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Fosfoetanolamina, o Novo Óleo de Cobra

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Toda a comoção por conta desta droga experimental de nome difícil de falar é algo bem típico do Brasil e do brasileiro. Não a esperança por uma possível cura para uma terrível doença, mas a maneira como as pessoas se agarraram a esta esperança, e pressionaram o governo para que a droga fosse liberada antes de passar por todos os testes necessários, que, é claro, são meros detalhes, só uma chatice sem importância. Até agora, além de boatos de pessoas que já tomaram (sem as condições experimentais adequadas) só alguns resultados inconclusivos de testes em ratos, mas já se fala dela como se sua eficácia já houvesse sido comprovada acima de qualquer dúvida, e tanto barulho fizeram que conseguiram liberar a sua fabricação e venda. Típico de brasileiro. O problema não é a esperança, é a certeza. Nosso povo é pateticamente supersticioso e ignorante quanto à ciência. Aqui povo faz “cirurgia espiritual”, “passe”, faz promessa, e até mesmo a homeopatia, também conhecida como placebologia, é especialidade médica reconhecida. Pra alguém que acha que subir escada de igreja de joelho vai fazer com que uma certa entidade metafísica fique com pena e cure sua doença, tomar uma droga que não foi experimentada adequadamente é um pulo pequeno. Aliás, no Brasil tomar remédio é coisa feia, tabu. Povo prefere ficar com dor de cabeça do que tomar um Tylenol, e ainda fala com orgulho “não quero me entupir de remédios”, prefere ter insônia do que tomar um remédio para dormir. Tomar remédio pra depressão então, nem pensar, frescura, é só arrumar um hobby ou praticar exercício físico que passa. Foda-se a ciência, ciência é do mal, química é do mal. Fosfoetanolamina só caiu no gosto do brasileiro exatamente por não ter sua eficácia comprovada cientificamente, e ainda é propagada por seu criador de uma maneira profética completamente inadequada para um cientista sério. Curiosamente, existem outros medicamentos para tratamento do câncer sendo desenvolvidos no Brasil. Mas esses não tem graça e ninguém liga, afinal, nenhum dos pesquisadores envolvidos tem a habilidade midiática do pessoal da fosfoetanolamina, e não devem esperar nem um décimo do financiamento público.

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