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O Problema do Pessimismo e Da Misantropia

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muito tempo eu quero tratar deste problema. É claro que em um país
como
o Brasil,
passando por uma dura crise econômica, e que já foi ludibriado por
toda espécie de crápulas
cheios de “boas intenções” e “amor pelo povo”, é natural
que o pessimismo se dissemine. Mas isto não significa que estejamos
ficando mais sábios, ou mais exigentes.

O
fato é que pessimismo é um “bias”,
um viés, uma maneira corrompida de enxergar a realidade, seja sempre
enxergando o lado negativo de tudo (como uma Poliana ao contrário),
e dando mais peso a
este,
seja sempre fazendo previsões pessimistas sobre o futuro,
independente dos fatores em consideração. O pessimista descarta a
hipótese favorável instantaneamente, e, tanto quanto o otimista
bobo, corre o risco de estar errado. Fazer declarações pessimistas
sobre tudo virou uma das armas favoritas dos intelectualóides e
filósofos de boteco,
é uma das maneiras mais manjadas de se fazer de inteligente. Eu
suspeito que a série de TV House tenha colaborado para esta mania de
pensar que falar “humpf, até parece” te faz mais sabido. Alguns
dos maiores idiotas que eu já conheci tinham essa mania.

Se
todos são pessimistas, não há incentivo
para
melhorar nada na sociedade, pois ninguém vai admitir que algo
melhorou. O pessimista é incapaz de admitir que
algo
está
bom, que deveria ser admitido e reforçado. Por exemplo, quando algum
político corrupto é preso, o sabichão já vai dizendo
“humpf, daqui a pouco ele tá solto” sendo que o infeliz
provavelmente sequer leu uma única notícia inteira
sobre
o caso, e não entende porra nenhuma de direito, mas
já pensa que sabe tudo.

O
pessimista também frequentemente incorre na falácia do nirvana, que
é quando julgamos o valor de algo baseado num padrão idealizado
irreal, em
vez de
fazer uma comparação justa. Um exemplo muito claro disso é dizer
que nenhum político presta, segundo uma comparação com os
políticos de algum país nórdico como a Suécia (que, ao contrário
do Brasil, é um país de principiantes). Uma comparação sensata
entre Brasil e algum país latino-americano
seria melhor, como fez um canal do YouTube que eu assino,
o
Test Tube:
eles apontaram que a diferença principal entre nós e a Venezuela é
que ainda temos instituições firmes e um judiciário independente,
por isso mesmo o sucesso da operação Lava Jato. O
reflexo imediato de um pessimista é desprezar imediatamente esta
opinião sem nem mesmo refletir sobre ela.

Os
pessimistas também não dão valor aos números e estatísticas (é
tudo manipulado!). O cientista cognitivista Steven Pinker enfrentou
de peito aberto os pessimistas com seu livro Os Bons Anjos de Nossa
Natureza. Neste livro, ele explica
– munido
de documentos históricos, análises sociológicas acuradas, e muito,
mais muito número e gráfico
– como
na verdade a humanidade nunca foi tão pacífica quanto hoje em dia.
Mata-se menos, preza-se mais pela vida, no geral. Também melhorou
consideravelmente o trato que
as pessoas têm
umas pelas outras. Não faltou gente para chamar Pinker de farsante e
sua análise de “ingênua” simplesmente porque ela chega a uma
conclusão positiva.

Pinker
é um pesquisador sério, e ele jamais disse
que agora está tudo perfeito no mundo, ou sequer que a tendência de
pacificação é irreversível. Mas, como os pessimistas são
extremamente apegados à falácia do nirvana e se recusam a admitir o
valor de uma melhoria
parcial, resumem que tudo é uma farsa. Dizem que o fim da escravidão
é uma farsa, porque hoje em dia existe tráfico de pessoas, ou
porque as fábricas da China
têm péssimas condições de trabalho, análogas
à escravidão. É verdade. Só que o fato de um fenômeno antes
amplamente disseminado ter sido reduzido a uma prática
marginalizada, ilegal, e combatida por autoridades de todo mundo, é
algo que não se pode desprezar. Na
disciplina história também parece ter virado moda dizer que a independência
do Brasil foi uma farsa (claro, seria muito melhor ter continuado
colônia de Portugal)

Eu
também já fui muito pessimista, já votei nulo por padrão e
desprezei a espécie humana. Que é mais um engano, que aqui no
Brasil foi
alimentado pelos folhetins de Nelson
Rodrigues,
com sua obsessão
monótona pela traição. O ser humano nasce com faculdades boas
(“pró-sociais”)
e ruins (“antissociais”)
que podem ser desenvolvidas ou não, e só isso. Ser misantropo não
te faz inteligente. Tem um grupo de misantropos que eu apelidei de
“misantropos
de pelúcia”,
que nutrem um pensamento que é uma espécie de mistura amalucada de
Schopenhauer e Rousseau, típica
tia gorda do Facebook que fica postando notícia de tragédia
acompanhada de comentários de que o ser humano é podre, é um lixo,
e que só cachorro e criança que são puros e inocentes,
o resto podia morrer tudo.
Este tipo de comentário é idiota de todas as maneiras. Ah, e pode
apostar que esta tia gorda misantropa tem uma penca
de filhos, como se isso não fosse contraditório.

Outras
variações incluem o pessimista misantropo religioso, agarrado à
doentia noção bíblica de que o ser humano é ruim, pecaminosos
desde que nasceu, e um nada perto da perfeição do ser mitológico
chamado
Jesus
Cristo. O mais famoso pessimista religioso no Brasil é Luís Felipe
Pondé (prova
de que
dá pra ganhar dinheiro com isso). Tem também o ecochato que
internalizou o discurso do Agente Smith em Matrix, aquele que compara
o ser humano a
um
vírus do planeta, e que por isso toda atividade humana é abjeta e
devemos voltar às cavernas, e
sobreviver com o mínimo necessário para a subsistência biológica.
Eu estou perfeitamente ciente de que existe um lado inteligente e
científico do ambientalismo, mas não é destes ambientalistas
sérios
que
eu estou falando. Engraçado,
os ecochatos, assim como as tias loucas do Facebook e os religiosos, também
costumam ter filhos, como se isto não fosse hipocrisia.

Nem
todo misantropo é idiota ou está querendo pagar de santinho, e em
vários casos é compreensível
(ainda que não correto) ser assim, muitos misantropos são pessoas
amarguradas que sofreram diversas decepções na vida (meu caso). O
caso do próprio Schopenhauer parece ser o mesmo. Lendo, por exemplo,
Estudos
do Pessimismo (uma
seleção de ensaios retirados da obra “Parerga e Paralipomena”),
não precisa ser especialista para notar que se trata de uma pessoa
com depressão (doença incurável em sua época), mas muito
inteligente, racionalizando seus sentimentos. Pegue como
exemplo
o
primeiro
parágrafo: “A
não ser que sofrimento seja o objeto
direto e imediato da vida, nossa existência deve falhar inteiramente
em suas metas. É absurdo ver as enormes quantidades de dor que
abundam em todo lugar do mundo, e originam de necessidades
inseparáveis da vida em si, como não servindo a nenhum propósito …
mas o infortúnio em geral é a regra da vida.” Digo,
não como filósofo, mas como paciente de depressão clínica
que só recentemente melhorou, que este é precisamente o tipo de
pensamento que decorre da incapacidade de sentir prazer com qualquer
coisa e
mesmo de sentir vontade
(a ponto de julgar o prazer uma mera satisfação de necessidades, e que dor e sofrimento são a regra). O
fato de depressão também minar as suas relações interpessoais (já
perdi amigos, namorada, muita coisa) colabora e muito para uma visão
negativa da humanidade em geral.

Verdade
seja dita, os misantropos têm muitas ideias acertadas, e veem muitas
coisas que as “pessoas normais” (seja o que for essa joça) não
veem. São especialmente sensíveis aos vícios com os quais a
sociedade já se acostumou. Meu misantropo sério favorito é o
escritor egípcio Alaa Al Aswany. Deste
senhor, e em especial sua coletânea de contos “E Nós Cobrimos
Seus Olhos”, eu
tratarei em um post à parte.
Mas o fato de podermos tirar algumas coisas verdadeiras do que dizem
os misantropos não significa que esta não seja uma visão de mundo
distorcida e que não leva a nada. Uma visão de mundo que, eu quero
frisar, provem de uma doença. Nunca é demais lembrar
que depressão é doença séria e se trata com remédios. Dizer a um
deprimido que tomar remédios é bobagem e sugerir terapias
alternativas é o mesmo que dizer a um diabético para este abandonar
a insulina.

No
geral, o pessimismo cego (seja em relação à humanidade –
misantropia – ou outras coisas) é venenoso, socialmente falando,
e, ao contrário do que se pensa, não leva as pessoas a serem mais
conscientes. Não leva as pessoas a tomarem decisões melhores:
Quando você é pessimista, você já decidiu que nem existem
decisões melhores. Este ano, eu já decidi que vou votar em alguém
para prefeito em minha cidade, alguém que não é de nenhum grande
partido, um
independente, e
que eu julguei estar realmente capaz
e
com
vontade de fazer
uma administração decente. Sim, eu posso quebrar a cara depois, se
o cara não prestar,
mas ainda assim, acho melhor votar em alguém decente (não perfeito,
decente) do que decidir-me que qualquer coisa serve.

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Um comentário sobre “O Problema do Pessimismo e Da Misantropia

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