filosofia, Humano

Qualia 1: Mente e Corpo, qual é a dificuldade?

 

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O post de hoje é tão especial que estou o ilustrando com uma foto minha de verdade, só desta vez.

“Os anos 90 são chamados de a década do cérebro. Mas nós provavelmente nunca teremos uma década do pâncreas”, escreveu Steven Pinker em Como a Mente Funciona. Mas por que não? O pâncreas é um órgão complicadíssimo, como todos os demais do corpo humano, uma peça central do sistema endócrino, desempenha diversos papéis no metabolismo. E muitas pesquisas são feitas sobre ele, afinal, doenças do pâncreas, tais como o diabetes, provocam o sofrimento de milhões de pessoas. Steve Jobs morreu de um câncer no pâncreas. E se conseguissem criar um pâncreas artificial? Seria formidável. Ainda assim, não parece que o órgão seja interessante o bastante para suas pesquisas cativarem o público geral, muito menos marcar uma década, como foi o cérebro e sua ciência nos anos 90, com seus exames de neuroimagem avançadíssimos mostrando o que há de disfuncional nos cérebros dos esquizofrênicos e dos psicopatas, e sugerindo como poderíamos estimular o cérebro dos bebês para torna-los mais inteligentes e criativos no futuro (e talvez evitar que se tornem esquizofrênicos ou psicopatas). Nem o fígado, o estômago, ou o baço parecem ter o mesmo “carisma” e o mesmo apelo midiático do cérebro…

Afinal, eles não pensam.

Nosso senso comum parece tratar o cérebro como algo especial porque enquanto todos os outros órgãos, nossos e dos outros animais, desempenham funções apenas, o cérebro abriga ou faz ponte com a consciência, e seu funcionamento, atrelado à consciência, é especial, praticamente sagrado, intimamente ligado à identidade pessoal. Consciência aqui não é no sentido de “bússola moral” ou senso de certo e errado, como em “esses políticos corruptos não têm consciência”.  Consciência é a experiência interior, subjetiva, o “filminho na sua cabeça”, aquilo que se perde temporariamente ao dormir ou desmaiar. Consciência não é qualia. Mas consciência sem qualia não é consciência.

Qualia (singular quale) são as experiências subjetivas, sensações “brutas”. Ou ainda, qualidades fenomênicas, como os fenômenos (mentais) parecem à nós. A sensação de cores básicas – como o vermelho – é o exemplo mais usado de quale. Todos já ouviram a indagação “como eu sei que meu vermelho é igual ao seu?” e aparentemente, não podemos ter certeza. Compõe o qualia também sensações corporais, emoções e humores. Em teoria, um computador com câmera poderia detectar e identificar vermelho, mas não sentir algo quanto a ele. Não há algo que seja como ser este computador. Há algo que é como ser o Trump, por exemplo, ele tem qualia, e tem uma consciência (ao menos neste sentido). A maneira específica que uma melodia soa a você (digamos, esta curta e simpática canção brasileira) é um quale, e apenas a percepção imediata, não os julgamentos feitos posteriormente, por exemplo, considerações sobre o mérito artístico de tal canção e a moralidade de seu compositor. Se é que é possível fazer tal separação de onde acaba a sua percepção da música e começa sua reação à ela… Veremos.

Supõe-se que só o próprio indivíduo é capaz de saber exatamente como são suas experiências subjetivas, e mesmo o indivíduo sendo sincero e tentando com muito esforço, é incapaz de expressar sua experiência com exatidão aos outros. Não parece que nossas experiências conscientes em seus detalhes sejam mera informação que possa ser simplesmente transmitida. Raciocínios, juízos e deduções não costumam entrar no rol de qualia, até porque estes são facilmente executados por um computador.


Ontem fui à minha psicóloga. Precisava bastante dela. Há algum tempo tive uma recaída drástica de minha depressão (que é um dos motivos desse post ter demorado tanto, me desculpem), e só muito recentemente comecei a melhorar, após começar Brintellix, um remédio novo, e com ele pelo menos fiquei bem o suficiente para sair de casa, mas ainda assim, me sinto muito pra baixo, vazio e desgostoso com a vida. Sentimentos de inutilidade e futilidade me atormentam sem parar, queria morrer, apesar da morte, paradoxalmente, parecer assustadora, agora estes pararam um pouco, pelo menos, resta o vazio e o desgosto. Estou com a psicóloga há um bom tempo, e temos uma boa comunicação e entendimento. Ela já me ajudou muito. Mas ainda assim, tenho uma certa dificuldade de explicar certas coisas, e acho que minha habilidade verbal não é das piores. Digo-lhe que não tenho prazer com quase nada mais, quase nada me dá prazer, tudo é tedioso e vazio, mesmo os games que eu costumava gostar, e os filmes, e até a música tem me parecido tediosa, insossa, música que eu gostava, e de qualquer forma, não tenho mais vontade para muita coisa. A palavra “anedonia” é útil, mas de pouco serve.

Ela me pergunta: “como assim, a música não dá prazer? ” e eu digo “ora, o estímulo sonoro entra em meu ouvido, é processado pelo cérebro… e não sinto nada”. Ela tenta me perguntar o que sinto ao ver o céu azul. Alguma emoção? Eu respondo que nada. Simplesmente observo o céu e identifico a cor azul, pois o comprimento de ondas da luz que vem do céu corresponde ao azul…. Parece que minha compreensão do mundo não é muito diferente da que um robô poderia realizar. Terei eu qualia? Eu tenho certeza que sim. Uma suposta experiência bruta da cor, com mais nada, a não ser, talvez, angústia de não sentir emoção. E mesmo assim, os defensores do qualia diriam que a sensação de azul já é algo a mais que um mero discernimento que até um computador com câmera faria.

Eu acredito que não sou um robô, pois relato problemas como ansiedade social extrema, mesmo ao interagir com conhecidos. Um robô feito para interagir com humanos de forma convincente seria mais competente que isso. Eu mando uma mensagem para um amigo e ele demora muito a responder, ou leio uma resposta curta, um ok, e imediatamente começo a sentir ansiedade, que eu mal posso explicar (por ser qualia?), e que suscita dúvidas e uma angústia que não cessa, mesmo a minha mente sendo capaz de deduzir racionalmente que são inverídicas ou exageradas. E se inventassem um robô que simulasse alguém com ansiedade social e depressão? Um que, digamos demonstrasse apreensão ao ler uma mensagem num celular e verificar que ela demora a ser respondida, ou calcular que certos padrões de mensagem denotam indiferença ou raiva? Seria possível, a princípio, construir um? E ele teria mesmo estes transtornos mentais, ou estaria meramente emulando?

Corpo e Alma

Afinal, o que falta ao Pinóquio para ser um menino de verdade? O que a Fada Azul pode dar que ele já não tenha? Se ele já agia como um menino de verdade, falava como um menino de verdade, e respondia a acontecimentos como um menino de verdade, e claro, era capaz de mentir como um menino de verdade…. Somente a madeira o separava da humanidade? Afinal, dizia Dostoiévsky (pelo personagem Razumíkhin em Crime e Castigo) que mentir é privilégio dos humanos sobre os animais. E sobre os bonecos, presumivelmente.

O universo mental subjetivo, por muito tempo considerou-se, existe de uma realidade imaterial, metafísica, em uma espécie de quarta dimensão. Uma “alma” ou “espírito” imortal. Tem-se o dualismo. Pensava Descartes: A alma conversa com o corpo pela glândula pineal. Recebe informações dos nervos por ela, e envia comandos aos nervos a partir dela.

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O filme Divertida Mente (Inside Out) se passa em dois universos. Um é o da cidade de São Francisco – CA, onde a menina de onze anos Riley, que acabara de se mudar de outro estado, encontra dificuldades para se adaptar. Tudo muito estranho, o ambiente parece muito desagradável, e seus pais não entendem bem. E o outro universo…. É a mente de Riley, onde conhecemos personagens, as emoções Alegria, Tristeza, Nojo, Raiva, Medo, que em sua sala de controle observam o que acontece com Riley, numa tela de cinema (observam seus qualia) e regulam suas reações em uma mesa de controle, cada um toma conta de um acontecimento, e a memória de cada acontecimento, representada por um orbe (será qualia engarrafado?) fica marcada com sua respectiva emoção, e guardada no arquivo. Além da sala de controle, a mente de Riley se expande por um enorme complexo, no qual há ilhas específicas para seus traços de caráter, gostos e valores. Quando alegria e tristeza acidentalmente são sugadas para fora da sala de controle e se perdem no restante do complexo mental, conhecemos suas outras tantas estruturas, tais como o “trem do pensamento” e o estúdio de cinema onde são filmados os sonhos.

Outros personagens, da mesma forma, também têm suas respectivas salas de controle, cada uma de seu jeito. A narrativa do filme, impecável, mostra as ações de Riley sempre em sincronia com os acontecimentos da sala de controle e do resto de sua mente. É claro que aquele complexo imenso não caberia no crânio de uma menina. É sugerido que se passa em “outra dimensão” conectada com corpo na “dimensão física”… Na glândula pineal de Riley, talvez?

Para um filme de criança, até que a veracidade científica não está nada mal. A Pixar, sempre muito detalhista, consultou psicólogos para construir o roteiro. Por exemplo, a memória de um evento e a resiliência da memória realmente está atrelada ao seu valor emocional, e a memória de longo prazo é diferente da memória de curto prazo, ou de trabalho, sendo também eventualmente descartada, como vemos quando alguns personagens são responsáveis por decidir quais orbes de memória devem ser sugados para serem descartados.

Os pais de Riley são bons pais, mas não entendem a filha, por mais que ela se expresse, verbalmente e de outras formas (jogando o prato do jantar, desistindo do jogo de hockey brava no meio da partida). Eles podem, em vários momentos, se conectar emocionalmente à filha, como no final comovente. Não é que nós nunca possamos nos comunicar, até o fazemos muito bem boa parte do tempo. Esta comunicação só não é infalível, e nem é exata, apesar de poder ser precisa.

Por estes motivos a mente é, ao mesmo tempo, o melhor lugar para guardar uma senha e o pior lugar para guardar uma senha: O pior porque pode ser esquecida. O melhor porque ninguém pode invadir sua mente diretamente e roubá-la de você. Esta característica do qualia, que muitos consideram uma característica necessária do qualia, é a inefabilidade: Não pode ser transmitido perfeitamente, nem acessado diretamente. Será?

Dualismo não quer morrer

Dualismo fazia algum sentido em uma era pré-científica, quando não entendíamos o que nos diferenciava dos outros animais, o que os fazia mais simples que nós, e também o que fazia os animais mais especiais que objetos inanimados, e o que os faziam coisas que não apenas obedecem a lei da física, mas que andam, param, pulam, dormem e comem. Os animais parecem ter alguma forma de iniciativa, e de discernimento, e nós parecemos ter mais discernimento que eles.

O conceito sempre foi problemático, e esbarrou em paradoxos: Afinal, como algo etéreo, que não é físico, pode interagir e mover o que é físico? Claro que não faltaram tentativas de filósofos e teólogos para responder esta e outras perguntas… Respostas como sempre das mais obtusas e improváveis possíveis. Mas não era como se houvesse algo melhor.

Um dos primeiros desafios sérios ao dualismo foi lançado quando quando um operário de ferrovia americano, Phineas Gage, teve um acidente: Enquanto socava pólvora em um buraco no chão (isto foi antes da invenção da dinamite) com uma haste de metal, a pólvora explodiu, e a haste atravessou seu crânio. Phineas Gage perdeu o olho esquerdo  e uma porção de massa encefálica do lobo frontal, mas não morreu.

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E falando em qualia: Será possível obter a informação de como isso deve ter doído sem realizar a experiência?

No entanto, ficou uma pessoa completamente diferente. Seu médico, sua família e seus amigos relataram que não era mais o Phineas Gage de antes, não era mais um homem comedido, educado e trabalhador: Tornara-se agressivo, irresponsável, mal-educado e impulsivo. Afinal de contas, o cérebro não é uma porção de massa que faz uma ponte com o mundo metafísico. Perca um pedaço do cérebro, perca uma função da consciência pela qual este pedaço era responsável.

A ciência da mente e cérebro fez descobertas importantes, descobriu como funcionam os neurônios, hormônios e neurotransmissores e como cada um é importante para a consciência, mapeou minuciosamente cada região cerebral e a correlacionou com cada função cerebral específica. Antes eram acidentes que davam as pistas, acidentes como o de Phineas Gage, e danos causados ao cérebro por derrames e outros problemas de saúde que comprometiam porções específicas do cérebro. Claro que por uma questão ética estes não podiam ser reproduzidos, e era preciso esperar o paciente morrer (não vale forçar a barra…) para fazer autópsia do cérebro. Exames como EEC (eletroencefalograma) permitiram ter uma ideia da frequência em que funcionavam os neurônios de certas partes do cérebro durante certas atividades. E os exames de imagem funcional mostraram precisamente quais regiões tinham maior metabolismo durante determinadas funções. Não sabemos tudo ainda, mas parece ser questão só de tempo e de evolução da tecnologia até termos uma noção tão boa do que se passa em nossas cabeças como em nossos outros órgãos, falta pouco…. Ou será mesmo?

Na verdade, apesar de todo o progresso, parece que esta é a área da ciência que está mais atrasada. Falando de medicina, a psiquiatria e a neurologia (que eu não sei por que diabos são áreas diferentes) são provavelmente as áreas da ciência mais imprecisas de todas. Os remédios que temos, por mais que sejam decididamente melhores do que nada, são ineficazes para grande parte dos pacientes e têm efeitos colaterais bem sérios (e deste fato se servem fartamente os pilantras da pseudociência e da “medicina alternativa”). Parece haver uma barreira intransponível entre médico e paciente. O psiquiatra raramente pede exames. Apenas ouve os relatos subjetivos do paciente, e prescreve medicamentos que talvez funcionem, talvez não. A comunicação com o psicólogo, que procura ajudar o paciente a sanar seus problemas pelo diálogo, identificando seus processos mentais disfuncionais e sugerindo mudanças e perspectivas diferentes, também sofre de dificuldades bem grandes, como relatei no início do post, sempre esbarram na barreira da subjetividade. E também sofrem de bastante desconfiança perante o público geral, que acha que seu trabalho é meramente enrolar os pacientes para tomar-lhes dinheiro enquanto fingem preocupação. Tudo que envolve dimensão subjetiva envolve altas doses de ceticismo (não do tipo bom, do tipo preconceituoso e ignorante).

Mesmo os procedimentos dos exames laboratoriais pelos quais os medicamentos têm de passar são meio duvidosos. Falando de antidepressivos, a avaliação da melhora dos voluntários é principalmente com base em exames como o HAM-D… Mas existe mesmo algo como determinar se alguém está “30% menos deprimido” em dado período de tempo? E se o resultado do HAM-D for menor que 7, mas a pessoa ainda se sentir deprimida? À nossa intuição, parece estranho colocar qualquer critério objetivo (uma porcentagem) a um subjetivo (bem-estar, motivação, cognição), e a prática mostra que essas métricas são mesmo meio capengas. Não seria mais fácil fazer um exame de sangue e fazer a contagem de “depressômeros” no sangue? Que pena que isto não existe.

E tem o efeito placebo… O efeito placebo é uma prova de como não sabemos quase nada do que se passa na mente humana. É perfeitamente possível que um remédio com ação fisiológica real funcione em apenas 50% dos pacientes ou menos. Se a ciência soubesse como realmente o efeito placebo funciona, se soubesse quais sinais objetivos são provocados pela crença de estar recebendo um tratamento, e como o remédio sendo testado funciona exatamente, não precisaríamos de placebos para avaliar sua eficiência, e nem haveria polêmicas com certos remédios.

Algumas doenças – como a depressão e a ansiedade – são especialmente difíceis de relatar, e de avaliar. É difícil explicar a diferença de depressão e de tristeza, e delinear onde acaba o normal e começa o patológico. E na verdade, muitos não só não entendem como acham ofensiva e desumanizante a ideia de estudar o cérebro e sua correlação de estados mentais, julgam a psiquiatria “reducionista” e “materialista”. O cérebro e a mente são territórios “fora de limites” da ciência. Este excepcionalismo cerebral é o triste resultado do dualismo tão enraizado na concepção popular. Mas afinal, a intuição do dualismo é irresistível, mesmo para ateus. Todo mundo diz ter uma consciência, e sente uma. Sentir ter consciência, neste caso, é prova suficiente de que ela existe? A razão pode negar a intuição?

O mais engraçado dos pós-modernistas que duvidam da nossa capacidade de conhecer o mundo exterior é que na verdade temos uma noção muito melhor e mais precisa do que se passa no mundo exterior do que no interior. O vocabulário sequer oferece termos precisos para denominar os fenômenos que nos ocorrem, e para compreender o que sentem os outros. Por isto mesmo, subjetivo é quase sinônimo de “incerto” e vago, e em meados do século XX, a filosofia que insistiu em se apegar à subjetividade – a continental, da onde surgiu o pós-modernismo – se divorciou da filosofia que preza pela clareza de linguagem, lógica e objetividade imparcial: A analítica. A analítica meio que desistiu de declarar que exista um problema próprio da filosofia, sendo seu papel apenas esclarecer ideias, andando junto da ciência. Todos os que eu leio e que cito aqui são da analítica. Mas analítica é uma escola, não uma seita, e dentro dela há consideráveis subdivisões.

Fácil ou difícil?

O filósofo David Chalmers dividiu os problemas da consciência em dois grupos: O problema fácil e o difícil. Uma terminologia deliberadamente provocativa, e na verdade enganosa, apesar de ter pegado. Todos os problemas da consciência são difíceis. Até descobrir como se coloca pasta de dente de volta no tubo é um problema difícil (apesar de não particularmente filosófico). Na realidade, a divisão de Chalmers é de problemas possíveis de resolver e problemas impossíveis de resolver. Problemas fáceis seriam todos os que envolvem apenas o aspecto físico e funcional, que podem ser analisados pelo método científico com resultados satisfatórios. Como o funcionamento da atenção e memória. E o difícil é basicamente tudo que envolve qualia e o caráter subjetivo e aparentemente inefável da consciência, nas explicações funcionalistas parece que sempre falta algo. Parece que, não importa de que formas expliquemos a um cego de nascença o que são cores, ele nunca vai realmente saber. Assim como não podemos jamais saber ao certo como é ser uma tigresa de bengala no cio. Podemos dizer também que os problemas difíceis se dividem em “por que e como existe uma consciência” e “o que são e como funcionam as partes da consciência? ”, o primeiro é o que eu estou me aprofundando neste post.

O dualismo de Chalmers é epistemológico: Epistemológico significa aquilo que diz respeito ao conhecimento. Ele não é realmente um espiritualista (apesar da cara) apenas acredita que a esfera subjetiva do homem, contendo qualia, jamais poderá realmente ser conhecida empiricamente, não por uma limitação tecnológica ou linguística, mas pelo que o qualia é em si, algo como o princípio da incerteza de Heisenberg. John Searle também vê como um erro tentar transformar toda atividade mental em um processamento de informação, a única forma pelo qual podemos entende-la, e que um mero sistema de processamento de informação, por complexo que fosse, não poderia jamais dar origem a uma consciência real, sendo assim cético com a perspectiva de uma inteligência artificial “forte”, que seria mais como uma “consciência artificial”, não apenas capaz de fazer tarefas mentais específicas, mas uma simulação completa. Para Searle, sempre será uma imitação, uma computação jamais será realmente pensamento.

Nesta visão, consciência é um fenômeno irredutível. Como dizia Wittgenstein, “toda explicação tem de parar em algum lugar”, e não é possível explicar por que cérebros geram consciências, não mais do que podemos explicar por que positivo atrai negativo. Joseph Levine lançou o termo “lacuna explicativa” (explanatory gap) que define o problema de quando você tenta entender o que se passa na cabeça de um sujeito que acha graça do vídeo do Palhaço Gozo mas não consegue, ou quando aquele idiota não consegue explicar a graça no palhaço cantando a música sobre puteiro.

O autor que eu mais leio é Daniel Dennett, talvez um dos maiores críticos da perspectiva dualista de Chalmers, Searle e muitos outros. Funcionalista e fisicalista ao extremo, Dennett deixa claro: Chalmers e Searle não sabem do que falam. Eles e muitos outros proponentes da filosofia da mente e ciência cognitiva como um todo estão perdidos em ilusões que tornam o problema mais complicado do que parece. Em um de seus livros mais importantes, Consciousness Explained, de 1991, ele alega que qualia acabou se tornando um termo tão obtuso, e solapado em falhas conceituais, que deveríamos simplesmente parar de usá-lo. Evidentemente eu não vou obedecer à moratória de Dennett, e mesmo falando muito mais sobre a consciência além do qualia nesta série, eu não resisto ao título, é curto e prático…. Ainda que seja para ser descartado ou desmontado e revisto (eu terminantemente me recuso a usar o termo “desconstruído”). E o próprio Dennett fez uma ou outra pequena concessão ao termo depois. Mas não muito grande.

Em sua opinião, os autores dualistas dão valor demais à intuição: Não é que consciência não exista, mas que ela não é como eles dizem. Uma grande parte do que você acredita saber acerca de si mesmo é ilusório, e isso pode ser provado. A investigação empírica aliada à razão já nos provou antes que nossas intuições estavam erradas, como quando provou que a terra é redonda, e não é o centro do universo, e também pode demonstrar que nossas intuições a respeito de nós mesmos estão erradas, pode fazê-lo  demonstrando os erros que nos iludiam. Não há limites rígidos para onde a investigação científica e o pensamento filosófico possam elucida-la. O entendimento dos assim chamados problemas fáceis fatalmente levará a entender os assim chamados problemas difíceis, a ponto de não restar nenhuma dúvida relevante.

Dennett é explícito em defender que o que se passa no cérebro e na mente é sim apenas transformação de informação, como em qualquer computador, sem preciosismo. Nossa dificuldade em transmitir nossos qualia, a aparentemente intransponível lacuna explicativa, seria uma falha ou limitação de nossa linguagem, é um efeito do modo particular como cada cérebro é, da idiossincrasia de cada um, que torna os qualia tão específicos do sujeito.

A filosofia da mente valeu-se de experimentos mentais criativos e de “personagens” como zumbis, robôs e cientistas escravas, e a ficção ilustrou estes exemplos. O que nos ajuda tremendamente a entender o assunto, mas estas ferramentas também podem ser mal-empregadas para empurrar conclusões erradas. Nos próximos posts, vamos ver como o conceito de qualia se sustenta perante os desafios. Isto se eu conseguir escrever… Espero que meus remédios funcionem. Se é que você me entende. Se não entende, tudo bem, talvez isto seja impossível afinal.


Os três vídeos estão legendados em português. Se não aparecer automaticamente, basta ativar.

 

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