura de cartão e descobrindo várias compras que ele não fez, em seguida ligando para o banco para argumentar que a pessoa que fez aquelas compras não era o referente real do nome Roland Barthes…

A afirmação estapafúrdia de Barthes e seus comparsas nega a ciência, o que aliás os pós-modernos e afins adoram fazer. Símbolos possuem referentes no mundo real (nem sempre óbvios, naturalmente), o indivíduo existe como humano antes de formar língua, e o homem existiu antes da língua, descendeu de espécies que não tinham língua. É verdade: Todo sistema simbólico se sustenta na pressuposição de que o interlocutor tem uma mente mais ou menos igual à nossa, faz parte das intuições naturais do homem (que discuti no post anterior desta série), parte de nossa psicologia intuitiva, que pode ser frustrada, como Penny ficou frustrada tentando ensinar Sheldon o que significa a gravata vermelha na maçaneta. Isto mais ou menos é o que Wittgenstein quis dizer com sua metáfora da caixa, e com uma de suas famosas frases, “mesmo que um leão pudesse falar, não o entenderíamos”. O que nega a possibilidade de existir o peixe de babel da série Mochileiro das Galáxias, um dispositivo que, instalado no ouvido de alguém, o permitiria entender tudo que um ser completamente diferente diz. Mas um ser com uma mente completamente diferente jamais será compreendido. Na verdade, um leão que falasse precisaria ser tão diferente de um leão normal (não é uma mera gambiarra como o peixe de Babel que faria o truque) que nada do que ele dissesse nos faria entender como é ser um leão comum.

Mas, felizmente, a maior parte do tempo só estamos preocupados em nos comunicar com outros humanos,  e temos muito em comum, o suficiente para mantermos um sistema simbólico eficiente, ainda que não perfeito. Como a arqueologia provou, estivemos juntos muito mais tempo do que separados: O hominídeo viveu e se adaptou ao mesmo ambiente primordial por milhões de anos antes de se dispersar pelo globo. Um cérebro de um homo sapiens de 10 mil anos atrás não tem praticamente nada faltando, em comparação com o cérebro de um homo sapiens de hoje. O período de tempo da diáspora foi curto o bastante para permitir que os jesuítas portugueses do século XVI, separados dos povos indígenas por milhares (mas não milhões) de anos ensinassem a língua portuguesa aos índios, e aprendessem também as línguas dos indígenas. As estruturas mentais básicas são as mesmas, determinadas biologicamente, elas precedem a linguagem, e 150 mil anos tais estruturas já estavam delineadas, muito antes do surgimento da língua e outras tecnologias humanas. A linguagem é uma função específica e nova de um computador orgânico conhecido como cérebro humano.

Este órgão, extremamente custoso em energia, e cada uma das partes que o compõe, só pode se tornar o que é por oferecer uma grande vantagem evolutiva, cada função que cada uma delas desempenha teve de valer a pena. A evolução natural se serve de diferenças, providas por mutações, mas ao mesmo tempo é homogeneizadora: Uma vez que uma adaptação ofereça uma vantagem, por menor que seja, contanto que compense pelo custo (até 1% de vantagem reprodutiva pode ser suficiente para uma adaptação ser aceita pelo crivo da evolução) ela tende a se repetir em todos os espécimes das gerações seguintes. Por isto mesmo podemos estudar o cérebro e a cognição humana, independente das idiossincrasias de cada indivíduo e de cada cultura. Há um cerne comum que é grande o bastante e regular o bastante para justificar uma ciência dele. E com a função linguagem não é diferente.4

Há inúmeras línguas, mas todas partem do mesmo instinto da linguagem. Note que traduzir textos de uma língua para outra é uma tarefa difícil, mas perfeitamente possível. Um livro de Dostoiévski, escritor russo do século XIX, pode ser traduzido para o português e entendido perfeitamente por um brasileiro do século XXI, precisando-se apenas, talvez, de algumas páginas de introdução do tradutor, ou do simples e elegante artifício de uma nota de rodapé, como aquela explicando que “carta amarela” significava um documento que dá salvo conduto para a prática da prostituição.

Quer um exemplo melhor? Leia a filosofia grega. Pegue um texto de Aristóteles, como o Ética a Nicômaco, e veja como aquele texto de mais de dois milênios atrás, traduzido do grego para o árabe e do árabe para o latim, pelas penas dos monges copistas, mantiveram uma coerência que permite qualquer leitor moderno desfrutar a sabedoria de Aristóteles e aprenda com seus conselhos, muitos dos quais permanecem bons e aproveitáveis até para os tempos de hoje. A sabedoria de Aristóteles sobreviveu aos milênios às mudanças culturais, porque ela não foi pensada meramente para o homem grego da época de Aristóteles, foi pensada com base na natureza humana.

Linguística Científica

Um dos pioneiros da linguística foi o americano Noam Chonsky. Ele se debruçou sobre certos mistérios, o principal: A forma que as crianças aprendem a falar. Como elas aprendem a fazer a conjugação verbal sem serem ensinadas explicitamente? E por que os falantes de uma língua cometem alguns erros, mas outros não? Ao contrário do que muito se diz hoje em dia, quando uma frase soa estranha no ouvido de um falante da língua, isto não é mero “preconceito linguístico”, certos erros são mais agressivos aos ouvidos porque violam as regras universais da gramática. Você pode dizer “um chopps e dois pastel” e ser entendido pelo atendente e um bar paulista. Mas não “chops pastel dois um”. Nós temos uma intuição das regras da gramática e de quais formas ela pode estar errada. Para usar um exemplo clássico de Chonksy, ao ler a frase:

“Ideias verdes incolores dormem furiosamente”

Nós intuitivamente notamos que a sintaxe da frase está ok, mas ela não significa nada, não tem semântica (ideias não podem ser verdes nem de cor alguma) e não pode ser verdadeira nem falsa. Um exemplo ligeiramente diferente seria a frase:

“…. É o que está na Bíblia que ele escreveu. Eu me sinto responsável, exatamente como Jesus Cristo se sentiu responsável quando distribuiu 2 mil cigarros. Não eram panelas de pão. Na minha opinião, eram cigarros…”

Dita por uma mulher esquizofrênica; frase que eu tirei do capítulo 6 do livro Longe da Árvore, de Andrew Solomon. A frase parece ter um pouco mais de sentido, mas ainda assim soa nonsense. Teoricamente poderia corresponder à um estado real de mundo…. Mas mesmo que você seja cristão e acredite em Jesus, você certamente não acredita que existiam cigarros na Galileia, e muito menos que um cara tão legal distribuiria cigarros às pessoas, e nem panelas de pão. Rigorosamente falando, não é uma frase sem sentido, mas uma com sentido falso.

Chonksy via no aprendizado da língua pelas crianças a chave para compreender a linguagem universal. Os pequenos parecem entender o papel de um verbo transitivo e intransitivo antes de serem ensinadas nas enfadonhas aulas de gramática. Elas estão fazendo mais do que simplesmente serem bombardeados de frases repetidas pelos adultos e tirando uma média de quais devem ser corretas. Modelos de inteligência artificial baseados em simples análise estatística de grandes bancos de dados de frases não foram eficientes.

Contraste com a matemática, que também é uma linguagem, mas esta precisa ter suas regras aprendidas de forma explícita. As pessoas sabem explicar quais passos executaram para resolver um cálculo matemático, mas talvez não saibam fazer a conjugação verbal das frases que falaram perfeitamente. Pode-se falar português sem ter tido aulas de gramática. Competência sem conhecimento. Mas não se pode fazer matemática sem ter tido aulas de matemática, e não se pode fazer cálculos inconscientemente e sem saber explicitamente as regras.

Da linguística surgiu a ideia do mentalês (mindlish), a língua nativa do pensamento. O economista Maynard Keynes, perguntado uma vez se pensava em imagens ou em palavras, respondeu: “Eu penso em pensamentos”. Verdade, uma grande parte do nosso processo cognitivo acontece de forma não verbal, apesar de eventualmente usarmos de palavras, para pensarmos consigo mesmos e para relatar aos outros o que pensamos. E. para ser mais preciso, existem muitas “linguagens da mente”, órgãos mentais, e seus respectivos neurônios, que não falam entre si diretamente. Por isto às vezes precisamos criar atalhos manipulando coisas no mundo exterior, como desenhar um diagrama para si mesmo.

A linguagem não define a estrutura da mente, mas tem um papel fundamental para organizar e disciplinar o processo cognitivo, uma ferramenta auxiliar fundamental. Crianças surdas devem aprender a linguagem de sinais não apenas para poderem se comunicar com os outros, mas porque, sem aprender língua alguma, uma pessoa acaba com sérios déficits cognitivos. E o processo cumulativo da linguagem é o que nos permitiu ter cultura. Memes, antes de significar “qualquer peça de humor que circula na internet”, foi um termo criado por Richard Dawkins, em seu livro O Gene Egoísta, para designar unidades de informação cultural que podem ser transmitidas e selecionadas, como os genes. Uma técnica de dobradura (exemplo que o próprio Dawkins gosta) pode ser um meme, ou um poema, ou uma receita de bolo. A estrutura plástica do cérebro permite que este se adapte para assimilar diversos memes, e por isto um homem que vive em ambiente urbano carregar uma bagagem de informação muito maior que um homem do campo da Idade Média, que o permite fazer coisas muito mais complexas.

Chonsky e seus discípulos – dentre eles, Steven Pinker – analisaram a estrutura sintática da gramática para tentar entender quais são as regras implícitas que conduzem a aprendizagem da fala. Chonsky de uns tempos pra cá se afastou da linguística para fazer carreira de defensor intelectual de terroristas e ditaduras fracassadas. Pinker, psicólogo por formação, continuou o estudo da linguística, sua predileção intelectual eram os verbos. Mas, conforme ele relata em seu livro Stuff of Tought5o enigma começou a ser quebrado quando os linguistas se deram conta de que a intuição das crianças não é guiada por regras rígidas de sintaxe, mas por semântica: Crianças entendem o papel de cada ator numa sentença. Entendem que existem coisas que preenchem outras, que movem e são movidas. Não à toa crianças com transtorno de espectro autista, mesmo as de alta funcionalidade (como Dr. Sheldon Cooper) apresentam dificuldades na aquisição de fala. O déficit do autismo parece ser na intuição sobre o comportamento normal das palavras.


Muitos pesquisadores do campo interdisciplinar conhecido como ciências cognitivas, das quais linguística é uma, tentaram destrinchar, cada um à sua maneira, o segredo de como a mente humana faz uma “mágica”: A de transformar fonética em sintaxe, e sintática em semântica. Existe muito processamento por trás da apreensão de sinais externos e seu entendimento. Até mesmo as pausas que se ouve na fala humana são subjetivas. Analisando a onda sonora de uma fala gravada você não verá nenhuma linha, nenhum silêncio real entre as palavras. É por isto que falar pausadamente soa estranho, e que ouvindo alguém falar em uma língua desconhecida, a fala parece um único fluxo contínuo de barulho. Ainda não destrinchamos o processo. Se você já tentou assistir a um vídeo do YouTube com legendas geradas automaticamente, provavelmente teve a impressão que o sistema é tão ruim que nem vale a pena usar. E quanto ao reconhecimento de linguagem escrita, este também tem muito pela frente. Sistemas de reconhecimento óptico de caracteres – OCR – só funcionam bem com caracteres impressos de fontes conhecidas, padronizadas. Extrair um texto da imagem de uma página em Times New Roman tamanho 12 é fácil para o computador. Extrair o texto de uma página de caderno escrita com caligrafia impecável é quase impossível. E extrair o sentido de um texto, e mesmo poder traduzi-lo sem intervenção humana, ainda é ficção científica.

Modelos Computacionais

Modelos computacionais foram propostos, alguns mais satisfatórios que outros. Estes tentaram dar conta de explicar a estrutura geral do mecanismo simbólico, para pelo menos sabermos quais exatamente são as etapas que precisam ser estudadas a fundo para matar a charada. Proponho uma metáfora: Pense no problema de entender porque uma firma não está lucrando, o problema que o autor israelense Eliyahu M. Goldratt ilustra em seu livro A Meta. Para entender porque uma firma não está lucrando, primeiro vemos seu organograma: De quais departamentos ele é composto (financeiro, administração, TI…) e como eles interagem entre si, em qual organização hierárquica estão inseridas e como é sua comunicação. Só então podemos avaliar a eficiência de cada departamento em separado. Talvez o problema seja de um departamento específico (o pessoal de TI passa o dia inteiro tomando café e contando piadas, atender chamado que é bom nada) ou estrutural, pode haver uma falha na relação entre estes departamentos. O problema pode ser até mesmo físico: A fiação elétrica é velha e há constantes oscilações que prejudicam o funcionamento das máquinas, o tamanho do prédio e a disposição física dos departamentos faz com que os funcionários passem muito tempo andando de um lado para outro. Mas antes de mais nada, vamos ver o blueprint desta firma. A proposta cartesiana, de dividir um problema em partes e resolvê-las individualmente, não é nada mais do que isso.

Um dos primeiros modelos computacionais foi o Pandemomium, de Oliver Selfridge, 1958.

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LINDSAY & NORMAN, 1972, pp.260 [^6]

E se sustentou surpreendentemente bem no decorrer das décadas. Mas aqui morre minha metáfora da firma: Longe de uma rígida e organizada estrutura empresarial, com uma hierarquia tradicional de mando vertical, e um CEO no topo, a mente é um pandemônio, quase como um senado sem seu presidente. Neste modelo, o(s) demon da primeira camada tem a tarefa mais fácil: Apenas dão conta de apreender a informação sensorial bruta e passar para a camada seguinte, de reconhecimento de traços (features). Aqui demons especializados em reconhecer traços, ângulos e etc. reagem aos estímulos. Cada demon grita mais alto quando vê uma feature que lhe é própria, que ultrapassa o seu limiar, e o resultado final (número e disposição de ângulos, espessura dos traços, etc) é recebida pelos demons cognitivos. Se as features parecem mais com a letra A, o demon da letra A grita mais alto, e é escutado pelo demon de decisão. Este modelo dá conta de explicar a capacidade humana com lógica fuzzy e com caracteres pouco legíveis, como letras de cabeça para baixo, escritas com caligrafia feia, ou parcialmente obscurecidas (por exemplo, por uma mancha de café no papel). Se pelo menos algumas das features do símbolo estiverem presentes, já é suficiente para seu demon gritar.

O modelo pandemonium precisou apenas de algumas adaptações, em especial: O sentido do processo não é apenas um, é uma via de mão dupla, com muito feedback entre níveis de demons. E os demons não falam apenas com seu “superior”, isto é, eles conversam muito entre si, e também formam coalizões que definem a interpretação campeã. Mas o modelo Pandemonium não dá conta da extração de sentido das palavras! Temos modelos mais recentes mais satisfatórios da máquina de compreensão e construção de símbolos. Um dos melhores é o do filósofo Bernard Baars.

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Não uma linha de montagem, mas uma cadeia de montagem. Apesar das computações mentais seguirem um sentido linear, várias operações paralelas acontecem, várias partes do cérebro funcionam simultaneamente para uma mesma tarefa. Assim como um notebook moderno pode, com o auxílio de um emulador, funcionar como um Super Nintendo, uma máquina paralela como o cérebro pode, se for bem ensinada (se tiver os memes certos) funcionar como uma máquina serial, que segue uma cadeia de passos linear.

Os tais demons são módulos mentais especialistas que só sabem fazer uma coisa.

Pense na série Trato Feito (Pawn Stars) em que o dono da casa de penhores, Rick Harrison, ao receber a proposta de venda um item peculiar – digamos, uma gaita de foles supostamente da Escócia do século XVI, fica desconfiado e diz “Eu vou chamar um amigo meu que é especialista em gaitas de fole escocesas”. Recebendo uma amostra de fezes que teria pertencido a Abraham Lincoln, “eu vou chamar um amigo meu que é especialista em merdas presidenciais”… Ele tem um especialista (ridiculamente especializado) para tudo, e assim são os demons numa rede neural.

Eles funcionam paralelamente e simultaneamente, sempre a espera de inputs, sempre delineando padrões. Eles competem entre si para decidir quem tem a vez, quem vai decidir o que fazer com o estímulo que chega, como decodificá-los, e como construir símbolos em seguida, isto é, o processo reverso, como externalizá-los. Demons formam coalizões que controlam temporariamente o funcionamento da mente. Lembre-se que os órgãos mentais – e os neurônios em que estão implementados – são frutos de um processo de milhões de anos de evolução, em que o todo tinha que funcionar sempre, e cada parte tinha que justificar sua custosa existência servindo para algo, ou no mínimo não atrapalhando, sem poder se ar ao luxo de esperar um “chefe” surgir futuramente e ensiná-lo o que fazer. Mas um órgão mental que se desenvolveu para uma função específica, no contexto evolutivo, também pode se reciclar, e passar a desempenhar uma função nova, a exaptação. Os mecanismos por trás da língua escrita e falada (uma tecnologia novíssima) são uma exaptação, de segmentos do cérebro que se desenvolveram para outra coisa, e precisam de muito treinamento, não são aprendidos naturalmente, como a língua falada.

Mas a chave para entender como essa multidão de especialistas pode formar uma mente mais ou menos íntegra e ser capaz de coordenar as ações coesas de um ser humano é que elas compartilham um espaço de trabalho global. Um espaço lógico (ele se distribui por várias regiões físicas do cérebro) que compreende informações disponíveis para todos. É aproximadamente neste ponto, em que uma informação fica globalmente disponível, que ela se torna consciente.

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No cotidiano podemos facilmente perceber este processo competitivo. Você tenta falar com alguém por um canal muito ruidoso. Lembro de uma tirinha do Dilbertque procurei, mas não consegui achar na internet que o chefe de Dilbert tenta lhe dar um recado importante pelo telefone, mas a ligação estava horrível. O que Dilbert entende no último quadrinho é “pegue minha mesa… jogue pela janela”. Nesta situação, o sinal não faz nenhum demon gritar particularmente alto, e alguns gritam no mesmo volume.

O mesmo ocorre na etapa reversa, na produção de falar: A sua crush, pela qual você é perdidamente apaixonado, mas que tem ideias muito estúpidas, faz uma colocação sobre a opressão da sociedade capitalista sobre as minorias, e começam a se formar na sua mente candidatos a respostas, como “minha nossa, como você é estúpida, quer que o Brasil vire a próxima Venezuela? E aliás, e esse iPhone? ” e “é, nunca parei para pensar este ponto de vista, interessante”, mas de alguma forma a segunda é selecionada. Diferentes demons com diferentes prioridades.


Faço um mea culpa quanto a um dos posts anteriores da série qualia: Fui pessimista demais quanto ao estado atual das ciências do cérebro e da mente. Eles já sabem muita coisa, apesar de pouco chegar à nós. A neurociência já sabe muito sobre como funciona este instinto da linguagem, quais os correlatos físicos de cada aspecto da cadeia de fala, audição, leitura e escrita. O neurocientista francês Stanislas Dehaene é um dos maiores especialistas do assunto, e um daqueles raros cientistas que conseguem ao mesmo tempo serem geniais em suas áreas de estudo e eficientes em divulgar ciência ao público leigo.

A linguagem escrita é uma tecnologia mais recente que a linguagem falada, mas se processa mais ou menos pelos mesmos mecanismos cerebrais, aproveitando ( pelo mecanismo de exaptação) regiões do cérebro que foram desenvolvidas para outras funções. Estímulos sonoros são processados principalmente no lobo temporal, lá fica o córtex auditivo, e sua especificidade para reagir a palavras é notada já em bebês. A linguagem escrita se processa pelo córtex visual também.

Os inputs sensoriais das palavras lidas e ouvidas não vão diretamente ao córtex cerebral, esta região mais recente, evolutivamente falando, de massa encefálica “enrugada”, envolvida com cognição complexa, às vezes também chamado neocórtex. Lembre-se sempre que arquitetura dos órgãos se desenhou ao passo da evolução natural, e a do cérebro não poderia ter sido diferente. E falando de uma espécie “vertical”, como o homem, isto significa que ele evoluiu “de baixo para cima”, as regiões ventraisembaixo, próximo ao ventre sendo mais antigas que as regiões dorsaismais em cima, seriam próximas ao dorso, às costas, fôssemos uma espécie horizontal. As regiões do cérebro podem ser classificadas também em anterioresmais perto da testa e posterioresmais perto da nuca,ou seja, anterior e posterior no sentido da esquerda para a direita. Os “dados brutos” dos sentidos, codificadas em pulsos neuronais, chegam primeiro à região diencefálica, a mais ventral, logo acima da coluna, sendo processadas pelo tálamo, que faz a triagem dos sinais; esta estrutura do diencéfalo, que age como uma espécie de roteador, faz a distribuição dos sinais para as regiões corticais correspondentes. Como curiosidade, um dos mecanismos que se acredita estar por trás da esquizofrenia, bem estudado (inclusive pesquisado no Brasil), é uma falha na capacidade do tálamo em fazer a filtragem sensorial (sensory gating); muita dopamina faz com que o tálamo deixe passar informação demais, e o córtex fica maluco tentando interpretar isso tudo… Mas isso é assunto pra outro post.

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O tálamo possui conexões diretas com o neocórtex e também com o sistema límbico (ver acima), uma região primitiva, subcortical (abaixo do córtex), mas acima do diencéfalo, que por ser mais primitiva e ligada às nossas emoções primárias, às vezes é chamada de “cérebro de lagarto”. Antes de haver animais capazes de compreender o mundo, raciocinar e planejar, houve animais aptos apenas a ter as emoções mais básicas, que os levavam a reagir de forma a evitar sua morte e levar seus genes adiantes, emoções como medo, fome, instinto de reprodução, e a formar hábitos que os levassem a tomar decisão certa com mais frequência e de forma ágil.  Lembre-se que um organismo em evolução é como um computador que vai recebendo upgrades de hardware tendo que funcionar em todas as etapas. O sistema límbico também é responsável por dar a “coloração emocional” aos sinais recebidos pelos sentidos, antes mesmo deles serem interpretados. Uma imagem assustadora, ou um som assustador repentino (e mais ainda quando são os dois juntos) vai levar a uma reação emocional súbita, como pular da cadeira, muito antes de se entender o que aquilo significa. O sistema límbico também recebe sinais do neocórtex, e interfere diretamente na atribuição de sentidos e na consolidação da memória. Informação mais emocionalmente carregada é mais facilmente lembrada. A região do hipocampo, também do sistema límbico, é especialmente envolvida em definir o que é lembrado e o que não é. Álcool e remédios benzodiazepínicos, como o Rivotril e o Valium, atrapalham a atividade do hipocampo, daí a famigerada amnésia que causam.

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Como explica Stanislas Dehaene, primeiro a parte mais ventral do córtex visual, este logo atrás de nossa nuca, identifica na figura padrões e separa o que entende como linguagem. A área visual de formação de palavras, localizada bem na fronteira entre o lobo occipital e o temporal, no hemisfério esquerdo do cérebro, faz a identificação do símbolo, sempre a mesma região, para falantes de qualquer língua. Uma região cerebral que originalmente foi desenvolvida para reconhecer padrões de faces e objetos (e é mais sensível a intersecções de linhas do que a segmentos de linhas) também encontrada no cérebro de outros primatas, mas no homem, pelo processo de alfabetização, é treinada para reconhecer também caracteres. Assim esta porção de massa encefálica passa a abrigar também grupos demons que gritam quando recebem padrões de vértices que lembram caracteres. As crianças em alfabetização fazem o processo de leitura de forma bastante serial, uma coisa de cada vez, lenta, mas os adultos já conseguem ler palavras paralelamente (no caso de certos adultos que só assistem filme dublado, eu desconfio que não).

E todo este processo que descrevi resumidamente no parágrafo anterior é no hemisfério esquerdo. Isto é, antes de assimilar o significado da palavra, o estímulo precisa fazer um “passeio” pelo cérebro, para o córtex pré-frontal e o temporal, e do hemisfério esquerdo para o direito. O Dr. Dahaene defende que o melhor modelo de alfabetização é o fônico, isto é, aquele em que a criança aprende primeiro a formar letras e palavras e associá-las a sons, para só depois aprender o significado, e não o método global, em que a criança aprende o significado da palavra, para depois decompô-la em símbolos. Isto pois o método fônico ensina seguindo o curso natural do processamento de informação do cérebro.

E a Consciência?

Um estímulo pode chegar ao cérebro, ser processado sem você perceber, e fazer alguma mudança mesmo assim? Pode. O Dr. Dehaene é especialista em fazer pesquisa com estímulos subliminares. Mas não, não foi ele que treinou o pessoal da Disney a introduzir satanismo na cabeça das crianças… Brincadeira. Na verdade, o poder da mensagem subliminar em manipular a mente das pessoas e “corromper a juventude” foi grotescamente exagerado por teóricos da conspiração, baseados em pesquisas fraudulentas a respeito. Mas isto não significa que não existam estímulos subliminar ou que eles não façam nada.

No laboratório, o voluntário vê uma palavra projetada à sua frente muito rapidamente, alguns décimos de segundo, ou ainda, entremeada por duas imagens de padrões aleatórios, ou seja, ela é mascarada. Ele lê a palavra? De certa forma sim! Sabemos que nós reconhecemos mais rápido um padrão conhecido que um padrão inteiramente novo. Antes mesmo de ir para os exames de neuroimagem (brainscan), pode-se constatar que o voluntário consegue reconhecer uma palavra mais rapidamente se esta foi apresentada subliminarmente antes. Se pedido para o voluntário tentar chutar que palavra foi (por exemplo, apertar um botão se for a palavra A ou outro se for a palavra B) ele acerta muito mais do que seria ao acaso. A leitura subliminar pode inclusive ativar cargas emocionais específicas àquela palavra, ativando a amídala. A amídala reage mais a palavras com conotação emocional forte (“estupro”, “morte”) que a palavras neutras (“banco”, “casa”), mesmo que subliminarmente.

Estes detalhes do funcionamento anatômico foram demonstrados com neuroimagem, e também com a mais antiga – mas ainda utilíssima – técnica do eletroencefalograma (EEG) que detecta frequências de ondas emitidos pelos neurônios em funcionamento.

A chave da questão parece ser acesso global e ignição global. Um estímulo subliminar de fato está no cérebro (com a tecnologia, consegue-se encontrar sua assinatura nos primeiros estágios do processamento simbólico) mas se dissipa rapidamente, seja por ser curto demais, seja por ser sobrepujado por um estímulo consecutivo muito mais marcante, e não é tão bem lembrado. Um estímulo consciente sempre consegue provocar uma onda cerebral específica, a P3, e chega às regiões corticais superiores, do córtex pré-frontal e parietal, formados por células piramidais ricas em dendritos, receptores de sinais vindos de outros neurônios, e assim são bastante “antenadas” a tudo que acontece no restante do cérebro. Um estímulo de cerca de 300ms (milésimos de segundos) já pode ser suficiente para esta assimilação completa.6

dahaene palavra consciente e inconsciente

Diferença da ativação provocada por uma palavra subliminar e uma consciente.[^stan]

Mais interessante ainda, se apresentarmos uma palavra para cada olho, a assinatura das duas é detectada nas primeiras regiões do córtex visual, mas o sujeito é consciente apenas de uma de cada vez. Com a audição, também, a consciência parece ser o topo do iceberg do total de informação que o cérebro dispõe. A psicologia apelidou de “efeito festa de coquetel” (cocktail party effect) a capacidade de receber vários estímulos auditivos simultâneos, mas focar apenas em um. Por que “festa de coquetel”? Imagine que você está numa festa barulhenta, com vários convidados, mas presta atenção apenas a um que está conversando com você. O restante dos burburinhos fica inconsciente, mas isto não é o mesmo que ele nem existir para você. Se alguém lá no fundo disser seu nome, você imediatamente muda o foco da audição. Mas para ter esta pista, significa que as palavras que constituem o seu nome foram ouvidas e interpretadas, assim como todas as outras, apesar de você não ter percebido todas.

Mas a rigor, o que significa dizer que o sujeito está consciente da palavra X? Significa que ele está apto a pronunciar um enunciado como “li a palavra X”, a usar a palavra X para formular outros enunciados e a coordenar suas ações futuras, ela está globalmente disponível para os processos mentais que possam fazer uso de palavra.9

Mas o conceito de qualia está encrencado novamente. Como demonstrou Daniel Dennett (Dennett, a propósito, é um dos autores referenciado por Dehaene) você pode precisar até certo nível um intervalo em que um estímulo se torna consciente, um intervalo de tempo e físico, e descobrir as variáveis que mudam quando algo passa a ser consciente (como a onda P3), mas nunca chegar a um momento exato, a tecnologia conseguiu apenas afinar o intervalo “nebuloso”. O processo de apreensão de uma palavra é composto por várias etapas, de discriminação de vértices, de letras, de palavras, de transmissão para a rede global… Em qual destes momentos e locais a experiência consciente acontece? É quando o potencial de ação está transitando pelos axônios do córtex pré-frontal para o parietal? Será no exato momento que em que o limiar de ignição é atingido?

Existem incontáveis exemplos cotidianos de quando “lemos” uma palavra (ela é apreendida nos influencia de alguma forma) mas não a percebemos conscientemente. Então, vamos ao dilema, que adapto livremente da forma como foi proposto por Dennett7. Digamos que fosse verdade a infame teoria conspiratória de que a palavra SEX aparece subliminarmente no filme Rei Leão. Você assistiu ao filme atentamente, e só depois que contaram ficou sabendo. A palavra SEX chegou a ser qualia?

  1. Sim
  2. Não

Se sim…. Temos um problema. Um enorme detalhe do seu qualia pode passar despercebido por você mesmo. Isto mina a sua autoridade em dizer que qualia é aquilo que só você pode saber, esta autoridade última do sujeito consciente. Você não sabia até um teórico da conspiração moralista te contar, e portanto, ele saberia mais sobre o seu qualia do que você mesmo.

Se não…. Também temos um problema. O qualia não mudou se você sinceramente diz que não mudou, ok. Mas então não há nada de especial, de intrínseco, no qualia, e nem é possível fazer a “sagrada” diferenciação do qualia como percepção imediata, em oposição aos julgamentos racionais seguintes que o sujeito elabora sobre sua percepção. O qualia só existe num momento seguinte à percepção da palavra, quando elaborado um relato sobre o que foi visto. E em todo caso, não há nada de diferente em um processamento com qualia em um processamento que uma máquina de linguagem artificial viesse a fazer…

PS.:

A única língua realmente relativista é a linguagem de marcação Markdown na sua variante do WordPress. Em realidade, acho que ela foi desenvolvida pessoalmente por Roland Barthes, após ele ler umas apostilas de HTML e CSS brisado. Explico: Esta sim é uma linugagem tirânica, que funciona apenas quando ela tem vontade, oprimindo seu usuário, como eu, sr. c0anomalous, tentando inutilmente fazer as notas de rodapé neste post funcionarem…

Vídeos:


Bibliografia:

Scholz, Barbara C., Pelletier, Francis Jeffry and Pullum, Geoffrey K., “Philosophy of Linguistics”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.), https://plato.stanford.edu/archives/win2016/entries/linguistics/


  1. DENNETT, D. C. Consciousness explained. Penguin, 1993. 
  2.  WITTGENSTEIN, L.; DOS SANTOS, L. H. L. Tractatus logico-philosophicus. São Paulo: EDUSP, 1994. 
  3.  PINKER, S. The Blank Slate. Penguin Group US, 2003. 
  4.  PINKER, S. Como a mente funciona. Companhia das Letras, 1998. 
  5.  PINKER, S. The Stuff of Thought: Language as a Window into Human Nature. Penguin Books Limited, 2008. 
  6.  DEHAENE, S. Consciousness and the Brain: Deciphering How the Brain Codes Our Thoughts. Penguin Publishing Group, 2014. 
  7.  DENNETT, D. C. (DANIEL C. Sweet dreams : philosophical obstacles to a science of consciousness. MIT Press, 2005. 
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2 comentários sobre “Qualia 2.2 Ferramentas de Navegação Padrão: Linguagem

  1. LI metade do texto pela manhã e vou finalizar mais a tarde, é que meu erro foi ter assistido sem ler nada sobre a proposta do filme, por isso talvez tenha frustrado! Se tivesse ido por este lado mais overpower da neurolinguística teria achado o filme sensacional, mesmo porquê adoro o trabalho do Vileneuve. Um amigo tem feito Libras, e presencio diariamente a importância de novas linguagens!

    Curtido por 1 pessoa

    • Felipe, agradeço por dedicar um tempo à leitura do texto, fiz com muito esmero. Terei de aprender libras também, pois pretendo fazer licenciatura. Muito difícil?
      Uma curiosidade: No conto em que o filme foi baseado, “Story of Your Life”, de Ted Chiang a linguagem escrita e a falada dos hectapodes tinham a mesma importância para a história, mas isto teve de ser simplificado para o filme.

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