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Explicando Alienação com Beakman (e Lester, o ludita)

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Os anos passam, e os marxistas continuam falando da tal alienação com o mesmo tom tenebroso com o qual os cristãos devotos falam de “pecado”. Geralmente remetendo-se ao filme Tempos Modernos de Chaplin como ilustração do suposto problema, o professor marxista lamenta como os trabalhadores das fábricas, ignorantes, passam o dia a fazer tarefas repetitivas para montar coisas que nem eles sabem o que são…

E não se espante se o tal professor (que aqui apelidarei de “Professor Mexerico”) falar deste assunto auxiliado por uma apresentação de PowerPoint projetada na lousa ou em uma tela com um datashow. Que coisa, não? Quanta tecnologia para criticar a especialização de tarefas que possibilita a tecnologia. Afinal, professor Mexerico, saberia o senhor montar, peça por peça, o computador e o projetor que usas para dar aula? Mesmo que se conforme com uma solução mais low-tech, você também provavelmente não saberia fabricar o giz, o apagador e a lousa,  acabaria colando as mãos enquanto tenta montar a madeira, e martelando o dedo também, e perderia tempo que poderia estar dedicando aos seus queridos livros de Marx e Foulcault….

O mundo que vivemos é formado de uma complexidade de sistemas inimaginável. Pense que você está sentado num ônibus assistindo um vídeo no YouTube, com seus fones de ouvido (que você se convenceu a usar sempre, após cair no chiste do “gemidão do zap”). Quanta tecnologia é empregada para montar o celular que segura e desenvolver o código-fonte de seu sistema operacional e seus programas, incluindo o YouTube, uma máquina que transforma pacotes de dados em imagens e sons, de maneira rápida e opaca, sem que o usuário precise saber nada sobre o funcionamento do aparelho (sendo ele, portanto, alienado também). E quanta tecnologia existe para manter a infraestrutura 4G, que permite a um celular acessar a internet e baixar pacotes de dados através de ondas eletromagnéticas de torres de celular… Nenhum ser humano no mundo conhece todos os detalhes de funcionamento de cada sistema necessário para essa atividade banal, há muita inteligência por trás de tudo para um único ser humano saber tudo. E nem precisa saber.

No fundo você gosta desse mundo, pelo menos um pouco, pois ele permite aproveitar melhor seu tempo, dedicando-o a coisas que vale a pena e que você entende, e desfrutando de várias outras coisas sem ter que saber exatamente o que elas fazem. O mundo é repleto de caixas-pretas, e caixas pretas são convenientes. Ou, como colocaria Daniel Dennett, cheio de coisas que tratamos a partir da postura do design (design stance), ignorando seu funcionamento interno e interagindo a partir de como acreditamos que ele seja feito para funcionar.

…a maioria dos usuários de computador não tem a menor ideia de quais princípios físicos são responsáveis pelo comportamento altamente confiável – e portanto previsível – do computador. Mas se eles tiverem uma boa ideia de para que o computador foi desenhado (uma descrição de suas operações em qualquer um de seus muitos níveis de abstração possíveis), eles podem prever seu comportamento com grande precisão e confiabilidade, sujeito à desconfirmação apenas em caso de mau funcionamento físico. Menos dramaticamente, quase qualquer um pode prever quando um despertador irá tocar com base na inspeção mais superficial de seu exterior. Não se sabe ou não importa se é movido à bateria ou à corda, à luz solar, feito com engrenagem de latão e jóias ou chips de silício; apenas assume-se que é desenhado de forma que o alarme tocará quando é ajustado para tocar, e é ajustado para tocar onde parece ser ajustado para tocar, e o relógio continuará andando até aquela hora e além, e é desenhado de forma a andar mais ou menos de forma precisa, e assim por diante.
Original, clique para ler
…most users of computers have not the foggiest idea what physical principles are responsible for the computer’s highly reliable, and hence predictable, behavior. But if they have a good idea of what the computer is designed to do (a description of its operation at any one of the many possible levels of abstraction), they can predict its behavior with great accuracy and reliability, subject to disconfirmation firmation only in cases of physical malfunction. Less dramatically, almost anyone can predict when an alarm clock will sound on the basis of the most casual inspection of its exterior. One does not know or care to know whether it is spring wound, battery driven, sunlight powered, made of brass wheels and jewel bearings or silicon chips-one one just assumes that it is designed so that the alarm will sound when it is set to sound, and it is set to sound where it appears to be set to sound, and the clock will keep on running until that time and beyond,  and is designed to run more or less accurately, and so forth.
Daniel C. Dennett. The Intentional Stance (Bradford Books) (Locais do Kindle 252-258). Edição do Kindle. Tradução minha.

Agora mesmo, enquanto estava escrevendo este post, minha mãe pediu ajuda para imprimir uma planilha de excel que ela recebeu por email. Ela melhorou um pouco, consegue abrir os emails e as planilhas, só às vezes esquece os comando para imprimir. Imagine se tivéssemos que inventar tudo do zero… Ou ainda esperar que alguém bolasse toda essa tecnologia (que de nossa perspectiva de design, parecem banais) por amor à humanidade…

E sim, todos os que trabalham na produção destes aparelhos são “alienados”. Inclusive os programadores: Hoje em dia cada vez menos programadores sabem fazer qualquer coisa em código de máquina ou mesmo sabem os pormenores do funcionamento do hardware em que funcionam. Nem precisam: Melhor se dedicar a aprender a API e fornecer um aplicativo mais fácil e intuitivo para o cliente… Que pode ser, por exemplo, o professor Mexerico usando uma aplicação de apresentações para explicar os males da divisão de trabalho.

Inclusive, toda essa tecnologia nos permite aprender muito facilmente sobre varias coisas. Já parou para pensar que o trabalhador da fábrica poderia saber (e até saber em detalhes) o que exatamente é o resultado final do seu trabalho, mas não o faz não por ser proibido pelo cruel sistema em que está inserido, mas simplesmente por não se interessar? E que talvez ele não se interessasse em fazer aquilo que não vai servir pra nada a ele se não fosse pelo salário, mas sim para servir à sociedade… Mas divago.

Quem explica isto muito melhor é um velho amigo de infância meu: Beakman, que recebeu em seu laboratório o empresário americano Henry Ford (nos círculos marxistas e foucoltianos, também conhecido por Satanás ou Belzebu) e tentou produzir em seu laboratório um carrinho vermelho, usando o método de linha de montagem de Ford, enquanto que seu assistente, o rato Lester, tentava fazer o mesmo produto sozinho, de modo 100% não alienado… Veja aos 7:15 do vídeo.

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