Educação, filosofia, Humano

Qualia 2.1 – Ferramentas Padrão de Navegação: Intuição

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Qual a medida do verossímil?

Toda obra de ficção é uma espécie de truque de mágica. Tal como o ilusionismo de palco, ela suprime alguns elementos da realidade, mas tudo bem, contato que até o final do ato o espectador permaneça entretido. Ele desconsidera estas pequenas fugas e permite-se imergir naquele universo, na famosa suspensão voluntária de descrença. Pela licença artística, podemos perdoar alguns detalhes inverossímeis, podemos nem perceber, ou perceber e desconsiderar: Por que os romanos falam inglês? Como aquelas crianças dos filmes do Spielberg conseguem percorrer tão grandes distâncias de bicicleta? Por que os astronautas têm iluminação dentro do capacete? Como Nathan Drake consegue tomar tantos tiros durante o jogo Uncharted e não morrer? E como os personagens de Streets of Rage conseguem se recuperar de ferimentos, e não morrer de intoxicação alimentar, comendo sanduíches e maçãs do lixo? Por que Tony Montana não teve uma overdose no final de Scarface?

Ficção não é realidade, afinal, e certas convenções são necessárias para contar histórias em qualquer mídia. Algumas destas quebras da realidade só os chatos nerds percebem, mas outras saltam aos olhos de qualquer um. A qualidade geral da obra parece influenciar mais no que vamos perdoar. Quando o filme/game/livro é bom, só os nerds se dão ao trabalho de encontrar defeitos, ainda que seja para por defeito e mesmo assim continuar dando valor para a obra, ou mesmo pensar em teorias para justificar a falha. Podemos admitir e ignorar alguns elementos fantásticos, mas exigimos coerência interna: Ok, eu admito que no universo deste game, você pode ser salvo da morte por um item mágico. Mas então por que no Final Fantasy VII Aeris morre definitivamente no final do disco 1? Os outros não poderiam ter dado um phoenix down para ela?

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E peço desculpas pelo spoiler.

Mesmo em uma série tão “maluca” quanto Hora da Aventura, maluca em comparação com o nosso mundo, existe uma coerência interna muito grande, uma vez que se vai a fundo, você sabe que os personagens são capazes de fazer algumas coisas mas não outras. Em Gravity Falls, o sobrenatural funciona de uma forma tão precisa que é praticamente ciência.

Mesmo os apreciadores mais casuais não perdoam tudo em nome da liberdade artística, não senhor, suspensão voluntária de descrença é criteriosa, e certos absurdos fazem a obra parecer tosca. Aceitamos o irreal, mas não o inverossímil. Então, mesmo dentro de um universo fantasioso, existe algum critério que determina como o mundo deve funcionar, qual o lugar de cada coisa e como elas devem interagir. Nossa capacidade de distinguir o que vale e o que não vale, e no fundo é a mesma que usamos para interpretar e prever a nossa realidade. Às vezes a realidade pode até parecer irreal.

Todos  mantemos vários conjuntos de suposições sobre a natureza do mundo que nos rodeia e suas regras, regras pelas quais ordenamos nossos movimentos e nossas palavras, com as quais somos capazes de prever o futuro e nos precaver. Nós homens, de maneira geral, somos muito bons em aprender por nossos sentidos sobre a realidade do que nos rodeia, e bons em aprender com outros, compartilhar e agregar. Todos os seres vivos são habilidosos no que precisam ser para viver, e a maioria têm competência sem ter conhecimento. A aranha simplesmente consegue construir teias, ainda que seu sistema nervoso seja tão simples que nem possa saber o que é uma teiae acredito que ninguém além do mais fanático vegano acreditaria que a aranha possui qualia e a samambaia simplesmente consegue fazer fotossíntese com sua clorofila, sem sabe o que é clorofila, nem fotossíntese, nem coisa alguma. Elas não possuem estados representativos. Macacos e cachorros certamente sabem algumas coisas e podem ser ensinados, mas de forma limitada (símios não precisam se preocupar com questões como a reforma do ensino médio).

Nenhum animal se aperfeiçoou tanto quanto o homem em sua capacidade de aprendizagem, que permite prever, prever ao longe e se preparar. Mesmo que esteja certo Schopenhauer, que dizia que nós sofremos por pensarmos no futuro, enquanto os animais são tranquilos por não se importarem e viverem o presente plenamente (namastê) é certo que nossa capacidade de prever e se precaver não só nos fez neuróticos, mas nos fez versáteis em diversos biomas, permitiu-nos resolver problemas melhor e viver mais, construir, evitar desastres e realizar mais durante nossas vidas, além de legar o conhecimento às futuras gerações. Este cérebro enorme, custoso em energia, com uma grande região dedicada ao pensamento abstrato e ao processamento de símbolos, só poderia ter passado pelo crivo da evolução sendo extremamente útil. Nossa sobrevivência e triunfo sobre o ambiente, e principalmente a de nossos ancestrais das cavernas, que tinham de se virar em ambientes infinitamente mais inóspitos que os nossos, dependeu inteiramente disso. Saber o que é o que, o que faz o quê, ter uma representação do mundo para navegar no mundo.

Estruturas inatas

Podemos ter uma ideia de como é o cérebro anteriormente a qualquer construção social analisando os cérebros das crianças pequenas. Ao contrário do que pensava Piagetsem querer desmerecê-lo, que a mente do bebê seria um completo caos, na verdade os seres humanos já nascem com algumas categorias mentais preparadashardwired, pode-se dizer, ou inatas, com predisposições do que é comum e do que é esperado, e se assusta ou se frustra quando algo parece sair desta normalidade. Nada de tábula rasa, a estrutura da mente é determinada pelo DNA, algumas são específicas para cada indivíduo, idiossincráticas, algumas são comum à toda espécie, categorias universais, e se repetem em toda sociedade. E podemos dizer que não só nossa estrutura cognitiva não só permite  interpretar o mundo, mas também a ver e sentir o mundo. Alucinações psicóticas são causadas em grande parte por uma visão de mundo distorcida, e na incapacidade de separar imaginação e realidade. Mas isto é tema para outro post! Que tal um exemplo mais prosaico?

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Os quadrados A e B parecem de cores diferentes? Na verdade, eles são completamente iguais! O sistema visual parte de certas considerações sobre como o mundo deve ser, como a de que os objetos à frente são iluminados uniformemente, e usa esta consideração para decidir o que é o que. Isto às vezes causa um bug. O fato de você ver esta ilusão, que persiste mesmo após você saber que é uma ilusão, é resultado do seu sistema visual possuir um detector de luminosidade razoável, mas que serve bem em um sistema visual otimizado para representar muito precisa do mundo natural. A sua intuição sobre iluminação das coisas dita o que você vê, e esta não é a única noção de física com que nascemos.

Testes com bebês mostraram que eles têm alguma noção de física inerente, muito rudimentar, claro, mas sabem que objetos devem cair se soltos no armas não sabem a princípio que eles quebram, ou que isso seja indesejável… e que quando um encosta no outro, este outro deve continuar se movendo junto. Também supõe que objetos que se movem apenas pelas leis da física são essencialmente diferentesGuarde bem este termo, essencialmente e essência dos que se movem aleatoriamente, como animais e pessoas. Foi apelidada de física intuitivafolk physics ou naive physics. E nós não esquecemos a física intuitiva quando crescemos. Usamos ela quando afastamos objetos da borda da mesa para eles não tombarem, e supomos que alguns objetos são mais quebradiços que outros, como quando, ao termos telhados de vidro, nos abstemos de jogar pedras no telhado do vizinho; por mais que pareça divertido, inferimos que vidro é um material que facilmente se quebraria com o impacto das prováveis pedradas retaliatóriase também usamos nossa psicologia intuitiva para inferir que o vizinho irá retaliar com pedradas, mais sobre isso em breve. A física intuitiva diz algo sobre líquidos, sobre coisas que absorvem líquido, sobre fogo… Essas expectativas de regularidades no mundo existem bem antes das leis de Newton teorizarem e fornecer teorias mais precisas e corretas. Mas ainda somos físicos intuitivos quando, por exemplo, afastamos o mouse da mesa logo após derramar café da xícara. Intuição é rápida.

O que é “uma interface intuitiva”, como aquela dos sistemas operacionais modernos, com ícones e janelas e cursor? Diferente das velhas interfaces de comando por texto, ela permite que o usuário use sem ter que aprender muito. Uma interface intuitiva é rápida e fácil de usar, pois guia o usuário. Diante de um IBM PC com DOS, um usuário que não tenha lido o manual não fez a mínima ideia do que fazer. Mas em um Windows ou Mac, ele parte do princípio “se eu clico em algum programa, ele deve abrir um programa, se eu clico no disquete, deve salvar o arquivo…”. Da mesma forma que jogos com boa jogabilidade permitem que até mesmo o gamer novato saibam com um pouco de tentativa e erro como guiar seu personagem pelo mundo virtual, sem ter que ler tutoriais chatos.

Mas os poderes intuitivos não são superpoderes, e muitas vezes nos traem… Veja esta linda “obra de arte” da  engenharia intuitiva.

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“E é por isto, crianças, que noções intuitivas não substituem um diploma de engenharia”

Nascemos com intuições inatas que nos dão alguma base, mas bem crua. A criança tem que aprender muito do funcionamento do mundo, ao contrário de outros animais, nós temos uma mente que é expansível, capaz de um saber cumulativo, capaz até mesmo de superar as intuições. Uma parte da dificuldade de transmitir o conhecimento acadêmico é que ele envolve atividades não naturais para o cérebro, e que necessariamente envolvem atividades tediosas e repetitivas. Lamento, mas a escola sempre será chata. O bom didata sabe explorar as intuições inatas para impulsionar o conhecimento no caminho certo, o que Daniel Dennett chama de bombas intuitivasintuition pumps” pense em bomba d’água, não bomba de dinamite

Steven Pinker1 lista várias faculdades cognitivas e suas respectivas intuições base. Reproduzirei algumas (adaptadas) abaixo:

  • Física intuitiva: Usamos para acompanhar como objetos caem, rebatem e dobram. Sua intuição é o conceito de objeto, que ocupa um lugar, e existe por um período de tempo contínuo, seguindo leis de movimento e força. Isto não é uma física newtoniana inata, é mais próximo do conceito medieval de ímpeto.
  • Biologia intuitiva: Usamos para entender o mundo vivo. Sua intuição chave é que cada ser vivo carrega uma essência invisívelJá chamada no passado de élan vital que lhes dá suas formas, poderes, ímpetos e funções corporais.
  • Engenharia intuitiva: Usamos para fazer puxadinhos fazer e entender ferramentas e outros artefatos. Sua intuição central é de que uma ferramenta é um objeto com propósito. Um objeto desenhado por uma pessoa com um propósito.

Entendendo a biologia e engenharia intuitiva, é fácil entender por que tantas pessoas são resistentes à teoria da evolução e à qualquer teoria científica que dispense a ideia de um deus criador. Estas intuições tão arraigadas também se notam em trabalhos de filósofos como Platão e Tomás de Aquino e Agostinho, e é a base de todas as religiões que se baseiam no conceito de alma (ou seja, todas as religiões).

Nem todas as categorias inatas aparecem imediatamente, mas muitas vão surgindo mais ou menos no mesmo período de desenvolvimento, como outras características genéticas predeterminadas, como o nascimentos de dentes e a altura. Os bebês naturalmente deixam de se impressionar com a brincadeira de esconder o rosto e voltar a  mostrar quando dominam o conceito de permanência de objeto, e sabem que a pessoa não está literalmente desaparecendo. Também demoram um tempo para ter uma teoria da mente, isto é, para compreender que as outras pessoas têm uma mente diferente, e não veem o mesmo que elas veem. É bom deixar claro que nem tudo aquilo que consideramos “senso comum” é uma intuição natural ou é baseado exclusivamente em intuição natural. Daniel Dennett diz que “a pseudociência de hoje é o senso comum de amanhã”. E como isso não é mais óbvio hoje em dia, devido à deturpação do conhecimento pelo pós-modernismo, eu sou obrigado a ressaltar: Sexos também são conceitos inatos, imbuídos na mente humana desde o nascimento, usado não apenas para atribuir papéis a si, como aos demais, não construções sociais que possam ser livremente manipuladas segundo o que a ideologia padrão julga adequado. Você não pode lacrar a biologia, ela é que lacra você. E como relata o cientista cognitivo Paul Bloom2, as crianças naturalmente tem uma ideia de que há algo interno e invisível que divide homens e mulheres, mas só começam a repetir o discurso de construção social quando ensinadas. Pois é, às vezes as nossas intuições essencialistas estão certas.

Mas certamente uma grande parte do nosso repertório teórico é construção social, não? Lógico. Sempre de forma restrita aos limites inatos: você não pode fazer uma sociedade em que as pessoas sejam assexuadas, ou que não tenham ambição e preferências pessoais, e só trabalhem em prol da sociedade, como formigas, mas ainda existem inúmeros tipos possíveis de arranjos sociais, que podem tirar o melhor ou o pior de cada indivíduo. Um cérebro que só sabe se virar em um contexto e responder às situações de uma só maneira, não compensaria o tremendo dispêndio do nosso, e não explicaria a sobrevivência humana em biomas tão distintos e tão inóspitos quanto a savana africana, a gélida tundra do norte do Canadá, e o Rio de Janeiro. Por via de regra, quanto mais adaptado a um determinado ambiente um sistema é, menos adaptado ele será para outros. E quanto mais adaptado para outros, mais complexo ele será, até um ponto de complexidade praticamente impossível. Pense em como teria que ser um carro que além de andar na pista também precisa voar e nadar (algo como o pato). A característica reprogramável do cérebro é a que mata a charada, como Dennett explica em seu essencial The Intencional Stance3. O poder do cérebro humano é sua enorme capacidade para se moldar à inúmeras situações em benefício do corpo em que faz parte e os genes que carrega, fazer generalizações de uma situação com base em outras, compreender quais regras são adequadas para aquele lugar e quais não. Ou seja, não podemos e nem precisamos apagar a ideia inata de gênero das pessoas, mas podemos ensiná-la que ser deste ou daquele gênero, ou orientação sexual, não torna uma pessoa menos digna de respeito que as outras.

Neste post não falei muito do assunto qualia, mas os assuntos que abordei aqui serão necessários mais adiantes. E antes ainda terei que falar de outra faculdade inata nossa tão importante: A linguagem. Ia colocar neste mesmo post, mas infelizmente já está muito longo. Muito em breve.


  1. Pinker, Steven. The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature (p. 220). Penguin Publishing Group. Edição do Kindle. 
  2. Bloom, Paul. How Pleasure Works: The New Science of Why We Like What We Like (Locais do Kindle 331-332). W. W. Norton & Company. Edição do Kindle. 
  3. Daniel C. Dennett. The Intentional Stance (Bradford Books) (Locais do Kindle 499-500). Edição do Kindle. 
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