ética, filosofia, Política

“Democracia só é boa quando eu ganho”

Eu sei que esse tipo de pensamento é execrável, e vemos várias demonstrações de pessoas que parecem ser movidas por ele, de todos os lados do espectro político, seja quando a Dilma ganhou, ou quando a Dilma sofreu impeachment (100% dentro da lei, mas como a presidente cassada era de esquerda, chamaram de golpe) e agora com a vitória do Trump, com demonstrações não exatamente pacíficas dos eleitores democratas, para deixar bem claro que esta ideia de que os EUA têm um partido “do bem” e outro “do mal” é bem idiota. Sonserina e Grifinória só existe no mundo do Harry Potter.

Mas afinal, quem gosta de verdade  da democracia? No fundo, ninguém que tenha fortes convicções políticas “extremistas” gosta de democracia. Pessoas mais moderadas ou apolíticas em geral são sinceramente a favor da democracia. Mas se você acha, por exemplo, que toda política que não for de esquerda só serve para tornar o povo mais explorado pelas elites gananciosas, então, para você, uma vitória da direita é simplesmente um passo na direção errada. Para ser democrático, você tem sempre que admitir a chance de estar errado e o seu oponente poder ser melhor, ou pelo menos que a democracia em si é mais importante que o seu ideal político.

Quando se lê um texto como este do site do libertário Lew Rockwell defendendo que a democracia é a pior forma de governo de todas, ou o livro de outro libertário, Hans Herman Hoppe, entitulado Democracia: O Deus Que Falhou pode pensar que a ideia é elitista, tirânica, só poderia ter saído da cabeça de um porra louca de um anacap. Mas leia bem. No fundo, todo extremista pensa a mesma coisa: Democracia é uma perda de tempo, é ceder espaço para um lado que está errado, e permitir que ele torne a sociedade pior, o povo é burro demais para saber o que é bom para si, e a alternância de poder incentiva governantes a visarem progressos apenas temporários.

E o que penso?

Primeiro, quero deixar claro que nem toda ideia “extremista”, ou considerada extremista, é ruim, muitas vezes, tomar uma atitude moderada é que é errado.

Mas eu não me considero libertário. Sou mais a opinião de Winston Churchill do que de Lew Rockwell. Falando de Brasil, eu não faço ideia do que seria melhor para o Brasil no momento além de manter a democracia, por mais que, pelo visto, esta forma de governo só funcione relativamente bem em países com um nível de educação muito bom (e os EUA já estão dando sinais de que não pertencem a este rol de países). Mas o que seria melhor para o Brasil? Devolver o poder aos descendentes de Dom Pedro II? Derrubar o Estado, como querem os libertários mais radicais, assim o síndico do seu condomínio e o seu chefe terão poderes de príncipe absolutistas enquanto em suas propriedades? Nesta república das bananas, parece que estabilidade política é a melhor opção, por agora, nenhum de nosso radicalismos tem cara de que levará a um bom futuro.

Quanto ao resto do mundo, não sei. Cada caso é um caso. Mas, ao contrário do que apregoam os pós-modernistas com seu relativismo imbecil, da mesma forma que alguns países são mais ricos em PIB do que outros, os países também não são iguais em outras riquezas, alguns são sim superiores moralmente e intelectualmente do que outros, e provavelmente alguns países estariam melhor enquanto governados com interferência externa, uma espécie de tutela, para que não se arruínem. Os EUA, após invadirem o Iraque e deporem seu ditador, praticamente abandonaram o país com sua democracia, seus governantes eleitos em governos provisórios, e olhe no que deu. O Oriente Médio é uma coisa horrenda, a região mais atrasada do planeta, verdadeira amostra de Idade Média em século XXI. Seguro dizer que, nestes países, qualquer “democracia” foi apenas uma alternância de ditadores. Deixe eles escolherem tudo na base do voto popular, e eles votam pela lei da sharia. Um monarca esclarecido seria melhor. Só não me perguntem onde achar um.

Veja o que aconteceu em vários países da África do século XX, que até mais ou menos a década de 60 eram colônias de países europeus. Estas autoridades coloniais, por mais exploradores que fossem, ao menos sabiam administrar um país decentemente. São expulsos com revoluções como em Angola e Moçambique, e entram governos horrorosos estabelecidas por milícias locais, capengas, alguns mais “democráticos” que outros, mas todos acabaram sendo países com mais baixos índices de desenvolvimento humano do mundo atual, e em muitos deles, como nos dois que citei, as guerras nem acabaram após a independência. Democracia não é uma pílula mágica que traz justiça e felicidade para todos, como parecem querer dizer naquelas propagandas do governo em época de eleição.

Sou relativamente bem informado no assunto, mas não sou especialista em geopolítica, e não tenho solução definitiva para resolver estes problemas (aliás, quem tem?), mas acredito que quanto mais cedo nos desprendermos dos delírios relativistas do pós-modernismo, quanto mais cedo pararmos de fingir que todos os povos igualmente capazes de ficar bem se governando democraticamente, melhor.

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