Educação, filosofia, história, Humano

Devo Fazer Um Curso de Humanas?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, principalmente para adolescentes que estão fazendo o ensino médio. E se eu tivesse uma resposta perfeita, certeira para todo mundo, eu talvez tivesse um milhão de dólares. Acho que não chego a isto, mas posso desfazer algumas confusões das pessoas sobre cursos de humanas, não só para adolescentes que querem fazer seu primeiro curso superior, mas para profissionais que já se formaram em outra coisa e pensam em uma segunda graduação, que é meu caso.

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A primeira grande preocupação de quem vai fazer humanas, e mais ainda dos pais deste possível estudante de humanas, é a questão de perspectivas salariais, da grana. Com exceção, é claro, de direito, jornalismo e economia (psicologia talvez seja um caso limítrofe). Mas se for fazer, por exemplo, filosofia, história, letras, geografia, sociologia, vêm as perguntas: “Vai fazer o que com isso?”, “vai arrumar emprego do quê?”, “vai comer o que?”, “já viu alguma empresa contratar filósofo/historiador/sociólogo?”. É um preconceito que você infelizmente vai sofrer, da família e mais ainda de estudantes de exatas (pode apostar que quem faz esse tipo de colocação é um moleque que vai fazer análise de sistemas achando que será o próximo Bill Gates) e é melhor saber lidar com humor. Uma boa opção é dizer: “Serei cafetão”.  Sinceramente, acho as pessoas que falam isso, e as que falam com gosto, um bando de medíocres. Mas terão alguma razão os medíocres?

É claro que tem um fundo de verdade, sendo que a perspectiva profissional de alguém de humanas é muito menos óbvia, sendo que não é algo com aplicação prática imediata, e isso é exatamente o que diferencia as pessoas de direito, economia e (discutivelmente) psicologia das outras humanas: Ninguém entende bem para que servem. Conhecimentos abstratos, como teorias filosóficas, descobertas históricas, são como bebês recém-nascidos: Você não tem como saber para que servem logo que surgem, seu reflexo na sociedade costuma ser a longo prazo, e sua recompensa econômica é menos garantida. Uma conhecida minha, de anos atrás, que fazia filosofia, fez uma colocação interessante: Esse é o tipo de curso em que é uma merda ser medíocre. Só os que se destacam muito conseguem se dar bem. Um advogado medíocre provavelmente terá uma vida melhor que um professor de filosofia medíocre.

E como eu sei que vou me dar bem? Primeiro, pergunte-se: “Eu gosto disso? Eu gosto de ler?”. Se a resposta for sim… Não é o suficiente. Muita gente entra em humanas apenas por exclusão, isto é, porque não são bons com números e os vestibulares costumam ser mais fáceis. Péssima estratégia. Para se dar bem em humanas, você tem que amar o que faz, e você tem que amar ler antes de mais nada, e muito, quem faz humanas não pode ter medo de livro grande. Se para você leitura não for uma prazer, qualquer curso de humanas será insuportável. E se você não gostar muito, acabará lendo apenas o mínimo que é cobrado pelos professores, e assim vai sair um formando medíocre, isso se não desistir do curso. Curso chato por curso chato, melhor fazer outra coisa; algo que, como a minha colega colocou, “é melhor para ser medíocre”. Alguém da área deve ter facilidade para absorver e compreender ideias complexas, e gostar de escrever também. Escrever é talento, conhecimento e técnica. E só se melhora praticando. Eu escolhi fazer humanas porque adoro estudar e escrever, e me julgo competente para participar e contribuir com o meio acadêmico. É isso que você tem que pensar em qualquer profissão: “Tenho capacidade e vontade para contribuir significativamente para este meio?”.

E lembre-se: Você terá que dar aulas. Talvez apenas na universidade, e para isso é preciso ter no mínimo mestrado, e mais provavelmente terá que dar aula em escola antes disso. Se tiver medo de falar em público, isso pode e deve ser treinado. Os vários seminários que você terá de apresentar durante o curso são ótimos para desenvolver essa habilidade. Os cursos de licenciatura já preparam o aluno para ser professor de ensino fundamental e médio, enquanto os de bacharelado são apenas para formar pesquisadores. Há não muito tempo atrás, havia cursos em que se formava nos dois, hoje em dia isto não é mais possível. Felizmente, não é tão complicado, após a formatura, um bacharelado matricular-se novamente, sem ter que fazer outro vestibular, e fazer uma licenciatura, mas isso varia de universidade para universidade. De qualquer forma, os cursos de licenciatura no Brasil são uma caca. Pela nossa maldita herança paulofreiriana, preocupam-se mais em passar filminhos e promover debates do que em ensinar técnicas didáticas. Um professor meu do cursinho, que fez licenciatura na USP, comentou que não aguentou e saiu da aula quando a professora soltou a pérola: “Não pode usar caneta vermelha no caderno, porque isso traumatiza a criança”. Talento importa muito para ser um bom professor, e dominar a sua área de ensino também. Nada mais desagradável que ter aula com um professor que parece que não sabe nada e só está recitando o que está escrito na apostila.

Ideologia

Mas aí tem aquela preocupação quanto à questão ideológica: Aos futuros estudantes de humanas de direita, ou simplesmente apolíticos, que não gostam de extremismos, tem o medo da Academia ser tomada por figuras como esta da esquete no começo do post. Isto não é um mero fantasma: A Academia está repleta deles mesmo, marxistas, pós-modernistas, feministas, e outros istas dos mais irritantes possíveis… Eu mesmo sofri incomensuravelmente com esses grupos, sendo a única pessoa lá que não era de esquerda, e já tendo um caso grave de ansiedade social, senti-me por diversas vezes perseguido e ostracizado. Mas, eventualmente, eu consegui fazer amizade com algumas pessoas e me socializar. Tome isso como uma oportunidade de conviver com pessoas diferentes, procurar ver o que cada um tem de bom, e trocar ideias sem levar tudo para o lado pessoal. Isso é um amadurecimento necessário. Seja o mais gentil e generoso possível com as pessoas: Elas podem até ficar bestas e pensar “poxa, como pode ser de direita mas ser tão legal?”.

E quanto ao conteúdo das aulas, que é o mais importante de tudo: Não, cursos de humanas não são pura doutrinação ideológica do começo ao fim, como alguns conservadores gostam de passar. Na verdade, eu tive muito mais prazeres que desprazeres neste primeiro semestre de história. Alguns professores, velhos da casa, admitem as falhas e enviesamentos ideológicos de historiadores do passado, como os dos anos 60, que fizeram um retrato vitimista dos índios na colonização da América, como se eles tivessem sido completamente passivos durante todo o processo, e como se vivessem numa espécie de comunismo utópico. E também admitem as distorções da historiografia marxista, que tentou transformar todos os fenômenos em luta de classes e dialética. Sim, a academia já aceitou esses erros, ou pelo menos parte dela, e isto se chama honestidade intelectual. O que não significa que você não vai ler Marx. É preciso ler o que você não concorda também. Mesmo o maldito pós-modernismo e seus tentáculos relativistas, que eram o que eu mais temia, parecem não ter corrompido significativamente a historiografia, ou não muito. Aprendi já nesse primeiro semestre o cuidado e o método necessários para averiguar a autenticidade de fontes, avaliar o quanto podemos crer em seu conteúdo, de forma a aproximar-se o máximo possível da verdade. Isto é rigor e seriedade, e isto não se perdeu.

Acredito que o fato das faculdades de ciências humanas estarem, ainda, tomadas por esquerdistas, não deveria ser um impedimento para pessoas que não são de esquerda e querem cursar ciências humanas, deveria ser um encorajamento para entrar nelas e quebrar este monopólio. Ciências humanas não devem ser jamais um monopólio de qualquer ideologia política. Nem de esquerda, nem de direita. Ciências humanas à humanidade pertencem.

https://spotniks.com/10-maneiras-de-um-estudante-sobreviver-a-uma-universidade-dominada-pela-esquerda/

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3 comentários sobre “Devo Fazer Um Curso de Humanas?

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