ética, filosofia

Arte comercial: Eu sou a favor

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Antes de mais nada, um aviso de como pegar um falso cinéfilo: Pergunte a ele o que ele pensa sobre arte que é feita visando o lucro. Se o sujeito desconsiderar completamente esta forma de arte, e disser que filmes iranianos (ou brasileiros, ou qualquer nicho) é que são arte de verdade, enquanto filmes “hollywoodianos” são só comércio, por favor, não dê bola para o sujeito, é só um pós-modernista esnobe. A maioria das críticas que se ouve sobre englobar games ou séries de TV no conceito de arte também são neste sentido, não esclarecem nada sobre o conceito de arte, é apenas a velha ladainha anticapitalista dos pós-modernistas.

Não importa o que você, ou eu, ou a academia pensemos sobre o real significado de arte, ou se ela deve agradar ou não, aliás, eu duvido que você encontre duas pessoas com a mesma definição. O fato é que se a sua definição de arte descartar tudo que foi feito com fins lucrativos, o problema não é da indústria, é seu. Sim, porque você estaria desprezando até mesmo clássicos de todos os tempos como Laranja Mecânica, O Poderoso Chefão, e tantos outros.

Eu não penso que arte tenha que ser algo 100% independente, que para ser arte de verdade o artista tenha que estar se lixando para o público, e fazer algo tão incompreensível que só alguém com pós-doutorado possa compreender. Parece que, para certas pessoas, arte só pode dar dinheiro sem querer.

Meu caro, pegue uma bela produção de Hollywood, e ela irá tocar os seus sentimentos de diversas maneiras, você pode chorar, você pode ficar com raiva, medo, e se não lhe faltar o senso de empatia, pode sentir-se mal pelos personagens em suas dificuldade. Hollywood (e outros locais em que se produz cinema) está cheia de artistas talentosos que sabem contar uma boa história, rica em detalhes, intrincada, mas não incompreensível. A maioria dos filmes que vêm logo à cabeça quando se pensa em cinema comercial e arte comercial em geral, como Saga Crepúsculo, filmes da DC e Marvel e Transformes, são feitos para o público adolescente, que em média querem só besteirol mesmo. Felizmente o público do cinema não é apenas de adolescentes.

Mas não existe um único tipo de pessoa que vai ao cinema, que compra livros, ou que ouve música, e também não existe um só tipo de pessoa que compra games, de forma que o artista pode ser autêntico sem necessariamente agradar a todos. Pegue um filme recente como A Bruxa, que é bastante “parado” e veja o quão pouco em comum ele tem com outro sucesso recente, Deadpool além do fato de que alguém teve que convencer um estúdio a comprar a ideia, e conseguiu. Há muita variedade no cinema comercial. Não sei como um ramo de produção artística que permite expressão de tantas formas possa ser falso. Nos games também.  Esta mídia – que tem conseguido abarcar um público muito maior do que nos anos 90 – também está experimentando mais, vide o sucesso de jogos esquisitos no Steam e PSN, como Goat Simulator, sem falar dos mais jogos mais cabeça como a série Metal Gear Solid, com suas densas narrativas, e Silent Hill, cheios de simbologias.

Acho que o sucesso destas obras de arte é serem apreciáveis pelo grande público, mas ao mesmo tempo oferecerem algo mais para quem gosta de usar a cabeça. Você pode até ter saído do cinema após assistir Inception (A Origem) ou Interstelar sem entender muita coisa, mas você com certeza saiu com a sensação de ter visto um “filmão”. E como negar a genialidade dos filmes de Tarantino? Que são filmes relativamente fáceis. Ser incognoscível não é sinônimo de ser inteligente, ou mesmo de ser profundo. Os pós-modernos insistem em tratar o cinema comercial e arte comercial em geral como se fosse tudo a mesma coisa, que é mais ou menos como dizer que todo restaurante é fast-food.

Pior ainda é o que estes sujeitos, com os quais eu não simpatizo nem um pouco, sugerem como substituto para a arte comercial: A arte “engajada”, ou seja, o que os intelectuais politicamente corretos, em sua arrogância, acham que o público deveria assistir para ser educado, porque ele é burro demais para escolher o que é bom para si próprio, está apenas sendo enganado para pensar que quer aquilo, como ensinava Foulcault (mais ou menos). Quando você ouve falar de noções de “cidadania” em novelas da Globo (porque as pessoas são tão estúpidas que vão fazer tudo o que aparece na novela, alguns pensam), aí você vê como estes sujeitinho são preconceituosos, ainda que publicamente abominem o preconceito. Isso sim é uma arte escrava, a “arte politicamente correta cidadã” feita para realizar um plano de engenharia social.

Uma grande parte da arte feita com recursos públicos, incluindo aí peças de teatro e shows, não são feitas para o agrado do público, são feitas por intelectualoides pós-modernistas em suas torres de marfim, que passam o dia cogitando o que a massa deveria assistir para ser mais “consciente”, ou seja, para seguir sua agenda ideológica. Daí vemos o excesso de filmes e peças para retratar a miséria do povo, documentários sobre a cultura do grafite e etc. Sem falar da “sacanagem em nome da arte”: Apenas busque no Google pela peça “Macaquinhos” e você entenderá porque as pessoas ficaram nervosas ao saber que o dinheiro dos seus impostos estava financiando aquilo.

Falando em arte subversiva, ela sempre existiu e foi perfeitamente possível sem qualquer apoio governamental, como foi o caso dos romances do Marquês de Sade, ou, para usar um exemplo mais moderno, os filmes de John Waters como Pink Flamingos. Basta que não esteja sendo financiado publicamente que ninguém tem nada a ver com isso, problema é de quem compra o ingresso. Em lugar nenhum é preciso que o governo “fomente” a arte, ou ajude o público a consumir arte. Quando as pessoas querem, elas conseguem.

Seria sim muito bom se mais pessoas pudessem apreciar conteúdo mais inteligente, o que pode acontecer com a melhoria das condições de educação, algo que eu não sei se vai acontecer. Até lá, eu só posso ficar feliz por maravilhas como De Olhos Bem Fechados e Taxi Driver poderem ter sido comercialmente viáveis.

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