filosofia, Resenha

Chuck

chuck

[Aviso: Contém SPOILERS da primeira temporada de Better Call Saul]

Chuck era um advogado brilhante, e um executivo genial, um dos fundadores da empresa de advocacia HHM, uma das mais proeminentes de Albuquerque – Novo México.  Mas, fugindo do estereótipo, não é um cara desonesto, nada cretino, mas sim bastante trabalhador, tendo se empenhado a vida toda em ser bem-sucedido do lado “do bem”. Quase um posterboy do “american dream”. Ao contrário de seu irmão, o incorrigível malandro James McGill, que no futuro passaria a ser o advogado do químico Walter White, mas na cronologia de Better Call Saul ainda era um verdadeiro coitado, praticamente um Dick Vigarista que sempre acaba mal apesar (ou por causa) de suas safadezas, sempre à sombra do irmão de caráter exemplar.

Mas Chuck tinha um probleminha: Anos atrás, por circunstâncias não muito bem elucidadas, havia desenvolvido uma severa intolerância por hipersensibilidade à radiação eletromagnética. A condição o obrigara a viver isolado em sua casa sendo ajudado pelo irmão malandro, sem absolutamente nada elétrico, nem mesmo lâmpadas, janelas com cortinas entreabertas e olhe lá.

Em meados da primeira temporada, no entanto, sendo internado no hospital, a astuta médica, após ser informada da condição – e tendo tolerado temporariamente que os todos equipamentos elétricos do quarto fossem desligados – discretamente ligou o computador embarcado da cama em que Chuck estava deitado. Sem que ele percebesse. Experimentos em casos de hipersensibilidade à radiação eletromagnética na vida real também demonstraram a mesma coisa, que os pacientes são incapazes de perceber energia eletromagnética se as fontes forem escondidas. Apenas uma condição psicosomática.

Mas não contam para ele. E essa é a parte que e provocou mais, passei a assistir cada episódio, cada novo evento da trama, esperando o momento em que alguém acharia não apenas pertinente, mas irresistível, dizer ao Chuck que a intolerância existia apenas em sua mente. Mas não dizem.. Por quê? No hospital, ficam preocupados com a possibilidade dele acabar em uma ala psiquiátrica, o que ele só iria à força, e seria o fim de sua já quase morta carreira profissional. Mas chegam tantos momentos em que seria plausível contarem a verdade… Mas nunca contam. Eu estava curioso para saber o que aconteceria se dissessem, isto em parte pela minha grande curiosidade a respeito do funcionamento da mente humana. O que aconteceria? Ele pararia de se incomodar? Instalaria lâmpadas na casa, aqueceria seu almoço no micro-ondas e carregaria um celular no bolso como todo mundo? O conhecimento intelectual tem poder de mudar radicalmente o emocional?

Possivelmente não. Possivelmente, pelo que já estudei, acreditaria de forma ainda mais arraigada em sua condição, acharia que os outros conspiram contra ele e elaboraria uma teoria mirabolante para explicar o que aconteceu quando a médica ligou o computador da cama… Talvez por isto os outros não contem. Eles têm medo de como ele vai agir quando souber a verdade. Eles até continuam obedecendo aos rituais, de tirar os celulares e demais aparelhos eletrônicos antes de entrar em sua casa, mesmo depois da médica ter provado que o mal se tratava apenas de efeito nocebo. A verdade?  Platão a superestimou. A verdade não, é melhor até esquecermos dela, antes que comecemos a nos sentir tentados a entregá-la, por compaixão, vamos manter a ilusão, os pós-modernistas tem razão, verdade é mero constructo social, então, por que vamos insistir na verdade quando ela não é mais socialmente conveniente? Inclusive ouço muito coisas neste sentido em respeito à religião, mais precisamente, em respeito à pessoas que acreditam em maluquices, até mesmo que lhes custam tempo e dinheiro, e impõe todo tipo de restrição (como ter que fazer o Enem só após ficar horas em silêncio numa sala com outros iludidos), “ah, mas se ele tá bem assim…”.  Eu acho muito triste esta moda da relativização da verdade, que se tornou forte com a corrupção do pensamento ocidental pelo pós-modernismo. Ser condescendente com a ilusão de alguém, julgar que ele não pode ser feliz de outra forma, é basicamente reduzi-lo a um louco.

Mas e se você fosse louco, os seus amigos avisariam? Avisariam talvez apenas após muita deliberação, e ainda assim muitos seriam contra? Acredito nesta segunda hipótese, e isto só se forem muito seus amigos, e ainda assim só em algumas circunstâncias um tanto quanto extremas. Esconder a verdade é ainda mais provável com não-amigos, que apenas não querem que você encha o saco, e falam o que for preciso para tal. Isto se não se divertirem maldosamente às suas custas. Você só fala abobrinha no escritório, mas todo mundo ouve e finge que entendeu. Não é um pensamento terrível, que todo mundo te trata feito um louco porque, como já virou chavão, “o médico mandou não contrariar”?

Como toda pessoa não-psicopata admitiria, eu às vezes (tá bom, várias vezes) tenho problemas de autoestima, duvido de mim mesmo. Às vezes me pego pensando se eu não estou na mesma situação de Chuck, meus amigos velando o fato de que o que eu falo e escrevo são totais desvarios, que o maior sucesso que eu posso ter é o meu blog acabar na tese de mestrado de algum psiquiatra ou neurologista, como exemplo do que sai quando alguém em estado psicótico delirante acredita estar produzindo algo digno de apreciação intelectual.

Será?

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