ceticismo, filosofia, vídeos

Nerdologia Livre Arbítrio

 

O Nerdologia, em minha opinião, é um dos melhores projetos que já saíram da “família” Jovem Nerd, não apenas porque ele consegue informar de forma divertida (como no Mundo de Beakman que fez as infâncias de muitos de nós) mas porque o pessoal do Nerdologia é bastante cuidadoso com a veracidade das informações apresentadas, apesar de fazerem vídeos com grande frequência, ao contrário de muitos canais de YouTube por aí. O Átila e o Filipe (do Nerdologia História) também deixam quase sempre uma lista de livros recomendadas para quem quiser se informar mais sobre o assunto abordado no vídeo, além é claro de fazerem as suculentas conexões com o universo nerd. E este vídeo não foi exceção, está caprichado. Só vi dois erros importantes nele. Isto é, dois e meio:

  • O Átila deixa a entender no começo do vídeo que todos os sistemas legais dependem de livre-arbítrio, o que não é verdade. A aplicação da pena por uma ação pode se justificar apenas por conhecimento ou não do que se está fazendo (em oposição à negligência), falta de coerção externa imediata, além do simples fato de que a lei e sua aplicação em si é um fato que pesa sobre a decisão, faz possíveis criminosos pensarem duas vezes.
  • No final, fazendo uma concessão aos compatibilistas, ele diz que o livre-arbítrio pode até não existir em ações brutas como mover a mão direita ou esquerda, mas pode estar em decisões mais complexas, como se candidatar à uma vaga de emprego ou se casar. Não, não há livre-arbítrio ou liberdade derradeira em nenhuma decisão, a diferença é apenas de grau. Uma calculadora comum de 8 digitos funciona de forma muito mais simples que um notebook, mas o que eles fazem é essencialmente o mesmo. Do ponto de vista lógico, exibir 4 em resposta ao input 2+2 também é resultado de uma decisão (é o que sai de um nó decisório), tanto quanto exibir o vídeo do YouTube é resultado de inúmeras operações de renderização na sua placa de vídeo. Mas ambas são igualmente não-livres. O cérebro nada mais é que um computador biológico. O fato de ações humanas mais importantes e deliberadas serem difíceis de prever não prova que elas sejam livres.

E o “meio-erro” (mais como uma pequena decepção) é que normalmente o Nerdologia dá as dicas de livros que os interessados podem consultar sobre o assunto. Neste vídeo, foram citados apenas dois, que não são exatamente focados no tema livre-arbítrio, mas o Átila explica que não indicou mais porque boa parte da literatura a respeito é inédita no Brasil, uma pena. O Free Will, de Sam Harris (que no Brasil conta apenas com tradução não oficial) é o principal deles, ou pelo menos o que aborda o tema de forma mais pontual e suscita, mas no Como a Mente Fuciona e  Tabula Rasa do Pinker, que têm edição brasileira, o assunto também é abordado. O livro Elbow Room, de Daniel Dennett, é uma indicação para quem quiser conhecer o lado oposto, isto é, o que os acadêmicos sérios que são a favor da ideia de livre-arbítrio, os compatibilistas, têm a dizer. Mas já vou dar um “spoiler”: Basicamente Daniel Dennett só está preocupado com as consequências de não se acreditar mais em livre-arbítrio (como Dostoievski estava preocupado com as consequências do ateísmo) e tenta resignificar o termo… Só que aí também não é mais livre-arbítrio. É mais ou menos como dizer que “dragões existem” porque existe um animal na Indonésia chamado Dragão de Komodo… Que não cospe fogo, nem voa, nem sequestra princesas.

Você também pode ler os meus posts sobre o assunto, se quiser… Não que você seja livre para querer ou não.

 

 

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