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Meu Problema com o Espiritismo

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Os espíritas, em especial os de religiões de matriz africana, e os ateus, possuem uma espécie de “aliança estratégica” no Brasil: Ambos os grupos deixam os cristãos fanáticos putos. Para eles, somos “crias do demônio” do mesmo saco. Admito que é uma das religiões que menos causam problemas hoje em dia, mas nem por isso é perfeita, e não deveria ser imune à críticas. Aliás, absolutamente nenhuma ideia, boa ou ruim, deveria ser imune à críticas em uma sociedade livre. As pessoas deveriam ter maturidade para entender a diferença de atacar uma ideia em que alguém acredita e atacar a própria pessoa.

O problema começa no próprio conceito de alma, que é absolutamente improvável. Quando dizem que você tem “energias”, isto é verdade, mas estas energias não possuem absolutamente nada de místico ou sobrenatural, e não é mistério algum para onde elas vão depois da sua morte: Para os vermes. “Tudo se perderá como lágrimas na chuva”, como dizia o replicante Roy no magnífico filme Blade Runner (androide é a sua mãe). O fato das minhas energias continuarem não significa que a minha consciência continuará, a consicência é um fenômeno bioquímico que se encerra com a morte do indivíduo (esta é a origem da brincadeira que faço na descrição deste blog)

“Alma” era mais ou menos como povos antigos entendiam a mente humana antes de compreendermos o funcionamento do cérebro. E isto faz pouco tempo: No tempo de Aristóteles, nem se sabia que o pensamento se processava no cérebro (Aristóteles pensava que sua função era de resfriar o sangue). Somente do início do século XX descobriu-se o neurônio, graças ao trabalho do cientista espanhol
Santiago Ramón y Cajal. Até então, a doutrina do dualismo (corpo e alma) era amplamente aceita, a alma sendo como um motorista e o corpo um veículo. O dualismo é a base de praticamente todas as religiões, atuais e extintas.

Mas os estudos do cérebro explicaram relativamente bem este órgão formidável, e a psicologia moderna se encarregou de detalhar o funcionamento do software, e de qualquer forma o conceito de alma não faz muito sentido, não explica, por exemplo, como algo imaterial pode mover algo material, a não ser com explicações que são igualmente improváveis, em todos os sentidos. A própria existência de algo como um “além” ou “o mundo de lá”, como dizem popularmente no Brasil, ainda carece de ser provada empiricamente. O próprio conceito de “eu” (que seria o motorista) é provavelmente uma ilusão. Como diria o peso pesado da ciência cognitiva Daniel Dennet “é difícil achar o presidente na sala oval da mente”. Sam Harris, outro peso pesado, também afirma que o “eu” é uma ilusão cognitiva, e aperfeiçoando muito a técnica da meditação, pode-se vivenciar as sensações da consciência sem a ilusão do eu.

O que mais espanta no espiritismo é que ele também se baseia em afirmações que não seriam impossíveis de provar se fossem verdadeiras. Não apenas eles acreditam em alma, mas acreditam que as almas dos mortos, de alguma forma, podem prever o futuro, ou ver o que se passa em qualquer lugar do mundo, e comunicar isto ao médium. Mande um médium ou pai de santo ficar numa sala isolada, vigiada por câmeras, enquanto um pesquisador em outra sala igualmente isolada escreve algo aleatório num papel, e peça para ele adivinhar o que está sendo escrito. O mágico James Randi já ofereceu um prêmio de um milhão de dólares para qualquer um que provasse poderes sobrenaturais. Durante todo o tempo que o prêmio foi oferecido, não apareceu um único paranormal que pudesse provar seus poderes, e não ser apenas um charlatão. Também já ouvi falar de pais de santo que adivinharam os números da loteria para clientes. Por que não adivinharam para eles mesmos?!

“Ouvi falar” é a frase que mais se escuta. A famosa evidência anedótica não tem valor nenhum quando se trata de assuntos de extrema importância como a existência ou não de um mundo do além. Se eu precisar de alguma defesa contra uma evidência anedótica, direi apenas “ontem Donald Trump me ligou e disse que provou que alma não existe”. Você não pode provar que estou mentindo, pode? O conceito de homeopatia também possuem um excesso de evidência anedótica e uma completa falta de evidência científica de que possa curar qualquer coisa melhor que um placebo. Assim como a infame fosfoetanolamina. A lista é longa. Até papagaio fala. A forma como você se sente em um terreiro ou em um centro espírita também não é prova de nada, é possível ter sensações provocadas por todo tipo de coisa.

Os espíritas, como outros religiosos, também partem do pressuposto de que existe um código moral universal, que a moral possui uma realidade objetiva, por isto quando você morre, a sua alma será julgada por uma espécie de tribunal metafísico e punida ou recompensada de acordo.

Primeiramente, a moral é um conceito maleável, que se modificou muito ao longo da história. Eu não estou querendo dizer que deveríamos abandonar qualquer tentativa de diferenciar códigos morais em melhores ou piores, mas o fato é que moral é um conceito humano, surgiu no contexto de sociedades humanas que precisavam de limites para que a convivência fosse possível. Qualquer moral só faz sentido no contexto de indivíduos vivos tendo que conviver juntos. Também não faz sentido uma punição que só passa a valer depois da sua morte, e que ninguém pode com certeza ver alguém que foi punido, sendo que os malfeitores podem simplesmente não acreditar. Por isto mesmo necessitamos de sistemas judiciários com punições que existem além de qualquer dúvida. Acho que não dá pra duvidar da existência de cadeias.

Eu até entendo porque as pessoas acreditam nisso: Porque dá a elas uma certa satisfação. Parece insuportável a ideia de que um ser tão maléfico quanto o Dr. Mengele tenha fugido para a América do Sul após a segunda guerra e morrido idoso por causas naturais. É mais confortável acreditar que ele teve algum tipo de punição no além túmulo. Mas não teve.

Se por um lado a doutrina espírita oferece este tipo de conforto, por outro ela faz a pressuposição, pra lá de insensível, que pessoas que hoje estão sofrendo de alguma forma mereceram aquilo, como se a população da Coréia do Norte ou os famintos da África tivessem alguma culpa pela situação desgraçada em que se encontram.

E também cuidado quando tentam pegar o conceito de evolução biológica para exemplificar seu conceito de seres menos evoluídos tornando-se mais evoluídos. Isto é falácia: A evolução se dá de indivíduo para prole, por pequenas mutações genéticas que são selecionadas pelo meio: Um único indivíduo não evolui infinitamente, muito menos depois da morte. Parece injusto que um ser que nasceu como genes ruins esteja fadado a ser varrido pelo meio sem jamais ter a chance de melhorar? É porque a justiça é um conceito humano, não natural. Se quisermos justiça, é melhor a implementarmos no aqui e agora.

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