geek, Internet, Segurança e Privacidade

Por que os geeks são tão “paranoicos”?

paranoia

Um título mais correto para o post seria “por que as pessoas pensam que os geeks são paranoicos”?

Eu mesmo às vezes brinco com o termo, como na descrição do blog, então vamos deixar claro que, para a medicina e psicologia, paranoia – um sintoma comum da esquizofrenia, transtorno de personalidade paranoide, e também do uso crônico de drogas como a cocaína – é uma ansiedade ou medo frequente, de algo que não é real. Achar que os seus pensamentos estão sendo monitorados por uma sonda implantada em seu cérebro por marcianos é um delírio paranoico. Achar que é extremamente fácil sofrer um ataque virtual por um cracker, não.

As pessoas acham que a segurança de um computador, um celular ou uma conta em email ou rede social é uma coisa simples, como a segurança de uma casa, mas não é. Na verdade, o motivo pelo qual muitos geeks como eu são tão preocupados com segurança (e privacidade é uma faceta da segurança) é porque sabemos como é relativamente fácil, barato e seguro atacar um dispositivo ou conta de alguém, se comparado a um ataque físico, que precisa de alguma recompensa muito boa para compensar.

Pense, por exemplo, numa fechadura de porta. Apesar de arrombar fechaduras – famigerado lockpick – não ser tão fácil de fazer quanto nos games, não é uma habilidade tão difícil que não se consiga com um pouco de prática, e o conhecimento para isso é trivialmente fácil para conseguir, até mesmo por vias legais, num curso técnico de chaveiro, por exemplo. Seria uma segurança patética, praticamente um placebo, não fosse o fato de que invadir uma casa é arriscado e custoso.

Pular o muro ou arrombar a porta de uma casa requer, no mínimo, que o invasor se mova até a casa, o que implica um custo, ninguém iria viajar para outro país simplesmente para roubar uma casa (que não fosse de um magnata). Como o invasor não é invisível, ele pode ser avistado por um vizinho ou vigia, que pode chamar a polícia, o invasor também pode ser abocanhado por um cão de guarda, se cortar com cacos de vidro sobre o muro, se tentar pulá-lo, ou mesmo ser rendido ou baleado pelo morador, caso ele tenha uma arma. Sem falar que muita gente tem câmeras de segurança e alarme em casa, em condomínios é praticamente regra. As ameaças à integridade física e liberdade do invasor são grandes, por isso as trancas de porta ainda fazem sentido, elas simplesmente não deixam que invadir uma casa seja fácil demais.

Mas e se o invasor, como no conto do anel de Gyges, pudesse ser invisível? E mais, e se ele pudesse invadir várias casas ao mesmo tempo, sem custo nenhum nem para se locomover até elas? Entra a era da informação, e é basicamente isso que temos.

Educar-se sobre informática até ser capaz de fazer um ataque virtual lucrativo é muito mais difícil que aprender a arrombar uma fechadura, mas muito mais seguro e barato para o invasor, uma vez que ele aprenda. Quanto custa mandar um email? Pense em quantas pessoas não caem ainda hoje em golpes de phishing, nos quais um cracker dissemina milhões de emails falsos de banco pedindo para clientes entrarem com a senha. É muito difícil rastrear a origem do ataque do que em um ataque físico que deixa vários tipos de evidências, difíceis de evitar, e se meia dúzia de pessoas caírem, já valeu a pena para o ladrão, e sempre tem meia dúzia que cai.

Que dizer de roubar dados pessoais? O escândalo de Watergate for desencadeado porque acharam um pedaço de fita adesiva suspeito no escritório do partido democrata no qual foram instaladas as escutas ilegais. Fosse o ataque com um spyware, ou um rootkit, possivelmente jamais teriam descoberto, ou mesmo teriam descoberto mas jamais poderiam apontar o culpado. Aquela história de que o vazamento dos emails de Hillary foi feito por hackers russos? Mera acusação, prova que é bom, nada. Estamos falando de invasores invisíveis, e com habilidade de se mover pelo mundo em uma fração de segundos.

O repórter da revista Wired Mat Honan sentiu na pele o quão trivial é atacar alguém virtualmente quando um cracker roubou sua conta do Twitter (@mat) e apagou todos os dados de todos os seus dispositivos, inclusive as fotos de sua filha pequena, que ele não tinha salvas em nenhum outro lugar. O motivo: O cracker achou o handle @mat bonitinho e o quis para si. Uma vez que o sujeito conseguiu a senha da Amazon (que Mat achava ser uma senha difícil), foi um pulo ligar para o suporte técnico da Apple e conseguir acesso à conta da Apple de Mat, e com isso chegou ao seu Twitter, e apagou os dispositivos com o recurso anti-furto dos Macs e iPhones. A deleção dos dados foi “brinde”. Alguém realmente arriscaria ser ferido, morto ou preso por um motivo tão bobo?

Então, por favor, não ria da cara do seu amigo geek quando ele disser que você deveria ativar verificação em duas etapas.

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