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Hipocrisia

Um dos ataques que eu mais vejo fazerem à candidata Hillary Clinton é acusá-la de ter usado um servidor de emails não seguro para trocar emails confidenciais, e seus emails acabaram no WikiLeaks. Todos os entusiastas de Trump parecem considerar isto um erro tão grave que ela jamais poderia assumir o cargo de presidente. E uma grande parte dessas pessoas têm o proverbial teto de vidro, pode apostar.

Eu sei bem como são os hábitos de segurança digital da maioria das pessoas. Geralmente, não são. Povo faz senha curta ridiculamente curta e fácil de acertar, ou anota e deixa num lugar totalmente visível, reaproveita a senha mil vezes, usa programas inseguros, e nem se importa em saber na verdade, fazem internet banking na mesma máquina cheia de jogo crackeado, nem instala antivírus, ou deixa o baidu. Ah, e quando você é minimamente preocupado com a sua segurança na internet, riem da sua cara, te chamam de paranoico e noiado, perguntam o que você tem pra esconder.

Quantas dessas pessoas são as mesmas que estão crucificando Hillary por ela não ter usado um servidor de email seguro o bastante? Na boa, se enxerguem.

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O mal das meias-medidas

Este vídeo é uma animação feita com um monólogo da série da AMC Breaking Bad. Nele, o personagem Mike conta como tomar uma “meia-medida” custou a vida de uma mulher inocente, quando ele decidiu, por mais uma vez, poupar a vida do marido violento.

Não importa o que os seus avós diziam, não é sempre no meio termo que está a virtude. Ok, admito, muitas vezes é. Mas muitas vezes ao tomar uma decisão que parece ser moderada ou “entre dois extremos” (democrática) você na verdade estará fazendo algo horrível. Fazer o certo muitas vezes exige tomar uma decisão dura, que vai fazer muitos chiarem.

Isto também é conhecido como a falácia do falso meio-termo (vou resistir, não vou colocar o termo em latim, para não me equiparar a um certo filosofo falastrão que eu já critiquei no passado). Não é porque existem dois lados em uma discussão que os dois estão igualmente certos, ou que os dois mereçam o mesmo mérito e a mesma atenção.

Dizer que “cada lado tem um pouco de razão” é só algo que se diz para por fim numa discussão interminável, quando não se quer desagradar ninguém demasiadamente, o famoso pôr panos quentes. É uma atitude covarde, e não necessariamente é a que trará o melhor. Um dos males da democracia é esse, ter que fingir que todo mundo tem um pouco de razão. Não que a moda tenha surgido com a democracia.

Quer um exemplo? O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão, em 1888, dois anos após Cuba. O século XIX viu o movimento abolicionista crescendo no mundo todo. Enquanto isso, no Brasil, o que não faltaram foram meias-medidas, como a lei dos sexagenários (uma piada, visto que quase nenhum escravo chegava aos 60 anos) lei do ventre livre, a proibição do tráfico (famigerada lei para inglês ver), mas sem libertação dos escravos. E todos esses paliativos apenas prolongaram a instituição perversa da escravidão.

Na questão Palestina, já vi alguns “comedidos” decretarem que você está errado apenas por tomar partido, por defender Israel ou Palestina, como se o fato de dois lados estarem numa disputa há muito tempo significasse que os dois tem a mesma razão, que os dois erraram igualmente, e que você tem uma espécie de falha de caráter se achar que um é pior que o outro. Ajuda nisto a moda pós-modernista de decretar que não existe certo ou errado, e tudo é muito relativo. Parece até que tomar partido é uma coisa proibida.

Infelizmente, a maioria das pessoas não têm maturidade para distinguir o que é um ataque pessoal do que é um ataque à uma ideia na qual se acredita, e por isso mesmo crescemos ouvindo que religião, futebol e política não se discute, se tiver um posicionamento, tem que guardar para si próprio, assim temos um povo alienado, covarde, com medo de tocar em qualquer assunto considerado polêmico demais. Os políticos agradecem por você achar que política é um assunto intocável.

Esta mesma covardia (não tem outro nome) é o que torna tão difícil tratar o islamismo como o que na verdade é: A pior religião da atualidade. Muitos ateus também caem na falácia do falso meio-termo, dizendo que todas as religiões são ruins por igual e não podemos criticar nenhuma com mais ênfase do que as outras, o que é uma besteira. Não importa que no passado tenha sido uma religião tão ruim quanto as outras, o fato é que hoje é uma das ideologias mais tóxicas do mundo, motiva atentados terroristas, subjugação das mulheres, execuções por motivos banais, dentre tantas outras mazelas. Mas  a ditadura do politicamente correto não permite falar isso, tem que fingir que todas as religiões são fofinhas e do bem, e o que elas têm de ruim, têm por igual. Uma pessoa minimamente educada dizer isso chega a ser cegueira voluntária.

A falácia do falso meio-termo é também o que está por trás da insistência de alguns religiosos em querer colocar “design inteligente” (criacionismo travestido de ciência) no currículo escolar, como uma teoria alternativa. Gostam de dizer que existe uma polêmica sobre a origem da vida. Não, não existe. A teoria da evolução já é assunto fechado na ciência há cem anos. Escola não é lugar de ensinar crendice. Infelizmente, não falta quem queira instituir esta pseudociência nas escola por achar moralmente obrigatório agradar dois lados de uma discussão. Claro, talvez, em respeito aos neonazistas, também coloquemos no currículo de história a teoria de que o holocausto nunca aconteceu. Talvez também devamos colocar no currículo de geografia a teoria de que a Terra é plana.

Trump corre um sério risco de ser eleito. E não porque ele seja bom, possivelmente seu governo seria catastrófico, mas porque ele não tem medo de tomar decisões impopulares, ou até politicamente incorretas, diz o que quer e não faz questão de agradar ninguém. O povo cansou de almofadinhas como Obama que fazem de tudo para agradar a todos, e acabam não mudando muita coisa.

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Eu entendo porque querem Trump

O fato é que não querem mais um presidente que seja covarde.
Não, já basta.

Temer por exemplo é covarde. Voltou atrás com a abolição do
Ministério da Cultura, e voltou atrás com a reforma do Ensino Médio.
Francamente, esperava mais de um senhor da idade dele, e que já tem a vida
feita. Mas acho que ele é só mais um terno descartável.

Sim, claro que foi bom ele ter assumido, claro que ele é
melhor que a Dilma. O que não significa muita coisa, até um chimpanzé faria um
governo melhor que o da Dilma.

Representação política é uma espécie de ficção, e só
funciona enquanto as pessoas têm fé nela, e as pessoas tem deixado de
acreditar. O que as pessoas nervosas querem não é mais um almofadinha que só
cumpre protocolos e sorri para as câmeras, munido de discursos ensaiados. Não,
o que as pessoas querem é alguém, algum maníaco ensandecido, que continue
pisando fundo no acelerador durante um chicken
game
.

Alguém que cuspa na declaração universal dos direitos
humanos. Isso. E que queime os tratados internacionais, que os enrole em fumo
de corda e trague sua fumaça. As pessoas querem isso, não mais um robozinho que
faz tudo segundo o protocolo e faz mais do mesmo, tudo bem previsível, pisando
em ovos, tomando cuidado para não contrariar ninguém. Quando você tenta fazer
média com todo mundo, você é só mais um medíocre.

Por que as pessoas querem isso? Porque estão com raiva.
Porque elas estão putas.

Não, Trump não fará um bom governo, sem dúvidas trará
desastres. Mas muita gente quer apostar em desastres, se isto se faz necessário
para mudar algo de verdade.

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ceticismo, filosofia, Humano, sociedade

Negação da ciência MATA

“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)

O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas
humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.

No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça
à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a
falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil,
uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma
outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à
saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da
ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento
científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as
áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da
Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a
aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto
firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.

Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até
fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e
se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam
este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou
não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane,
quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas,
mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio
possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil
o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O
serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que
algumas pessoas preferem ficar com nada.

…Mas eu não quero me entupir de remédios…

 Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma
espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em
pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos
avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem
que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da
falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se
remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou
tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e
cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala
a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem
prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer
tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica
ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de
“macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo
qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo.
Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais
grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios
psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da
consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.

Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade
moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para
muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E
eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam
nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.

Existem  exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que
funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de
medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.

“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”

 

E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou
que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só
para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acupunturistas
profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os
tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos
duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.

E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para
prometer uma suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais
conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as
pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica.
Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.

Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado
não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este
velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom
senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que
realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da
pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.

Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita
coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de
uma espécie de lobotomia.

O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os
tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um
tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o
tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho
do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros).
Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim,
tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias
alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a
ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os
idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.

O movimento anti vacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo
contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o
fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas.
Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois
do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua,
dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que
aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o
movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz
começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e
se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu
extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer
qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo
tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.

O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma
desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente
da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na
internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do
tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.

“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”

Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias
erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que
está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são
importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição,
que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre.
Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso
científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e
o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na
religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está
errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo,
mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a
diferença?


“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”

Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas
teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo
é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada
é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos
e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas
vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão
grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer
língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa
frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar
juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem
mentes parecidas.

Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a
sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências
humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste
confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em
questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para
quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já
que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão
dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos
maus.

A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam
nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua
redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de
dinheiro também já ceifou muitas vidas.

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Estamos em reformas, obrigado pela paciência

Pessoal, eu sei que o visual do blog está uma bosta, mas essa semana eu vou fazer um css novo com um programa especial para isto. Depois volto a postar no ritmo normal, afinal, as bundas da religião não se chutam sozinhas. Também pretendo lançar um outro blog, falando apenas de tecnologia.

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Farsas – Mensagens Subliminares

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Esta farsa foi uma certa histeria coletiva na década passada,
quando circularam incontáveis histórias na internet sobre mensagens
subliminares em propagandas, filmes (especialmente da Disney) e videogame (o
grande corruptor da juventude) entretendo adolescentes desocupados e facilmente
impressionáveis (como eu era) e deixando pais, religiosos e outros grupos de escandalizados
profissionais de cabelos em pé. Quem não lembra dos vídeos do bizarro pastor
Josué Yrion, com seu idioma indefinível, falando dos “males de los Nintendos”?
Até que foi divertido, mas está na hora de tirar a história a limpo. A maior
parte do que você já leu sobre mensagens subliminares é pseudociência,
superstição e moralismo barato.

Sim, existe um fundo de verdade, como em quase qualquer pseudociência.
É possível o seu olho captar uma imagem muito rápida que não é percebida pela
sua consciência. O que absolutamente não vai mudar o seu comportamento de
maneira relevante, como toda pesquisa científica honesta e com rigor
metodológico provou ao testar este fenômeno.

Tudo começou um suposto experimento feito nos anos 50 em um
cinema dos EUA, em que mensagens mandando as pessoas comprarem pipoca e
refrigerante eram exibidas na tela durante o filme por um milésimo de segundo –
com um projetor especial só para as mensagens, porque o projetor normal usado
para o filme só é capaz de exibir 24 quadros por segundo – e, disse James
Vicary, o pesquisador de marketing que conduziu o experimento, as vendas de
pipoca e refrigerante aumentaram expressivamente. Aliás, quem compra pipoca e
refrigerante depois do filme?

Seria um experimento para lá de antiético, sendo que as
pessoas que foram ao cinema só queriam ver um filme, não consentiram em
participar de experimento algum. Seria, porque o próprio James Vicary foi
obrigado a confessar que nunca o realizou, e forjou os dados para agradar
investidores, e lucrar com a patente do método. Ele chegou até a abrir uma
empresa de publicidade especializada em aplicar este método. Deu polêmica, e as
“ligas pela temperança” (as mesmas organizações que pressionaram pela infame
lei seca) começaram a acusar as indústrias de bebida a usarem propagandas
subliminares para encorajarem as pessoas a beber. Não usaram. Foi muito barulho
por nada.

Vicary foi desmascarado quando redes de TV tentaram replicar
seu experimento. A TV é mais de duas vezes mais rápida que o filme (59 ou 60
quadros por segundos) e não precisaria de equipamento especial para exibir uma
mensagem imperceptível a nível consciente. A emissora WTWO, afiliada da NBC,
exibiu mensagens subliminares pedindo aos espectadores para escreverem à
emissora, mas ninguém escreveu. O próprio Vicary, pressionado por psicólogos sérios,
tentou fazer a experiência em uma TV canadense, a CBC. Desta vez, era pedido
para as pessoas ligarem para o programa. Não só ninguém ligou como, quando
informadas sobre as mensagens subliminares e perguntadas por telefone se tinham
sentido alguma coisa diferente, disseram ter sentido mais fome ou mais sede,
sendo que as mensagens nem mesmo tinham a ver com isso. Memórias falsas sim são
um fenômeno psicológico comprovado.

Mas o que diferencia a pseudociência de simples teorias
científicas refutadas é que elas continuam sendo repetidas e divulgadas mesmo
muito depois de serem provadas falsas. Em 73, uma década após Vicary ter sido
desmascarado, um outro charlatão, Wilson Key, lançou seu livro Subliminal
Seduction, em que procurava mostrar como a publicidade induz desejo sexual nas
pessoas para compeli-las a consumir. Já na
capa do livro é perguntado, sem qualquer ironia
,
se o leitor sentia tesão
ao ver a foto do copo com gelo. Aposto que você clicou no link que eu mandei e
já está descascando banana.

Os experimentos descritos no livro de Key também eram
furados, desonestos, feitos sem metodologia correta (por exemplo, sem grupo de
controle), mas serviu para reavivar a polêmica das mensagens subliminares, e
mais uma vez os escandalizados profissionais começaram a procurar pelo em ovo
para dizer que a mídia estava corrompendo a pureza das crianças, maculando suas
mentes com pornografia e satanismo e tudo o mais. Mas nada deu tanto gás tanto
os caçadores de mensagens subliminares quanto a internet, que ajudou não apenas
a circular livremente as imagens “suspeitas” para que fossem analisadas pelos “experts”,
como também ajudou a divulgar as teorias.

Lendo as teorias conspiratórias sobre mensagens
subliminares, aquelas mesmas que me divertiam na adolescência, não dá para
deixar de pensar que quem escreve essas merdas é uma gente tão tarada que enxerga
safadeza em qualquer coisa, devem pensar o dia todo só nisso. Alegaram ter
visto um pênis ereto
por trás da batina de um padre que aparece no final da Pequena Sereia
(é só
um joelho) e a
palavra SEX numa cena do Rei Leão
em que apenas apareciam por alguns
instantes as letras SFX, que é uma sigla informal para efeitos especiais. Foi
apenas um easter egg deixado pelos animadores, mas algumas pessoas fizeram uma
montagem com o quadro do filme, adicionando uma “perninha” no F para parecer um
E. Mas a pergunta é, e se fosse SEX, e daí? Do jeito que falam esses malucos, é
como se fosse cair os olhos das crianças.

Sinceramente, um dos motivos pelos quais eu realmente não
gostaria de ter filhos é que eu temo ficar igual a uns sujeitos escrotos que
quando viram pais se convertem em puritanos de carteirinha, que acham que seus
filhos são anjinhos inocentes e que o mundo todo tem que se adaptar a eles. E
muitos desses puritanos de carteirinha eram totalmente “porra locas” antes de
terem filhos, ou continuam sendo, o que me irrita mais ainda.

Uma coisa é você proteger as crianças de sofrerem abuso
sexual, e evitar exibi-las a conteúdo sexual explícito que elas não vão
entender por não terem maturidade. Outra é achar que meramente por elas ouvirem
alguma coisa relacionada a sexo, ou verem a foto de um órgão sexual por uma
fração de segundo, ficarão traumatizadas e terão a infância arruinada. O livro
e o filme Clube da Luta brincam com este medo irracional de alguns pais; na
história, o personagem Tyler Durden, fazendo bicos como projecionista num
cinema, inseria alguns trechos de filmes pornôs em filmes de criança. Claro que
se isso fosse feito na vida real, o “bônus” ia ficar tão invisível quanto as inserções
de propagandas da Jequiti e do Carrossel no SBT.

Justiça seja feita, uma teoria conspiratória desse tipo foi verdade:
Em 1997, descobriram que em algumas cópias VHS do filme Bernardo e Bianca, que
eram vendidas na Inglaterra, aparecia em dois quadros uma foto de uma mulher com
os seios de fora. A própria Disney admitiu publicamente o vacilo, explicou que
provavelmente quem inseriu as fotos foi alguém da pós-produção, não os próprios
animadores que fizeram o filme, e fez o recall das fitas. O que aconteceu com
as crianças expostas às cópias “premiadas”? Exatamente, porra nenhuma.

Uma das modalidades mais idiotas de teorias de mensagens
subliminares, e que também fez sucesso entre os moralistas, são as mensagens de
áudio escondidas em músicas, principalmente de rock, que supostamente levavam
os jovens a adorarem o diabo, ou a cometerem suicídio. Sobre a indução ao
satanismo, acho que não é preciso comentar nada, mas a coisa da mensagem ao
contrário (famigerado disco da Xuxa) é mais idiota ainda, porque uma mensagem
ao contrário está essencialmente criptografada, e vai fazer tanto sentido para
o seu cérebro quanto faria ler um livro em chinês ou klingon, supondo que você
não conhece estes idiomas. Ou seja, não dá para te induzir a nada, porque o seu
cérebro não entende nada, é apenas ruído sem sentido, consciente ou
inconscientemente.

A banda Judas Priest já foi acusada de provocar o suicídio
de dois jovens com a música “Better By You, Better Than Me”, do álbum Stained
Class (que eu tenho em vinil, uma de minhas preciosidades). Alegaram os
promotores, ela tinha escondida a mensagem “do it”. Mal dá para acreditar, mas
esta besteira chegou ao tribunal, e a banda foi obrigada a ir se explicar
perante um júri. Pois é, uma teoria falsa vai longe.

Só me pergunto por que esses promotores também não acusaram
a corporação Nike de ter colaborado com o suicídio dos dois jovens.

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