ética, filosofia, Humano, Política, Resenha, Segurança e Privacidade, sociedade

Devemos Queimar Bojack Horseman? Um Ensaio Sobre Liberdade.

“Voluntarioso, colérico, arrebatado, extremado em tudo, de um desregramento de imaginação quanto aos costumes como igual nunca houve, ateu até o fanatismo, eis em duas palavras como eu sou; e repito: matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei.

Bojack é um cavalo. E um homem. Ou algo entre essas duas definições. Na série de animação para adultos de mesmo nome, que se passa em uma versão fictícia psicodélica de Hollywood, alguns personagens são humanos normais, como a escritora Diane e o faz-nada Todd, e alguns personagens são animais antropomorfizados (com forma de humanos) como o próprio Bojack, o cavalo ator (ou seria um ator cavalo?), assim como sua agente e parceira sexual ocasional Princess Caroline, o colega ator Mr. Peanutbutter, um labrador amarelo, que Bojack detesta, e maldosamente tenta prejudicar mais de uma vez, mas Mr. Peanutbutter parece não perceber ou não se importar, e trata Bojack como amigo mesmo assim.

Nesta série, maluca, às vezes cômica, mas muito séria e trágica essencialmente, os personagens se tratam mais ou menos como iguais independente das espécies, apesar da personalidade e nome de muitos deles fazer lembrar os animais, como Mr. Peanutbutter (Sr. Manteiga de Amendoim), que tem um nome de animal de estimação e aquele jeito bobalhão simpático, sempre alegre e amigável, típico dos labradores. Bojack, por sua vez, é um decadente ator deprimido e um tanto quanto narcisista (as duas condições não são auto excludentes), que apesar de ainda ser muito rico, já não faz papel em filmes ou séries de TV há muitos anos, e vive das glórias do passado, é viciado em assistir episódios da sitcom Horsing Around, dos anos 90, na qual foi protagonista, papel que o levou ao estrelato e o enriqueceu. Adora beber, fuma também, e tem um relacionamento para lá de difícil com os outros personagens, é deveras indelicado e insensível, para dizer o mínimo, apesar de se magoar também, e mais de uma vez se preocupar com outras pessoas, além de definitivamente ter sentimento por elas, inclusive um amor platônico por uma veada que trabalhou na produção em seus tempos de TV.

Tudo isto é bem humano, e talvez você se lembre de algumas pessoas que já conheceu que tenham estas características. Ah, mas ele também tem cara de cavalo, corpo de cavalo, apenas com membros mais parecidos em forma e proporção com membros humanos, e explica em determinado episódio que é muito resistente à bebida (é preciso muito álcool para deixar um cavalo bêbado), também relincha em algumas ocasiões, como quando está transando com Sarah Lynn, atriz (totalmente humana) que atuou com ele em Horsing Around, sexo para lá de selvagem.  Zoofilia ou apenas sexo normal, dentro do contexto? Afinal, são animais, ou gente? Esses conceitos ainda fazem sentido no universo da série? São animais… Mas não como todo mundo imagina animais.

O Nome da Rosa

Conceitos são muito úteis à mente humana, por mais que haja um repúdio de certos movimentos filosóficos e sociais contra eles (às vezes com o termo pejorativo “rótulos”), mas não adianta brigar, conceitos são a maneira mais elementar como a mente humana enxerga e categoriza o mundo, é parte do modo como organizamos nossos pensamentos, e é de conceitos, ou símbolos, que é feita a linguagem. Conceitos podem ser substantivos ou adjetivos, ou precisar de várias e várias páginas de definição. A mente e a linguagem evoluíram para compreender o mundo com conceitos porque eles funcionam. Conceitos abarcam um número de objetos no mundo que tem características em comum, com pouca ou nenhuma exceção, por isto recebem um nome igual. A rosa chama-se rosa porque há várias flores com características como coloração e formato da pétalas similar, então damos um nome para todas, podemos chamar uma única flor de rosa mesmo que não tenha espinhos (não é uma característica excludente, apesar de comum), mas não se for feita de pedra (é um fator excludente) Lidamos com conceitos bem definidos, lógicos, do tipo é ou não é (como no dito popular “não existe mulher meio-grávida), outros não tão bem definidos (lógica “fuzzy” ou nebulosa) como adulto, inteligência, justiça…

A briga para estender ou encolher conceitos, longe de ser uma preocupação apenas de filósofos, é algo que se vê muito em discussões de cunho político e ideológico, e em disputas legais. Quando uma pessoa parece estar encolhendo um conceito artificialmente, apenas para ganhar uma discussão, chamamos isto de falácia do falso escocês, ou da exclusão de grupo, como quando os socialistas menos radicais, que não apoiam regimes totalitários, afirmam que “União Soviética, Cuba e Coréia do Norte não são comunistas de verdade”, ou, talvez de forma ainda mais cretina, alguns sujeitos “politicamente corretos” tentam dizer que os terroristas muçulmanos não são muçulmanos de verdade, apesar de serem os seguidores mais literais dos preceitos islâmicos, e o Estado Islâmico não é islâmico de verdade. Mas dizer que o Estado Islâmico (ou Daesh, ou Isis, como queira) não é um estado de verdade é mais razoável, visto que não é reconhecido por absolutamente nenhum outro. A definição moderna de estado é mais ou menos uma questão de consenso das Nações Unidas. A Palestina seria um caso limítrofe, é reconhecida como estado legítimo por alguns países (como o Brasil) mas não por outros (Israel, obviamente). O conceito de gênero, por sua vez, passa por uma polêmica falsa, preciosismo de uma minoria estridente. Não são construções sociais, como muito dizem estas minorias, tanto que o número de gêneros varia pouquíssimo de uma sociedade para outra (dois, quando muito três), e poucas pessoas não se identificam com seu gênero biológico.

Mas alguns conceitos são tão nebulosos, ambíguos, e polêmicos, que chegamos a questionar se são válidos, ou se não foram mal pensados desde o princípio, e deveriam ser descartados de nossa língua.

Do que são feitas as salsichas do livre-arbítrio?

Livre-arbítrio é o caso de um conceito torto desde sempre. Foi mantido como verdadeiro na história do pensamento humano quase que exclusivamente por motivo religioso, até hoje apoia-se fortemente no conceito (também fictício) de alma imaterial, sendo um dos dogmas centrais, por exemplo, da Igreja Católica: É o que justifica que deus, mesmo sendo misericordioso, mande as pessoas ao inferno, mas ao mesmo tempo entra em contradição com o dogma de que deus é onisciente, sabe tudo que já aconteceu e ainda vai acontecer, o que também significa que tudo que vai acontecer já foi decidido: Determinismo. Mas com ou sem deus onisciente, basta uma inspeção mais atenta para ver que o conceito de livre-arbítrio não apenas diz respeito a um fenômeno que inexiste no mundo real (como os animais falantes de Bojack Horseman e de séries animadas mais recomendáveis às crianças), mas que nem sequer poderia existir, que é ilógico, quase como um triângulo redondo. O que seria uma ação inteiramente livre? Seria algo que parte inteiramente do “eu”, ou seja, é de plena autoria do sujeito consciente, não foi determinado, pelo menos não inteiramente, por fatores externos, e também não é aleatório. Faz sentido? Pois é, nem para mim. Mais fácil pensar num homem cavalo que fuma, bebe e dá vacilo do que em uma ação inteiramente livre, no sentido estrito do termo livre-arbítrio.

E nem faz sentido para a maioria esmagadora dos pensadores contemporâneos da mente humana; filósofos da ciência, psicólogos, neurocientistas, a maioria ou não faz caso do conceito (simplesmente o desconsidera para todos os efeitos, como os biólogos cristãos, que deixam deus em casa na hora de ir para o trabalho), ou comentam sobre ele brevemente, o questionando ou desconsiderando casualmente. Mas nenhum pensador foi tão explícito quanto Sam Harris, que chegou a publicar um livreto de 100 páginas sobre o assunto, intitulado Free Will (Harris, 2012), que provocativamente ostenta na capa as palavras Free Will presas por cordas como marionetes. O livreto, numa linguagem acessível, sumariza bem a visão da maioria dos pensadores atuais, ao menos aqueles que se fundamentam em conceitos científicos rigorosos, sobre o assunto. Foi elogiado por alguns acadêmicos de renome, como o cientista cognitivo Paul Bloom e o famoso neurologista Oliver Sacks (autor de “O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu”), mas causou profunda revolta e indignação em Daniel Dennett, filósofo e neurocientista, como o próprio Sam Harris, e também como ele, um dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, como foram apelidados os quatro escritores proeminentes do movimento ateu dos anos 2000. E, apesar de serem amigos e nutrirem admiração mútua, sobre a questão do livre-arbítrio não fazem acordo algum, cada um é irredutível em sua postura.

Sam Harris insiste que livre-arbítrio não existe, é uma ilusão cognitiva, o que na tradição filosófica chama-se de posição incompatibilista (o livre-arbítrio não pode existir num universo determinista) e, portanto, nossos sentimentos de ódio, rancor, e desejo de retribuição, são irracionais. Enquanto que Dennett é um compatibilista (não acredita que livre-arbítrio seja incompatível com o universo determinista) e julga a filosofia de Harris não apenas equivocada, filosoficamente falando, mas perigosa, e acha irresponsável quem insiste em divulga-la.

Dennett escreveu uma longa e dura resenha sobre Free Will, e Harris escreveu um texto comentando sobre a resposta de Dennett. Os dois textos juntos são do mesmo tamanho ou maiores que o próprio livro. Se você não entende inglês, ou não tem tempo, ou não tem paciência para este tipo de coisa (eu admito, tem que ter os módulos do kernel corrompidos para se aprofundar tanto nestes assuntos), vou lhe poupar e dar meu parecer resumido (ok, nem tanto, ser sucinto não é meu forte):

A discussão de Dennett e Harris parece ser mais semântica do que ontológica. A briga é muito mais pelo significado de livre-arbítrio e pelo que as pessoas comuns entendem como livre-arbítrio. Os dois concordam quase totalmente quanto ao funcionamento do cérebro, nenhum dos dois está iludido por conceitos religiosos como alma, mas Dennett quer de toda forma resgatar e dar uma nova roupagem ao termo livre-arbítrio, ressignificando-o para que continue fazendo sentido mesmo mediante todas as descobertas da neurociência, descobertas que mostram que o processo de tomada de decisão é feito inconscientemente, e o sujeito apenas toma consciência instantes depois de tê-lo feito, o que já foi demonstrado em laboratório, com técnicas como ressonância magnética cerebral funcional, um scanner cerebral que monitora, em tempo real, a atividade metabólica do cérebro, e assim pode-se ver o processo de tomada de decisão do sujeito. Abrimos a caixa-preta do cérebro, e descobrimos que nela não habita nenhuma fantasminha apertando botões e puxando alavancas: O sistema nervoso é um sistema físico, prever o que ele fará é questão de aprimorar as tecnologias e o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro, e da mente. Mente nada mais é do que o que o cérebro faz.

Aliás, há muitas maneiras de prever as suas escolhas, com muita precisão, sem usar nenhum scanner cerebral ou equipamento do tipo, mas com outro tipo de tecnologia: Pesquise sobre datamining, e a forma como privacidade basicamente virou a moeda com que se paga os serviços aparentemente gratuitos de internet. Se o serviço é grátis, você é o produto. Empresas de varejo online sabem, pelos seus hábitos de navegação e compras passadas, que produtos mostrar para você na página inicial. Quanto mais se compra, mais certeira é a escolha do site. O Google talvez saiba mais sobre você do que você mesmo. Ele grava tudo, absolutamente tudo que você busca, todos os vídeos que você assiste no YouTube, varre o conteúdo dos seus emails do Gmail, de todos os arquivos que você grava no Google Drive, e cruza estes dados para traçar o seu perfil psicológico; o Google sabe o seu posicionamento político, a sua orientação sexual, onde você mora e que horas você acorda, quem você conhece… E assim sabe exatamente que tipo de produto você está disposto a comprar, e o anunciante sabe que você é o consumidor dele. Mesma coisa o Facebook, cada curtida ou carinha brava, cada palavra que você digita em sua linha do tempo ou dos seus amigos, é usada para apurar a precisão do seu “dossiê”, que o próprio Facebook usa para direcionar anúncios, e também vende para quem pagar mais, para empresas de nomes estranhos que você nem sabe que existe, como Acxion, Epsilon e Datalogix. Informação privada é o verdadeiro produto destas grandes empresas de tecnologia, um negócio que vale 156 bilhões de dólares anuais (Gooodman, 2016), valor que jamais se justificaria se as pessoas fossem tão imprevisíveis, ou tão livres, quanto pensam ser. Mas voltemos aos experimentos de laboratório, agora não tão assombrosos:

Este tipo de experimento é esclarecedor, mas no fundo, eu não vejo como poderia ser diferente a conclusão. Ainda que os cientistas não pudessem prever uma decisão humana com nenhum scanner cerebral, seja por uma limitação tecnológica ou pelo funcionamento do cérebro ser impossível de se determinar, isto só significaria que a causa da ação impossível de saber ou é aleatória, não livre. O padrão de disparo de neurônios, mesmo que fosse determinado por fenômenos subatômicos aleatórios (e não foi provado que eles interfiram em alguma coisa), ainda não significaria livre-arbítrio, apenas que as suas ações são determinadas em parte por fenômenos aleatórios, mas ainda são determinadas por fenômenos anteriores à consciência do sujeito, que ele experimenta passivamente. Li certa vez um depoimento, em uma reportagem de revista sobre assassinos, que matar é como bater o carro: Quando você se dá por si, já consumou o ato.

Não só todo fenômeno da consciência foi inteiramente determinado por algo inconsciente, como tudo no cérebro em algum momento foi determinado por um fenômeno fora dele: Sejam os seus genes, o modo como o seu cérebro se formou no útero de sua mãe, a sua criação, as sortes e azares que você teve na vida, como ter nascido rico ou pobre, ter calhado de conhecer bons contatos, ou cruzado no caminho de más-influências; toda ação é o resultado final de uma longa cadeia de fenômenos externos ao sujeito. Claro que há ações humanas que não sabemos explicar o motivo, não 100%, a ciência avança e somos capazes de prever mais, mesmo assim restam ações inexplicáveis, mas chega um momento que estamos defendendo o tal livre-arbítrio com a mesma estratégia fajuta com a qual os religiosos defendem o “deus das lacunas”, como se tudo que a ciência não sabe explicar fosse necessariamente ação divina (falácia do apelo à ignorância).

Eu mesmo já tratei do livre-arbítrio em outros posts, aqui e aqui.

As Consequências do Determinismo

Mas a maior diferença entre Daniel Dennett e Sam Harris está em suas predições sobre as consequências da não existência do livre-arbítrio, ou de ninguém mais acreditar nele. Em sua resenha de Free Will, Dennett prevê que o fim do livre-arbítrio significaria que não podemos mais atribuir responsabilidade às pessoas…. O que seria o caos. Basicamente toda a nossa civilização é baseada em termos de responsabilidades, em contratos, em podermos punir quem faz errado e recompensar quem faz certo (meritocracia). Como alguém poderia contratar um funcionário sem atribuir-lhe responsabilidade? Deixar um médico que não pode ser responsabilizado operar uma pessoa? Estes são só alguns exemplos, dentre outros infinitos.

Muitos, como Dennett, têm horror à ideia de que livre-arbítrio não existe, exatamente por temer este cenário apocalíptico em que todos estão perdoados de todos os pecados pois ninguém age livremente. Qualquer semelhança com o que prediziam alguns filósofos e escritores do século XIX sobre um mundo ateu (sem deus, tudo é permitido) não é mera coincidência.

Por exemplo, no final de um dos episódios da primeira temporada, Bojack, após muitos dias delirantes consumindo drogas com seus amigos, se vê acordando de um coma num estacionamento, ao lado de seu carro. Ele não vai preso, mas não seria justo que ele fosse, por consumir drogas ilícitas e ainda dirigir? Mesmo que ele não soubesse o que estava fazendo enquanto drogado, deveria saber que as drogas o tirariam de si. Dirigir bêbado ou drogado é como disparar uma arma em uma multidão, sem mirar ninguém em especial. Mas a escolha de usar drogas foi realmente livre, sem causa? Foi motivada por sua busca por inspiração para seu novo livro, e uma ausência de receio quanto a drogas, e ausência de preocupações com consequências no geral…. Poderia ele, se quisesse, desenvolver um senso moral que o impedissem de agir irresponsavelmente cada vez que tivesse o impulso? Mas não preciso continuar esta regressão ao infinito, nem analisar cada variável para ver se acho uma frestinha para o livre-arbítrio. Acho inútil continuar ponderando sobre livre-arbítrio ou “liberdade derradeira”, não se a preocupação for apenas responsabilidade legal e social, sendo que não é necessário livre-arbítrio para responsabilizar alguém.

Você pode trocar livre-arbítrio por liberdade, por exemplo [inserir sua piada favorita sobre cozinheira vegana louca adepta da cúrcuma]

Liberdade é um termo vago, mas não inútil. Para um taxista, estar livre significa apenas não estar com passageiro. No Brasil antes da lei áurea, significava apenas não ser escravo, não ter dono. Mas apesar de haver várias “liberdades”, alguns conceitos de liberdade são bem definidos. Liberdade como simples “fazer o que se tem vontade”, agir por pura volição, enquanto plenamente consciente, pode parecer um conceito tosco, mas não está errado, é suficiente para o conceito de consentimento, e é basicamente como diferenciamos um estupro de um ato sexual consentido, independente da vontade de transar ter tido causas biológicas ou sociológicas, de ter sido chancelado pelo fantasma na máquina ou o que for.

E temos liberdade civil. Agir livremente, pela lei (ao menos na lei de países anglófonos, como Inglaterra e EUA (Pinker, 2002), e não parece diferente no Brasil) não tem nada a ver com a hipótese que uma pessoa poderia ter agido de forma diferente, ainda que exatamente todas as circunstâncias fossem mantidas, o que exigiria que voltássemos no tempo para ver se acontece algo diferente. Para podermos considerar que você é livre, e, com justiça, puni-lo de acordo se estiver fazendo algo errado, você precisa:

– Ser mentalmente são. E sim, existem critérios objetivos para determinar sanidade mental, e nos casos extremos, que chegam ao tribunal, há pouca discordância significativa entre os especialistas.

– Não estar agindo sob forte e imediata coerção externa (por exemplo, sob a mira de um revólver, ou com algum familiar como refém, ou por ordem de uma autoridade).

– Ter conhecimento prévio das consequências de seu ato, e de que ele é passível de punição em sua sociedade.

E pronto, com isso tudo você pode justamente prender alguém, exigir multa por descumprimento de contrato, expulsar alguém de um cargo, independente das minúcias do funcionamento neuronal. A Justiça pode tratar a mente como uma caixa-preta sem deixar de ser justa. Por exemplo, Dilma não é louca, sabia que cometer fraude fiscal, vulga pedalada, é ilegal, e estava agindo movida apenas por interesse próprio sem nenhuma coerção externa (ninguém estava mantendo a família de Dilma refém enquanto exigia que ela desse “pedaladas”), fez o que fez porque calculou friamente que seria mais proveitoso realizar empréstimos ilegais e tentar disfarçar com contabilidade criativa depois. Não importa se ela poderia ou não ter agido diferente, dadas exatamente as mesmas circunstâncias. Talvez Dilma estivesse mesmo predestinada, desde o nascimento, a se tornar presidente do Brasil e depois sofrer impeachment, mas isto não faz o impeachment menos correto, tanto que mesmo seus defensores (o pessoal do “é golpe”) não a defenderam nestes termos. Assim como é correta a prisão de todos os corruptos, de diversos partidos, que tem acontecido aos montes com a Operação Lava Jato.

Criminosos precisam ser punidos de acordo com seu crime, e a punição de Dilma até que foi leve. Fraude contábil é o tipo de crime que leva pessoas à cadeia, e Dilma, após passar seis meses de férias pagas (não há nome mais adequado para este afastamento) apenas foi demitida, e nem perdeu os direitos políticos, como prescreve a lei para o caso de impeachment. Um pouco revoltante, não acha? Como nosso amigo Bojack, que não é condenado à prisão nunca, mesmo depois de roubar a letra D do letreiro de Hollywood, dirigir sob efeito de drogas, [SPOILER DO FINAL DA 3ª TEMPORADA, SELECIONE PARA LER] passar semanas se drogando, e cruzando o país de leste à oeste sob efeito de drogas, na companhia de Sarah Lynn, que ele mesmo convidou para a longa sessão de tóxicos, e convidou no dia que ela estava comemorando 9 meses de sobriedade, o que só acabou quando a moça morreu de overdose. Fica subentendido que foi Bojack quem transformou a meiga menina Sarah Lynn na hedonista sem escrúpulos e sem limites que ela acabou se tornando, e fez a transformação com amargas palavras sobre a realidade da vida artística, lição que ele ensinou enquanto dava baforadas de cigarro em sua cara no intervalo de gravação. Neste caso, deveríamos responsabilizá-la por seus atos inconsequentes? E o próprio Bojack, que sofreu com pais frios, distantes e negligentes (clássica desculpa freudiana)? Seria mais justo perdoá-lo?

Penalmente, com certeza, não, não seria certo perdoá-lo. A desculpa freudiana já foi usada incontáveis vezes no tribunal, foi usada até mesmo por Hillary Clinton para defender seu marido, no escândalo do caso com Mônica Lewinsky (Pinker, 2002). Leia um livro sobre serial killers, como os de Ilana Casoy (Casoy, 2014), e você verá o padrão: Quase todos têm infância traumática. Claro que o julgamento varia de caso a caso, e de uma jurisdição para outra, mas no geral, um juiz sensato não inocentaria alguém de um crime grave com base apenas em traumas de infância, a não ser que fosse provado que a pessoa ficou louca por este trauma, perdeu o contato com a realidade, e neste caso, o destino do réu não é a liberdade, mas o confinamento por tempo indeterminado em um manicômio judicial. A inexistência de livre-arbítrio não é argumento para impunidade. Na verdade, não é nem um argumento contra a pena de morte: Podemos executar um serial killer pelo menos motivo que sacrificamos um cão hidrófobo. Hidrofobia não tem cura. Nem psicopatia.

A Necessidade de punir

Criminosos à solta são perigosos para todos, reeducar nem sempre é possível, e impunidade é revoltante, e este último item, por si só, já é motivo para termos um sistema jurídico que puna criminosos com o rigor adequado. Prisão é a forma de punição que consegue ser eficiente, pois ninguém quer ser preso, mas não desumano, como outras formas de punição que envolvem torturas. E a maioria das vítimas sente que a justiça foi feita quando um criminoso é preso, quando a pena é longa. Acho Sam Harris excessivamente otimista e até utópico por sonhar com uma sociedade em que ninguém tem o “sentimento irracional” de querer retaliação, por entender que as pessoas não são completamente livres e fazem apenas exatamente a única coisa que poderiam fazer em seu universo. Rancor e desejo de vingança é um sentimento humano muito primitivo, e há um limite de quanto a razão pode influenciar na emoção. Uma condenação legal pode até ser interpretada como uma forma de “vingança burocrática”, mas isto não é ruim. Parece-me impossível exigir de todo mundo que perdoe quem lhe fez algum mal, seja passar um cheque sem fundo, seja matar a filha, como em um dos enredos da minissérie da Globo Justiça, ou plantar bombas em uma maratona.

Pouco nos importa se num futuro distante possa existir um humano que não sente indignação perante injustiças e “oferece a outra face”: No mundo do presente, o sentimento de indignação com impunidade existe, e sentimento generalizado de impunidade é algo extremamente pernicioso à sociedade: Deixa as pessoas mais cínicas, pessimistas e desacreditadas com o mundo, encoraja o vigilantismo, a justiça com as próprias mãos (um fenômeno perigoso, que pode regredir nossa civilização, nos levar de volta às cavernas) e faz com que aqueles que vivem uma vida honesta, sem infringir direitos dos outros, obedecendo às leis que concordam e que não concordam, se sintam injustiçados e até os leva a colocar em dúvida os próprios valores, se perguntarem se não são só bobos. Para que continuar jogando dentro das regras se os trapaceiros é que ganham o jogo? O brilhante filme Os Bons Companheiros começa com o personagem Henry Hill contando, em retrospectiva, como ele desde menino admirava os gângsteres de seu bairro, que eram muito mais ricos que seu pai trabalhador, faziam o que queriam a qualquer hora, como jogar baralho na rua a noite inteira e estacionar em local proibido, e ninguém nem ousava reclamar; quando começa a trabalhar estacionando carros para os mafiosos, ainda menino, passou a ganhar mais que a maioria dos adultos trabalhadores de seu bairro, e abandona a escola. É parecido com o que acontece com os meninos das favelas no Brasil.

Os defensores dos direitos humanos, ao menos os mais caricatos, asseclas de Foucault, erram parcialmente em dizer que o indivíduo é fruto (ou vítima) da sociedade. Grande parte do seu comportamento e sua personalidade é determinada no seu DNA e em outros fatores biológicos. Mas sim, a sociedade tem parte da “culpa”, e a criação dos pais também, apesar de certas correntes da pedagogia terem exagerado enormemente o papel dos pais, e também a culpa que se coloca neles pelo que os filhos se tornam.

O que eu responderia para um defensor ingênuo dos direitos humanos: A sociedade também incentiva o crime, tanto o comum quanto o de colarinho branco, quando deixa criminosos impunes. Pessoas deixam de cometer crime por medo da punição, isso é fato, criminosos presos servem de exemplo para quem está tramando matar o amante da esposa ou fazer contabilidade criativa com o balancete da firma. O seu ato de não cometer um crime por medo da lei é tão condicionado por fatores externos à consciência do ser quanto o de cometer um crime. Mas isto não importa, não na prática.

A sociedade em que se nasce pode fazer a diferença de alguém com o cérebro de um psicopata ser um criminoso sanguinário, como Zé Pequeno do filme Cidade de Deus (que é um personagem inegavelmente monstruoso, “natural born killer”, mesmo em comparação com outros bandidos da favela) ou apenas um “babaca dentro da lei”, como o neurocientista James Fallon, que descobriu, com o próprio trabalho estudando mentes de criminosos violentos, que ele mesmo tinha um cérebro e genoma típico de psicopata (Fallon, 2013), ou um “babaca não exatamente dentro da lei” como Bojack Horseman, que não é psicopata, é legitimamente deprimido e tem sentimentos que frequentemente são feridos, mas possui um comportamento deplorável e toma atitudes irresponsáveis que frequentemente causam danos, a ele mesmo e a todos. Mas então, fora da questão legal, temos o direito – ou o dever – de queimar Bojack na fogueira? Ainda que metaforicamente, fazendo-o sentir-se mal por ser o que é, esfregar em sua cara de cavalo que ele é a escória da humanidade?

Eu não tenho culpa de ser o que sou

Em determinado momento da série, Bojack grita a plenos pulmões “não é culpa minha, sou fruto da sociedade! ” Ou coisa que o valha. Eu sei, velha desculpa dos direitos humanos. Mas não tem uma ponta de verdade? Tudo que aconteceu com Bojack em sua vida, seus genes que o predispuseram a certos comportamentos e traços de personalidade narcisista, os pais frios e distantes, o meio artístico em que ele se encontrou, que valoriza a egolatria, a superficialidade, e a vida hedonista e sem valores…. Tudo isto formou o Bojack, meio cavalo, meio humano, que conhecemos nesta série genial do Netflix. Sua ação de pegar o manche do helicóptero para roubar a letra D do letreiro de Hollywood foi precedida por todos estes fatores, que derradeiramente a causaram.

Mas é um babaca mesmo assim. Os amigos não têm razão de se indignar com ele? Parece ser justo julgar alguém por uma personalidade ruim, ou quando age com malícia ou indiferença e eu mesmo o faço certas vezes. É verdade que, apesar de não ir para a prisão, Bojack se ferra muitas vezes, à lá Dick Vigarista, como quando sua tentativa de roubar o D no leiteiro de Hollywood para incriminar Mr. Peanutbutter não só não funciona, mas aproxima Mr. Peanutbutter mais ainda de sua amada Diane, por quem Bojack tinha uma queda (um triângulo amoroso que é parte importante da trama da primeira temporada). Ou quando [SPOILER dos episódios 11 e 12 da segunda temporada, selecione para ler] sua tentativa ir ao Novo México para reencontrar seu amor platônico dos tempos de Horsing Around, a veada Charlotte – que mal lembrava da existência dele – acaba mal: Ele descobre que a moça já é casada e tem dois filhos, ele passa meses na cidade como um amigo da família, morando num barco no quintal, mas tudo acaba com o cavalo sendo flagrado por Charlotte tentando transar com a filha de 17 anos dela, e é expulso da cidade. Charlotte, então um amor platônico, uma memória que guardava com ternura, apesar de sempre distante, passou a odiá-lo e jurou mandar prendê-lo caso se aproximasse mais uma vez de sua casa. Talvez fosse melhor nem ter ido ao Novo México e ter mantido a boa memória. Coitado. Coitado?

Pessoas como ele são dignas de pena? Ou devemos apenas pisoteá-los, independente de não terem escolhido ser o que são, e, em última instância, todo os seus atos, inclusive os falhos, terem sido causados por eventos passados dos quais ele nem foi consciente? Claro, você pode pensar, às vezes uma sacudida de um amigo furioso, ou de um crítico severo, faz alguém melhorar, amargas lições também amadurecem. E às vezes uma crítica pública severa sobre uma pessoa pode não fazer bem a ela, mas prevenir as demais, como quando alertamos sobre o passado de um político corrupto aos seus eleitores, ou quando confidenciamos a um amigo que a mulher pela qual ele está perdidamente apaixonado não vale nada (ou quando uma mulher diz à amiga “aquele cara é um canalha”).

Mesmo assim, acho que, muitas vezes, quando repreendemos alguém – como com um elaborado discurso de “como você é a escória da humanidade” – estamos apenas satisfazendo nosso desejo de vingança, pois deixar o outro mal é causar-lhe dor, mas dentro da lei e do que é socialmente aceitável, e suspeito que a grande maioria dos pais que batem nos filhos e depois justificam dizendo que isto é para educação deles, no fundo, só estão fazendo o que morrem de vontade de fazer com qualquer desafeto: Dar-lhe uma porrada como vingança. Quando dizemos que um mendigo fumando crack na rua merece aquela vida porque “ele escolheu fumar”, rimos e dizemos “bem feito” para os atrasados do Enem, estamos sendo duramente justos, ou apenas sendo sádicos com desculpas para nosso sadismo? Que bem estamos causando com estes julgamentos, verdadeiros linchamentos públicos? Não, eu não estou dizendo que não os faço, mas que talvez não deveria fazer.

E que sentido faz continuar dando bofetadas em alguém – metafóricas ou não – quando já está claro que este alguém não vai mudar com isso, e você também não está protegendo ninguém com as represálias? Bojack é repreendido várias vezes por seus amigos e conhecidos, leva muita bronca por suas mancadas, mas nada disso adianta, pois ele continua fazendo as mesmas merdas. As broncas só causam sofrimento, fazem-no mais infeliz, mas ninguém se beneficia com isso. Acho que o maior erro do pessoal dos direitos humanos não é nem achar que o indivíduo age apenas por condicionamento social, mas achar que todo caso é recuperável com reeducação. E então, queimamos o infeliz? Toleramos seu jeito de ser? Ou apenas nos afastamos, por segurança? Não me parece excessivo se afastar de alguém venenoso, que você sabe que não vai mudar, acho dentro do racional, até elegante, é se proteger sem ser vingativo, mas também sem se denegrir perante o outro que não lhe respeita. Eu sei que você não é livre, no sentido derradeiro, para mudar a sua atitude, mesmo que ache válido o meu posicionamento. Toda mudança depende das informações que alguém recebe, e de como sua mente as processa inconscientemente, mas eu estou esperançoso de que, talvez, estas palavras sejam de alguma contribuição para você mudar para melhor.

É natural, muito humano, sentir raiva quando alguém te faz mal, e não tem como não sentir raiva, mesmo que você se convença com Sam Harris de que é irracional. Assim como alguém com fobia de avião não pode simplesmente “decretar” para si mesmo que este medo é irracional e aboli-lo. Há um limite do tanto que a razão pode mandar na emoção. Acho que perceber que livre-arbítrio é uma ilusão, no máximo, torna mais fácil perdoar, depois de muito tempo dos ocorridos, torna mais fácil aceitar um perdão sincero depois que tudo se passou. Eu não acho que livre-arbítrio seja um conceito necessário para nenhum valor humano que prezamos muito, na verdade, acho que a compreensão mais aguçada e realista da mente humana, pelo menos para mim, apenas aumentou o valor que dou à ternura, à sinceridade e à tolerância.


Referências:

Obras Citadas

Casoy, I. (2014). Serial Killer: Louco ou Cruel? Darkside Books .

Fallon, J. (2013). The Psycopath Inside: A Neuroscientist’s Personal Journey into the Dark Side of the Brain .

Gooodman, M. (2016). Future Crimes: Inside the Digital Underground and the Battle for Our Connected World .

Harris, S. (2012). Free Will.

Pinker, S. A. (2002). Tábula Rasa. Companhia das Letras.

Links:

https://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/12/25/um-caso-contra-o-livre-arbtrio/

https://www.samharris.org/blog/item/reflections-on-free-will

https://www.samharris.org/blog/item/the-marionettes-lament

 Vídeos (todos legendados em português)

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