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Use Criptografia

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E, se necessário, use também estenografia e negação plausível.

Proteger as suas informações pessoais é a melhor proteção que você possui contra o abuso do poder da autoridade. Criptografia é mais importante que armas, porque é uma defesa efetiva, contra um ataque frequente. Na maioria das nações democráticas, o Estado raramente usa força letal contra os cidadãos, e quando usa, há grande comoção popular, e o governo pode sofrer punições por isso. Mas caso use, o tipo de armas ao qual o cidadão comum possui acesso não é nada perto do que o Estado possui. O que é um revólver .38 perto do arsenal militar do Estado? Armas são, no máximo, uma proteção para agentes individuais do Estado agindo de maneira corrupta por conta própria. Mas violar a privacidade da informações é algo que as autoridades fazem o tempo todo sem muita represália. A boa notícia é que usar sistemas de criptografia fortes para as suas comunicações e armazenar dados pessoais, no entanto, é uma proteção realmente eficiente, páreo para o que o Estado possui para usar contra você. Criptografia funciona. É preciso, urgentemente, vencer o pensamento fatalista de que privacidade não existe mais. Podemos tanto estar vivendo na era do fim da privacidade como na era da privacidade.

Mas não se engane, a iniciativa privada também pode e vai quebrar a sua privacidade para prejudicá-lo. Especialmente se você tiver um cargo de base, pouco valorizado: Um post errado no Facebook pode custar o seu emprego. Pense bem, se o seu chefe soubesse de tudo que você faz fora do escritório, provavelmente você já estaria sem emprego.
Também usam dos seus dados para traçar o seu perfil psicológico e empurrar propagandas para tentar fazê-lo comprar por impulso. A simples instalação de uma extensão de navegador como o Privacy Badger ou o AdBlock Plus pode barrar esta invasão, e você também pode usar um mecanismo de busca privado ao invés do Google, como o Duck Duck Go e StartPage.

Hoje em dia, criptografia é grátis e é fácil de usar. Apenas baixando um aplicativo como os  rivais Telegram e Signal, você terá uma via de conexão protegida para conversar com seus contatos pela internet com a mesma privacidade que teria em uma praia deserta ou em sua casa. E para proteger seus próprios dados, pode até mesmo usar ferramentas que já vem embutidas nos sistemas operacionais modernos, como o BitLocker da Microsoft e o FileVault da Apple. Também pode optar por uma solução robusta gratuita  como o TrueCrypt e VeraCrypt. Até mesmo a criptografia padrão do WinRAR , WinZip e 7Zip (famoso RAR com chave) são bem decentes, contanto que você escolha uma senha boa.

É importante que todos usem criptografia, não apenas aqueles que pensam possuir algo à esconder. Na verdade, todos possuem algo a esconder. Há vários motivos práticos para usar criptografia, como a proteção dos dados caso seu dispositivo seja roubado ou confiscado, e evitar que alguém se apodere da sua senha de internet banking para roubar seu dinheiro. Mas não é apenas isto.

Eu não quero viver num mundo em que o Estado e grandes organizações tenham acesso à tudo que as pessoas fazem, tudo que elas conversam, o que elas pensam, ou seja, em que apenas clicando num botão é possível ter um perfil completo de uma pessoa, com afiliações e preferências pessoais. Isto seria um mundo acovardado, um mundo sem liberdade. Já foi provado e demonstrado que as pessoas agem de forma muito menos espontânea e mais controlada quando pensam estar sendo observadas. Elas experimentam menos, fazem tudo da forma que acreditam ser a esperada, evitam tentar o novo e o diferente. O conceito de Panopticon, elaborado pelo filósofo Jeremy Bentham é exatamente isto.

Numa sociedade realmente livre, é importante, inclusive, que as pessoas possam quebrar a lei. Liberdade de expressão e pensamento não bastam, pois certas coisas não podemos saber como são sem experimentar. Imagine se quando a maconha foi proibida, na primeira metade do século XX, todos tivessem parado de usar e plantar maconha. Jamais teríamos descoberto suas propriedades medicinais benéficas, pois já seria uma espécie extinta. Em muitos países do mundo, ainda é proibido ter relações sexuais homossexuais. Deveriam os gays obedientemente esperar pela permissão do Estado para fazer sexo? Muitas inovações e descobertas não teriam acontecido se o Estado fosse onisciente e possuísse o poder de saber infalivelmente quando algum cidadão quebra a lei.

Aliás, o que faz você pensar que é tão puro? O código legal, o do Brasil e de outros países, é enorme, prolixo, confuso, prevê punições até para coisas triviais no dia-a-dia, como baixar músicas, e vender alguma coisa sem nota fiscal. Se eles soubessem tudo o que você faz, poderiam te prender pelo que quisessem, a qualquer momento, mesmo que você se considere “cidadão de bem”.

Se as pessoas usam criptografia apenas quando acreditam estar trocando informação muito sigilosa, isto é um problema: Se uma pessoa for pega usando criptografia, já se saberá que é algo sigiloso. As pessoas que mais precisam usá-la (dissidentes políticos, delatores, jornalistas) ficam marcadas quando usam. Por isto é errado a maneira como Telegram e Allo empregam criptografia ponto-a-ponto, como algo opcional, para ser ligado apenas quando necessário. É sempre necessário. No caso do Telegram, pelo menos, o chat normal também usa criptografia, mas do tipo cliente-servidor, e as mensagens ficam criptografadas no servidor também, com chaves guardadas em servidores separados, em países diferentes.

Em alguns países mais autoritários, como Reino Unido, um juiz pode obrigar uma pessoa a fornecer as chaves para decapitar um arquivo. Aí entra a necessidade de técnicas de estenografia (para ocultar a existência, não apenas o significado, da mensagem) e negação plausível, para que um mesmo arquivo criptografado, se usado com duas chaves diferentes, possa resultar em duas mensagens diferentes. Mas isto já é muito avançado. Para a maioria das pessoas, criptografia já basta. Uma dica: Ao invés de não usar o Telegram porque ninguém usa, quebre o ciclo vicioso, instale no celular e diga para os seus amigos fazerem o mesmo. Não é preciso escolher entre ele e o WhatsApp, afinal, ele ocupa muito pouco espaço na memória do celular. Para ligações de voz e vídeo, esqueça o Skype, procure o Wire, e, se for apenas voz, o Signal (antigo RedPhone).

Moxxie Marlinspike, da empresa Open Whisper System, que fez o aplicativo Signal, cujo protocolo criptográfico é usado no WhatsApp, é rival de Pavel Durov, do Telegram. Um acusa o aplicativo do outro de ser falho. Mas nós só temos a ganhar com esta rivalidade.

https://moxie.org/blog/we-should-all-have-something-to-hide/

http://blog.sidstamm.com/2012/12/what-is-privacy.html

https://www.gnu.org/philosophy/surveillance-vs-democracy.html (disponível em português)

https://telegram.blog.br/use/ (em português)

https://www.washingtonpost.com/investigations/us-intelligence-mining-data-from-nine-us-internet-companies-in-broad-secret-program/2013/06/06/3a0c0da8-cebf-11e2-8845-d970ccb04497_story.html

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