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Justiça – Parte 1

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A série de TV Justiça, que passa na Globo às 22h30 4 vezes
por semana, é uma das melhores coisas que saiu da TV aberta nos últimos anos. A
Globo sendo a maior emissora do Brasil, e sem dúvida a empresa do Brasil que
pode pagar os melhores cachês e contratar os melhores diretores e roteirista,
seria estatisticamente improvável que não saísse nada de bom nem de vez em
quando. Este post será longo, e irei dividi-lo em dois, o segundo sai amanhã.
Assistir Justiça é como tragar um gole de vodka pura, na verdade, em alguns
momentos foi um soco no estômago. Mas eu gostei de apanhar. Fazia tempo que um
filme ou série não me fazia sentir tanta empatia pelos personagens. Se você
ainda não viu nem os 4 primeiros
capítulos
, recomendo não ler este post ainda, não posso evitar SPOILERS.

Ok, eu sei que eu mesmo não resisti e usei “redeglobense”
uma vez para designar um código de ética normaloide, feito para manter o povo vassalo,
mas com o orgulho de ser um “cidadão consciente”. Mas Justiça foge bastante dos
chavões politicamente corretos da teledramaturgia brasileira. Nada absurdo, só
retrata pessoas de verdade, não caricaturas.

É claro, a série não foge totalmente da cartilha, faz
questão de retratar os negros e mulheres como vítimas. Mas também não os
retrata como coitadinhos inocentes, que nunca fizeram nada de errado e que
vivem totalmente inertes necessitando de ajuda do governo para fazer qualquer
coisa, uma imagem que parece ser a que as pessoas das ciências sociais em seus
delírios foulcaultianos têm. Um amigo meu cogitou que a roteirista desta série
deve ser socióloga. Não sei, mas se for, certamente é uma com bastante tempo de
casa, não uma boba recém-saída da faculdade cheia de teorias de gabinete.

A história se passa na cidade do Recife – PE, no Nordeste, e
desconstrói sem piedade os preconceitos nutridos por certos reacionários de que
nordestinos são vagabundos que só querem receber bolsa-família e votam no PT,
como se fossem todos assim e no Sudeste não houvesse esse tipo de gente. Está vendo
uma coincidência com a ideia das ciências sociais? Pois é. Os personagens são gente
de verdade, que trabalha para ter o que comer, se diverte, fode, usa drogas, se
preocupa com os filhos, briga…

Em uma das histórias (são quatro, que se interligam
ocasionalmente, similar aos filmes Crash, Babel e Pulp Fiction), a personagem
Fátima, mãe de dois filhos pequenos, não suporta o vizinho, Douglas, um
policial inescrupuloso, alcoólatra, que tem um cachorro bravo chamado Douglas, do
qual ele gosta mais do que de qualquer pessoa. Aliás, já que estou no embalo,
podíamos sepultar de uma vez por todas a ideia imbecil de que gostar de cachorro
ou de animais em geral é uma prova incontestável de que alguém é “do bem”, ou
de que gostar de bicho mais do que de gente é alguma espécie de virtude. Eu
tenho um cachorro e gosto muito dele, mas não espero ser beatificado por isso.
O sujeito inclusive chega a perder a esposa (outra cretina, mas não por isso)
que ele trata pior do que seu animal. O cachorro assusta as crianças, estragou
a festa de aniversário da menininha Mayara, e comeu várias das galinhas de
Fátima e seu marido.

Aliás, gente normal tem problema com vizinhos, ou os trata
com quase absoluta indiferença (meu caso) ou não os suporta, por serem
fofoqueiros, meterem-se na sua vida, e vigiarem o que você faz ou deixa de
fazer na sua casa. Um dos aspectos mais burros tanto do comunismo quanto do
anarco-capitalismo (boa e velha metáfora da ferradura) é essa vã esperança de
um mundo de vizinhos se amando e cooperando para o bem comum, ou de que o medo
do que os vizinhos vão pensar é suficiente para impedir que alguém faça coisas
erradas.

Acaba que Fátima mata o cachorro depois desse atacar um de
seus filhos, e depois do cretino Douglas matar seu marido a facadas. E o
filho-da-puta ainda coloca na casa de Fátima uma porção de drogas, para ela ser
presa por tráfico. Os jornais do dia seguinte anunciam que “assassina de
cachorros também era traficante”, o que as pessoas vão ler e julgar sem
conhecer nem metade da história.

A proibição das drogas causa infinitamente mais problemas
sociais do que as próprias drogas. Possuir, usar ou vender drogas absolutamente
não deveria ser crime, pois não há vítimas, isto é algo que deveria mudar para
ontem. Se pelo menos a maconha fosse legalizada, já ajudaria muito. Chega a ser
ilógico proibir maconha e manter o álcool legal, uma droga com potencial de
vício similar, mas que, segundo a ciência, é muito mais nociva para o corpo (procure
o estudo de David Nutt de novembro 2010, da revista Lancett, caso esteja cético
).
Eu mesmo estou permanentemente com uma quantidade de dextroanfetamina em meu
sangue, que foi recomendada por meu médico para tratar minhas dificuldades de
concentração e depressão. A diferença disto para a boa e velha bala ou ecstasy
das festas rave é basicamente a qualidade e a permissão. Quando a medicina e a
lei vão admitir que as pessoas usam drogas por diversão também e a sociedade
não é destruída por isso?

Não só a proibição das drogas é injusta, mas frequentemente
quem se dá mal por ela são pessoas mais indefesas da sociedade, como a
doméstica Fátima e a estudante Rose, de outra linha narrativa, que é presa com
drogas (que ela tinha somente para consumo) em uma festa na praia, em seu
aniversário de 18 anos, enquanto sua amiga Débora, que tinha uma quantidade de
drogas idêntica escondida no sutiã, não é revistada por ser branca. Não dá
para negar que exista racial profiling
na polícia.

Falando da polícia, eu absolutamente não sou contra a atividade
da polícia ou os policiais em geral, e nem acho a polícia fascista, inclusive
já precisei da sua ajuda. Mas não dá para negar que foi muito, muito escroto
revistar exclusivamente negros na festa, e, pior ainda, destruir a vida de uma
menina (que tinha passado em 4º lugar no vestibular) meramente por ser encontrada
com uma substância química, e isto sabemos que acontece na vida real. Aliás, o
crime de tráfico é um em que aparentemente a presunção de inocência é
defenestrada, porque você pode ser preso por tráfico apenas por possuir uma
quantidade de droga que o juiz ache grande (como foi o caso de Rose e Fátima),
sem precisar de uma única prova de que tenha de fato repassado aquilo alguma
vez. Você poder ser preso por tráfico inclusive por ter um único pé de maconha
em casa. Para ser enquadrado em “tráfico” não é preciso nem que haja lucro.
Você acha mesmo justo destruir a vida de uma pessoa colocando-a na cadeia por
isso? A série, como o nome sugere, nos convida a pensar no que é justo ou não,
uma deliciosa provocação.

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