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Preconceito Pode Ser Bom? E a Tolerância?

preconceito

Você provavelmente respondeu a primeira pergunta a si mesmo na lata, pensando “não, claro que não! O que esse cara pensa?”, então eu lhe convido a pensar: Deveríamos abolir a maioridade legal?

WTF?

O conceito de maioridade legal nada mais é do que um preconceito imposto legalmente. A linha demarcatória para quase tudo é 18 anos, com algumas exceções: No Brasil, por exemplo, pode-se votar com 16 anos, para ter porte de armas é preciso ter 25 anos. Nos EUA, e na maior parte do mundo, 18 anos também é a idade de maioridade, mas por lá pode-se dirigir com 16 anos, enquanto que para comprar bebidas alcoólicas é preciso ter 21 anos. Mas independente de qual seja a idade que a lei considera, e quantas exceções e especificidades sejam feitas, a maioridade é um preconceito legal, por ser uma classificação rígida, “todo mundo abaixo da idade tal é incapaz para fazer certas coisas e assumir certas responsabilidades”, independente de quem sejam estas pessoas, e  leva à injustiça em muitas situações. Exigir que se tenha 18 anos pelo menos para dirigir certamente é injusto com os menores de 18 anos que são responsáveis e capazes de serem bons motoristas, que são exceções, mas existem. A idade de maioridade ser 18 anos também significa que muitas pessoas com 18 anos, mas maturidade quase nula, podem fazer coisas que demandam responsabilidade que eles não têm, inclusive dirigir. A questão de onde é melhor traçar a linha não é irrelevante, como alguns dizem, e sempre deve ser discutida e eventualmente reformulada, mas esta linha sempre será uma demarcação um tanto quanto arbitrária, e necessariamente preconceituosa. Independente de onde tracemos a linha isto continua sendo preconceito, no sentido mais estrito, conceito prévio, e sem chance para revisão. Mas a sociedade está disposta arcar com as consequências de deixar menores de 18 anos (ou mesmo menores de 16) dirigirem, beberem, e possivelmente fazer as duas coisas ao mesmo tempo?

É lógico que não. O fato é que tratar pessoas de forma diferente pelo que elas são, sem considerar suas peculiaridades, é algo prático e necessário, uma triagem rápida, para quando entender cada caso individualmente é custoso demais, leva tempo de que não se dispõe, e os erros são mais custosos ainda. Preconceito é prático, e muitas vezes é racional e necessário, e aí reside o dilema do racial profiling e religious profiling, quando pessoas de certos grupos étnicos ou religiosos sofrem mais assédio das autoridades. Por isto negros têm uma maior chance de serem parados em blitz no trânsito, e muçulmanos têm mais chance de serem escolhidos para revistas “aleatórias” em aeroportos. É óbvio que ser muçulmano não significa ser terrorista, e simplesmente ser muçulmano não é justificativa para alguém ser tratado como um terrorista, mas o Islã é, disparado, a religião seguida pela imensa maioria dos terroristas do mundo, então faz todo sentido que os seguidores do Islã selecionados para revistas com mais frequência. As segurança das linhas aéreas do mundo todo depende do processo de revista de passageiro ser o mais eficiente possível, ainda que revistar mais pessoas de certos grupos não seja, digamos, “democrático”. Você prefere que haja este preconceito ou ter um homem bomba sentado no seu lado durante o voo?

O assédio maior que os negros sofrem pelas forças policiais foi um dos motivos pelo qual eclodiram fervorosas manifestações e tumultos nos EUA em 2015 e 2016, como foi nas cidades de Ferguson e Charlotte, além, é claro, de serem tratados com muito mais truculência do que brancos. Nos dois casos a revolta foi desencadeada pela morte de um negro por policiais brancos, mas apesar deste ter sido o estopim, as revoltas só aconteceram porque os negros já se sentiam maltratados e oprimidos pelas forças policiais há muito tempo. Poderia-se argumentar que as consequências deste preconceito são um preço muito alto a pagar apenas para fazer mais apreensões de maconha, mesmo que seja estatisticamente comprovado (eu não sei se é) que negros, por qualquer causa, tenham maior probabilidade de estarem com maconha no carro, ou mesmo de armas. Nós não somos obrigados a aceitar um preconceito só porque ele é “estatisticamente embasado” e porque leva à maior eficiência das autoridades, principalmente quando o ganho é tão insignificante, ou quando é duvidoso.

Também é importante ressaltar que nem todos os preconceitos são embasados em realidade, em dados confiáveis. Os racistas e preconceituosos ou fanáticos em geral (a palavra inglesa bigoted é a mais adequada, mas não tem nenhuma tradução exata para o português) são motivados por relatos anedóticos e ideias errôneas que circulam sem qualquer inspeção atenta, e pode ter certeza que não praticam preconceito seguindo uma fria lógica utilitária, ainda que eventualmente usem isso de desculpa, e também fazem muito pior do que se faz por preconceitos “legais”. Mesmo que os muçulmanos sejam revistados com mais frequência, ser revistado em aeroportos ou qualquer outro lugar não é algo tão ruim que ninguém possa sofrer, e nem é algo pelo que outras pessoas não passem; nem ser privado de dirigir é um sofrimento tão grande para os adolescentes. Ser insultado gratuitamente, ou agredido fisicamente (ou morto, como nos casos que desencadearam revoltas em Ferguson e Charlotte) é absolutamente inaceitável, principalmente quando a motivação por tal de tal atitude é um grupo ao qual uma pessoa pertence, não o que ela de fato é.

Numa entrevista de emprego, por exemplo, o selecionador dispõe de vários meios de averiguar as aptidões de cada candidato individualmente, como o currículo (e olha lá o que você põe no seu perfil do Facebook), então, mesmo que as mulheres, em média, sejam menos habilidosas em exatas (na verdade, não exatamente) isto não é desculpa para discriminar mulheres em uma vaga para engenheiro, por exemplo. As mulheres que escolheram fazer engenharia, de qualquer forma, já são fora da média (assim como os homens que resolvem fazer psicologia ou pedagogia, carreiras que exigem mais empatia, o que as mulheres, em média, têm mais), e quando você pode saber a habilidade de cada um, aplicando uma prova, por exemplo, estas tendências estatísticas já nem importam mais.

Talvez o preconceito oficial que mais desperta debates no Brasil seja a política de cotas raciais para ingressos em universidades. A pergunta não é se as cotas são, elas mesmas, um preconceito, porque são. A pergunta é se elas são realmente úteis e boas no geral, merecendo entrar para o rol de preconceitos aceitáveis por serem úteis demais para negar, e eu acho que a resposta é não.

Quanto à tolerância às diferenças nas relações interpessoais, não há nem muito o que dizer: Ninguém deveria tratar o outro mal, infringindo seus direitos, simplesmente pelo outro ser deste ou daquele grupo. Mas eu sei, todos nós somos preconceituosos, pelo menos um pouquinho, eu também sou, apesar de nem todos levarmos o preconceitos às últimas consequências. E fique atento, essa turminha que adora se dizer “liberal”, “tolerante” e “sem preconceitos”, uma espécie de “carteirada do bem”, no fundo são pouco mais tolerantes do que qualquer conservador. Dizem que toleram todas as diferenças, mas na real só toleram as diferenças que seguem o padrão da ABNT. Pode ser aceito pela turminha sendo gay, lésbica, negro, travesti, contanto que você se comporte rigorosamente segundo uma certa cartilha, não use certas palavras, não acredite em certas coisas e aceite o credo oficial (por exemplo, no dogma de que ninguém é normal, e que diferenças de gênero são definidas socialmente), como o Felipe Neto, que, segundo seu próprio relato, se arrependeu de sua vida de babaca… E tornou-se um “justiceiro social” (SJW) politicamente correto estridente, que acha tudo machista, misógino e opressor. Que grande melhoria, não? Sério, parece relato de evangélico contando como sua vida mudou depois de aceitar Jesus.

A propósito, acho que deveria ficar claro que atacar uma ideia é completamente diferente de atacar as pessoas que acreditam nesta ideia. Todas as ideias, políticas, religiosas, filosóficas, ou de qualquer tipo, inclusive as banais, deveriam ser passíveis de crítica e discussão. E nem acho que deveria ser proibido criticar os seguidores de uma ideia, principalmente quando ela é extremamente equivocada e perigosa, contanto que você não use isto como abertura para infringir os direitos de indivíduos deste grupo gratuitamente. Para usar um exemplo que acho que ninguém vai discordar, posso perfeitamente criticar os nazistas e neonazistas, sem querer dizer que cada pessoa que se intitula skinhead ou similar mereça ser atacada fisicamente. Às vezes, o skinhead é só um idiota que não nem sabe o real significado do movimento do qual faz parte, e de qualquer forma, não é seu direito fazer justiça com as próprias mãos e derrubar uma ideia aos murros. Infelizmente, nem todo mundo tem esse discernimento. Existem também maneiras incivilizadas de atacar uma ideia e seu seguidores sem ser aos murros, e o senador republicano Marco Rubio dá uma lição de moral neste discurso de oito minutos, em que alerta sobre a maneira equivocada como os parlamentares vem conduzido os debates na Casa Branca. Admito, não sou tão certinho, sou bem incisivo em meus estilo de debater, principalmente quando estou combatendo o que acredito ser errado, é da minha personalidade, mas todo mundo que acredita em alguma coisa perde as estribeiras às vezes. E ser muito moderado também pode ser um erro.

Um exemplo verdadeiro de tolerância que eu já vi na ficção é a personagem Leslie Knope (Amy Poehler), da série Parks and Recreation. Verdade, ela é politicamente correta e até meio chata, mas é uma pessoa tolerante de verdade, ela não maltrata, diminui, demoniza e nem exclui de seu círculo social pessoas por serem e pensarem diferente dela, não discrimina nem mesmo o incrivelmente burro Andy (Chris Pratt), seu colega super chato e metido Tom (Aziz Ansari, respeito o ator, ele é muito bom, mas o personagem é realmente um dos mais insuportáveis que já vi em qualquer obra de ficção) e o seu chefe, o libertário radical Ron Swanson, genialmente interpretado pelo ator Nick Offerman, e meu personagem favorito da série. Os próprios roteiristas demonstraram não serem preconceituosos, ao menos não muito: Eles não retrataram Ron Swanson apenas como um libertário genérico, que só acredita em loucuras e não tem nada de bom. Sim, ele às vezes parece fora da realidade com suas ideias libertárias, mas também é um homem íntegro, de caráter, leal aos amigos e habilidoso em várias coisas, e a própria Leslie reconhece vários destes talentos e respeita seu jeito de ser. Isto é o que uma pessoa tolerante de verdade faz. Eu mesmo não sou contra “rótulos” ou “bandeiras”, como direita e esquerda. Não sigo a doutrina da caixa de bombons, acho que faz sentido você se identificar com uma categoria de pensamento (que é uma categoria fuzzy, mas não inútil) se a maioria das suas ideias batem. O problema é as pessoas levarem estes rótulos ao extremo, e se recusarem a enxergar o que mais uma pessoa é além dele.

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2 comentários sobre “Preconceito Pode Ser Bom? E a Tolerância?

  1. Túlio disse:

    Nossa, muito boa reflexão!
    Concordo com todo o raciocínio. Só descordo de uma opinião do autor, sobre as cotas, acredito ser um pré conceito socialmente importante, útil, pelo menos até o momento em que as condições de vida ( ensino, saúde, emprego, salários, alimentação, recursos culturais) de pessoas afrodescendentes (seja de pele morena, preta ou branca) forem semelhantes as condições das camadas mais favorecidas da sociedade. Daí nesse momento não será mais justo utilizar as cotas.
    Acredito que as cotas seja um meio de corrigir uma desigualdade de origem histórica.

    Abraço amigo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: O Engenheiro do Google, Pirulla, e a Questão de Gêneros | COMPUTAÇÕES ANÔMALAS

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