ética, filosofia, Política, sociedade

Sífilis Engarrafada

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O capitalismo
tem problemas? Mas é lógico que tem! É excesso de mau-caratismo, ou no mínimo
autoengano, dizer que o capitalismo – ou qualquer sistema econômico já
inventado – é perfeito e tudo que precisa para a sociedade ficar perfeita é
deixá-lo reinar absoluto.

Eu tenho uma
seríssima desconfiança com vários tipos de pessoas (não sei se é maturidade ou
apenas amargura) e o tipo do qual eu mais desconfio, mais ainda do que os
misantropos de pelúcia, é daqueles “worklovers” hiper-produtivos que dizem amar
acordar segunda de manhã para trabalhar, dizem regozijar-se com o som do
despertador, e gastar cada segundo de seu tempo sendo produtivos e eficientes,
parecem posterboys dos livros de autoajuda para executivos, assim são figuras
bizarras como Bel Pesce (que me faz lembrar Hermione do Harry Potter 3 com seu
“vira-tempo”) e Kim Kataguiri. Sério, eles nem parecem humanos.

Na verdade, às
vezes me parece que o mundo do livre-mercado é uma espécie de jogo no qual é
preciso trapacear para sair ganhando. O melhor cenário: Você nascer rico. O
segundo melhor cenário é você encontrar uma profissão da qual você realmente
goste, e assim cada segundo do seu dia é extremamente gratificante, e você não
vai passar o dia fazendo algo cansativo e inútil. Supondo que isso realmente
exista e não seja uma ficção que as pessoas mantém para se sentir melhores.

Para a maioria
de nós, o jogo é todo uma roubada em que você vai trabalhar (sempre mais de) 8
horas por dia e (sempre mais de) 5 dias por semana para ganhar pouco dinheiro
que você não vai ter tempo de gastar. É, esse é truque, se você quiser ganhar
muito dinheiro, o que também depende consideravelmente de sorte, não vai ter
tempo de gastar esse dinheiro, a não ser quando já estiver velho e cansado. O
mundo de hoje nos oferece uma quantidade imensa de entretenimento como séries
de TV e games, mas para poder pagar por tudo isso, você precisa trabalhar
muito, e no seu tempo livre, estudar para que o bicho papão do “ponto de
conforto” não pegue você. Para ter tempo de diversão, você precisa tirar horas
de sono necessárias e acordar feito um zumbi.

Na verdade, eu
me convenci tanto de que esse arranjo é uma roubada que decidi não ter filhos,
mesmo que surja a oportunidade. Para que colocar alguém no mundo para essa
rotina estúpida? Não seria melhor não existir? Possivelmente Schopenhauer está
certo, e a vida é um episódio não lucrativo.

Então o comunismo/socialismo
é melhor? Não porra!!!!
[momento Alborguetti]

Precisamos
parar com o velho hábito de achar que, diante de um problema, qualquer solução
serve, e o comunismo é literalmente uma das piores ideias que uma pessoa já
teve.

Na época que
foi lançado o game Postal 2, um crítico disse “este foi o pior produto já
lançado, até que alguém resolva engarrafar sífilis e vender no mercado”, frase
que a politicamente incorreta desenvolvedora Running With Scissors até mesmo
imprimiu na caixa do jogo em edições posteriores. Mas comunismo é pior que a
sífilis engarrafada, porque essa, pelo menos, as pessoas saberiam logo de cara
que se trata de algo ruim e não iriam querer comprar, enquanto comunismo vende
muito, muito fácil.

Destruir a
livre iniciativa e deixar que um órgão central, o Estado, regule tudo, decida
as necessidades de todos e o tanto que cada um merece, e esperar que as pessoas
se desfaçam de seus desejos e aspirações pessoais para se matarem de trabalhar
pelo bem da sociedade é uma ideia realmente estúpida. Os comunistas realmente
se consideram seres superiores, incorruptíveis, mas toda sociedade comunista
afogou-se em corrupção interminável, e, como qualquer dogma, o seu é imune à
evidências que apontem que ele esteja errado. Dizer que um regime que falhou em
não matar dezenas de milhões de seus próprios cidadãos é uma espécie de erro
gramatical. Sério, o emprego da palavra falhar está errado. Você pode falhar em
passar no vestibular, falhar em chegar a um compromisso no horário certo,
falhar em fazer uma empresa dar lucro… Você não “falha”em não assassinar
brutalmente, ou matar de fome, dezenas de milhões de pessoas, é um nível
diferente.

Não importa
quantos países fracassem com a experiência vermelha, danem-se as pilhas de
corpos que se acumularam nas valas comuns, eles sempre vão usar aquela falácia
suja (existe de outro tipo?) do falso escocês: Baseado em algumas diferenças
cosméticas, vão papaguear a ladainha de “este não era comunismo de
verdade”. Cuba não era comunismo de verdade, Coreia do Norte não era comunismo
de verdade… Isto é o mesmo que dizer que o Ubuntu não é Linux de verdade ou o
Mac não é Unix de verdade. É sim. Chama-se desonestidade intelectual
quando a sua ideia é posta à prova várias vezes, falha em todas, e você
cinicamente diz que essas não valeram. Ah, e por favor, não adianta mudar de
nome: Na prática, socialismo e comunismo é a mesma bosta.

Desculpe se
estou boca-suja demais, mas não ter como ser enfático demais para apontar a
desonestidade intelectual da esquerda.

Os socialistas,
a propósito, jamais foram sinceramente contra as diferenças de classe. Em quase
toda sociedade existiu uma classe dominante que sempre está bem, vivendo um
padrão de vida surrealmente superior ao de toda a população, e no comunismo não
foi exceção, apenas veja quão bem vivem os Kim na Coréia do Norte, e os Castro
em Cuba. Aliás, regime mais parecido com a velha monarquia, impossível. Na
verdade, nos países comunistas (ou socialistas… chame de Suzi se quiser, não
faz diferença) as diferenças de classe são extremamente cristalizadas, no caso
da Coréia do Norte, por exemplo, elas são baseadas na lealdade da pessoa ao
partido, passam de geração em geração (a não ser que alguém cometa um deslize e
condene a família toda) e interferem diretamente na ração que suas famílias
receberão do Estado, que na verdade é sempre muito pouca.

Talvez uma das
maiores qualidades do capitalismo seja que ele não exija devoção, você não
precisa gostar do capitalismo, na verdade, você pode ficar muito rico dentro do
capitalismo criticando-o publicamente, como provam Leandro Karnal (que acha que
cobrar mil reais por palestra é coisa de Zé Ninguém) e Marilena Chauí, no
Brasil, assim como de Michael Moore e Noam Chomsky nos EUA, apenas para citar 4
exemplos mais famosos. O capitalismo tolera a hipocrisia. Já no comunismo, se
você é crítico do regime, não tem direito nem à sua vida.

E não dá pra
negar, ele trouxe coisas boas. Não apenas confortos, apesar de ter trazido
bastante disso, mas principalmente itens necessários à higiene básica e saúde
tornaram-se acessíveis na economia de mercado. Na verdade, os medicamentos
tornaram-se tão acessíveis que em economias mais ou menos desenvolvidas as pessoas podem se dar ao luxo de esnobá-los,
uma burrice que eu já critiquei em outro post.

De várias
maneiras, o capitalismo deu tão certo que hoje precisamos lidar com problemas
causados pelos excessos que ele trouxe, que seriam impensáveis antes do século
XX. Quem imaginaria que excesso de carros tornar-se-iam um problema um dia? E
que excesso de calorias estaria fazendo as pessoas doentes?

Infelizmente,
é preciso admitir que coisas boas vieram de um sistema com muitas coisas
condenáveis. É, é difícil. Assim como muitas cidades na América em que hoje
vivemos existem porque nossos antepassados ceifaram povos indígenas primitivos
que cá estavam antes. Teria sido melhor deixá-los em paz, enquanto mantinham um
continente inteiro ocioso? A história do bom selvagem é uma mentira mantida por
departamentos de humanas, a vida era extremamente violenta, como bem descreveu
Hobbes, “pobre, desagradável, brutal e curta”, mas os europeus sem dúvida
trouxeram mais violência ainda. O resultado foi o mundo de hoje, com
escritórios com ar-condicionado e cadeiras ergométricas, regras de conduta e
departamentos de RH te apavorando com o ponto de conforto.

Valeu a pena?
Não sei. Mas é melhor que a sífilis.

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