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Farsas – Mensagens Subliminares

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Esta farsa foi uma certa histeria coletiva na década passada,
quando circularam incontáveis histórias na internet sobre mensagens
subliminares em propagandas, filmes (especialmente da Disney) e videogame (o
grande corruptor da juventude) entretendo adolescentes desocupados e facilmente
impressionáveis (como eu era) e deixando pais, religiosos e outros grupos de escandalizados
profissionais de cabelos em pé. Quem não lembra dos vídeos do bizarro pastor
Josué Yrion, com seu idioma indefinível, falando dos “males de los Nintendos”?
Até que foi divertido, mas está na hora de tirar a história a limpo. A maior
parte do que você já leu sobre mensagens subliminares é pseudociência,
superstição e moralismo barato.

Sim, existe um fundo de verdade, como em quase qualquer pseudociência.
É possível o seu olho captar uma imagem muito rápida que não é percebida pela
sua consciência. O que absolutamente não vai mudar o seu comportamento de
maneira relevante, como toda pesquisa científica honesta e com rigor
metodológico provou ao testar este fenômeno.

Tudo começou um suposto experimento feito nos anos 50 em um
cinema dos EUA, em que mensagens mandando as pessoas comprarem pipoca e
refrigerante eram exibidas na tela durante o filme por um milésimo de segundo –
com um projetor especial só para as mensagens, porque o projetor normal usado
para o filme só é capaz de exibir 24 quadros por segundo – e, disse James
Vicary, o pesquisador de marketing que conduziu o experimento, as vendas de
pipoca e refrigerante aumentaram expressivamente. Aliás, quem compra pipoca e
refrigerante depois do filme?

Seria um experimento para lá de antiético, sendo que as
pessoas que foram ao cinema só queriam ver um filme, não consentiram em
participar de experimento algum. Seria, porque o próprio James Vicary foi
obrigado a confessar que nunca o realizou, e forjou os dados para agradar
investidores, e lucrar com a patente do método. Ele chegou até a abrir uma
empresa de publicidade especializada em aplicar este método. Deu polêmica, e as
“ligas pela temperança” (as mesmas organizações que pressionaram pela infame
lei seca) começaram a acusar as indústrias de bebida a usarem propagandas
subliminares para encorajarem as pessoas a beber. Não usaram. Foi muito barulho
por nada.

Vicary foi desmascarado quando redes de TV tentaram replicar
seu experimento. A TV é mais de duas vezes mais rápida que o filme (59 ou 60
quadros por segundos) e não precisaria de equipamento especial para exibir uma
mensagem imperceptível a nível consciente. A emissora WTWO, afiliada da NBC,
exibiu mensagens subliminares pedindo aos espectadores para escreverem à
emissora, mas ninguém escreveu. O próprio Vicary, pressionado por psicólogos sérios,
tentou fazer a experiência em uma TV canadense, a CBC. Desta vez, era pedido
para as pessoas ligarem para o programa. Não só ninguém ligou como, quando
informadas sobre as mensagens subliminares e perguntadas por telefone se tinham
sentido alguma coisa diferente, disseram ter sentido mais fome ou mais sede,
sendo que as mensagens nem mesmo tinham a ver com isso. Memórias falsas sim são
um fenômeno psicológico comprovado.

Mas o que diferencia a pseudociência de simples teorias
científicas refutadas é que elas continuam sendo repetidas e divulgadas mesmo
muito depois de serem provadas falsas. Em 73, uma década após Vicary ter sido
desmascarado, um outro charlatão, Wilson Key, lançou seu livro Subliminal
Seduction, em que procurava mostrar como a publicidade induz desejo sexual nas
pessoas para compeli-las a consumir. Já na
capa do livro é perguntado, sem qualquer ironia
,
se o leitor sentia tesão
ao ver a foto do copo com gelo. Aposto que você clicou no link que eu mandei e
já está descascando banana.

Os experimentos descritos no livro de Key também eram
furados, desonestos, feitos sem metodologia correta (por exemplo, sem grupo de
controle), mas serviu para reavivar a polêmica das mensagens subliminares, e
mais uma vez os escandalizados profissionais começaram a procurar pelo em ovo
para dizer que a mídia estava corrompendo a pureza das crianças, maculando suas
mentes com pornografia e satanismo e tudo o mais. Mas nada deu tanto gás tanto
os caçadores de mensagens subliminares quanto a internet, que ajudou não apenas
a circular livremente as imagens “suspeitas” para que fossem analisadas pelos “experts”,
como também ajudou a divulgar as teorias.

Lendo as teorias conspiratórias sobre mensagens
subliminares, aquelas mesmas que me divertiam na adolescência, não dá para
deixar de pensar que quem escreve essas merdas é uma gente tão tarada que enxerga
safadeza em qualquer coisa, devem pensar o dia todo só nisso. Alegaram ter
visto um pênis ereto
por trás da batina de um padre que aparece no final da Pequena Sereia
(é só
um joelho) e a
palavra SEX numa cena do Rei Leão
em que apenas apareciam por alguns
instantes as letras SFX, que é uma sigla informal para efeitos especiais. Foi
apenas um easter egg deixado pelos animadores, mas algumas pessoas fizeram uma
montagem com o quadro do filme, adicionando uma “perninha” no F para parecer um
E. Mas a pergunta é, e se fosse SEX, e daí? Do jeito que falam esses malucos, é
como se fosse cair os olhos das crianças.

Sinceramente, um dos motivos pelos quais eu realmente não
gostaria de ter filhos é que eu temo ficar igual a uns sujeitos escrotos que
quando viram pais se convertem em puritanos de carteirinha, que acham que seus
filhos são anjinhos inocentes e que o mundo todo tem que se adaptar a eles. E
muitos desses puritanos de carteirinha eram totalmente “porra locas” antes de
terem filhos, ou continuam sendo, o que me irrita mais ainda.

Uma coisa é você proteger as crianças de sofrerem abuso
sexual, e evitar exibi-las a conteúdo sexual explícito que elas não vão
entender por não terem maturidade. Outra é achar que meramente por elas ouvirem
alguma coisa relacionada a sexo, ou verem a foto de um órgão sexual por uma
fração de segundo, ficarão traumatizadas e terão a infância arruinada. O livro
e o filme Clube da Luta brincam com este medo irracional de alguns pais; na
história, o personagem Tyler Durden, fazendo bicos como projecionista num
cinema, inseria alguns trechos de filmes pornôs em filmes de criança. Claro que
se isso fosse feito na vida real, o “bônus” ia ficar tão invisível quanto as inserções
de propagandas da Jequiti e do Carrossel no SBT.

Justiça seja feita, uma teoria conspiratória desse tipo foi verdade:
Em 1997, descobriram que em algumas cópias VHS do filme Bernardo e Bianca, que
eram vendidas na Inglaterra, aparecia em dois quadros uma foto de uma mulher com
os seios de fora. A própria Disney admitiu publicamente o vacilo, explicou que
provavelmente quem inseriu as fotos foi alguém da pós-produção, não os próprios
animadores que fizeram o filme, e fez o recall das fitas. O que aconteceu com
as crianças expostas às cópias “premiadas”? Exatamente, porra nenhuma.

Uma das modalidades mais idiotas de teorias de mensagens
subliminares, e que também fez sucesso entre os moralistas, são as mensagens de
áudio escondidas em músicas, principalmente de rock, que supostamente levavam
os jovens a adorarem o diabo, ou a cometerem suicídio. Sobre a indução ao
satanismo, acho que não é preciso comentar nada, mas a coisa da mensagem ao
contrário (famigerado disco da Xuxa) é mais idiota ainda, porque uma mensagem
ao contrário está essencialmente criptografada, e vai fazer tanto sentido para
o seu cérebro quanto faria ler um livro em chinês ou klingon, supondo que você
não conhece estes idiomas. Ou seja, não dá para te induzir a nada, porque o seu
cérebro não entende nada, é apenas ruído sem sentido, consciente ou
inconscientemente.

A banda Judas Priest já foi acusada de provocar o suicídio
de dois jovens com a música “Better By You, Better Than Me”, do álbum Stained
Class (que eu tenho em vinil, uma de minhas preciosidades). Alegaram os
promotores, ela tinha escondida a mensagem “do it”. Mal dá para acreditar, mas
esta besteira chegou ao tribunal, e a banda foi obrigada a ir se explicar
perante um júri. Pois é, uma teoria falsa vai longe.

Só me pergunto por que esses promotores também não acusaram
a corporação Nike de ter colaborado com o suicídio dos dois jovens.

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