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Farsas – J.J. Rousseau e a pureza do homem primitivo (e merthiolate)

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Não importa o que disse o seu professor de história/sociologia/filosofia: Não há qualquer justificativa razoável para esta veneração à Rousseau da academia brasileira. Talvez um dos pecados das ciências humanas, ao menos do Brasil, é que elas, contaminados pelo pós-modernismo, desprezaram o conceito de verdade, rebaixado a mero “constructo social”, não se pode mais dizer que nada é verdade, tudo é relativo e a acuidade dos fatos pouco importa.

O “homem em estado de natureza” de que Rousseau falou é um homem que nunca existiu, portanto não faz sentido usá-lo de exemplo para a vida de homens de verdade. Pilhas e pilhas de vestígios arqueológicos já encontrados provam, só para começo de conversa, que o homem nunca foi solitário. Primatas sempre foram seres sociáveis que vivem em bandos, definem hierarquias de poder, e se apropriam de  território, isto inclui os primatas que vivem hoje, além do homem. A estrutura da mente humana é formada inatamente para a vida em sociedade. Nada disto, portanto, é construção cultural e muito menos corrupção.

A natureza, inclusive, não é como você conheceu no desenho da Branca de Neve (que parece ter sido a inspiração de Rousseau), ela não é abundante e não provê o bastante para todos sem que seja preciso brigar. Escassez é a regra na natureza, os animais brigam por comida em natureza o tempo todo. Estupro é só mais um meio de reprodução, para quem não teve sorte de ser o macho alfa. Fome, frio, medo e violência, isso é o dia a dia na natureza. Não haveria nem seleção natural se não houvesse escassez. A maioria desses doutores em Rousseau não suportariam passar um dia em estado de natureza, a não ser é claro com instrutores e todo equipamento necessário, em uma aventura de férias, e logo depois iriam se recuperar em um chalé quentinho, com wi-fi, escrevendo sobre a aventura num laptop. Para que continuar dizendo que um estilo de vida que você mesmo não suportaria ter é o ideal?

A vida civilizada, junto do livre comércio e da globalização, não trouxe só pequenos confortos materiais. Mesmo coisas que você hoje considera absolutamente trivial, como um analgésico para dor de cabeça ou canetas bic, só surgiram após muito estudo e trabalho que só foram possíveis em um ambiente civilizado, com paz e propriedade privada assegurados. As pessoas tendem a esquecer que muito do que elas tem hoje como básico e barato não existiu desde sempre e não surgiu espontaneamente. Até mesmo hábitos como o de escovar os dentes e tomar banho só foram possíveis num contexto em que as pessoas se preocupavam mais com a aparência, porque faziam mais comércio e era preciso ser mais sociável do que antes, e em que bens de consumo necessários para estes hábitos (a escova de dentes e a banheira) se tornaram acessíveis. E antes da nobreza, foi a burguesia, esta grande vilã do rousseaunianos e cia. limitada, que adquiriu hábitos civilizatórios que nem fariam sentido num mundo do cada um por si, ou num mundo primitivo de pequenas tribos, mais próximo do que Rousseau descrevia, apesar de jamais ter sido igual.

Com mais civilidade vieram conceitos como valorização da vida, igualdade de direitos, direito a propriedade… A vida se tornou longa e cara. Mesmo a ideia que temos hoje de infância ideal foi um fruto da melhora das condições de vida que diminuiu a mortalidade infantil que era altíssima antes de evoluções na medicina e na produção de alimentos. As famílias investem mais em seus pequenos quando as chances deles sobreviverem até a idade adulta são grandes. Falando de infância, o fenômeno do bullying já deveria ter desmoronado de uma vez por todas com a falsa noção de que a criança é “pura”. A criança merece sim proteção especial, mas não por ser pura, mas por ser fraca e ingênua, o que não tem nada a ver com pureza.

Portanto, o mundo natural que Rousseau tanto elogiava nunca existiu exatamente daquela forma, e espero que nunca chegue a existir, quanto mais próximo a ele, pior é. A vida em natureza é extremamente desconfortável e extremamente dolorosa, ao que os rousseaunianos apenas respondem que essa dor não importa porque ela é natural. Claro, que besteira se importar morrer com as pernas quebradas no meio da floresta, ruim é ser vítima do mercado de consumo.

Longe de mim dizer que tudo é maravilhoso na vida em sociedade. Na verdade, eu desprezo vários valores modernos, como o excesso de burocracia, e a impessoalidade que passa a se tornar covardia, além de excessos regulatórios do governo, que transformam qualquer liberdade individual em bem sacrificável quando a intenção é mudar estatísticas, e sinceramente não suporto a alienação e repetitividade da vida diária, e me irrita a mediocridade da opinião comum. Trocaria isso tudo por uma vida em natureza próxima ao delírio rousseauniano? Decididamente não. Civilização: ruim com ela, pior sem ela. Vale dizer que o próprio Rousseau não pretendia voltar à vida em seu suposto estado natural, se você for ler o que Rousseau sugeria que deveríamos ter como governo e estrutura social, logo entenderá porque ele é tão amado pela esquerda.

Falando em mediocridade da opinião comum, esta facilmente nos leva de volta a idade das trevas. O mundo civilizado com abundância material formou-se às duras penas, contra todas as probabilidades, e não é realidade no mundo todo, veja como estão as coisas na África e no Oriente Médio. E não se engane: Não há força alguma que nos impeça de regredir. Deixe os escritores de comentários do G1 serem legisladores, deixe deliberarem segundo seu sagrado “senso comum” e “sabedoria popular”, e nós teremos uma legislação à lá Estado Islâmico. Educação é um bem tão mal distribuído quanto comida. Um dos grandes problemas da democracia é que nela ganha quem está em maior número, e estes geralmente são os idiotas.

Essa gente reclama até que merthiolate não arde mais, o que supostamente está deixando as crianças frouxas, um valor que até coincide com as ideias de Rousseau (assumido admirador de Esparta, que ele considerava a civilização menos corrompida) sobre a dor como natural e necessária para enrijecer o caráter, algo que está no cerne do valor da “macheza”. Uma ova. Que bom que não arde mais. Na verdade, aquela coisa só ardia porque tinha mercúrio, altamente tóxico, e aquela pazinha ficava toda contaminada e infectava as crianças, por ser normalmente compartilhada. Com a lei da palmada só se incomoda quem é burro demais para educar sem elas, ou quem no fundo só queria uma desculpa para descontar as frustrações do dia batendo nas crianças. Essas mesmas pessoas bateriam na mulher, na empregada ou no próprio chefe se achassem alguma desculpa. Dor desnecessária pode e deve ser removida da vida.

Você pode atá argumentar que a ignorância de Rousseau sobre o estado do homem em natureza se deve à pouca ciência da época, ao pouco conhecimento arqueológico que tinha ao seu dispor. Mas veja o trabalho de Thomas Hobbes, que viveu antes de Rousseau. Seu ponto de vista é muito, muito mais acertado, é baseado em realidade e não em ideologia, e vale a pena ser estudado até hoje. Sua citação que ficou mais famosa foi aquela de seu livro Leviathan, em que ele descreve a vida natural como sendo “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. É quase isto, errou por pouco.

Para se informar mais:

https://youtu.be/A-jIUPEqYdw

http://gizmodo.uol.com.br/os-anjos-bons-da-nossa-natureza-steven-pinker-acredita-que-a-violencia-esta-diminuindo/

http://bigthink.com/daylight-atheism/book-review-the-better-angels-of-our-nature

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